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Lászlo Hortobagyi – Ritual Music Of The Formal – Hoot Al-Ganoubi (self conj.)

20.02.1998
Infecção Nas Amígdalas Do Mundo
“A Gayan Uttejak Society oferece-lhe uma viagem imaginária através do Império de Amygdala, no espírito de uma expedição etnomusicológica da mudança do século. ‘Traditional Music Of Amygdala’ é uma ficção musicológica e sociológica com raízes na cultura humana, no que diz respeito à alienação e à morte, envolvidos em rituais e mistérios. ‘Amygdala’ (‘Corpus Amygdaloideum’) deve ser procurado no nosso cérebro: escondido no seu interior encontra-se o comportamento humano, herdado geneticamente, e o sistema institivo formado pela cultura e o meio ambiente.”

A citação, retirada da capa, serve de pórtico de entrada para “Traditional Music Of Amygdala” (9), álbum de estreia (1991) do húngaro Lászlo Hortobagyi – cuja discografia completa surge agora pela primeira vez em Portugal no selo Erdenklang, com distribuição da Megamúsica -, na sequência da colectânea “The Transglobal and Magic Sounds of Lászlo Hortobagyi”, já recenseada nas páginas deste suplemento. Agora é a história completa. Um universo mágico equivalente ao “Senhor dos Anéis” de Tolkien, na literatura, ou ao épico musical/filosófico/linguístico em torno do planeta Kobaia, imaginado por Christian Vander com os Magma.
Lászlo Hortobagyi criou a Gayan Uttejak Society em 1981, em Budapeste, uma organização da qual faz parte um estúdio de gravação e um arquivo de músicas orientais, único existente no Leste europeu. O nome que lhe foi atribuído pelo músico húngaro foi retirado de uma sociedade de músicos hindo-muçulmanos, fundada por V. N. Bhatkande em 1884 e extinta em 1917.
A partir destes pressupostos, em que a teoria e a história se confundem com o sonho, e com estes meios, a viagem torna-se imprevisível. Hortobagyi encara a música étnica como os Residents encaram a música de dança ou os Biota a música electro-acústica. É uma perspectiva desfocada e deformada, um híbrido multifacetado, um mutante alucinatório, com os mesmos contornos trémulos das falsas pinturas de Max Ernst que o próprio compositor pintou algumas das suas obras.
Hortobagyi mistura ritmos tecno com “drones” indianas e cântico gregoriano da Idade Média. Percussões rituais com maquinaria industrial, danças “folk” com sequenciações electrónicas e samplagens ficcionais. “The ritual of Mahãparinirvãna”, “The marg of Excessus”, “The Inanis mantra” e “Hypotaxis” são alguns dos títulos da primeira incursão de Hortobagyi nas circunvalações do cérebro infectado de Amygdala, cuja alquimia sonora não deixa de evocar uma obra como “Zamia Lehmanni”, dos SPK. O livrete inclui a descrição de mitos e fotos (incluindo montagens de arquitecturas tradicionais unificadas num território comum) deste universo, onde os “factos” se confundem com a imaginação.

