Arquivo da Categoria: Críticas 2003

Maddy Prior – “Lionhearts”

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7 Novembro 2003


MADDY PRIOR
Lionhearts
Park, distri. Megamúsica
7|10



Depois de “Arthur the King”, Maddy Prior volta a gravar um álbum temático centrado na vida de reis lendários da velha Inglaterra. “Lionhearts” narra a história de Ricardo I, “Coração de Leão”, na perspetiva da sua mãe, Eleanor da Aquitânia. Mais generalista e “entertainer” do que nos The Carnival Band, um “gosto adquirido” para quem não tem da música antiga uma ideia redutora e pruridos de purista, a antiga cantora dos Steeleye Span volta a colocar a sua voz magnífica ao serviço de uma música onde o eclectismo impera, misturando “uillean pipes” e sintetizador Moog, a new age épica de “Salah Ed-Din”, o rock FM com guitarras elétricas “à la” Mike Oldfield, de “Old lion”, e a recriação de “standards” folk como “Salisbury plain” e um “John Barleycorn” a recordar os melhores tempos dos Steeleye Span. Mas uma boa ideia nem sempre tem concretização à altura. O principal problema de Maddy Prior será hoje o de tentar agradar a várias camadas de público, da folk à “música de elevadores” inteligente, com os consequentes desequilíbrios e fraquezas que tal opção acarreta. “Lionhearts” é, apesar de tudo, um trabalho que não envergonha o seu passado, mesmo a pedir que o arrumem ao lado do disco de Natal dos Jethro Tull…



Dervish – “Spirit”

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31 Outubro 2003


DERVISH
Spirit
Whirling Discs, distri. MC-Mundo da Canção
9|10



Há coisas que não mudam. Ou somos nós que não damos pela mudança, porque crescem connosco. A música dos Dervish tem a eternidade dentro dela. “Spirit” é o espírito da Irlanda, o espírito do mundo, o espírito do Belo. E o espírito de Finn Corrigan, engenheiro de som, falecido este ano, a quem o álbum é dedicado. É um clássico que revivifica as velhas danças e baladas tradicionais, com uma “verve” e uma sabedoria que apenas o tempo e o amor concedem. O violino, o acordeão, a flauta e os “whistles” voam, saltando de um compasso para outro como duendes. E Cathy Jordan a levar-nos para o meio de florestas, castelos e fantasias. A capa é verde, da cor do mar. E não, não é a imaginação a pregar-nos uma partida: a voz de Cathy está mais macia, como a relva de um prado regado pela chuva. “Whelans”, incursão na folk progressiva, tem um segredo escondido…E prova que as danças irlandesas acordam mais notas do que as da vertigem e do fogo dos “jigs” e “reels”. Como proclamava o filósofo do alto da montanha: “Vede, há em mim um espírito que dança!”.



Fairport Convention – “Fairport Convention” + “What We Did On Our Holidays” + “Unhalfbricking”

