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Guilherme Inês – Entrevista

Pop Rock

7 de Dezembro de 1994
EM PÚBLICO

GUILHERME INÊS *


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O seu percurso musical começa pelos grupos pop, prolonga-se pelas sessões de estúdio e culmina na produção.
A partir do momento em que um gajo começa a fazer estúdio, o meu interesse passou de um instrumento para a possibilidade de poder ter uma visão mais global e aberta do universo das gravações. A mudança teve início na gravação de “Se Cá Nevasse”, dos Salada de Frutas. A partir daí passei a entrar mais na área da produção. No segundo disco da banda, “Crime Perfeito”, entrei um bocadinho ainda mais. Mas continuo a ser músico, a tocar bateria, guitarra, piano. No último disco da Dulce, tocámos praticamente os instrumentos todos.

Enquanto músico e produtor, quais são as suas preferências?
O meu “background” tem duas vertentes: a música popular portuguesa e o rock, com letra maiúscula. Hoje em dia o que eu gosto de ouvir está um bocado ligado às músicas alternativas e aquilo a que se poderá chamar “world music”. Coisas que até há pouco tempo nem sabia que existiam, música dos pigmeus do Gabão, um basco chamado Tomás San Miguel, um tipo vai chegando à conclusão que neste momento há um planeta, uma série de pessoal que aparentemente não está relacionado com nada mas está no mesmo comprimento de onda, a fazer trabalhos de fusão de culturas. Quando se procura as próprias raízes, vai-se encontrar as raízes dos outros. Quanto mais fundo se vai, mais para cima se vai. Chegando ao Peter Gabriel, para mim o fulano que faz música mais consensual.

Transpõe esses gostos para o trabalho de produção ou aceita todas as solicitações de trabalho, pondo de lado essas mesmas preferências?
No esquema de produção mais recente, apenas produzi o disco da Dulce Pontes, “Lágrimas”. A minha outra área de trabalho é a publicidade. No caso da Dulce, houve à partida uma grande identificação entre os dois, para onde é que queríamos ir. Á partida, quando um artista escolhe um produtor, fá-lo porque reconhece no trabalho dele qualquer coisa que lhe diz respeito.

Além de Dulce Pontes, também já produziu um disco da Dora. Para qeum diz situar-se perto das músicas alternativas não acha um paradoxo?
Mas também fiz um trabalho com a Lena d’Água, sobre temas do António Variações, um disco que passou completamente ao lado das pessoas mas onde já havia um desvio para essa área. E quando digo músicas alternativas não estou a dizer que elas não sejam comerciais. O que decididamente não me interessa são coisas como a “house”, a música de dança ou, na generalidade, a dos tops. Não a ouço, não tenho discos, não me interessam enquanto área de trabalho. Interessa-me cada vez mais uma área onde possa pesquisar, fazer coisas que ainda não fiz. Por outro lado, tenho neste momento um projecto para um disco a solo, algo que tenho na cabeça há dez anos, sobretudo desde que andei um ano e meio em digressão com José Afonso, uma pessoa para mim decisiva em termos de influência.

Como se processa o seu trabalho enquanto compositor e produtor de “jingles” publicitários?
Tenho a sorte de estar em estúdio consecutivamente. Neste momento e de há dez anos para cá, todos os dias estou em estúdio. Isto permite-me ir burilando o meu próprio trabalho. Vou ouvindo muita asneira que faço. É uma escola de disciplina e de despojamento muito boa, porque de facto aquilo que vai numa peça publicitária de 30 segundos é o estritamente necessário. Nada a mais nem a menos. Ali não há espaço nem tempo a perder. Desenvolve-se um poder se síntese – que remédio! – e de análise grandes. E um poder de microscopia. Divide-se o segundo em 25 partes e cada uma delas é crucial. O cérebro tem uma capacidade limitada de assimilar informação, não se pode sobrecarregá-lo. Por exemplo, num filme publicitário, não pode haver excesso de informação, sob pena que a mensagem não passe. Outra coisa importante nesta área é o sentido de se trabalhar numa equipa, desde os fulanos da agência que concebem a campanha até ao texto, à música e á parte gráfica. Toda a gente trabalha para uma finalidade.