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Os “Anais da Sociedade Gayan Uttejak” prosseguem com “Ritual Music Of The Formal – Hoot Al-Ganoubi” (8), editado em 1994. Aberrações de pedra projectadas em holograma, contra a constelação mítica dos árabes, “Formal – Hoot Al-Ganoubi”, igualmente uma obra esotérica escrita no séc. XII. “Barocous raga”, um dos temas incluídos na colectânea “The Transglobal…”, inclui “música matemática de meditação, segundo uma oração rezada por Sâlâtu Al-Maghribi na mesquita”. A instrumentação inclui tablas digitais e “Tânpurine dream”, executado por Cyb.R.S.-77o. O Coro da Catedral de Yeb Shera Hafizullâh e a orquestra de Cibavit Eros Al-Urmawi e do rasta eléctrico Mirmengül, a par da utilização de “miseclestial metals”, juntam-se em “Geetajürk”, uma cantata turca-barroca ao estilo das tradições Ars Transoxania Rediviva. Mais acessível que “Amygdala”, “Al-Ganoubi” inclui pela primeira vez uma batida tecno em “Awrâd-î-abbá thulie2.
Não é tão confuso como parece. Em cada um dos seus trabalhos, Hortobagyi recicla músicas, técnicas, estilos e tradições reais, do Ocidente e do Oriente, de localização e proveniência explícitas, como a cantata, o “concerto”, a raga indiana, o “taqasim” árabe ou o cântico gregoriano, para chegar a algo que oscila entre o pesadelo, a hipnose e o encantamento. Imaginem os sons, todos os sons, compilados pela dupla Roberto Musci/Giovani Vennosta, concentrados numa ideia totalitária elaborada por um homem só.
Segundo a mesma lógica, o capítulo seguinte dos Anais, “The Arcadian Collection”, faz a conversão da Idade Média, plasmando-a, ainda, na Índia e nos países árabes, como são percebidos por Lászlo Hortobagyi num tema capitular como “Rex Virginium”. Uma colecção elaborada a partir do Departamento de Etnomusicologia de Computadores da Sociedade Gáyan Uttejak. Mais dançável e joagando menos com o efeito surpresa. O fantasma de Demetrio Stratos, dos Area, canta no tema de abertura. Música recomendada para “late night trips” e “trance moments” como se sugere na contracapa.
Orqeustras de gamelão indonésio fazem casamentos contranatura com o canto de monges, cromornas medievais choram em conjunto com os sintetizadores. Um órgão de igreja abre as portas do Paraíso. Ou do Inferno. A solução final para a música do mundo. É a resposta de Hortobagyi ao domínio e expansão das sociedades industriais modernas sobre as civilizações tradicionais, no seu processo de transformação do mundo, expressa nas práticas filosóficas e musicais da sociedade Gãyan Uttejak.
“todas as culturas tradicionais que são estranhas à tecnologia ocidental”, diz Hortobagyi, “estão condenadas à extinção.” O paradoxo, que se confunde xom a própria essência da arte total deste húngaro visionário, é o mesmo que, em termos civilizacionais, se traduz na exclusão das tradições ancestrais da macrocélula pancultural, dominada pela informação, na qual, a curto prazo, se transformará o planeta. A pluralidade exclui a diversidade. Ou transforma-a em modelos de consumo, imagens cutâneas de movimentos da alma e do mundo que se perderam.
Lászlo Hortobagyi devolve-nos o Apocalipse sob a forma de entretenimento, mas também de uma ironia cerrada a par de uma genuína manutenção das fórmulas tradicionais. O seu trabalho é o da preservação através da ocultação e da deformação. Subversão estética de características absolutamente idênticas Às do método paranóico-crítico seguido por Salvador Dali. Nesta medida, Lászlo Hortobagyi é um surrealista de pleno direito (não estão lá por acaso as tais pinturas ernstianas…) e toda a sua obra é uma emanação sistematizada do inconsciente.
A “6th All-India Music Conference” (8), que constitui o álbum seguinte, de 1995, nos seus híbridos – agora de conteúdo já plenamente perceptível a partir de títulos como “Russian chakra” ou “Ragamelan” -, avança um novo passo nessa renovada sistematização do realismo fantástico. Trata-se, desta feita, de uma selecção de temas de “música indo-europeia”, seleccionadas da … de uma série de apresentações ao vivo de música clássica indiana. Como seria de esperar, o disco foi inteiramente gravado nos estúdios Ayan Uttejak, soando a tudo menos a música indiana e saindo reforçada a componente electrónica. Klaus Schulze leu Rabindranath Tagore sob os efeitos de LSD ao som e uma ópera de Verdi.
“Terra Dei” (7), quinta estação dos Anais, sugere, na apresentação, um disco de música antiga, mas é o seu oposto, genuína etnotecno do fim dos tempos, ainda uma alucinação cuidadosamente contextualizada, no âmbito de uma incursão psíquica sem precedentes na música popular deste século. Música da luz, música da Idade das Trevas, “Terra Dei” mergulha-nos na dúvida, fazendo tábua-rasa das nossas percepções e deitando por terra todas as ideologias. Fuga e transcendência. “Hemis – mela”, é um “cerimónia de cogumelos dos seres de Zeta Reticulum” e os quinze minutos finais de dança de baixas frequências cerimoniais de “Trance Macabre” avançam através de vozes sintonizadas na miragem de um “acid choral”.
“Terra Dei”, para dançar nas pistas dos piores pesadelos tecnológicos, converte a lógica dos Enigma no contexto do sagrado. É o álbum de um falso deus criado pelo homem e, nesta perspectiva, um deus para quem “a coisa mais maravilhosa é a destruição. Uma arte sinónimo de alienação da espécie humana e da sua consciência postiça condicionada artificialmente”. Por isso, acrescenta Hortobagyi, a música de “Terra Dei”, “apesar de pretender ser um êxodo espiritual de um mundo que se tornou inabitável”, é também “uma reflexão cheia de esperança” sobre esse mesmo mundo, um “mundo que já não é igual ao originalmente criado mas um mundo esmagado”.
Lászlo Hortobagyi aconselha a perdermo-nos e a encontrarmo-nos “na ficção e na realidade”. O difícil é sair de lá.

