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Gabriel Yacoub – “Entrevista Com O Trovador Francês Gabriel Yacoub – Quatro De Honra”

pop rock >> quarta-feira >> 01.02.1995


Entrevista Com O Trovador Francês Gabriel Yacoub
Quatro De Honra


Fundou um dos grupos emblemáticos do movimento de recuperação folk nos anos 70 em França, os Malicorne. Enamorado pela tradição e pela tecnologia, Gabriel Yacoub editou no final do ano passado o seu quarto álbum a solo, “Quatre”, ainda sem distribuição em Portugal. No festival “Sons (da) Voz” vamos escutar a voz e a guitarra solitárias de Gabriel, o trovador.



Se os Malicorne eram a apoteose feérica de um som que elevava a tradição folk francesa à grandeza da música barroca, a carreira a solo de Gabriel Yacoub tem sido pelo contrário marcada pela descontinuidade. Em comum entre a simplicidade de “trad. Arr”, os exercícios “tecnopop” de “Elementary Level of Faith” e de novo a “folk” revista à luz do modernismo, de “Bel”, apenas a voz. Uma voz de tal forma envolvente que pode chegar aos extremos da intoxicação. “Quatre” equilibra tensões várias, À sombra do simbolismo e de uma certa indefinição. Yacoub enumerou para o PÚBLICO as suas razões.
PÚBLICO – Que motivos levaram à mudança radical da música dos Malicorne, da folk para a pop electrónica do seu último álbum, “Les Cathédrales de l’Industrie”?
GABRIEL YACOUB – Esse álbum dos Malicorne foi o primeiro onde os textos foram escritos por mim. Considero esta inovação, em comparação com as canções tradicionais que constituíam o reportório do grupo desde as origens, uma verdadeira revolução. Acrescente-se, de qualquer modo, que estava destinado a ser um álbum a solo meu, mas a editora, talvez por razões comerciais, decidiu que seria dos Malicorne. É preciso dizer que recorri às minhas amizades musicais óbvias, ou seja, os músicos do grupo.
P. – A tecnologia desempenha um papel importante na sua discografia a solo…
R. – Desde o início, com os Malicorne ou nas minhas produções a solo, estive sempre ao corrente das evoluções da tecnologia no domínio musical. Sinto-me feliz por viver numa época onde podemos ter acesso tanto às tecnologias de ponta como às sonoridades de uma infinidade de instrumentos provenientes de todas as regiões do globo e todas as épocas. Seria mau não aproveitar esta possibilidade. A um corredor pedestre não se amputa uma perna no início de uma corrida…
P. – Houve uma mudança radical de “Trad. Arr.” Para “Elementary Level of Faith (E.L.F.)” e deste para “Bel”. “Quatre” procura abrir novas vias para o que poderemos chamar “etnopop”. Onde se situa, afinal de contas, o essencial da sua música?
R. – Cada um desses álbuns segue a fantasia da minha inspiração no momento emq eu o fiz. “Trad. Arr.” Marcava o início da minha carreira a solo, em 1978, e nele procurei arranjos muito sóbrios e acústicos, por oposição ao meu trabalho nos Malicorne. “E.L.F.” é um álbum totalmente experimental no qual pretendi explorar as novas técnicas de samplagem. “Bel” representa um movimento em direcção aos meus amores de sempre: a sobriedade e os sons acústicos. “Quatre” faz o balanço de todas estas experiências e das viagens musicais do passado.
P. – Álbuns como “Almanach” e “L’Extraordinaire Tour de France d’Adélard Rousseau” revelam os seus conhecimentos sobre o esoterismo. De onde vem este interesse?
R. – O meu interesse pelas tradições e pelas obliquidades da música levaram-me naturalmente na direcção da cultura popular, com tudo o que ela comporta de símbolos, de superstições, de magia. Estes aspectos são indissociáveis da tradição e das suas riquezas, evidentes ou ocultas.
P. – “Quatre”, além de ser o seu quarto álbum a solo, remete para outro tipo de relações simbólicas. Além disso fez a separação das canções em quatro unidades temáticas…
R. – De facto diverti-me a estudar as relações simbólicas referentes ao número quatro. Primeiro, as canções encaixaram-se de forma natural nas quatro famílias dos elementos. Desenvolvi depois um outro tipo de reflexão, sobre os quatro capítulos dos Vedas [textos sagrados indianos]: “hinos”, “encantamentos”, “liturgia” e “especulações”, nos quais, de novo, as diferentes canções se inatalaram espontaneamente.
P. – Como se situa no actual panorama da folk francesa? Dentro ou fora dele?
R. – Não me situo em nenhum movimento musical actual em França. As minhas amizades e sensibilidade atraem-me naturalmente para o meio folk e tenho consciência do que lhe devo. Mas a minha curiosidade e as minhas ambições criativas empurram-me para outro lado. Parece claro que não faço música folk, mas, em compensação, espero que o amor e o respeito que sinto por esta música me ajudem a criar uma música nova, sustentada por uma herança de tamanha riqueza.
P. – Conhecemos um álbum da cantora norueguesa Marja Mattlar [já recenseado neste suplemento], no qual juntamente com Patrice Clementin, assina a produção. Tenciona reptir a experiência nesta área?
R. – Estou aberto a todas as experiências musicais que possam alimentar ou estimular a minha criatividade. O meu trabalho de produção para Marja Mattlar foi apaixonante. Patrice e eu, para além do exercício estético e puramente artístico, sentimos um enorme prazer, ao nível das emoções e da fantasia, em realizá-lo. Foi uma experiência rara mas que gostaria de repetir com outros artistas que aprecio.

