Arquivo da Categoria: Críticas 2003

Swans – “Children of God / World of Skin” (self conj.)

03.10.2003
Swans
Children of God / World of Skin
9/10
Swans Are Dead
8/10
Ambos 2xCD Young God, distri. Sabotage

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Swans – A Praga dos Cisnes

“O bem estar e a felicidade nunca me pareceram um fim absoluto. Sinto-me mesmo inclinada a pensar que estes propósitos morais são mais parecidos com os de um porco”. Quem o diz é Jarboe, a serpente entre os cisnes. Os Swans eram uma daquelas bandas americanas dos anos 80 que achavam que o inferno é o melhor local para se viver e que procuravam convencer o seu público do mesmo. Como Clint Ruin, Lydia Lunch, Sonic Youth ou The Art Barbeque, os Swans moldaram o rock em volutas de “noise”, escolhendo como temas para as suas litanias infernais, a religião, o sexo, a morte e, em geral, todas as actividades humanas . da escatologia mais infame a um ascetismo neurótico – que conduzem ao sofrimento e à loucura.
“Children of God”, editado originalmente em 1897 no formato de duplo-álbum e agora reeditado e remasterizado em conjunto com “World of Skin”, do projecto paralelo, Skin, não foge a esta tecla com a diferença de que, comparativamente aos discos anteriores como “Filth” ou “greed”, pauta o horror por uma espécie de Psicadelismo negro, faceta que viria a acentuar-se nos Skin e na obra a solo de Jarboe.
É verdade que logo a abrir, “New Mind” nos põe K.O. Rock sinónimo de agressão física e psíquica, crispado na guitarra carnívora de Gira, arrepiante numa letra que ousa dizer “The sex in your soul will damn you to hell”. Mas “Children of God” aborda o mal noutra perspectiva, aquela que se disfarça sobre o manto carmesim do Belo. Jarboe sibila entre guitarras acústicas, pianos e naipes de cordas, num jardim de pesadelo que mima o Psicadelismo, enquanto Gira faz ecoar a sua voz de barítono, invectivando tudo e todos, numa impossível catarse em que o amor é ainda um outro rosto da morte. “I’ll always remember your hand on my shoulder, pulling me down, into the cold dead earth”, um pouco à maneira do pregador Nick Cave, em “Real Love”. A agonia eleva-se, enfim, nas asas de vampiro de uma majestade feita de ódio e orgulho, música quase sinfónica, no formidável “Beatiful Child” – tão totalitária como a dos Einsturzende Neubauten, horrivelmente pornográfica como a de Boyd Rice (Non), eivada de uma dimensão cinematográfica como a de Jim Thirlwell sob o pseudónimo de Foetus. E se a dupla condescende em afirmar que somos todos “children of god”, é com um arrepio que reconhecemos a natureza dessa divindade.
Jarboe brilha como uma estátua de sal no outro lado da lua, na compilação de temas dos Skin, “World of Skin”, bom complemento para “Children of God”. Cantora de verdade, em “Cry me a river”, “Blood in your hands” ou “My own hands”, a sua voz chega a ser atraente, atraindo-nos para um labirinto de gigantescos espinhos de rosa. Os violinos e violoncelos cortam como punhais, a electrónica afunda-se em nevoeiros sinistros a envolverem as vozes, mais litúrgicas do que nunca, dos oficiantes. Tudo em “World of Skin” ostenta uma religiosidade malsã. Ouve-se um tema como “We’ll fall apart” e a confusão enrola-se no impossível acordo entre Sade Adu e os Dead Can Dance em dia de enterro ou quando a harmónica dos Supertramp (!) é estrangulada por um piano tumular, em “Cold Bed”. Ou, como cantava Marc Almind: “Beauty is skin deep”.
Mas não é tudo. Como proclamava Frank Zappa, “the torture never stops”. A par de “Children of God/World of Skin”, foi igualmente reeditado, em CD duplo, “Swans are Dead”, registo das derradeiras digressões do grupo, em 1995 e 1997. Aguente quem puder os 16 minutos de mantra de ruído a que o grupo chamou “Feel Happiness”, capazes de deitar por terra a aliança Glen Branca/Sonic Youth. Mas também há um anjo a voar montado num vibrafone a assombrar a missa negra “The Sound” e os 17 minutos de “Helpless child”, reflexo distorcido num espelho de águas inquinadas. No canto de cisne dos Swans, o niilismo dos anos 80 transitou, tal qual um vírus já disseminado pelo corpo todo, para os 90. Como uma praga.

DAT Politics – “Tracto Flirt”

19.09.2003
DAT Politics
Tracto Flirt
Tigerbeat6, distri. Ananana
8/10

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Alguém falou em electroclash? De orgasmos ciborgues importados dos 80’s e da máquina de afagos sexuais inventada por Wilhelm Reich? Os DAT Politics oferecem garantias de prazer máximo à distância de uma SMS. Arrumem numa disquete a espacialidade dos Kraftwerk, a subvida digital dos Pansonic e a batida enguiçada dos Daft Punk, desenhem no rótulo o “smile” das “funny electronics”, baixem a intensidade de corrente no capacete de tortura à mioleira chamado “Villiger” com que os DAT Politics vos puseram os cabelos em pé, e terão uma ideia de como soa esta reedição em CD de um dos primeiros discos desta banda de Lyon que faz com os “laptops” o mesmo que Hendrix fazia com a guitarra. Ou seja, tudo. A diferença entre “Villiger” ou “Plugs Plus”, manifestos de ruído conceptual, e “Tracto Flirt”, é que este põe a funcionar as roldanas e ligações nervosas com que o cérebro dá ordem para dançar. O “groove” tem código de barras mas é infecciosos e divertido. Qual boneca insuflável de ligar à tomada, “Tracto Flirt” condensa a energia do rock ‘n’ roll nos arquétipos sexualidade mais electricidade. E não se gasta. Em comparação, as Chicks on Speed ou Peaches (com ou sem barba) parecem donzelas.

Monoton – “Monotonprodukt 07 20y++”

19.09.2003
Monoton
Monotonprodukt 07
20y++
Oral, distri. Matéria Prima
8/10

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Alerta! “Monotonprodukt 07 20y++” é a reedição, revista e melhorada, de um clássico da electrónica dos anos 80. Criado em 1985, pelo austríaco Konrad Becker, “Monotonprodukt 07!” (assim se intitulava então) é um dos esteios da transição da estética “krautrock” dos anos 70 para a electrónica industrial dos 80, posteriormente reapropriada pela geração pós-tecno dos 90. A “wire” integrou este álbum na lista dos 100 “mais importantes e ignorados” do séc. XX. A música é minimalista, apoiada em programações artesanais e caixas de ritmo monolíticas que tanto fazem lembrar os franceses Heldon e Spacecraft como os D.A.F. ou uma aliança sinistra de clones –zombies dos Tangerine Dream com os Suicide. Tal e qual uma sessão de hipnose destinada a enviar-nos para o fundo do poço dos nossos medos, é definido no livrete como uma “experiência física da vibração e do ritmo, construída sobre frequências audíveis ou inaudíveis, e estruturada segundo padrões matemáticos” ou ainda, mais de acordo com o que os sentidos provam e não receiam, “uma massagem de ondas sonoras”. Ideal para lobotomias sem dor.