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Hector Zazou

LP

23 DE FEVEREIRO DE 1989
EXPRESSO

Hector Zazou

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Mais um excêntrico genial para acrescentar à lista. Desta vez vindo de França, o que é pouco usual. Hector Zazou de seu nome, o homem das orelhas descomunais (vide a foto junta ou a capa de «Reivax au Bongo»…), detentor, pois, de um excepcional ouvido para a música. Façamos, então, um breve resumo do percurso musical da orelha, perdão, do homem em causa. Logo nos primórdios, a assinatura de uma obra-prima, o clássico Barricades 3, gravado conjuntamente com outro francês bizarro, Joseph Racaille, sob a designação de ZNR. Joseph Racaille é um apaixonado pela música de Erik Satie, o que até seria bastante normal se fosse um pianista. Mas não é. É um soprador de cornetas, nomeadamente os saxofones e o clarinete. Por seu lado, o nosso génio Zazou é um ferrenho e tecnicamente perfeito manipulador da electrónica. Ambos partilham o gosto pelos arranjos mais que inusitados e um «approach» em relação aos respectivos instrumentos, perfeitamente desconcertante. Ao escutar este disco, não há barricada que nos valha, neste ataque em força da música mais estranha e exótica que se possa imaginar.

Os ZNR gravaram ainda, em álbum, um Traité de Mecanique Populaire. Nunca ouvi, mas pelo título deve ser mesmo um tratado. A partir daqui cada um seguiu o seu caminho. Deixemos Racaille para depois e acompanhemos o nosso amigo Heitor. «La Perversita» (que título!) é o outro álbum que desconheço de ouvido. Foi o primeiro que gravou a solo. Depois, mais três obras-primas de enfiada: «Noir et Blanc», o primeiro disco gravado em colaboração com o vocalista africano Bony Bikaye, contando, ainda, com a participação do grupo de música electrónica CY1. Síntese magistral deste último tipo de música com as sonoridades africanas. Deste disco foi retirada uma faixa com posterior edição em maxi, produzida por Adrian Sherwood. Depois foram dois álbuns gravados para a série de prestígio Made to Measure, o já citado «Reivax au Bongo» e «Géographies». O primeiro conta novamente com a activa colaboração de Bony Bikaye, em todo o lado A. Desta vez, a coisa soa como uma espécie de psicadelismo electrónico africano (ufa!). Só escutando se acredita. O outro lado é uma sequência de cânticos sintetizados; a voz feminina, puríssima, sobre ou misturada com uma electrónica grandiosa, à Klaus Schulze, se este tivesse conseguido dar o salto para uma estética dos anos 80, digo, 90! O outro álbum gravado para a Made to Measure, «Géographies» é o mais difícil e complexo de toda a discografia do músico. Soa aos clássicos eruditos (!). Música de câmara da selva amazónica? Paris, Europa ou outra galáxia qualquer? Indubitavelmente um dos discos mais controversos e originais da década.

Hector Zazou gravou, ainda, o mini «Mr. Manager», novamente de parceria com o seu amigo Bikaye; um exercício de Funky, género que não aprecio particularmente, mas do qual reconheço ser este um exemplo brilhante. Finalmente, o recentíssimo e mais acessível «Guilty», álbum em que Zazou e Bikaye se divertem e nos divertem, pondo-nos a dançar das mais variadas maneiras. Com «Guilty» Zazou veio dar ao mesmo lugar onde, por outras vias, vieram, também, desembocar os suíços Yello.

Resta, por último, acrescentar que toda a discografia mais recente deste músico tem sido regularmente importada pela discoteca Contraverso (passe a publicidade), isto para os interessados, é claro. E pronto, foi uma breve história de Hector Zazou, o homem cujo talento consegue ainda ser maior do que as orelhas.

reivaux

Reivax Au Bong, aqui (part 1) (part2)



Skeleton Crew: The Country Of Blinds

LP

2 DE FEVEREIRO DE 1989
33

SKELETON CREW
THE COUNTRY OF BLINDS
Recommended, imp. contraverso

Fred Frith está em todas. Presente em quase tudo o que de mais importante e original se vai fazendo em música por este mundo fora. Seria fastidioso enumerar todos os discos e projectos de que Frith fez, de algum modo, parte. Citemos apenas alguns dos mais importantes: Henry Cow, Art Bears, massacre, Etron Fou Leloubaln, duos com Chris Cutler ou Henry Kaiser, colaborações com Robert Wyatt, Brian Eno, um nunca mais acabar de ramificações por variadíssimos ramos da música actual. Uma coisa é certa: por onde passa deixa bem vincada a sua marca, seja como compositor, produtor ou simples intérprete. E claro que a par de toda esta actividade com outros músicos, Fred Frith conta já com uma impressionante discografia a solo, donde se destacam obras-primas como os álbuns «Gravity», «Speechless» ou o recente duplo «The Technology of Tears».
Os Skeleton Crew são um dos seus mais recentes projectos colectivos. Têm no activo dois álbuns: para além deste, a estreia com «Learn to Talk». Constituem o grupo, mestre Frith que toca neste disco guitarra, baixo, violino e bateria, para além de cantar, mais dois outros excepcionais músicos: Tom Cora, o Jimi Hendrix do violoncelo electrificado e Zeena Parkins na harpa, também electrificada. Cada um destes dois toca ainda mais alguns instrumentos, enfim, são só três mas parecem muito mais.
«The Country of Blinds» é mais radical que o seu antecessor «Learn to Talk», tanto ao nível dos textos como ao da música. Aqueles podem ser classificados como de intervencionistas, politicamente empenhados, no sentido mais nobre do termo. Denunciam, de um modo não panfletário, os pobres do poder nas sociedades pró-totalitárias em que vivemos. As nossas fraquezas também não são poupadas. «The Country of Blinds», «Man or Monkey», «Dead Sheep» e sobretudo «The Hand That Bites» são alguns títulos de faixas deveras elucidativos. Musicalmente os Skeleton Crew retêm do jazz e do rock o melhor de cada um. Do primeiro, a riqueza rítmica e a capacidade de improvisação; do segundo, uma energia enorme. Predominam as cordas, claro. É preciso não esquecer o facto de Fred Frith ser um dos mais geniais guitarristas da actualidade. Este disco demonstra-o à saciedade. Também Tom Cora e Zeena Parkins não deixam os seus créditos por mãos alheias, nos respectivos instrumentos principais, o violoncelo e a harpa. Há também canções, espalhadas ao longo deste álbum. Canções estranhas, amarguradas, com as vozes a gemerem ou a gritarem, por vezes à beira da histeria. Sons e palavras que nos arranham a consciência e nos arrancam do conforto e preguiça com que tantas contemporizamos, ao escutar discos que nos pedem muito mais. Habituámo-nos a encarar a audição de um disco como algo de passivo. Está mal. É necessário educar os ouvidos e o gosto, espicaçar a sensibilidade, arriscar novas experiências e sons desconhecidos. É preciso procurar a originalidade e a qualidade onde elas verdadeiramente estão. A inovação transcende sempre o tempo, quanto mais as modas!…
A música do país dos cegos acorda os sentidos e sacode a inteligência. Confunde e espanta. Atrai e repudia. Brinca connosco a sério. Muitos detestarão este disco, outros encontrarão nele o estímulo para o experimentar de novos percursos e novas músicas, menos populares, é certo, mas de certeza mais ricas e compensadoras.
Abram os olhos, apurem o ouvido! Em terra de cegos…

Estes e mais 25 álbuns em que entra Fred Frith, a partir daqui.