(público >> y >> world >> crítica de discos)
11 Julho 2003


FAIRPORT CONVENTION
Fairport Convention
8|10

What We Did on our Holidays
9|10

Unhalfbricking
9|10
Island, distri. Universal

fairport convention
quem sabe para onde o tempo vai



No manifesto de intenções de “Fairport Convention”, álbum de estreia de 1968 da banda que viria a tornar-se a instituição da folk rock inglesa, pode ler-se: “What we played – The best of the singers-songwriters, music of almost suicidal variety, mind boggling complicated arrangements of ostensibly simple songs, anything that other groups wouldn´t touch”. Ainda com Judy Dyble e Martin Lamble (que viria a morrer num acidente de viação), “Fairport Convention” arranca para este rally com o que poderia ser um clássico dos The Byrds, “Time will show the wiser”, de Emitt Rhodes, e prossegue com “I don’t know where I stand”, título apropriado para uma vocalização frágil e tocante de Dyble, na linha do que faria nos Trader Horne. Álbum variado, integra influências da pop psicadélica, britânica e americana (como na delirante versão de “Jack O’Diamonds”, de Dylan, algures entre os Grateful Dead e os Jefferson Airplane), com Ashley Hutchings, futuro fundamentalista da tradição rural, a revelar inusitada destreza na escrita de coisas tão bizarras como “The lobster”. A reedição, remasterizada, inclui quatro temas extra, entre os quais “Suzanne”, de Cohen, e “Morning glory”, de Tim Buckley. Um clássico menor e, para os que apenas conhecem fases posteriores do grupo, uma surpresa estonteante.
No ano seguinte, Alexandra Elene MacLean Denny, Sandy Denny, entrara já para o grupo, em substituição de Judy Dyble, fazendo de “What we Did on our Holidays” algo de especial que abre com o clássico que daria nome ao seu primeiro projeto fora do grupo, “Fotheringay”. Abrangendo ainda temas de Dylan (“I’ll keep it with mine”) e Joni Mitchell (“Eastern rain”), o psicadelismo, o “cajun” ou os “espirituais” (Denny a fazer de Joplin em “The Lord is in this place, how dreadful is this place?”), bem como um “Book song” de Ian Matthews, o álbum introduz o conceito de “folk elétrica” em “Mr. Lacey” ao mesmo tempo que aparecem os primeiros arranjos de tradicionais, entre os quais “Nottamun town” e “She moves through the fair”, prenúncio da direção que o grupo viria a seguir.
“I’ll keep with mine” vale pela vocalização de Denny, em veia já explorada no álbum de 1967 de apresentação dos Strawbs, “All of our Own Work”, e “Meet on the ledge”, um original de Thompson, com aquele “swing” característico dos The Byrds que os Fairport tão bem adaptaram a uma inconfundível “britishnes”, figura na galeria dos melhores temas do grupo.
Ainda de 1969, outra peça-chave, “Unhalfbricking”, título sugerido por Denny em mais do que provável estado de euforia etílica. “Genesis hall” ostenta a marca de uma voz em estado de graça. Poucas vezes Sandy Denny terá cantado como nesta canção de abandono, capaz de nos arrebatar naquele tom que apenas se encontrará, na música inglesa, em “I Want to See the Bright Lights Tonight”, de Richard e Linda Thompson. Denny que em “Si tu dois partir”, versão “cajun” e cantada em francês de um tema de Dylan, volta a abrir caminho ao “boom” do folk rock inglês dos anos 70, por bandas como os Steeleye Span, Matthews Southern Comfort ou Albion Country Band, e se mostra superlativa no jazzy “Autopsy”, onde está já tudo o que se pode encontrar na sua brilhante discografia a solo.
O mantra de 11 min. e único tradicional do álbum, “A sailor’s life”, é apresentado pela cantora de “world” Sheila Chandra como contendo os genes da música de fusão, na síntese de 2000 anos de canto tradicional védico com os timbres e modos da música irlandesa. O mesmo que, sem que ninguém desse conta, e na mesma altura, também fizeram os Mr. Fox e que em “Liege and Lief” iria ainda mais fundo. Depois, foi neste disco que os Fairport contrataram a sua estrela, o violinista Dave Swarbrick, aqui ainda um dos convidados, a par de Ian Matthews, Dave Mattacks (baterista que marcaria a rítmica futura dos FC) e Trevor Lucas (pilar dos Fotheringay). Apesar de três originais de Dylan, “Unhalfbricking” apresenta, pela primeira vez, o estilo distinto que levaria os Fairport ao estatuto mítico de que ainda hoje gozam. Mesmo que Denny lançasse ao vento as dúvidas e a interrogação ao destino – que para si seria trágico – em “Who knows where the time goes?”. “Não receio o tempo”, canta. E é todo um tempo de beleza gloriosa que desaba sobre nós.