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Carlos Paredes – “Uma Guitarra Chamada Portugal” (artigo de opinião)

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domingo, 16 Fevereiro 2003


Uma guitarra chamada Portugal

Carlos Paredes faz hoje 78 anos. Graças a ele a guitarra ganhou um novo nome: Portugal. Durante um ano, o autor de “Verdes anos” será objeto de homenagem

Carlos Paredes, o mestre da guitarra portuguesa, nasceu em Coimbra a 16 de Fevereiro de 1925. Faz hoje 78 anos. Para comemorar o evento, a associação Movimentos Perpétuos fez coincidir a data com o início de um plano de actividades culturais que se estenderão ao longo do ano e das quais fazem parte espectáculos de música, cinema, exposições, edição de livros, catálogos e um álbum de BD e edição de um CD duplo e DVD.
Objectivo: “Tornar acessível toda a obra de Carlos Paredes” através da “investigação e recolha de materiais espalhados por várias instituições”, do “tratamento informático do seu espólio e restante informação” e da “criação e manutenção de um ‘site'”, entre outras iniciativas que pretendem ir além da simples homenagem.
Tudo começará hoje à noite em Coimbra, no Jardim Escola João de Deus, a primeira escola frequentada por Carlos Paredes, com um espectáculo onde estarão presentes Maria João e Mário Laginha, Ana Sadio e Jorge Gomes (guitarra portuguesa), acompanhados por André Moutinho (guitarra clássica), Marco Figueiredo (piano) e Ricardo Rocha (guitarra portuguesa). Em peças alusivas e dedicadas ao autor de “Espelho de Sons”.
Na agenda da associação Movimentos Perpétuos está a gravação de um CD e um DVD com o “making of” das diversas actividades programadas para o “ano de Paredes”. Por confirmar, está outro DVD com imagens do espectáculo “Carlos Paredes – Uma Guitarra Portuguesa”, realizado por Paredes e convidados no Teatro São Luiz, em Lisboa, em 1992. Também em preparação está a edição de um álbum de BD alusiva ao mestre coimbrão, por dois músicos ligados ao rock nacional: Manuel Cruz, dos Ornatos Violetas, e Adolfo Luxúria Canibal, cérebro e voz dos Mão Morta.
Entre as diversas personalidades que já aderiram a esta iniciativa estão dezenas de nomes da cultura portuguesa: çlvaro Siza (arquitecto), João Abel Manta, João Cutileiro, José Manuel Rodrigues, Lagoa Henriques, Noé Sendas e Sérgio Pereira da Silva (artistas plásticos), Carlos Avilez, Eduardo Prado Coelho, Francisco José Viegas, Jacinto Lucas Pires, Joaquim Benite, Jorge Silva Melo, José Luís Peixoto, Lídia Jorge, Manuel Alegre, Mário de Carvalho, Pedro Tamen e Urbano Tavares Rodrigues (escritores e jornalistas), Edgar Pêra, João Nuno Pinto e Pedro Sena Nunes (realizadores), António Pinho Vargas, Carlos Bica, Gabriel Gomes, Bullet, Gaiteiros de Lisboa, José Eduardo Rocha, Maria João e Mário Laginha, Mísia, Ricardo Rocha, Sam the Kid (músicos) e Daniel Lima, João Fazenda e Luís Afonso (autores de banda desenhada), entre outros.