Não existe o perigo de o artista se transformar num simples técnico?
Esse risco existe. Há vezes em que tenho liberdade de criação quase total e outras em que há grandes restrições. Aí vem o factor disciplina ao de cima. Quando se está numa situação de total liberdade, vamos imaginar um halterofilista que treina com pesos de 40 quilos e de repente lhe atiram com um cinzeiro que pesa 200 gramas. Para o segurar nas mãos, veja lá a agilidade que ele tem! É um pouco isto. É um pouco como potenciar toda a energia que está acumulada.

Em estúdio e enquanto produtor, já lhe aconteceu entrar em conflito com os músicos? De que maneira lida com essas situações?
Lido mal. Para já não gosto de conflitos. Se calhar é por ser um bocado preguiçoso. Geralmente prefiro ceder. Depois, há artistas que são improduzíveis, conheço dois, que se produzem a si próprios. Não vale a pena tentar o nosso contributo. Esses artistas não deviam contratar produtores. O produtor para eles é uma estátua que está ali para pôr o nome no disco: “Produzido por”. Ora eu quando ponho “produzido por”, gosto de sentir e ouvir que está lá alguma coisa minha. Que há uma responsabilidade minha. Se for mau, é mau; se for bom, é bom. Eu sou o trabalho que faço. Por exemplo, no disco da Dulce, ouço-me lá. Sou uma pessoa com grande tendência para a nostalgia. Não para a tristeza. Nem é saudosismo mas uma certa nostalgia que me liga a coisas como o amanhecer num rio, como o Zêzere, o cheiro dos eucaliptos.

Referiu há pouco que está quase permanentemente em estúdio. Não sente necessidade do silêncio? De parar?
Sim. Então quando chega o Verão!… Todos os anos, felizmente, há períodos de paragem. Quando eu digo não parar, é sobretudo mentalmente, não ficar desligado. Embora haja alturas em que tenho que desligar e pôr uma folha em branco à frente. Comer um marisco, olhar para o mar, nadar… Costumo fazer isto quando vou para Ferreira do Zêzere. Vou limpando as baterias.

O termo “new age” diz-lhe alguma coisa?
Diz. Englobo a “new age” na “world music”, embora num outro plano, mais sensorial e impressionista.

Diga o nome de produtores que considere revolucionários.
Brian Eno… na criação de sinergias entre a pessoa e o que ela está a fazer. Umas vezes é a pessoa que puxa a criatividade, noutras é aquilo que se faz que puxa a pessoa. É esse o sentido do erro e do aproveitamento desse erro. Ir atrás do erro e interagir com ele. Malcolm McLaren não me diz grande coisa. Phil Spector, um galo que criou um som. Há coisas que mal se ouvem e vê-se logo que é Phil Spector. O “wall of sound” e aquelas cenas todas. George Martin, com os Beatles. Grande profissional, ainda por cima lutando contra grandes dificuldades tecnológicas. Peter Gabriel, em termos de concepção. Há um tipo que fez completamente discos de produtor que é o Trevor Horn, que trabalhou com os Frankie Goes To Hollywood e foi teclista dos Yes. Em termos de manipulação tecnológica, é um tipo perfeitamente pop.

Os Kraftwerk e a sua noção de estúdio como instrumento musical?
Interessante. Têm uma perspectiva curiosa que é não rejeitar a tecnologia, assumi-la a cem por cento e humanizá-la, perspectivá-la e dá-la às pessoas no seu lado humano. Eu falo com as máquinas com que trabalho. Não estou a brincar. Vou ter com o “Fairlight” e digo-lhe “hoje estás mal disposto!”.

