Arquivo da Categoria: Críticas 1998

Wendy Stewart – About Time 2 (conj.)

16.01.1998
WORLD/CELTA
Remissão Dos Pecados
Se nalguns casos a passagem do tempo pode descaracterizar a música, noutros tem como efeito o apuro de qualidade e de um estilo. Foi o que aconteceu a três nomes conceituados da folk céltica, cujas gravações nem sempre têm estado à altura dos seus pergaminhos: Dan Ar Braz, Na lúa e Ceolberg. Os respectivos novos álbuns são, qualquer deles, agradáveis surpresas. O som das harpas continua a ser de luz, a julgar pelos novos trabalhos de Wendy Stewart e das Sileas.

Bem-vindo, senhor Dan Ar Braz, ao grupo dos que recusam o supérfluo e a mistificação. Para este antigo guitarrista de Alan Stivell abriram-se de novo portas que pareciam estar em definitivo encerradas pela fase inicial do seu percurso a solo – marcado por exercícios de estilo em torno de um certo “celtic jazz” com tradições na Bretanha, mas envolto numa aura de “easy listening” pouco exigente. Mas Dan Ar Braz emendou a mão, oferecendo-nos em “Finisterres” uma lição sobre como fazer uma música endereçada às maiorias, sem ceder a fórmulas de massificação gratuita.
Mais ainda que “L´Héritage des Celtes”, que passou a servir de designação ao colectivo de participantes, “Finisterres” começa por ser uma agremiação arrepiante de nomes sonates da música de raiz celta europeia: Donal Lunny, Noel Bridgeman, Nollaig Casey, Jacques Pellen, Donald Shaw, Gilles LeBigot, Carlos Nunez, Sharon Shannon, Karen Matheson, Maíre Ní Chatasaigh, Gilles Servat, Mairtin O’Connor, Liam O’Flynn e a Bagad Kemper, entre outros de menor nomeada.
Poderia ser um catálogo de venda a retalho, mas não é. Com alguma surpresa, dados os antecedentes, “Finisterres” demonstra um propósito e uma unidade fora do comum. Evidentemente, tudo funciona na mesma escala de proporção de peso dos nomes presentes, mas sem que alguma vez se sinta esse outro peso, bem menos dignificante, do excesso.
Sabe bem escutar Carlos Nunez, por uma vez liberto da tentação do protagonismo fácil, retomando o gosto pela singeleza, no tradicional “La Costa De Galicia”, com arranjo seu e de Donal Lunny a quem coube a produção geral do projecto. Também é preciso dizer que tem a seu lado, neste tema, Sharon shannon, para o pôr no lugar.
Há aqui de tudo para todos, pop e tradição enlaçados, vozes antigas e modernas, pormenores de excelência técnica inseridos no sítio certo, confeccionados como um bolo, no qual, desta feita, Dan Ar Braz se preocupou menos com a cobertura de açucar do que com a qualidade da massa.
Fusão? Sem dúvida, da tradição mais antiga com a linguagem da electricidade e da actualidade, como exemplarmente é ilustrado por “Labroella”, tema onde a ancestralidade do canto de Manu Lanhuel se enquadra de forma natural no estilo, quase progressivo, das guitarras, eléctricas e de 12 cordas acústicas de Dan Ar Braz e Jacques Pellen. Outro apontamento digno de registo desta aliança entre dois tempos diferentes encontra-se, logo a seguir, no magnífico diálogo a três mantido entre as “uillean pipes” de Ronan Le Bars, o violino de Nollaig Casey e o acordeão diatónico de Donald Shaw, num “irish breton folk rock” cheio de vitalidade e frescura (Saint George, distri, Sony Música, 7).