Invenções livres
Das lições de violino e piano com que se iniciou, em criança, na aprendizagem da música, Carlos Paredes transitou para as cordas dedilhadas, dando espaço a uma paixão que jamais deixaria de o consumir: a guitarra portuguesa. Com o pai, Artur Paredes, aprendeu o estilo coimbrão e a raça desse instrumento surgido em Inglaterra mas tornado português por empatia. “O guitarrista tem de integrar a guitarra em si mesmo, tornando-a a sua voz… Foi com o meu pai que aprendi a tirar da guitarra sons mais violentos, como reacção ao pieguismo a que geralmente a guitarra portuguesa estava ligada”, disse o mestre. Quem teve a felicidade de assistir aos seus espectáculos, lembrar-se-á, estarrecido, da forma como o homem se dobrava, num abraço sem remédio, sobre a guitarra, formando um único corpo. Integrar a guitarra em si mesmo. Eram, de facto, um só. Carlos Paredes deu à guitarra uma voz própria. O avô ensinara-lhe a “colocar os dedos”. O resto, “como não há nada, é inventado pelo guitarrista”.
Durante anos, Paredes deu corpo a algo de que andávamos e andamos esquecidos: a arte de ser português. Uma natural modéstia e a indiferença generalizada das instituições têm impedido uma maior projecção da sua música no estrangeiro. Carlos Paredes, para quem “as coisas nunca têm uma importância de maior”, eterno exilado de si próprio, afirmou certo dia que das suas mãos nunca poderia “sair nada de muito importante”. As instâncias oficiais, atentas como sempre, quando lhes convém, a inconfidências deste tipo, têm-no levado à letra. Maquiavel não teria feito melhor.
Influenciado pela música de câmara da Renascença e pelo fado de Coimbra, Carlos Paredes, “músico popular urbano” como a si próprio se define, desenvolveu ao longo dos anos um estilo pessoal que, com base na tradição e apoiado no vigor de execução, ascendeu a uma portugalidade de que Amália foi a diva incontestada. Amália e Paredes, por ironia do destino, nunca tocaram em conjunto. Mas o contrabaixista de jazz Charlie Haden foi sensível à força e à capacidade de improvisação do guitarrista. Tocaram e trocaram sons e ideias no Hot Club de Lisboa, onde actuaram juntos a 27 de Setembro de 1978. Desse diálogo ficou para a posteridade o álbum “Dialogues” (1990), um disco editado internacionalmente no selo Elektra Nonesuch, dos mais prestigiados da música contemporânea actual.
Da discografia de Carlos Paredes constam as seguintes obras, todas em formato de LP e, posteriormente, transferidos para o digital: “Guitarra Portuguesa” (1967) “Movimento Perpétuo” (1971), “Concerto em Frankfurt” (1983), “Invenções Livres” (com António Vitorino de Almeida, 1986) e “Espelho de Sons” (1988). “Asas sobre o Mundo”, editado em 1989, inclui temas de “Guitarra Portuguesa” e “Concerto em Frankfurt”. Existem ainda “Carlos Paredes/Artur Paredes” e “Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes” bem como uma colecção de EP editados ao longo das décadas de 60 e 70, entre os quais o mítico “Verdes Anos”, com data de lançamento de 1963. Em 1996, e aproveitando o título de um documentário realizado em 1969 por Augusto Cabrita, para o qual compôs a banda sonora, foi editado “Na Corrente”, compilação de material inédito gravado em 1969, 1971 e 1973 e, dois anos mais tarde, a antologia “O Melhor de Carlos Paredes”. “Canção para Titi” sai em 2000, com material gravado em 1993 no qual são já visíveis os efeitos da doença.