Ceolbeg – Ceolbeg 5 (conj.)

16.01.1998
WORLD/CELTA
Remissão Dos Pecados
Se nalguns casos a passagem do tempo pode descaracterizar a música, noutros tem como efeito o apuro de qualidade e de um estilo. Foi o que aconteceu a três nomes conceituados da folk céltica, cujas gravações nem sempre têm estado à altura dos seus pergaminhos: Dan Ar Braz, Na lúa e Ceolberg. Os respectivos novos álbuns são, qualquer deles, agradáveis surpresas. O som das harpas continua a ser de luz, a julgar pelos novos trabalhos de Wendy Stewart e das Sileas.

Bem-vindo, senhor Dan Ar Braz, ao grupo dos que recusam o supérfluo e a mistificação. Para este antigo guitarrista de Alan Stivell abriram-se de novo portas que pareciam estar em definitivo encerradas pela fase inicial do seu percurso a solo – marcado por exercícios de estilo em torno de um certo “celtic jazz” com tradições na Bretanha, mas envolto numa aura de “easy listening” pouco exigente. Mas Dan Ar Braz emendou a mão, oferecendo-nos em “Finisterres” uma lição sobre como fazer uma música endereçada às maiorias, sem ceder a fórmulas de massificação gratuita.
Mais ainda que “L´Héritage des Celtes”, que passou a servir de designação ao colectivo de participantes, “Finisterres” começa por ser uma agremiação arrepiante de nomes sonates da música de raiz celta europeia: Donal Lunny, Noel Bridgeman, Nollaig Casey, Jacques Pellen, Donald Shaw, Gilles LeBigot, Carlos Nunez, Sharon Shannon, Karen Matheson, Maíre Ní Chatasaigh, Gilles Servat, Mairtin O’Connor, Liam O’Flynn e a Bagad Kemper, entre outros de menor nomeada.
Poderia ser um catálogo de venda a retalho, mas não é. Com alguma surpresa, dados os antecedentes, “Finisterres” demonstra um propósito e uma unidade fora do comum. Evidentemente, tudo funciona na mesma escala de proporção de peso dos nomes presentes, mas sem que alguma vez se sinta esse outro peso, bem menos dignificante, do excesso.
Sabe bem escutar Carlos Nunez, por uma vez liberto da tentação do protagonismo fácil, retomando o gosto pela singeleza, no tradicional “La Costa De Galicia”, com arranjo seu e de Donal Lunny a quem coube a produção geral do projecto. Também é preciso dizer que tem a seu lado, neste tema, Sharon shannon, para o pôr no lugar.
Há aqui de tudo para todos, pop e tradição enlaçados, vozes antigas e modernas, pormenores de excelência técnica inseridos no sítio certo, confeccionados como um bolo, no qual, desta feita, Dan Ar Braz se preocupou menos com a cobertura de açucar do que com a qualidade da massa.
Fusão? Sem dúvida, da tradição mais antiga com a linguagem da electricidade e da actualidade, como exemplarmente é ilustrado por “Labroella”, tema onde a ancestralidade do canto de Manu Lanhuel se enquadra de forma natural no estilo, quase progressivo, das guitarras, eléctricas e de 12 cordas acústicas de Dan Ar Braz e Jacques Pellen. Outro apontamento digno de registo desta aliança entre dois tempos diferentes encontra-se, logo a seguir, no magnífico diálogo a três mantido entre as “uillean pipes” de Ronan Le Bars, o violino de Nollaig Casey e o acordeão diatónico de Donald Shaw, num “irish breton folk rock” cheio de vitalidade e frescura (Saint George, distri, Sony Música, 7).