Com 18 anos de existência os escoceses Ceolbeg têm tido uma carreira atribulada, marcada quer pela troca de músicos quer pela escassa, e nem sempre exemplar, produção discográfica. “Ceolbeg 5”, como o nome indica, o quinto álbum desta banda – que já actuou ao vivo entre nós, num concerto na Amadora -, merece rasgados elogios. Se num passado recente, em álbuns como “Seeds To The Wind” e “An Unfair Dance”, a dinâmica musical funcionava com base na alternância entre baladas vocais, nem sempre interpretadas de forma imaculada (os Ceolbeg nunca brilharam por ter bons vocalistas…) e instrumentais construídos sobre uma rítmica declaradamente rock, em “Ceolbeg 5”, verifica-se uma inflexão de 180 graus.
desapareceu o rock e apareceu em seu lugar uma subtileza instrumental (antes a tónica era posta na energia) que há muito não se via no grupo. Os Ceolbeg são, pelo menos por agora, um grupo clássico, capaz de viajar com a mesma segurança pelo “drive” poderoso das “Highland pipes”, em todos os “sets” a que é chamado a participar o novo elemento Mike Katz, e a poesia da voz, da “clarsach” (harpa escocesa), ou da harpa electrificada de Wendy Stewart, que neste álbum alarga os seus dotes de executante à concertina.
Como que não querendo cortar de forma abrupta com um passado feito de algumas cedências, os Ceolbeg ficaram-se desta vez, felizmente, em termos de “fusão”, apenas pela escrita. Assim, o “jazz funk” mencionado no tema inicial é sobretudo um estado de espírito que anima a incandescência das “pipes”, bem como o “reggae” (que ainda há bem pouco fez naufragar os Ceolbeg nas águas de algum mau gosto…) não passa de nota de rodapé numa composição de Robert Burns (“Willie Wastle”), onde se projecta uma hipotética passagem deste noma mítico da música e da poesia escocesas pela Jamaica.
Mesmo em “The Nodding Song”, outra composição de Robert Burns, o compasso de ressonâncias jamaicanas dilui-se no fraseado da harpa e na fluência e acentos, absolutamente célticos, da gaita-de-foles de Mike Katz. O último tema, “The Gaberlunzie Man”, reforça de forma definitiva o novo estatuto dos Ceolbeg: é uma balada de extraordinária beleza, cujas entoações vocais mergulham no mais puro estilo tradicional e onde todas as partes, do tapete de teclas clássicas, à harpa e às “Highland pipes”, funcionam ao serviço da magia desta composição épica. Está ao nível do melhor que se pode encontrar no clássico “Celtic Hotel”, dos Battlefield Band, aos quais os Ceolbeg começam a morder os calcanhares.
Temos Ceolbeg naquele que é, sem sombra de dúvida, o seu melhor álbum de sempre (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

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Wendy Stewart, harpista dos Ceolbeg, prossegue com “About Time 2” a sua aventura a solo, iniciada em moldes semelhantes na estreia, “About Time”. Nas variantes acústica e electrificada da harpa, em concertina, e voz, Wendy faz-se acompanhar neste seu segundo registo por três seus antigos companheiros no grupo, Gary West, nas “scottish small pipes” e “low whistles”; Colin Matheson, na guitarra; e Jim Walker, em tambor e percussões.
Álbum feito de delicadeza, sempre que a harpa murmura os seus “airs” e marchas tecidas em filigrana, “About Time” apresenta uma curiosa selecção de temas, que inclui, além de tradicionais e originais da harpista, versões de “The Kitchen Piper”, de Donald McLeod, “The January Man”, de Dave Goulder (cuja vocalização faz lembrar uma June Tabor de voz mais doce), e “Fotheringay”, um dos temas mais antigos dos Fairport Convention, com a assinatura de Sandy Denny, aqui mergulhando numa melancolia tão ou mais forte que a do original. “Rachael Rae” transporta colorações da música árabe da Idade Média para a harpa, “Fish Feis” é “swingante” e “jazzy” à maneira de uma Savourna Stevenson, a gaita-de-foles balouça com languidez em “Probabobaly”, a “tentativa de composição de uma marcha, em estado de embriaguez, dos Ceolbeg, descrita pelo baterista do grupo como ‘probabobaly the best tune in the world…’”.
Um álbum para ouvir em rectao em locais como Sintra, nas margens de um lago subterrâneo, ou num castelo por cima das nuvens (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

A harpa domina ainda “Play on Light”, quarto álbum, depois de “Delighted With Harps”, “Beating Harps” e “Harpbreakers”, das Sileas, um duo formado por dois expoentes deste instrumento, as escocesas Mary MacMaster e Patsy Seddon, também pertencentes às Poozies e aos Clan Alba. Muito mais que o disco de Wendy Stewart, “Play on Light” é em primeiro lugar um trabalho dedicado em exclusivo a um instrumento específico, a harpa, que agradará sobretudo aos apreciadores dos estilos e da sonoridade deste instrumento, mas ao qual um ouvido mais generalista não conseguirá ficar indiferente. A este impressionará, provavelmente, mais do que os pormenores técnicos e de expressão das duas executantes, a beleza das baladas vocalizadas, a solo ou em suaves harmonizações em dueto, por uma e por outra. Para entrar em bicos de pés e com os ouvidos, muito, muito limpos. (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

