Arquivo da Categoria: Críticas 1994

Elena Ledda E Sonos – “Incanti”

pop rock >> quarta-feira >> 12.01.1994
world


Elena Ledda E Sonos
Incanti
Silex, distri. Etnia



Quinto álbum da cantora da Sardenha que já actuou entre nós, numa das edições dos Encontros Musicais da Tradição Europeia, após “AM=Mentos”, “Is Arrosas”, “Sonos” (com distribuição portuguesa) e “Iandimironnai”. Em relação a “Sonos”, mantém-se a colaboração com Mário Palmas. O que não se mantém é o estado de graça que atravessava a totalidade de “Sonos”. Comparado com este, os encantos de “Incanti” não têm a mesma intensidade nem o mesmo brilho, muito por culpa de um menor arrojo e algumas escolhas menos acertadas dos arranjos. “Filugnana”, o tema de abertura, e “Sa ellesa”, por exemplo, não ganham nada com a inclusão de uma bateria metida a martelo e a atirar para o chinelo. Foram-se as gaitas-de-foles e as ambiências electrónicas, substituídas pela imposição dos instrumentos de corda e um minimalismo mais do que discreto. Riccardo Tesi toca acordeão em dois temas. Se o que se pretendia era privilegiar a sobriedade, a troca não se saldou por grandes dividendos. “Sonos” era magnífico, “Incanti” fica-se pelo bonito.
Mauro não merece desta vez as palmas. Imune à sujidade continua a voz da bela Elena que, logo a seguir a “Muttos”, praticamente uma repetição de “S’abba de su nie” – um tema de “Sonos” -, faz esquecer os pontos menos bons do disco, em “Incanti” e “Anninnaire”, apoiada em duas excelentes prestações de Giorgio Baggiani no filiscórnio, finalizando a grande altura numa interpretação “a capella” de “Sa preghiera”. Uma semidesilusão. (7)

Baka Beyond – “Spirit Of The Forest”

pop rock >> quarta-feira >> 12.01.1994
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Baka Beyond
Spirit Of The Forest
Hannibal, distri. MVM



Projecto de Martin Cradick, dos Outback, e da sua mulher Su Hart, baseado na música dos pigmeus Baka, habitantes da floresta que se ergue na fronteira entre os Camarões e o Congo, quando da estada dos dois nesta região, em 1992. “Spirit of the Forest” é constituído por temas compostos por Cradick, embora com base na música dos pigmeus, versões de composições dos Baka ou simplesmente música inspirada na própria floresta. Cradick editou, em paralelo com este, um segundo disco contendo somente sons da floresta, sem qualquer tratamento adicional.
Em “Spirit of the Forest”, Cradick juntou “samples” de percussões, uma guitarra e um bandolim às vozes gravadas “in loco” de músicos pigmeus e ao violino e flauta de Paddy Le Mercier, o único convidado ocidental. Desta convergência de sons e atitudes resultou um típico álbum de fusão que alterna um ritmo quase sempre irresistível, como no imparável “The man who danced too slowly”, com as sonoridades da guitarra e do bandolim, quase ao estilo de um Júlio Pereira africano. “Bounaka” é outro ponto alto da reunião, uma celebração do espírito da floresta personificada na voz colectiva de Cradick, Su Martin, Bounaka e o coro dos pigmeus Baka, com “samples”, violino, pífaro, guitarra, bandolim e uma kora. Música de dança, para o corpo e para o espírito. (7)

Ingrid Karklins – “A Darker Passion”

pop rock >> quarta-feira >> 12.01.1994
world


Passagem Para O Desconhecido

Ingrid Karklins
A Darker Passion
Green Linnet, import. Contraverso



Pois é, a confusão aumenta a cada instante e ainda bem. World, étnica, folk, tradicional, são cada vez mais termos sinónimos de inovação. A nova música passa pela descoberta dos estratos mágicos do mundo. Definir a música de Ingrid Karklins, uma americana do Texas, filha de pais lituanos, é tarefa impossível. Muitos só com a ajuda de um microscópio conseguirão vislumbrar em “A Darker Passion” os elementos susceptíveis de integrar este álbum em qualquer uma das categorias acima enunciadas.
Comecemos pela voz, um misto de Laurie Anderson, Mari Boine Persen, Kate Bush e da canadiana, menos conhecida, Dalbello. Ou seja, uma voz que percorre sem esforço a gama vocal que vai do sussurro ao grito. A música inclui quatro temas tradicionais da Lituânia, um do Texas e outro da tradição gaélica. O resto são composições originais. A propósito desta mescla estranhíssima que alinha as percussões sampladas a flautas, violinos, saxofone, violoncelo e um “kokle” (variante lituana do “kantele” finlandês, família dos saltérios), Mário Alves, da Etnia, referiu-se a uma espécie de “efeito Hedningarna” sobre o auditor. Isto é, um choque emocional causado por uma estética sem filiação visível. Andrew Cronshaw, músico e redactor da “Folk Roots”, confessou o seu espanto e rendeu-se sem perceber muito bem a quê. Música experimental, sem dúvida. Se nos Hedningarna a matriz tradicional é ainda o esteio firme de uma música que se vai até ao ponto limite de tensão, em que um passo a mais em frente poderá significar a ruptura, em “A Darker Passion” essa ruptura está consumada. Ingrid Karklins ultrapassou o ponto a partir do qual já não há retorno. Está só, numa terra de ninguém.
Se, em temas como em “Crack the slab” e, sobretudo, “Hiro/Smitten”, é lícito resguardarmo-nos no paralelismo vocal (e mesmo estrutural) com Laurie Anderson e, em “Metenitis”, não anda distante o som dos Hedningarna, no resto do disco navegamos sem bússola nem leme pelos mares em que tudo é possível e as formas se encaixam entre si com o maior desprezo pelas escolas e movimentos instituídos. Claro que “sentimos”, mais do que percebemos, a existência de códigos conotados com a herança étnica, em faixas como “Es apkalu ozolinu/Oceans apart”, “Kupla, kupla liepa auga” ou “Visas manas sikas dziesmas”, mas, mesmo nestas, a estranheza instala-se – fruto de uma impossibilidade de reconhecimento de normas pré-existentes. Pormenores de somenos quando o prazer sobeja em nos deixarmos arrastar na descoberta de um novo continente. Imaginário, obviamente, mas onde suspeitamos que haja uma lógica escondida e um elo de ligação com algo ainda por definir. (8)