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Com 18 anos de existência os escoceses Ceolbeg têm tido uma carreira atribulada, marcada quer pela troca de músicos quer pela escassa, e nem sempre exemplar, produção discográfica. “Ceolbeg 5”, como o nome indica, o quinto álbum desta banda – que já actuou ao vivo entre nós, num concerto na Amadora -, merece rasgados elogios. Se num passado recente, em álbuns como “Seeds To The Wind” e “An Unfair Dance”, a dinâmica musical funcionava com base na alternância entre baladas vocais, nem sempre interpretadas de forma imaculada (os Ceolbeg nunca brilharam por ter bons vocalistas…) e instrumentais construídos sobre uma rítmica declaradamente rock, em “Ceolbeg 5”, verifica-se uma inflexão de 180 graus.
desapareceu o rock e apareceu em seu lugar uma subtileza instrumental (antes a tónica era posta na energia) que há muito não se via no grupo. Os Ceolbeg são, pelo menos por agora, um grupo clássico, capaz de viajar com a mesma segurança pelo “drive” poderoso das “Highland pipes”, em todos os “sets” a que é chamado a participar o novo elemento Mike Katz, e a poesia da voz, da “clarsach” (harpa escocesa), ou da harpa electrificada de Wendy Stewart, que neste álbum alarga os seus dotes de executante à concertina.
Como que não querendo cortar de forma abrupta com um passado feito de algumas cedências, os Ceolbeg ficaram-se desta vez, felizmente, em termos de “fusão”, apenas pela escrita. Assim, o “jazz funk” mencionado no tema inicial é sobretudo um estado de espírito que anima a incandescência das “pipes”, bem como o “reggae” (que ainda há bem pouco fez naufragar os Ceolbeg nas águas de algum mau gosto…) não passa de nota de rodapé numa composição de Robert Burns (“Willie Wastle”), onde se projecta uma hipotética passagem deste noma mítico da música e da poesia escocesas pela Jamaica.
Mesmo em “The Nodding Song”, outra composição de Robert Burns, o compasso de ressonâncias jamaicanas dilui-se no fraseado da harpa e na fluência e acentos, absolutamente célticos, da gaita-de-foles de Mike Katz. O último tema, “The Gaberlunzie Man”, reforça de forma definitiva o novo estatuto dos Ceolbeg: é uma balada de extraordinária beleza, cujas entoações vocais mergulham no mais puro estilo tradicional e onde todas as partes, do tapete de teclas clássicas, à harpa e às “Highland pipes”, funcionam ao serviço da magia desta composição épica. Está ao nível do melhor que se pode encontrar no clássico “Celtic Hotel”, dos Battlefield Band, aos quais os Ceolbeg começam a morder os calcanhares.
Temos Ceolbeg naquele que é, sem sombra de dúvida, o seu melhor álbum de sempre (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

Wendy Stewart, harpista dos Ceolbeg, prossegue com “About Time 2” a sua aventura a solo, iniciada em moldes semelhantes na estreia, “About Time”. Nas variantes acústica e electrificada da harpa, em concertina, e voz, Wendy faz-se acompanhar neste seu segundo registo por três seus antigos companheiros no grupo, Gary West, nas “scottish small pipes” e “low whistles”; Colin Matheson, na guitarra; e Jim Walker, em tambor e percussões.
Álbum feito de delicadeza, sempre que a harpa murmura os seus “airs” e marchas tecidas em filigrana, “About Time” apresenta uma curiosa selecção de temas, que inclui, além de tradicionais e originais da harpista, versões de “The Kitchen Piper”, de Donald McLeod, “The January Man”, de Dave Goulder (cuja vocalização faz lembrar uma June Tabor de voz mais doce), e “Fotheringay”, um dos temas mais antigos dos Fairport Convention, com a assinatura de Sandy Denny, aqui mergulhando numa melancolia tão ou mais forte que a do original. “Rachael Rae” transporta colorações da música árabe da Idade Média para a harpa, “Fish Feis” é “swingante” e “jazzy” à maneira de uma Savourna Stevenson, a gaita-de-foles balouça com languidez em “Probabobaly”, a “tentativa de composição de uma marcha, em estado de embriaguez, dos Ceolbeg, descrita pelo baterista do grupo como ‘probabobaly the best tune in the world…’”.
Um álbum para ouvir em rectao em locais como Sintra, nas margens de um lago subterrâneo, ou num castelo por cima das nuvens (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

A harpa domina ainda “Play on Light”, quarto álbum, depois de “Delighted With Harps”, “Beating Harps” e “Harpbreakers”, das Sileas, um duo formado por dois expoentes deste instrumento, as escocesas Mary MacMaster e Patsy Seddon, também pertencentes às Poozies e aos Clan Alba. Muito mais que o disco de Wendy Stewart, “Play on Light” é em primeiro lugar um trabalho dedicado em exclusivo a um instrumento específico, a harpa, que agradará sobretudo aos apreciadores dos estilos e da sonoridade deste instrumento, mas ao qual um ouvido mais generalista não conseguirá ficar indiferente. A este impressionará, provavelmente, mais do que os pormenores técnicos e de expressão das duas executantes, a beleza das baladas vocalizadas, a solo ou em suaves harmonizações em dueto, por uma e por outra. Para entrar em bicos de pés e com os ouvidos, muito, muito limpos. (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

