Arquivo da Categoria: Críticas 1998

La! Neu? – “Zeeland” (self conj.)

24.07.1998

La! Neu?
Zeeland (7)
Rembrandt (8)
Die With Dignity: Kraut? (8)
Captain Trip, distri. Ananana

O Novo Também Morre

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“I’m trying to get you real when you are not”. A frase é cantada obsessivamente por uma voz feminina, ao longo dos oito minutos do tema de abertura, “To get you real”, de “Zeeland”, segundo álbum dos La! Neu?. ”Estou a tentar-me tornar-te real quando tu não o és”. É exactamente o que tem feito Klaus Dinger, o ex-Kraftwerk fundador dos Neu!, banda emblemática do “krautrock” dos anos 70 e dos La Düsseldorf, que fizeram a ligação do “krautrock” com o “punk”. Ao criar, já nos anos 90, os La! Neu?, uma aglutinação do nome destas duas bandas, Dinger perpetuou uma ilusão que no álbum de estreia, adequadamente intitulado “Düsseldorf”, levava ao absurdo um som característico que alguma crítica estrangeira apelidou de “motorika”: Batida seca e repetitiva, electrónica minimalista e tonalidades de folclore bávaro que nos La Düsseldorf chegaram a rondar o “kitsch”. A ilusão funcionou mas a realidade acabou por se impor. Os La! Neu? Nunca foram um grupo na verdadeira acepção da palavra (ao contrário dos Neu! e dos La Düsseldorf, onde era indispensável a presença do irmão de Klaus, Thomas Dinger) mas um projecto provisório que o próprio Klaus Dinger acabou por abandonar.
Os posteriores desenvolvimentos com a designação de La! Neu?, agora chegados em simultâneo ao mercado nacional, demonstram facetas curiosas da investida recente do “krautrock” nos anos 90. “Zeeland”, gravado ao vivo em estúdio no ano passado, reúne Klaus Dinger, a vocalista Viktoria Wehrmeister, Rembrandt Lensink e Andreas Reihser, teclista dos Kreidler. Viktoria canta como Xana, dos Rádio Macau, no já citado tema de abertura. Os 15 minutos de “Dank je sane” alternam entre a batida dos Neu! e “Ralf & Florian” dos Kraftwerk. Os Can, os Neu! e os Stereolab cruzam-se em “Champagne”, tipicamente “pós-rock”, se nos é permitido o paradoxo. Há ainda os típicos momentos de distensão com guitarra acústica e vozes desmaiadas que em “Neu175” eram puras ondas de prazer e a mãe de Klaus Dinger, Renate, a resuscitar Marlene Dietrich e velhas grafonolas da 2ª Grande Guerra, em “Zeeland”. Um álbum em que só a voz de Viktoria parece estar a mais…
“Rembrandt”, editado já este ano, intitulado a partir do nome de Rembrandt Lensing, é uma colecção de 25 miniaturas electrónicas gravadas em directo que já estão muito para lá das sonoridades arquetípicas do “krautrock”. É o álbum mais experimental dos La! Neu? Construído a partir de colagens de fragmentos sonoros que resultam numa imensa riqueza imagística, nas proximidades do ambientalismo industrial. Não aparece indicada a constituição do grupo.
“Die With Dignity: Kraut?”, também de 1998, ostenta um novo título paradigmático que, neste caso, é também o epitáfio dos La! Neu?. Pelo menos enquanto veículo de expressão de Klaus Dinger que já não participa neste disco, funcionando apenas como uma espécie de consultor e supervisor musical. Uns tais Brenner, Broszat e Guderia surgem como os três elementos principais da mais recente encaranação dos La! Neu?. Ou tratar-se-á, simplesmente, de uma brincadeira? Seja como fôr, “Die With Dignity” é uma deliciosa sinfonização de ruído, melodias “naif”, colagens (uma coz de criança sobre uma espécie de “scratch”, em “Kinderlied”), pós-rock saturado(“Kochrezept”, “Feuertag”), folk teutónico com sabor cósmico, a la Hoederlin e Emtidi (“Anruf aus brasilien”, “Magischer Traum”), Jazz com influências dos Faust, de “So Far” (“Ein Wahn”) e furiosas torrentes de ritmo pós-punk (“Es tut mir leid, ich bin normal”, “Peço desculpa por ser normal”), de uma brutalidade ainda mais intensa que a do álbum de estreia do grupo, “Düsseldorf”. A morte com dignidade do “krautrock”, segundo so La! Neu?, funciona como o derradeiro dos paradoxos, um exercício de ginástica que faz coincidir a sua negação com uma recuperação notável do “novo” – “neu” – que desde sempre o grupo de Klaus Dinger perseguiu.
Pela Captain Trip chegaram também álbuns dos Amon Düül II e La Düsseldorf (discografias completas), Klaus e Thomas Dinger a solo, Mani Neumeier, Spacebox (de Uli Trepte), Workshop (e se os Can, afinal, estivessem vivos?), Cluster (ao vivo no Japão), Die Krupps, Dunkelziffer (novo, ao vivo), Space Explosion, Tiere der Nacht e S.Y.P.H. (com Holger Czukay).