Confessamos o nosso relativo desapego pela música dos galegos Na Lúa, cuja principal virtude terá sido, até agora, a de revelar a voz da nossa bem conhecida Uxia. Como acontece com inusitada frequência na Galiza, a música dos Na Lúa padeceu quase sempre de indefinição, hesitando entre uma prática fusionista e comercial e a entrega a uma leitura mais profunda do reportório tradicional galego. Na mesma altura em que pela primeira vez surge no nosso mercado o álbum de estreia do grupo, “Na Lúa”, marcado por alguma incipiência técnica mas onde são já visíveis as diversas e díspares vertentes que determinariam a posterior evolução do grupo, este novo “Os Tempos Son Chegados” vem revelar algumas qualidades pouco exploradas na sua obra anterior. Sem abandonar o gosto por outras músicas, aqui expreso, por exemplo, no cunho cubano imprimido ao título-tema, muito Sierra Maestra (Santiago de Compostela ligada por laços invisíveis a Santiago de Cuba?…), os Na Lúa, por força da insistência numa sonoridade híbrida, acabaram por criar com “Os Tempos Son Chegados” um objecto de extraordinária originalidade.
Curiosamente, pelo desejo de afirmação de uma nação galega universal, ponto de confluência de tradições múltiplas, é impossível não pensar numa idêntica visão – embora com desenvolvimentos e implicações, não só musicais como também políticas, bem mais importantes – cultivada em toda a sua produção recente pelos Milladoiro. Mas atenção, que apesar de o seu mundo ter as fronteiras mais apertadas, os Na Lúa chegam a pousar num lugar tão longínquo quanto o seu nome deixa adivinhar. A Galiza de um tema como “De Andar Camino” tem as raízes no planeta Terra e os olhos postos na Lua. “Muineiras” negras (“Ribeirana”), e “cajun” (“Cantar de Canteiros”), um coreto a comandar passos de valsa com sabor a tango (“Liberación”), a Arábia coberta de verde (“aryel”), vinho com sabor a petróleo em condutas “hornpipe” (“A aventura dos pipelines”), o Minho mais belo do que nunca (“Coro das Maçadeiras”), a Galiza dos Na Lúa enlouqueceu. Os tempos parecem, de facto, chegados para os Na Lúa afirmarem a sua diferença. As fotografias do interior da capa são magníficas. Rendemo-nos! (Do Fol, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

Solás – Sunny Spells And Scattered Showers (conj.)

02.01.1998
World: Irlanda
Conflito De Gerações
Para começar bem o ano, nada melhor do que uma boa reserva de música tradicional da Irlanda. No desafio entre os novos, Solás e Dervish, e os “velhos”, Patrick Street e Open House, estão os Bothy Band a arbitrar. Todos com certificado de garantia.

O aviso já tinha sido dado por Séamus Egan nos seus dois álbuns a solo, “Traditional Music Of Ireland” e, sobretudo, no mais recente “When Juniper Sleeps”. Trata-se de uma das maiores revelações de um multi-instrumentista irlandês dos últimos anos. Se a sós estas capacidades revelavam ser já de excepção, imagine-se o tereno fértil encontrado pelo músico no seio da formação Solás. Com efeito, ao lado de Karen Casey, excelente voz feminina, ao nível das divas, John Doyle (guitarras, mandocelo e voz), Winifried Horan (violinos) e John Williams (acordeão e concertina), Seamus Egan explode, literalmente, na flauta, banjo, “low Whistle”, bandolim, guitarra acústica, “bodhran” e percussão. A estes músicos, juntou-se ainda o convidado John Anthony, numa míriade de percussões celtas e “não celtas”, como o “djembe”, o tambor de barro e o “dumbek”.

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“Sunny Spells And Scattered Showers” é o segundo álbum dos Solás, sucedendo ao disco de estreia, “Solás”, também disponível com amesma distribuição. Aos primeiros acordes do “standard” “The Wind That Shakes The Barley”, torna-se evidente estarmos na presença de um clássico. Mais do que em “Solás”, o grupo parece apostar neste seu segundo registo em reivindicar para si, em exclusivo, o legado dos Bothy Band.
São vários os indícios que apontam neste sentido, desde a voz de Karen Casey, surpreendentemente parecida com a de Triona Ní Dhomnaill, até ao recurso a um tipo de reportório idêntico ao usado pela mítica formação dos anos 70, de que é exemplo o “set” de “reels” correspondente à faixa número dois, que os Bothy Band já haviam tocado em “Old Hag You Have Killed Me”, embora num e noutro caso os temas tenham títulos diferentes, o que, de resto, acontece com frequência no cancioneiro irlandês.
E não só: também as técnicas de guitarra e banjo de Seamus Egan apontam para o mestrado de Donnal Lunny, assim como a notável fluência violinística de Winifried Horan evoca o primado de Kevin Burke. Mas “Sunny Spells And Scattered Showers” é, acima de tudo, um álbum para saborear de ponta a ponta, marcado por uma energia inesgotável e pela entrega total dos seus intervenientes. Arriscamo-nos a dizer que os Solás terão, inclusive, ultrapassado os Dervish, na corrida entre os grupos da nova geração. Na Ilha, a competição é “feroz”. A bem de uma tradição que, deste modo, constantemente se renova e perpetua. (Shanachie, 9)