Danças
Carlos Paredes é ainda autor das bandas sonoras dos filmes de Paulo Rocha, “Verdes Anos”, imortalizado pela genial composição com o mesmo nome, e “Mudar de Vida”. Mais recentemente, trabalhou com Manoel de Oliveira e José Fonseca e Costa. Colaborou com o Grupo de Teatro de Campolide e com o Teatro Nacional D. Maria II. Dos seus trabalhos destaca-se ainda a partitura para uma coreografia de Vasco Wellenkamp para o Ballet Gulbenkian – “Danças para uma Guitarra” (1982).
Alain Jomy, autor da música dos filmes “O Lugar do Morto” e “Aqui d’El Rey” de António-Pedro Vasconcelos, realizou o documentário “Pour Don Carlos” centrado na relação da música de Paredes com a cidade de Lisboa. Em 1991, o guitarrista tocou ao vivo na Aula Magna ao lado dos Madredeus e, no ano seguinte, o espectáculo “Carlos Paredes – Uma Guitarra Portuguesa” contou com as presenças de Fernando Alvim (seu companheiro de armas de longa data), Rui Veloso, Mário Laginha, Natália Casanova, Manuel Paulo, Paulo Curado e Luísa Amaro, sua companheira há muitos anos.
Em 1993, foi-lhe diagnosticada uma doença do foro neurológico que progressivamente o afastou da guitarra e lhe tolheu os movimentos. Carlos Paredes vive actualmente numa casa de saúde em Lisboa.
“Para defender um instrumento, a única forma possível é criar uma escola. Se as pessoas souberem utilizá-lo convenientemente, guardam-no. Caso contrário, esquecem-no.” A frase, do próprio Paredes, aplica-se, por estranho que pareça, à sua própria vida. Mas ainda vamos a tempo de dizer que não o esquecemos. Parabéns, Carlos Paredes.


C o m C a r l o s P a r e d e s

José Eduardo Rocha, Sam the Kid, Gabriel Gomes e os Gaiteiros de Lisboa são alguns dos músicos que se associaram à iniciativa promovida pela associação Movimentos Perpétuos, compondo uma peça inspirada na música de Carlos Paredes

Paredes letra a letra
“O Carlos Paredes é como o Zeca Afonso. Para mim é música clássica. Compus uma peça intitulada ‘Prelúdios e Fugas sobre o Nome de Carlos Paredes’. Para dois violinos Chicco, harpa e pequeno gamelão. A peça, não pretendendo ser um retrato musical, é uma homenagem, uma evocação musical por dentro. Peguei no nome dele e criei uma série de notas segundo a notação anglosaxónica e grega. Uma nota para cada uma das letras constituintes do nome de Carlos Paredes, segundo uma prática tradicional e secreta na história da música. Tem uma certa atmosfera, nomeadamente os sons metálicos do pequeno gamelão que talvez evoquem o som metálico da guitarra. O uso da harpa também vai nesse sentido, na utilização de certas técnicas de corda dedilhada.
JOSÉ EDUARDO ROCHA
COMPOSITOR E DIRETOR MUSICAL DO AGRUPAMENTO ENSEMBLE JER

Paredes hip-hop
“Sou um rapaz ainda muito novo e não conheço em profundidade o trabalho do Carlos Paredes. Apenas tinha comigo duas coletâneas. Não é um artista fácil de samplar, porque não tem um compasso certo, que entre no hip-hop. Já compus a peça mas foi muito difícil. Não fui muito fiel ao trabalho dele. Segui o “chop style”, que consiste em separar e cortar as notas todas para depois eu próprio as tocar e inserir num compasso hip-hop. Samplei uma música que usa também um piano, com o António Vitorino d’Almeida, chamada “Improviso”. Facilitou-me um bocadinho mais… Inclusive, fiz uma coisa que não sei se me vão permitir: pus umas vozes do Carlos do Carmo por cima. Ficou bem. Agora não sei se em termos legais me vão deixar…”
SAM THE KID
MÚSICO DE HIP-HOP

Paredes com acordeão
“A música do Paredes é uma autêntica ebulição. Um balanço que me leva sempre numas grandes ondas. É um intérprete sublime e, na composição, todos os acordes que faz são uma referência para mim. Estou a agarrar num disco dele e a tirar partes de algumas músicas para, sobre essa base, tocar acordeão. Digamos que é uma conversa entre Carlos Paredes e eu. Vou fazer uma música de Paredes a partir de uma combinação de várias partes que, juntas, criam outro ambiente. O que pretendo fazer com esta faixa é que alguns elementos que identificamos de uma música e outros de outra, numa sequência diferente, ganhem um sentido novo.”
GABRIEL GOMES
EX-SÉTIMA LEGIÃO E MENTOR DO PROJECTO “OS POETAS”