Não sente a angústia de ter que escolher entre infinitas possibilidades de criação postas à sua disposição num estúdio?
Há o factor da criatividade e sensibilidades próprias. Aí reajo absolutamente por instinto. Em geral, primeiro ouço o som e depois é que vou á procura dele. Imagine que olha para uma parede em branco e “vê” lá um quadro. Depois de “ver” o quadro é que o vai pintar. Não é o contrário. O fundamental é que o que se ouve esteja correcto com o instinto e as emoções do momento. Como nas fotografias. Quando se tira uma fotografia não se pode voltar atrás. É um paralítico no tempo. Esse segundo, essa fracção, não existe mais. Nunca. Há alguns de som que dizem que sou uma pessoa um bocado ansiosa, porque acho que determinadas coisas têm que ser feitas depressa. Para se aproveitar o jorro criativo. As máquinas têm de estar ali para nos servir. Como escravas. O que eu procuro é captar as magias, as faíscas que saltam em determinado momento. Isso é que tem de ficar gravado.

* músico e produtor. Fez parte, nos anos 60 e 70, de grupos como os Chinchilas, Objectivo, Zoom e Salada de Frutas. Tocou ao vivo e como músico de estúdio, entre outros, com José Afonso. Vitorino, Fausto e Sérgio Godinho. Recentemente produziu o álbum a solo de Dulce Pontes, “Lágrimas”.

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Fredo Mergner – Entrevista

Pop Rock

16 de Novembro de 1994
EM PÚBLICO

FREDO MERGNER *


fredo mergner

O seu primeiro disco a solo, “À Sombra da Figueira”, soa por vezes bastante nostálgico. É uma pessoa triste?
A tristeza é sem dúvida um elemento presente. Não sou propriamente uma pessoa triste mas sim sentimental. Mas essa tristeza, ou essa nostalgia, que diz sentir ao ouvir o disco, isso para mim já significa que consegui transmitir esses sentimentos.

Essa nostalgia tem a ver com o facto de ter nascido na Hungria, ou seja, de viver numa pátria que não é a sua?
Vim para Portugal em 1977, tinha 24 anos. Fiz a minha evolução em Portugal. As minhas influências, recebi-as de Portugal. Considero-me um cidadão português. Falo português… Mas é difícil ser-se português em Portugal… Se estivesse na América, passados dois anos, podia logo dizer “I’m american” e toda a gente acharia isso normal. Em Portugal é diferente, é um país antigo, cheio de tradições, com raízes culturais fortes. A adaptação é muito mais difícil do que num país muito novo como os Estados Unidos.

Que razões o levaram a deixar a Hungria?
Deixei primeiro a Hungria para ir viver para a Alemanha, só depois é que vim para cá. Tinha acabado o curso de Antropologia e não tinha nada planeado. Cheguei a Portugal e fui ficando por cá. Tive uns amigos portugueses que me perguntaram se não queria ficar a viver em Lisboa. Fiquei.

É verdade que antes da guitarra estudou harpa?
Sim. Aliás nasci numa família que tem raízes musicais fortes. Todas as pessoas que fazem parte dela têm jeito para a música. O meu primeiro instrumento, aos cinco anos, foi o acordeão de botões. Aos de comecei a tocar trompete numa banda filarmónica e aos dezasseis comecei a estudar harpa, que foi aliás o único instrumento em que tive aulas a sério. Claro que toquei sempre um bocado de guitarra, uns acordes. Fazia parte de uma banda de liceu, no fim dos anos 60. Mas só passei a dedicar-me á guitarra a partir dos 18 anos. Mas como já tinha um “background” musical foi fácil, ao fim de seis meses já tocava peças difíceis.

São perceptíveis neste disco certos fraseados na guitarra que lembram a harpa, Andreas Vollenweider por exemplo…
Certamente estão lá coisas da harpa, sobretudo nos harpejos e em certos acentos musicais.

“À Sombra da Figueira” pretende ser um disco de música portuguesa? É que por vezes é notória a distância, um certo desfasamento de sensibilidades…
É uma fusão. As influências vêm da música portuguesa e da música sul-americana, brasileira por exemplo, e da música espanhola. “Almas perfumadas”, por exemplo, é uma fusão entre um fadinho e o chorinho. Tive uma fase em que estudei mesmo o chorinho. Tenho uma grande colecção de partituras de chorinho. Por outro lado, a utilização da guitarra portuguesa é diferente. Uso a guitarra portuguesa de uma maneira diferente do fado, onde a viola é quase um escravo. De certo modo inverto os respectivos papéis. A música espanhola vem também daqui, do ambiente que se vive em Portugal.