NOTA: “Quatre”, embora sem atingir o nível de “Bel”, justifica a sua distribuição em Portugal. Se outras razões não houvesse, bastaria a presença no disco de três dos maiores gaiteiros actuais em França, Jean Blanchard, Eric Montbel (dos Lo Jai) e Jean-Pierre Rasle (dos Cock & Bull), e do mago da sanfona Gilles Chabenat. Ou da cantora canadiana Melaine Favennec, do tocador de saltério árabe Elie Achkar e do ex-Gryphon e elemento da última formação dos Malicorne, Brian Gulland. A editora é a Boucherie Productions, a mesma que reeditará em compacto, ao longo deste ano, os álbuns ainda não disponíveis neste formato dos Malicorne: “Le Bestiaire”, “L’Extraordinaire Tour de France…”, o registo ao vivo “Montrèal en Public” e “Balançoire en Feu”.

Open House – “Second Story”

pop rock >> quarta-feira >> 23.11.1994
world


Open House
Second Story
Green Linnet, distri. MC – Mundo da Canção



A primeira história chamava-se precisamente “Open House” e vinha creditada como um álbum a solo de Kevin Burke – título que agora serviu para designar o colectivo, algo que já acontecera, por exemplo, com os Altan e os La Lugh. Kevin Burke foi, como já devem saber, violinista dos míticos Bothy Band. Gravou a solo ou em parcerias alguns álbuns dedicados a este instrumento, para encontrar, por fim, o seu segundo, e grande, grupo nos Estados Unidos – onde reside há alguns anos – nestes mesmos Open House. O “swing” é medonho, a facilidade e velocidade de execução arrepiantes. Mas, quando é preciso, os Open House fazem uma pausa e mostram que são capazes de, a qualquer momento, nos fazer dar de caras com o inesperado. Já nem sequer falamos da originalidade de ter um tocador de harmónica, Mark Graham, que faz com este instrumento, num “jig” ou num “reel”, o mesmo que um violino ou uma senhora, Sandy Silva, que faz as percussões do grupo com os pés, entre o “toc-toc” do picapau e o estrondo do martelo-pilão. A surpresa chega com “Jackson and Jane”, uma vocalização “a capella” por Mark Graham ou com a pop zoológica – que até ficaria bem num “single” -, um pouco à maneira dos Four Men and a Dog, de Monkey with a typewriter”. Um “Merengue” bem batido pelos pés e pelas palmas é um autêntico Sandy “show” e a previsível incursão pela Bretanha, com o clarinete de Graham fazendo as vezes da bombarda, em “Bourrées de Berry”, quebram, pelo desvio de perspectiva, a rotina da vertente tradicional irlandesa. Ouça-se, em último lugar, “Flowers of the forest”, em ritmo de valsa, relembrando os “dias da rádio” (e, para quem os conhece, os Late Night Band, que não há meio de serem reeditados em compacto!), enquanto se sonha com o regresso da Primavera. (8)

The House Band – “Another Setting”

pop rock >> quarta-feira >> 23.11.1994
world


The House Band
Another Setting
Green Linnet, distri. MC – Mundo da Canção


Adeus Escócia. Até quando? Os House Band são o grupo folk da Escócia menos escocês. Tocam tudo e fazem-no geralmente bem. Mas depois dos muito bons “Word of Mouth” e o último “Stonetown”, a banda do ex-Battlefield Band Ged Foley, agora aumentada para quarteto com a inclusão do violinista, guitarrista e vocalista Roger Wilson, descarrilou. De tanto “fugirem” da Escócia, os House Band correm o risco de se darem melhor com os ares de paragens como o Leste da Europa ou a Bretanha. Em “Another Setting”, tudo corre da melhor forma naquilo que a banda tem de melhor, os instrumentos excêntricos, aqui bem representados pela abertura, com “Sadam’s reel” acoplado a um “Kulsko horo” búlgaro (o “horo” búlgaro é uma das especialidades da banda…) que, infelizmente, não tem sequência. Os temas vocalizados, em número excessivo, ao contrário do que costuma acontecer, não andam nem desandam, com particular agravo para as versões insípidas do clássico inglês “William Taylor” ou “The Setting”, de Ralph McTell. “Alice”, composta pelo neófito da banda, é surpreendentemente, entre todos os temas vocalizados, o único onde fulge uma emoção genuína. Um hornpipe inglês, um “hanter dro” bretão, um “jigjazz” sem a chama do jig nem a coragem do jazz, um tema extraído da fonte antiga “Dancing Master”, célebre recolha de John Playford, publicada no séc. XVII (que saudades de Ashley Hutchings com John Kirkpatrick, em “The Compleat Dancing Master”!), uma canção de Steve Tilston e música sul-africana para “tin whistle” e do pianista de jazz Abdullah Ibrahim (vulgo Dollar Brand) são interessantes apenas no papel. Que diabo aconteceu aos House Band? (6)