Jessamine – “Another Fictionalized History”

29.05.1998

Jessamine
Another Fictionalized History
Histrionic, import. FNAC, (7)

LINK (self-titled, 1994)

“Another Fictionalized History” reúne “singles”, lados B e alguns EP dos Jessamine, uma das bandas de pós-rock da primeira geração. Música de extraordinária densidade tímbrica, resultante da mastigação de sonoridades ultra-analógicas algures entre os delírios de um amplificador a válvulas e um avião de carga em queda livre. As guitarras, amassadas no meio do conglomerado de lataria, contrastam com a suavidade da voz de Dawn Smithson. Os Jessamine têm, além disso, padrinhos de peso: os Suicide, de quem, a abrir o disco, repescam “Cheree”, e os Silver Apples (grupo que, em 1968, antecipava precisamente os Suicide, com Simeon Coxe a fazer literalmente explodir o seu sistema de osciladores acoplados), numa versão de “Oscillations”. Também disponível está o álbum de estreia dos Jessamine – mais do tipo vai ou racha, cúmplice da brutalidade pós-punk -, “The Long Arm of Coincidence”.

Harmonia 76 – “Tracks & Traces”

28.02.1998

Harmonia 76
Tracks & Traces (9)
S3, distri. Sony Música

LINK

Michael Rother, elemento dos Neu!, após a edição do segundo álbum do grupo, “Neu!2”, juntou-se a Dieter Moebius e Hans-Joachim Roedelius, os Cluster. O trio foi baptizado como “Harmonia” e, durante a sua curta existência, gravou dois clássicos do “krautrock”, “Muzik Von Harmonia” e “DeLuxe”. Os Cluster, ultrapassada a fase do industrialismo, abriam a paleta electrónica ao ambientalismo, chegando aos ouvidos de Brian Eno, que num ápice se juntou ao duo, colaboração da qual resultaram os álbuns “Cluster & Eno” e “After the Heat”. O que permanecia, até agora, inédito eram as gravações de Eno com Moebius, Roedelius e… Rother, ou seja, com os Harmonia. “Tracks & Traces”, gravado em 1976 – daí a nova designação de “Harmonia 76” escolhida para o colectivo -, é a peça que faltava numa boa colecção de “Krautrock” dos anos 70. A pura “Kozsmische muzik” do longo tema “Sometimes in Autumn” alterna com a faceta mais rítmica dos Neu!, o experimentalismo abstracto de Moebius e o romantismo de Roedelius, com Eno a garantir a coesão estética do projecto, acrescentando-lhe uma das suas típicas canções vocalizadas (“Luneburg heath”), uma das vértebras fulcarias de “After the Heat”. Com som radioso e electrónica analógica em todo o seu esplendor, “Tracks & Traces” constitui desde já um novo manual de consulta obrigatória para os actuais “pós-rockers”.