Viajar para Saturno torna-se fácil, ouvindo a música dos Saturnia. Após um promissor álbum de estreia, Luís Simões e Francisco Rebelo refinaram o alcance destas “trips” que mergulham o espírito num oceano de sinestesias. Ainda que em “Kozmische (parts 1 e 2)”, a batida se esgite no psicadelismo de pacotilha dos Ozric Tentacles, desprende-se do álbum uma energia genuinamente indutora de estados alterados que vão da euforia de danças dervíxicas ao intimismo de secretas alucinações. “Hydrophonic Gardening” transporta ecos dos Pink Floyd, Klaus Schulze e Steve Hillage, mas filtrados por uma visão capaz de transmutar estas influências numa música personalizada. “Sunflower” lembra o misticismo dos Yatha Sidhra. “Lava” fará as delícias dos viciados na “new age” da Hearts of Space, bem como “Planetarium”, ideal para assistir à chegada de um ovni, como “the Way Home”, de Kevin Braheny. “Vimana” e “Omnia”, os mais tripantes frutos cósmicos desta jardinagem hidrofónica, disparam ao espaço, acolhendo Syd Barrett e as ondas aquáticas de “Meddle”. “Regulem os comandos para o coração do sol” volta a ser a palavra de ordem. Os Saturnia levam-nos lá.
06.02.1998
The SymphOnyx
Candelabros Para Uma Sinfonia Rock
Originários de Guimarães, The SymphOnyx são uma das poucas bandas portuguesas a abraçar a estética do rock-sinfónico dos anos 70. Das versões de Bach e Vivaldi, passaram naturalmente para composições originais que apresentam no seu disco de estreia, “Psico Fantasia”.
Versão portuguesa das bandas “neo prog” inglesas como Pendragon, IQ ou Twelfth Night ou continuadores, mais de 20 anos depois, dos pioneiros Tantra, os SymphOnyx têm como principal preocupação recuperar um dos capítulos perdidos e mais menosprezados dos anos 70. Para Paulo Magalhães, guitarra-ritmo dos SymphOnyx, a única preocupação é “juntar a música clássica, melodias clássicas, a um rock actual”.
nos espectáculos ao vivo, os seis elementos dos SymphOnyx, martinho (guitarra solo, voz(, Carlos (bateria, voz), Jorge (teclados), Mota (baixo), Paulo (guitarra ritmo) e Barros (voz), têm contado com a colaboração de dois violinistas (Samuel e Rui), um violoncelista (André) e Diana (voz). “Estamos a pensar, de futuro, utilizar ‘samplers’ para substituir os instrumentos clássicos”, diz o guitarrista, para quem as dificuldades de “juntar dez pessoas em palco é enorme”. Mas vão continuar a apostar num certo aparato cénico, na boa tradição de grupos como os Genesis ou, em Portugal, dos já citados Tantra, usando, nos espectáculos, “uma bailarina, roupas especiais e candelabros”. Tudo para criar “uma esfera ambiental diferente que traduza o espírito” deles: “Somos adeptos do sonho, da imaginação, do irreal.”
Dos anos 70, Paulo Magalhães guarda a recordação dos Queen e dos Police, a par, é claro, da audição intensiva de música clássica. Hoje assume-se, aliás como os restantes elementos da banda, como “fã” da clássica. “É assim que sentimos a música e é essa a nossa inspiração”, garante.
“Psico Fantasy”, em edição de autor de mil exemplares (“já há pelo menos uma editora portuguesa interessada em editar um álbum completo”), foi gravado em Agosto do ano passado e tem a forma de um mini compacto, onde estão incluídos os temas “Dream of the rainbow angels”, “Killing zone”, “Red moon” e “Letter to my love”, este último com a participação vocal da convidada Diana, a fazer lembrar Annie Haslam dos Renaissance. O primeiro destes temas faz parte do CD que acompanha a última edição da revista “Pró-Música”. Actualmente em digressão pelo país, os SymphOnyx passarão por Lisboa no final deste mês, em data e local a anunciar. Quem quiser acompanhar mais de perto a vida do grupo, ou mesmo adquirir “Psico Fantasia”, poderá fazê-lo através do endereço na Internet: www.cidadevirtual.pt/symphonyx.
Torna-se claro que uma faixa crescente de público jovem resolveu trocar a discoteca pelo quarto, a alienação das pernas pela alienação do cérebro, tomando a decisão de dar ouvidos aos pedidos insistentes dos seus pais e experimentar os “perigos” de uma música que os modernos remeteram, na generalidade, para a categoria dos abortos. Só que começar pelos “neo progs” é seguir o caminho errado.
Os “neo progs” limitaram-se a preencher o vácuo deixado entre os anos 70 e os 90, entre o desaparecimento dos dinossauros do progressivo original dos 70 e o espírito de abertura e condescendência dos 90. Com grupos como os Genesis, ELP e Yes, os mais ruminados pelos “neo progs”, reduzidos a cinzas ou caricaturas, estava aberto o caminho aos sucedâneos.
“Subterranea” nem é dos exemplares piores. Os IQ, detentores de uma já razoável discografia, até nem serão uma monstruosidade. A sua fixação nos Genesis não chega a ser ofensiva e a sua desmedida apetência pela grandiosidade alcança, inclusive, momentos de alguma diversão. Em solos que não envergonhariam Steve Hackett, vocalizações teatralizadas e incursões na música litúrgica. Os 20 minutos finais de “The narrow margin” é que poderão esgotar um bocadinho a paciência…