Paredes como Bach
“É curioso. Normalmente nunca se pensa muito sobre a música dele. Está ali, existe, é um dado cultural nacional. Passados estes anos todos, no outro dia fui “obrigado” a ouvir de novo e pela primeira vez percebi, conscientemente, que o homem é um génio. Em termos absolutos comparável a qualquer Bach ou a qualquer Mozart. Basta ouvi-lo com ouvidos de ouvir. É impressionante. Mas só agora tive esta noção. É como passar todos os dias por um monumento que se sabe que é giro e está ali e um dia olharmos mesmo para ele e descobrirmos que é muito mais do que aquilo que vimos durante toda a vida. Estamos a compor um tema inspirado no “Movimento perpétuo”, com um arranjo à nossa maneira. Mas a coisa ainda está muito no princípio. Para já temos que esperar que o José Salgueiro aprenda a tocar aquilo no xilofone.”
CARLOS GUERREIRO
ELEMENTO DOS GAITEIROS DE LISBOA



Adiafa – “O Alentejo Tem Ritmo” (entrevista)

(público >> cultura >> portugueses >> entrevistas)
domingo, 26 Janeiro 2003

“O Alentejo tem ritmo”

Têm o “cante” na voz e na alma
mas não descuram a irreverência.
Ao vivo põem as pessoas a rir.
À noite, a sua música é para se
dançar ao lado de Shakira
ou das Las Ketchup. As novas
“adiafas” fazem-se nas discotecas


Os Adiafa: “Sempre cantámos à alentejana. É inato. Está-nos na alma”