Como definiria esse ambiente?
Um pergunta um bocado difícil. Como já disse, fiz a minha evolução aqui, como autodidacta. Nunca ninguém me mostrou nada. Nu fundo, tudo o que sei e faço em música foi conseguido por mim sozinho, sem auxílio, deixando actuar sobre mim os ambientes. Ambientes que os próprios portugueses, por dificuldades várias, económicas e outras, não sabem aproveitar.

Concorda que o disco se pode inscrever na categoria do “muzak”, música de fundo sem grandes pretensões?
Não é um disco de música instrumental vulgar. Normalmente, a função da música instrumental é servir de música de fundo. Penso que o meu álbum exige uma audição um bocado mais atenta. As pessoas costumam comentar e pôr algumas reticências por ser um disco sem voz. Costumo dizer que é a guitarra que canta. É um instrumento que, bem tocado, tem as possibilidades expressivas de uma voz. Pode-se bater nela ou ser suave e fazer-lhe festinhas. Consoante o caso, assim sai o som.

E uma forma de resistência aos Resistência?
É importante dizer que sou compositor, além de executante. Nos Resistência, o meu trabalho a minha contribuição é importante para o som do grupo. Mas isso não impede que, enquanto compositor, não sinta necessidade de pôr as minhas composições cá fora. Já tenho uma obra escrita bastante volumosa, os nove temas do disco foram escritos para agradar o mais possível às pessoas. Não quis que fosse um disco supervirtuoso, mas sim um disco instrumental que agrade a muita gente e venda minimamente, mantendo um mínimo de virtuosismo e bom gosto. Não pretendi fazer um disco para ficar na prateleira, em que só uma elite reconhece a qualidade.

De onde veio a ideia de tocar ao vivo nos locais onde tem dado entrevistas de promoção? (Por ocasião desta entrevista, Fredo Mergner interpretou em guitarra portuguesa três temas de “À Sombra da Figueira” na redacção do PÚBLICO, acompanhado por Pedro de Faro, na guitarra.)
Em certa medida, é “marketing”. Mas o importante é, tendo um disco instrumental cá fora, conseguir construir a minha imagem como solista, como guitarrista. Procuro que as pessoas me vejam com o instrumento na mão, que me associem ao instrumento. E ao mesmo tempo mostrar que consigo tocar em qualquer lado e em qualquer situação. Sou um tocador de guitarra. De resto, estou a preparar uma banda para tocar comigo ao vivo. Com o Pedro de Faro, dois percussionistas, um baixista e um teclista.

* guitarrista dos Resistência, acabou de lançar a sua estreia a solo, “À Sombra da Figueira”



Venâncio Castro – Entrevista

Pop Rock

2 de Novembro de 1994
EM PÚBLICO

VENÂNCIO CASTRO *


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Foi um dos fundadores do grupo António Mafra, já lá vão 40 anos…
Tinha nessa altura 16 anos. Embora todos no grupo sejamos amigos de infância, tivemos direcções de vida diferentes. Foi essa amizade que nos uniu. No meu caso, costumo dizer que vim de Marte.