Dervish que, no seu mais novo trabalho, resolveram mostrar-se ao vivo, num duplo álbum, “Live In Palma”, registado a 10 de Abril deste ano no Teatre Principal realizado nessa cidade espanhola. Ao longo de duas horas, intercalam-se “sets” instrumentais – onde pontificam a flauta e os “whistles” de Liam Kelly, o acordeão de Shane Mitchell e o violino de Shane McAleer, três executantes em permanente evolução, atingindo aqui níveis de altíssima qualidade – com baladas interpretadas, de forma superlativa, pela nossa bem-amada Cathy Jordan, , cuja voz está cada vez mais sensual, um autêntico afago…, embora, lá está, a sombra da grande Triona assome por mais de uma vez, como na balada em gaélico “Máire mhór”, e interlúdios falados de paresentação dos temas. “Live in Palma” é um reencontro estimulante com a banda que ainda há bem pouco nos presenteou com a obra-prima “At The End Of The Day”, recordando as noites inesquecíveis oferecidas pelo grupo numa das edições do Festival Intercéltico do Porto. Um dos grandes discos ao vivo do ano. (Whirling Discs, 9).

Os Bothy Band voltam a ser citados a propósito dos Open House e dos Patrick Street, outras duas bandas que já nos visitaram (integradas, respectivamente, nas programações da Festa do “Avante!” de há dois anos e do Intercéltico deste ano), já que o seu violinista é Kevin Burke, um dos nomes de referência da música irlandesa actual.
Em qualquer destes trabalhos nota-se, em primeiro lugar, a idade dos músicos! Compare-se o som e a atitude dos Open House e dos Patrick Street com a dos Solçás e dos Dervish. Pois. É a diferença entre quem vive a música como se o mundo acabasse amanhã, entregando-se-lhe sem reservas e quem a sente já com outra sabedoria e distância. Se a componente rírmica, em qualquer destas duas bandas mais velhas, pode dar a sensação de perder na comparação com a das suas congéneres mais jovens, as subtilezas contidas na expresão e na interiorização compensam este défice, real ou paarente. Outra das características das bandas mais velhas é a saída para outras músicas, talvez em busca de uma irrecuperável frescura e de novas fontes de inspiração. Fenómeno que, em si, nada tem de negativo – basta lembrar os casos de outros veteranos célebres, como os Chieftains, House Band ou os próprios Planxty.
Em “Hoof and Mouth”, terceiro ábum da sua discografia, os Open House vão à Eslovénia, à Sérvia, à Bretanha, à Finlândia e a um original de Laura Nyro, já para não falar das tendências 2bluesy” e “country” do seu tocador de harmónica, o norte-americano Mark Graham, das sessões de sapateado de Sandy Silva e do clarinete, muito anos 40, ainda de Mark Chpaman. A Irlanda profunda força a entrada através das “uillean pipes” do convidado Ged Foley, dos Patrick Street, precisamente. Sem pressas, os Open House vão construindo uma reputação, num álbum mais calmo e “americanizado” que os seus antecessores. (Green Linet, 7).
Os Patrick Street são “mais irlandeses”. Uma banda clássica, no sentido em que se mantém fiel ao estilo tradicional, embora também em “Made In Cork” seja notório um menor fulgor instrumental, em comparação com grupos como os Solás, Dervish, Skylark, Trian ou o com fogo interior que anima Eillen Ivers (Altan e Déanta são casos especiais, evidenciando uma atitude mais pacificadora).
Depois de uma digresão pelos Estados Unidos, a superbanda formada por Burke, Andy Irvine, Ged Foley e Jackie Daly regressou ao coração da Ilha, para gravar em Cork este seu novo registo. Anote-se, também aqui, em paralelo com os Open House, as tónicas da serenidade e dos andamentos médios, com a curiosidade de se sentirem diferenças no “approach” do violino, numa e noutra banda, por parte de Kevin Burke, aqui muito mais sincopado do que nos Open House. Claro, os Patrick Street, se outros trunfos não tivessem, conseguem ser diferentes de toda a concorrência, por obra e graça de uma voz, única na Irlanda, pertencente a Andy Irvine, verdadeiro mago na arte de emprestar ternura e saudade (que nos perdoem os puristas da língua, mas pensamos ser este sentimento comum a Portugal e à Irlanda…) a uma balada. Mas, ainda aqui, faz impressão verificar uma certa falta de nervo. A idade não perdoa… (Green Linnet, 7).
Por fim, recordemos as origens. Os Bothy Band, para quem ainda não saiba, foram uma das primeiras bandas a transformar a “irish music” numa música capaz de provocar nas audiências mais jovens a mesma excitação do rock. A reedição de “Live In Concert, BBC Radio One” inclui duas sessões do grupo ao vivo, em Londres, transmitidas, via rádio, pela Radio One. A primeira, gravada no BBC Paris Theatre, a 15 de Junho de 1976. A segunda, em The National, Kilburn, a 24 de Julho de 1978, ou seja no auge criativo desta banda, que deixou para a posteridade apenas três álbuns de estúdio, “The Bothy Band”, “Old hag You Have Killed Me” e “Out Of The Wind Into The Sun”, sendo, todavia, qualquer deles, registos-chave de toda a “folk” irlandesa.
Em cada uma destas ocasiões, o grupo apresentou um “uillean piper” diferente: Peter Brown, na primeira; Paddy Keenan, na segunda. O interessante neste disco é a demonstração do facto de os Bothy Band serem uma nbanda de tal modo proficiente em termos instrumentais que as versões ao vivo, tanto instrumentais como vocais, eram praticamente idênticas aos sofisticados arranjos de estúdio.
Nota-se isso mesmo, por exemplo, no clásico tema de “mouth music” de “Old Hag…”, “Fionnghuala”, e em todos os “sets” instrumentais, como aquele que se inicia com “Michael Gorman” (desse mesmo álbum), contendo uma estarrecedora prestação de Peter Brown, na “uillean pipes”. Não deixa, então, de ser espantoso que, no disco de estúdio, o mesmíssimo tema seja tocado praticamente da mesma forma por outro músico, o qual se viria a notabilizar como gaiteiro da banda, Paddy Keenan!…
Isto só prova a formidável unidade e coesão (enquanto duraram…) dos Bothy Band. “Live In Concert” acaba por ser um condensado dos álbuns de estúdio, interessante, sobretudo, do ponto de vista de uma apreciação técnica dos seus elementos. (Green Linnet, 8, todos os álbuns com distri. MC – Mundo da Canção).