PÚBLICO — Como apareceram os Adiafa e o álbum de estreia?
ADIAFA — A ideia é do Emídio Palma e do Paulo Colaço que há uns anos começaram a pensar na música da nossa terra e de uma maneira nova de a apresentar. O grupo nasceu há três anos. Fruto da necessidade de termos um cartão-de-visita. Fomos nós que custeámos tudo.
Mas depois de uma primeira edição caseira, o CD vai ter lançamento oficial da Sony…
Sim, mas o processo desencadeou-se todo no Alentejo. Foi no Alentejo que começámos a ter sucesso. O disco passa nas discotecas, nas rádios locais… Só a partir daí é que a editora veio ter connosco.
“Adiafa” significa apenas “banquete” ou algo mais?
Também é “festa”. No Alentejo, antigamente, o trabalho agrícola era todo feito por pessoas. Não havia máquinas. Vinham do Algarve, das Beiras, do Norte, inclusive de Espanha. No final desse trabalho, o senhor dono das terras dava uma festa. Comia-se, bebia-se, dançavase e cantava-se. Era a “adiafa”, uma palavra de origem árabe.
Por norma as pessoas associam a música alentejana ao “cante” e aos grupos corais. Provavelmente, não há mais nenhuma formação como a vossa…
Não quisemos abandonar o “cante” mas recuperar o tempo perdido. Fez-se a promoção do “cante” mas não por opção do Alentejo, na época das recolhas. Houve coisas proibidas e outras não. A viola campaniça, por exemplo, que é o que nos liga mais à tradição, foi deixada ao esquecimento. A história tem destas coisas tristes… Nós somos o futuro.
Viola campaniça que esteve em risco de extinção. A situação continua a ser grave?
Menos do que era. Há já alguns jovens a construir e a tocar. A nossa foi construída por um rapaz de 25 anos, o Pedro Mestre. E bom tocador… A viola campaniça representa, no aspecto rítmico, a nossa ligação ao mundo árabe. No “cante” a ênfase é posta na riqueza harmónica e melódica. A verdade é que havia bailes nas aldeias todas as semanas e as pessoas não dançavam modas lentas mas coisas rítmicas. O Alentejo tem ritmo.
Fizeram recolhas?
Não andámos de gravador ao ombro. Ouvimos, fomos a “adiafas”, que ainda se realizam. Vimos velhotes, um trio de violas campaniças, tocar e cantar. Também tirámos dos discos. Mas o tema mais conhecido, “As meninas da Ribeira do Sado” aprendêmo-lo por via da tradição oral.
Mas não se considerem puristas, o que nos leva à “remix” de música de dança de “As meninas da Ribeira do Sado”…
Somos puristas na maneira de cantar quando estamos num grupo de cantares alentejanos. Se se reparar, a traça da nossa música continua a ser a do “cante”. Damos-lhe é uma roupagem diferente… O Fernando Lopes-Graça escreveu um livro chamado “Problemas da Música Portuguesa”. Uma das coisas que ele dizia era precisamente que nas recolhas a que teve acesso se percebe que o povo não está estático, as pessoas evoluem. Por exemplo, há uma moda da Dulce Pontes com um grupo coral que ninguém conhecia e que hoje se canta nas tabernas.
Sim, mas a “remix”…
Foi ideia do Paulo. Fazer uma moda alentejana ser dançada nas discotecas. Antigamente dançavam-se nos bailaricos. Hoje as “adiafas” são feitas nas discotecas. Passam “As meninas da Ribeira do Sado” ao lado da Shakira e das Las Ketchup.
Todas as pessoas reagiram bem à vossa música?
Havia um bocado a ideia de que o “cante” tem que ser sempre lento, pouco apelativo à vista. Nós, nos espectáculos ao vivo, que é o nosso forte, somos extraordinariamente bem dispostos, brincamos uns com os outros e com o público. Contamos histórias, anedotas, pomos as pessoas a rir.
Além de música alentejana o que é que ouvem em casa?
Cada um de nós tem gostos diferentes. Herbie Hancock, Joe Zawinul, Wes Montgomery, “blues”, música de dança… Antes dos Adiafa tocávamos jazz mas as pessoas não queriam saber disso. Aplicamos os nossos gostos e os nossos conhecimentos técnicos à música alentejana. Sempre cantámos à alentejana. É inato. Está-nos na alma.
Fazem parte da mesma linhagem do Vitorino ou do Janita Salomé? Ou representam uma ruptura?
Ruptura nunca. Embora o Vitorino cante com cubanos, é uma opção dele… A verdade é que quando ele nos ouviu pela primeira vez, ainda não éramos conhecidos, torceu um bocado o nariz. Mas no outro dia, ouviu-nos cantar “à alentejana”, seis ou sete modas, veio ter connosco a pedir para cantarmos mais. Convidou-nos para participar no próximo disco.
Existe mesmo uma pop alentejana?
Além de nós, há o Paulo Ribeiro, o fadista António Zambujo, o Francisco Sobral, fizeram os dois parte do musical “Amália”, todos de Beja, todos da mesma geração. Não sei se será coincidência. É como se estivesse algo a cozinhar e de repente se decidisse deixar de ser politicamente correto.



Argentina Santos – Prata da Casa (Entrevista)

25.04.2003

Argentina Santos – Prata da Casa

Aos 77 anos, Argentina Santos continua a incluir o fado na ementa da sua alma e do seu restaurante. Ainda arranjou tempo para gravar um novo álbum.

