Arquivo da Categoria: Críticas 2001

John Lennon – John Lennon/The Plastic Ono Band

04.05.2001
John Lennon
John Lennon/The Plastic Ono Band
EMI. distri. EMI-VC
8/10

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Depois de três álbuns de experimentalismo com Yoko Ono ( a megera que destruiu os Beatles, na opinião do resto do mundo), John Lennon pôs a sua alma a nu neste álbum de 1970. “John Lennon/The Plastic Ono Band” (agora remasterizado e remisturado) é a entrega total e a declaração de amor sem reservas a uma mulher, Yoko. A esta exposição quase despudorada de sentimentos, de amor, mas também de revolta (“Mother”), solidão (“Isolation”) e perda (“My mummy’s dead”), fez o ex-Beatle corresponder o despojamento dos arranjos e palavras que se lêem como cartas pessoais. Sentimo-nos intrusos entre a sessão de terapia pelo grito de “Mother” ou o intimismo a dois de “hold On”. Mesmo quando libertava a sua veia mais politizada, em “Working class hero”, ou reduzia todos os deuses a simples ilusões (“God”). Imaginamo-lo para sempre sentado em frente ao seu piano branco, numa imensa sala vazia.

Mafalda Arnauth – Esta Voz Que Me Atravessa

27.04.2001
Mafalda Arnauth
Esta Voz Que Me Atravessa
Ed. e distri. EMI-VC
8/10

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Mafalda, a Travessa
Para Mafalda Arnauth memorável intérprete ao vivo de “Foi Deus” em mais do que uma ocasião, Amália foi a mestra e afigura de referência, mas enquanto o seu álbum homónimo de estreia denotava uma contenção que podia ser confundida com receio e um encosto a leituras mais ligeiras do fado, este segundo trabalho, com produção de Amélia Muge e José Martins, apresenta um território definitivamente aberto à emoção.
Além da conquista de uma maturidade no capítulo da composição que a autoriza a emparceirar, sem complexos, fados seus ao lado de clássicos como “Até logo meu amor”, de Alfredo Marceneiro, Mafalda Arnauth ganhou confiança nas palavras que canta, descobrindo nelas novas fontes para exercitar quer a alma quer a sua voz extraordinária. Uma voz que agora se volta menos para o espelho e mais para o sentido dos poemas, mudança que tem como principal consequência o largamento dos próprios registos vocais que assim acompanham com outra agilidade a pluralidade de emoções desencadeada por textos de Hélia Correia, José Joaquim Carvalheiro, Amélia Muge ou da sua própria autoria.
As palavras escritas por Hélia Correia para o título-tema, de “Esta Voz que me Atravessa”, dizem muito sobre esta deslocação de atitude e redescoberta da música que a palavra poética contém: “Esta voz que me atravessa/Sem que eu queira, sem que eu peça/Não mora dentro de mim/Vive na sombra a meu lado/Dando ao meu fado outro fado/Que me faz cantar assim”.
Entre a universalidade dos arranjos (Stephan Micus gostaria das guitarras de “De não saber ser loucura”), uma inspirada apropriação de Fausto (“Lusitania”) e um tom mais popular que faria sorrir de agrado Amália (Coisa assim”), “Esta Voz que me Atravessa”, depois de “Esta Coisa da Alma”, de Camané, e da emergência de fadistas ou cantoras de fado como Cristina Branco, Ana Sofia Varela ou Joana Amendoeira, confirma o período de ouro que o fado actualmente atravessa, pela voz e pelo empenhamento de uma nova geração que soube compreender e assimilar os ensinamentos da tradição.

Labradford – Fixed::Context (conj.)

02.03.2001
Tortoise
Standards
Thrill Jockey, distri. Zona Música
7/10
Labradford
Fixed::Context
Blast First, distri. Zona Música
7/10

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pwd: MOODSWINGSmusic

Depois do “Big Bang”
Tortoise e Labradford correspondem a dois estágios distintos de evolução do pós-rock. “Standards” será, segundo os próprios, o “disco punk” dos Tortoise. O grupo voltou-se para uma via energética que estava ausente no anterior “TNT”. Se este era uma montagem de módulos sonoros em permanente flutuação, o novo “Standards” sujou, por um lado, o som, ao mesmo tempo que o ar de “inacabado” surge agora imbuído de uma carga libertária. O lado ideológico de crítica a alguns dos sinais da América pós-Clinton, servirão de caução a uma música que alterna achados sonoros com “jams” inconsequentes. Electrónica manipulada com mestria, devaneios jazzísticos, um pouco de “lounge” e “film music” e constantes truques de ilusionismo formam uma argamassa em ebulição, sem que este retorno ao “big bang” faça esquecer a galáxia em expansão que continua a ser “Millions now Living will never Die”. Os Labradford, esses, há muito que se afastaram do rock. Desde “Mi Media Naranja” que a banada se vem embrenhando numa música “espacial” que tanto evoca bandas da 4AD – Dif Juz ou This Mortal Coil -, como Pink Floyd e Brian Eno. “Fixed::Context” cria ambientes talvez menos susceptíveis de aprofundamento do que o anterior “E Luxo So”, embora imbuídos de forte pendor hipnótico. Em “Twenty”, pulsações no limite dos infrasons sustentam uma frase de guitarra eterna repescada de “Wish you were here”, dos Floyd. “Up to pizmo” e “David” vivem do mesmo tipo de tecituras de guitarra criadas por Vini Reilly nos Durutti Column, e “Wien” fecha em voo silencioso de baixo, sintetizador e piano eléctrico sobre regiões de “Apollo Atmospheres” de Eno. Música para sonhar, alguns furos acima do postal retro dos Sigur Rós.