Arquivo da Categoria: Críticas 2004

Black Ox Orkestar – Ver Tanzt?

17.09.2004
Black Ox Orkestar
Ver Tanzt?
Constellation, distri. Sabotage
6/10

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Estranha combinação a dos Black Ox Orkestar. São canadianos mas tocam, dizem, “canções klezmer tradicionais através de uma sensibilidade moldada pelo ‘indie rock’ e o ‘free jazz’. “Ver Tanzt?” (“Quem está a dançar”, em “Yiddish”), o título tema, é uma violenta diatribe contra Israel mas a música dos Black Ox Orkestar acaba por não ser nem a recapitulação exaltada das sonoridades “klezmer” nem a fúria “punk” que a sua atitude interventiva poderia justificar, mas uma pesada arca cheia das habituais “drones” da editora canadiana, vozes moribundas e folk rock com a bússola apontada à tradição hebraica. O ambiente geral é de nostalgia e não de dança, como se os Black Ox Orkestar se deixassem afogar num mar de desesperança (“vivemos na nossa língua, como cegos caminhando à beira do abismo, uma linguagem carregada de catástrofes futuras”, lê-se numa citação do livrete). A instrumentação, exótica q.b. (contrabaixo, clarinete baixo, bandolim, cymbalon, violino, órgão de foles…) nem sempre é bem aproveitada (o cymbalon e o contrabaixo constituem a excepção, em “Skocne”) mas o resultado final, apesar da imensa tristeza, cria situações auditivas interessantes.

Luar na Lubre – Hai um Paraíso

10.09.2004
Luar na Lubre
Hai um Paraíso
Warner Music Spain, distri. Warner
5/10

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Faz pena assistir à decadência dos Luar na Lubre. A queda processou-se pela via do costume, da simplificação rítmica através da utilização exaustiva dos sequenciadores e caixas-de-ritmo, o que transformou a banda galega numa espécie de emulação de Hevia. Não que as gaitas não estejam onde lhes compete e que as melodias não sejam, nalguns casos, de uma beleza estonteante. Mas por que raio é que uma pandeireta ou uma bateria não chegam os ritmos? A utilização da electrónica na folk céltica sempre foi polémica mas parece ser evidente que nos Luar na Lubre tem a ver com a internacionalização e as cedências que esta transição implica. O resultado é o empobrecimento da música e a desvalorização de temas como “Hai um paraíso”e “Uah lua”, transformados em exercícios de má música de dança. Pontos positivos são “Rivadavia”, com uma bela intervenção na gaita de Bieito Romero, “Corme”, que prima pela simplicidade, e “Achega-te a mim, maruxa”, boa versão do tema popularizado por José Afonso. Há duas Galizas distintas que se digladiam na música dos Luar na Lubre.

Nova Huta – Here Comes My Seltsam Voice

10.09.2004
Nova Huta
Here Comes My Seltsam Voice
Variz, distri. Sabotage
6/10

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A voz de um bebé rompe um véu de electrónica, a seguir eleva-se do nevoeiro um coro étnico religioso. São os dois melhores minutos de “Here Comes My Seltsam Voice”. Mas o que vem a seguir é igual ao que se faz um pouco por todo o lado na pop electrónica. Recuamos aos anos 80, os robôs de “Bambu robot” querem chegar ao volante de “Baby you can drive my car” dos Beatles, e aquilo que antes eram “funny electronics” não passa agora de algo que os Telex já fizeram há muito. Música de variedades para o novo século, para se ouvir enquanto se limpa a cozinha ou se faz o jantar. Sorrisos sintéticos, gestos mecanizados, Ken e Barbie aos beijinhos. As melodias até são, nalguns casos, apetecíveis, com a sua veia adolescente, mas a colagem aos anos 80 é demasiado óbvia para não causar algum enjoo. Os sintetizadores e as caixas-de-ritmo nunca se levam a sério e é assim que “Here Comes My Seltsam Voice” deve ser escutado. A produção é portuguesa, o disco termina com um tema vocalizado por Nina de Faria, “Guarde suas lágrimas para outra pessoa”. E as gargalhadas também.