“Não tenhas medo da fama/D’Alfama mal afamada/Que a fama às vezes difama/Gente boa, gente honrada”. A quadra, escrita num azulejo incrustado na parede logo à entrada do “Parreirinha”, quase se poderia aplicar ao modo como Argentina Santos, voz e nome de prata, optou por gerir uma carreira que só recentemente, quando, em 1994, Carlos do Carmo a convidou para estar presente num espectáculo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, começou de facto a acontecer. Dona Argentina preferiu dedicar-se por inteiro à sua casa e aos seus petiscos. O fado e a culinária estão-lhe no sangue e encara as duas como arte. Nenhuma delas mais valiosa do que a outra.
À hora de jantar, o Parreirinha enche-se lentamente de turistas. Argentina Santos está sentada, como sempre, à entrada, fazendo de anfitriã. Neste dia decide não cantar. Há ocasiões assim, em que o ambiente não se proporciona. É necessário que as pessoas estejam ali não só para ouvir cantar o fado mas que sejam capazes de o sentir da maneira mais profunda. Em vez dela, os estrangeiros podem ouvir Tina Santos. Aplaudem na mesma, à média luz, cumprindo o ritual. Argentina olha embevecida. A fadista que canta, as empregadas que servem à mesa, as cozinheiras fazem todas parte da sua família. Sente-se bem assim. Os espectáculos, como aqueles que deu no festival de Edinburgo, no Queen Elizabeth Hall em Londres, no Konzerthaus em Viena, no La Cité de la Musique, em Paris, numa digressão por Itália ou no Coliseu de Lisboa, e os discos, como o novo “Argentina Santos”, lançado na passada quarta-feira pela MVM, podem esperar. Afinal de contas não há fado melhor do que ser feliz.

FM – O novo disco demorou quanto tempo a gravar?

Argentina Santos – Poucochinho.Eu chegava e todos os fados saíram à primeira. Só num é que o Jorge Fernando me pediu para lá ir outra vez mudar uma coisinha. Mas nunca canto o mesmo fado da mesma maneira. Quando havia uma falha qualquer, ele pedia-me para gravar só aquele bocadinho. Não ensaiámos nem nada. Tenho aí fados que nunca antes cantei.

FM – Consegue cantar tão à vontade no estúdio como no Parreirinha?

Argentina Santos – Não é a mesma coisa mas, olhe, senti-me bem. Cantei os fados com menos meio tom, tinha a impressão de que não era capaz, mas ele achava que ficava mais bonito assim. Quando ouvi achei uma maravilha. Desde que a pessoa que está a tocar, toque, e eu comece a vê-lo sentir o fado… Ao ouvir um guitarrista, fico logo a conhecer a forma como reage, se gosta de acompanhar, se é fadista. Se o guitarrista não for fadista, a gente pode dar as voltas que quiser, que não vai lá…

FM – Preferiu manter-se fiel ao seu restaurante do que arriscar uma carreira como profissional. Porquê?

Argentina Santos – Tenho a minha casa. Estou cá há 54 anos, foi feita com sacrifício. É como ter uma filha e criá-la. Depois, nunca fui pessoa para andar por aí a dizer “eu estou aqui, também sei cantar…”. Mas quando vim para aqui o meu companheiro, para me deixar cantar, era um caso sério, sabe, aquelas coisas dos homens antigos… Morreu, voltei a casar, mas ainda ficou pior, então cantar lá fora, fazer espectáculos e ganhar dinheiro, escusava de pensar nisso. Mas morreu também e fiquei… solta, com mais oportunidades de cantar para as pessoas e elas de me ouvir. Aó, o Carlos do Carmo, uma pessoa que gostava de me ouvir, veio ter comigo e convidou-me para ir ao Coliseu. Mas fiquei assim, “vais não vais”, a tremer por todos os cantos, e acabei por dizer que sim.

FM – Quantas vezes canta por semana no restaurante?

Argentina Santos – Só quando vejo que há público que sabe. Quando vejo que não sentem, posso cantar dois ou três fados e muito obrigado, que vá cantar outra pessoa! Não canto marchas nem coisas com palmilhas, não é o meu género.

FM – Os restaurantes e casas de fado continuam a ser os melhores locais para se cantar o fado?

Argentina Santos – Acho que sim. Quem não entrar e cantar nas casas de fado não terá um público que saiba ouvir. E não me venham cá com essa coisa do fado vadio, o que eu chamo fado vadio é fado espontâneo, pessoas para quem cantar é um alívio. Acho que os novos devem começar por cantar nas casas de fado.

FM – Está a pensar na actual vaga de novas fadistas? Tem alguma preferida?