Confessamos o nosso relativo desapego pela música dos galegos Na Lúa, cuja principal virtude terá sido, até agora, a de revelar a voz da nossa bem conhecida Uxia. Como acontece com inusitada frequência na Galiza, a música dos Na Lúa padeceu quase sempre de indefinição, hesitando entre uma prática fusionista e comercial e a entrega a uma leitura mais profunda do reportório tradicional galego. Na mesma altura em que pela primeira vez surge no nosso mercado o álbum de estreia do grupo, “Na Lúa”, marcado por alguma incipiência técnica mas onde são já visíveis as diversas e díspares vertentes que determinariam a posterior evolução do grupo, este novo “Os Tempos Son Chegados” vem revelar algumas qualidades pouco exploradas na sua obra anterior. Sem abandonar o gosto por outras músicas, aqui expreso, por exemplo, no cunho cubano imprimido ao título-tema, muito Sierra Maestra (Santiago de Compostela ligada por laços invisíveis a Santiago de Cuba?…), os Na Lúa, por força da insistência numa sonoridade híbrida, acabaram por criar com “Os Tempos Son Chegados” um objecto de extraordinária originalidade.
Curiosamente, pelo desejo de afirmação de uma nação galega universal, ponto de confluência de tradições múltiplas, é impossível não pensar numa idêntica visão – embora com desenvolvimentos e implicações, não só musicais como também políticas, bem mais importantes – cultivada em toda a sua produção recente pelos Milladoiro. Mas atenção, que apesar de o seu mundo ter as fronteiras mais apertadas, os Na Lúa chegam a pousar num lugar tão longínquo quanto o seu nome deixa adivinhar. A Galiza de um tema como “De Andar Camino” tem as raízes no planeta Terra e os olhos postos na Lua. “Muineiras” negras (“Ribeirana”), e “cajun” (“Cantar de Canteiros”), um coreto a comandar passos de valsa com sabor a tango (“Liberación”), a Arábia coberta de verde (“aryel”), vinho com sabor a petróleo em condutas “hornpipe” (“A aventura dos pipelines”), o Minho mais belo do que nunca (“Coro das Maçadeiras”), a Galiza dos Na Lúa enlouqueceu. Os tempos parecem, de facto, chegados para os Na Lúa afirmarem a sua diferença. As fotografias do interior da capa são magníficas. Rendemo-nos! (Do Fol, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

Nuno Canavarro – Plux Quba

11.12.1998
Reedição
Nuno Canavarro
Plux Quba (10)
Moikai, import. Ananana

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Editado originariamente em vinilo há dez anos pela Ama Romanta, “Plux Quba”, estirpado do seu subtítulo original, “Música para 70 Serpentes”, é um dos objectos mais fascinantes de sempre do universo da música electrónica produzida em Portugal. A presente reedição, só possível devido ao interesse manifestado por personalidades marcantes da cena pós-rock norte-americana (que demoraram uma eternidade até descobrirem o nome e a proveniência do autor, uma vez que na capa nenhuma indicação era dada…) escapa aos rótulos “new age” e do ambientalismo, assumindo-se como uma experiência, perfeitamente controlada e delineada, no âmbito da música de computador mas cuja originalidade é garantida pela atenção ao detalhe e à organização formal. Neste aspecto “Plux Quba” afasta-se – pela “estranheza” do seu “input” poético ou pelo uso magistral, ainda antes da era da samplagem, de colagens vocais que evocam o trabalho da dupla Roberto Musci / Giovanni Venosta (ouça-se o tema número 12) e de Steve Moore, de “A Quiet Gathering” – quer dos ciclos, mais cinematográficos, de Nuno Rebelo, quer da maior acessibilidade de “Mr. Wollogallu”, com Carlos Maria Trindade, quer ainda da aula de matemática aplicada da “Música de Baixa Fidelidade” de Tó Zé Ferreira, proposta, na mesma altura pela Ama Romanta. Exposto, enfim, com a clareza de um som imaculado, “Plux Quba” reoferece-se com uma intensidade e visibilidade que antes não lhe eram permitidas. Ontem, como hoje, para se ouvir “com as colunas o mais possível afastadas”, de preferência a baixo volume de som. Um clássico.