Pode repetir?
Como dizem que as pessoas são postas na Terra pelos extraterrestres… Esta ideia veio por eu não estar de acordo com os homens da Terra. Isso confunde muitas pessoas, e até alguns ouvintes. Quando digo isto, é porque não estou satisfeito com o que o homem faz na Terra. Digo que sou de Marte porque me coloco à parte dos homens, embora vivendo com eles e não estando de acordo com a sociedade actual. Esta é tão má, tão má, mesmo em Portugal há tanta máfia, mesmo na música, e nas políticas, nos futebóis, nas telenovelas… É tudo preparado para pôr as mentalidades das pessoas cá na Terra.
Se andarmos uns anos para trás e falarmos no Salazar e na ditadura, vemos que hoje estamos precisamente na mesma. Só há diferenças políticas. E mais estradas, mais prédios, mas tudo isto apenas para enganar o homem. Se fosse extraterrestre, até porque é uma coisa em que acredito – tenho algumas provas disso, visuais, testemunhas, mas não só, leio há muitos anos revistas sobre a vida nos outros planetas –, definia tudo numa palavra: acho estranho que nós, na Terra, este bocadinho em relação a toda uma galáxia que o homem conhece perfeitamente, façamos tanta asneira.
Em relação aos extraterrestres, eu vi, com a minha família, no Algarve, passar determinadas coisas que não eram focos de luz, nem helicópteros, nem meteoritos. Nem sequer estávamos alcoolizados, nada disso. Vimos, eu, a minha mulher e alguns vizinhos, três bolas grandes perto de nós, por volta das quatro da manhã. O tal homem continua a enganar. Por causa, neste caso, das religiões, porque o Nosso Senhor está lá em cima e, daqui para cima, não pode haver mais nada.

Como articula essas posições com a vivência no grupo?
Respeito as pessoas todas, e muito mais as que pertencem ao grupo. Mas logicamente, como faço parte dele há muito tempo, estou em desacordo na maior parte das coisas que lá se fazem. Isso chama-se “marketing”. Mas há coisas que se estão a modificar, e posso dizer que fui eu, e só eu, a pessoa que lutou por isso durante anos. Gravámos um novo disco há seis meses, “Não Pára”, e nestes seis meses o grupo modificou-se mais do que em 35 anos de existência. Tudo da minha responsabilidade, no aspecto de concretização de ideias. O tal “marketing”.

Mas não se dará o caso de as pessoas gostarem do Conjunto de António Mafra precisamente por este nunca se modificar?
Acho que não. Falamos em voltar outra vez ao princípio. Lá está o eu não estar de acordo com o homem e falar nos extraterrestres – a minha defesa. Eu ataco os homens, mas como não os posso atacar porque eles são muito mais fortes do que eu, mentalmente, e até na prática, eu, e as pessoas que estão mais ligadas a mim, a família e alguns amigos, em particular os cinco do grupo, de vem em quando entramos em luta, para o aperfeiçoamento daquilo. A minha mentalidade não está de modo algum de acordo com a deles. Musicalmente, não gosto da música do Conjunto António Mafra.

Sendo assim, como é que está há tantos anos no grupo?
Primeiro, porque não me ocupou tempo. Há as tais diferenças entre mim e os restantes elementos. Andámos juntos desde a infância, da primária até à quarta-classe. Depois fui-me embora. Passeei. Eles continuaram juntos. Neste momento tenho dez passaportes cheios. Conheço o mundo inteiro e qualquer um deles, do conjunto, não passou de Vigo. Eu conheci novas culturas, muita gente, gastei muitos milhares de contos, eles passaram de Vigo por acaso, porque fomos com o conjunto aos Estados Unidos e a França. Quando digo que não gosto da música do grupo, é porque gosto muito doutra. Viajo todos os anos ao festival de jazz de Haia, em Amesterdão, porque se reúnem oitocentos ou novecentos músicos do melhor que há no mundo inteiro. De jazz e, principalmente, de blues.

Como gostaria então que fosse a música do grupo?
Assim como é! Se tivesse que mudar, ia tocar até com o Quim Barreiros, embora comercialmente não goste da música dele. Já disse que acho a sua música porca e que ele é badalhoco, ou algo parecido. Por a Maria ir cheiras o bacalhau lá dentro e outro tipo de coisas que não interessa estar agora aqui a referir. O poema dessa música é feita pelo Quim Barreiros com uma intenção, e só é possível porque a cultura musical do nosso povo é pobre. Porque senão ele não existia.
A mudança do grupo, com os mesmos músicos que estão lá, não é possível de forma nenhuma. Porque nenhum deles toca outros instrumentos para fazer um tipo de música, por exemplo, como o do Pedro Abrunhosa e os Bandemónio. Alguém que já conheço há muitos anos e com quem me dou muito bem, que lutou mas que sempre tocou música de jazz e de repente pegou numa cassete e foi para Lisboa, onde houve alguém que disse: “Eh pá, vamos experimentar esta porcaria!” Hoje é o que se sabe. Está em primeiro lugar no top, recebeu dois discos de platina e anda agora com uma barraca insuflável. E tem um “manager” fabuloso, que faz “marketing”. Se o Pedro precisasse de percussão – eu toco bombo e bateria no conjunto –, eu ia imediatamente para lá tocar bateria. Abandonava logo o Conjunto de António Mafra. Não abandonava a amizade, abandonava o conjunto. Porque é que não o fiz durante estes 40 anos? Porque sou sensível, embora seja Leão e arranque para tudo com muita força.