Füxa – Accretion

18.12.1998
Füxa
Accretion (8)
Mind Expansion, import. FNAC

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Indiferentes ao esvaziamento progressivo do termo pós-rock os ingleses Füxa não esmorecem no seu empreendimento de redescoberta e utilização das sonoridades do sintetizador Moog que os Progressivos dos anos 70 usaram e abusaram há quase 30 anos atrás. Depois da violência escamosa e de uma certa faceta ritualística do seu disco de estreia, “3 Field Rotation” e da estranha obsessão com o órgão electrónico presente no posterior “Very Well Organized”, os Füxa parecem agora, mais do que nunca, extasiados, com a manipulação dos famosos filtros de frequência do Moog. “Accretion” é um manancial de sonoridades analógicas imediatamente reconhecíveis, de blips, e oims (peças como “City”, “Metro”, “Some soviet station” e “Karmaloop” são, neste particular, verdadeiros rebuçados para o ouvido) às quais, contudo, os Fuxa conferem uma aura de excitação e de novidade, como se este som só agora fizesse sentido, num trabalho de higiene contra o terrível branco asséptico de projectos de escritório como Oval e Microstoria. Com os Füxa os sintetizadores tornam-se de novo máquinas ao serviço dos humanos, com as imperfeições próprias de quem as manuseia mas também com a frescura e o deslumbramento de crianças a desmontarem os seus brinquedos. O “hip hop” é atirado para o caixote de lixo dos detritos sonoros (o mesmo caixote de lixo amachucado que os Jessamine poliram e deixaram estragar no seu novo álbum…) em “Convective envelope”, enquanto “Landings” relembra as velhas cerimónias rítmicas de “3 Field Rotation” e “Tonality” presta uma engraçada vassalagem aos OMD. Não podia ser mais pós-rock esta massagem sónica que os Füxa nos oferecem com a candura de quem sabe retirar o máximo prazer do som.