Argentina Santos – Sou amiga de todas elas, já cantei com todas, já fui ao estrangeiro com elas. Gosto de todas mas, e que me perdoem as outras, gosto mais da Ana Sofia Varela, é a mais fadista. Gosto muito da Mariza e da Mafalda [Arnauth], também, mas puxo mais para a Sofia. A Joaninha [Amendoeira] é uma menina doce que está a cantar melhor do que da primeira vez em que a ouvi, tem uma doçura e uma meiguice…

FM – Para se cantar bem o fado é preciso ter já experiência de vida, mais ou menos sofrida?

Argentina Santos – Sim, sim! Não concordo que um menino ou uma menina de 12 anos ande a cantar o “Povo que lavas no rio” ou “Passaste com ela à minha rua”, são coisas para pessoas adultas, não para crianças. Elas têm muito tempo para sofrer. Há quem cante o “Povo que lavas no rio” porque já sabe que vai receber aplausos, só que 50 por cento desses aplausos são pela D. Amália. Depois da morte da D. Amália pôs-se toda a gente a cantar coisas dela. Acho uma asneira. Um artista, ao fazer do fado profissão, deve procurar os poetas, aprender as letras e cantar dentro do seu estilo, não é pôr um disco a rodar e tirar dele todas as voltinhas. Para se ser fadista tem que se ter trabalho.

FM – Como Amália Rodrigues, tenciona cantar até que a voz lhe doa?

Argentina Santos – Tenho muita pena de estar a envelhecer e ter que deixar de cantar. Mas se continuar a ouvir cantar bom fado já fico muito contente. A D. Amália, o maior problema que teve nos últimos anos não foi a idade, foi a doença que lhe atacou a garganta. Mas ainda está por aparecer aquela que seja capaz de fazer o que ela fez. Além da voz linda, “estilou” coisas que hoje, quando a querem imitar, não estão a estilar, estão a gritar.

FM – No seu caso, uma das coisas que mais impressiona, é quando sobe aos agudos e parece voar como um pássaro…

Argentina Santos – E às vezes não vou mais além para não exagerar. Mas isso, graças a Deus, ainda consigo fazer.

FM – Sai-lhe sempre bem?

Argentina Santos – Não. Às vezes estou ali no meio da casa e digo assim: “só mais um fado que isto hoje nem a Amália! Desculpem mas isto hoje não está a sair como eu quero”. Não estou a sentir e ninguém me convence. Mas também é preciso ver que muitas vezes, nas casas ou nas festas, canta-se apenas um ou dois fados. Eu não, têm que me deixar cantar. Por vezes o primeiro fado não nos sai bem, a voz nem tempo tem para aquecer, depois no segundo já está melhor e é quando tem que se parar!

FM – Já deixou de participar em espectáculos por causa das suas obrigações no restaurante?

Argentina Santos – Às vezes, em ocasiões em que há muito que fazer. Mas quando vou cantar lá fora deixo tudo bem orientado, tenho empregadas já com 40 anos de casa. Mas não recomendo nada a ninguém, cada um sabe aquilo que tem a fazer.

FM – Ainda cozinha?

Argentina Santos – Quando os clientes me pedem, eu é que vou fazer o comer. Mas tive que deixar um bocadinho a cozinha por ter sido operada e já me custa estar muito tempo à frente do fogão.

FM – Cozinhar é uma arte?

Argentina Santos – Eu gosto tanto de fazer comer como de cantar. É igualzinho. Adoro estar aqui em casa e ouvir o cliente dizer-me que está bom. E tanto improviso no comer como no fado.

FM – Mas aí não tem ninguém a acompanhá-la à guitarra…

Argentina Santos – Quando muito posso pedir para me descascarem umas cebolas ou uns alhos mas o resto, quando me ponho em frente do fogão, é comigo. E posso garantir que aquilo que faço se pode comer (risos). Fazer o comer é uma coisa rica, um acto de amor.