Quer dizer que o grupo precisa mesmo de si ou que sem si acabava?
Já disse e volto a repetir: 50 por cento do Conjunto António Mafra sou eu. Se ele é brejeiro (“cachopa se queres ser bonita, arrebita, arrebita, arrebita”, isto é brejeiro), embora sem ter palavrões – o português é mais para aquela senhora da televisão que agora está em Sintra, a Edite Estrela –, a mim o deve. Como já disse, continuo no grupo pela amizade que me liga sobretudo aos seus elementos mais velhos.

Mas essa amizade decerto não acabava se saísse do grupo?
Não, mas… Já agora, tenho que dizer: estive para sair do grupo precisamente há seis ou sete meses. Não o fiz porque o grupo nunca prendeu a minha vida. Houve espectáculos aos quais não fui porque não troquei a minha vida – as tais idas para o estrangeiro, as férias com a mulher – pelo grupo. Os meus colegas nunca fizeram férias nem foram para lado nenhum, por causa dos espectáculos. Tínhamos litígios por causa disso. Mas se eu não fosse, como toco bombo, ou ferrinhos, não tinha tanta importância como aconteceria se faltasse o Manuel Barros, o vocalista, ou o Campanhã, neste caso o falecido António Mafra. Embora eu seja o mais alegre em palco. Como fiz e adoro teatro… por exemplo, nas “Tocatas de Fafe do Morgado”, vou para cima do palco e danço, pincho, meto a maçaneta debaixo das pernas quando digo que arrebita.

A sua alma?
Isso, exactamente. Julgo que a alma de um corpo… Aí é que a gente não chega, o que é uma chatice. Mas julgo que a alma é mais do que 50 por cento. O resto é isto que se vai desfazendo e, quando for para debaixo da terra, desaparece. Em cima de um palco, ou a fazer qualquer outra coisa, se não houver alma, perde-se um bocado.

Deduz-se das suas palavras que é um místico?
Se não me ligar durante um segundo ao grupo, sou realmente místico. Tenho tido um tipo de vida bastante místico. Ao percorrer o mundo, vi que a África e, sobretudo, a Índia são muito místicas. A gente fica a olhar para aquilo e não são as cobras-capelo, nem aquelas coisas que nos atiram a pedir dinheiro – isso é a religião, a política e a pobreza – que impressionam, mas qualquer coisa no ar a que eu chamo misticismo.

O que se passa com a sua casa de espectáculos?
Chama-se “Taberna 2000”. Tem vinte anos e actualmente foi mandada fechar pelo senhor governador civil, porque houve uns senhores de cima que disseram que fazia barulho. Quando se provou que isso era mentira, foi preciso meter o caso em tribunal. Uma grande parte dos músicos e políticos do país passaram nesta casa durante vinte anos. É uma casa com características especiais, com a tal paz, talvez a tal mística, e ao fim de vinte anos apareceram dois senhores que não me conhece de lado nenhum e que, por qualquer interesse pessoal, mandaram dizer ao senhor governador civil que eu faia muito barulho. Vinte anos depois é que comecei a fazer barulho… Agora tenho que tirar atestado de pobre, queixar-me ao ministro da Administração Interna… É só isto que ando a fazer. Meter outra vez papéis no Governo Civil a pedir para abrir a porta. Está a ver como tenho que ser místico! [Risos] Senão, punha uma bomba e isto levantava voo!

* percussionista do Conjunto de António Mafra

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