Arquivo da Categoria: Críticas 1991

Battlefield Band – “New Spring”

Pop-Rock Quarta-Feira, 11.12.1991


BATTLEFIELD BAND
New Spring
CD, Temple, distri. Mundo da Canção



Detentores de uma já extensa discografia, os Battlefield Band têm exercido um notável trabalho de dignificação e recuperação da música tradicional escocesa, equivalente, em termos de atitude e formulário estético, ao papel desempenhado na década de 70, em Inglaterra, por grupos como os Fairport Convention ou Steeleye Span. À semelhança dos nomes citados, embora menos sensíveis ao apelo da rítmica rock, os Battlefield Band procuram novas vias para a música antiga escocesa. Os resultados, na forma de disco, têm variado entre o óptimo (“There’s a Buzz”, “Celtic Hotel” e sobretudo o magnífico “Home is where the Van is”, aqueles em que a vertente tradicional não chega a ser pervertida pela, por vezes despropositada, utilização da “caixa de ritmos” electrónica) e o sofrível (“Anthem for the Common Man”, pels razões inversas às atrás apontadas ou “Homeground”, registo ao vivo onde o entusiasmo não serve de desculpa ao tom de “desbunda” para onde por vezes descamba).
“New Spring”, gravado após mais uma alteração na formação dos Battlefield Band (da original permanece o teclista Alan Reid), nada adianta em relação a anteriores trabalhos. Falta-lhe a ousadia, substituída pelo repisar de fórmulas que já se vão tornando gastas. Exemplo desta atitude de “deixar andar” é a balada “Darien”, repescagem melódica de “The rovin’ dies hard”, de “Celtic Hotel”. Permanece intocável a reconhecida competência instrumental dos músicos e o prazer de reescutar a alma céltica no som da gaita-de-foles das terras altas, de Iain MacDonald. Talvez fosse o convívio excessivo com os fantasmas que tenha retirado encanto ao castelo. (6)

Lua Extravagante – “Lua Extravagante”

Pop-Rock Quarta-Feira, 11.12.1991


OS FAVORITOS DA LUA

LUA EXTRAVAGANTE
Lua Extravagante
LP / MC / CD, EMI – Valentim de Carvalho



Música lunar. Da noite e das marés da voz. Vitorino, Janita e Carlos Salomé, e Filipa Pais cantam o lado nostálgico do ser português. É um disco de canto sofrido, de doridas harmonias. É também a prova de que é possível, em Portugal, fazer discos que voltam s costas à moda e ao efémero. Em “Lua Extravagante” não há canções que pisquem o olho à salada radiofónica. Há somente, e não é pouco, a dignidade do canto e da música vivida por dentro. A transmissão de experiências que dizem da maneira como costumávamos ser. Cruzam-se vivências da cidade (Lisboa, sempre presente, até nos antigos azulejos da cervejaria Trindade, que a capa, belíssima, retrata) e do campo. As palavras do povo encontram-se com as do poeta Pessoa, no fado e na distância. Em frente, o escuro da noite e a ilusão do mar.
“A Ilha” abre “à voz duma monção”. Vitorino pegando ainda e sempre no filão dos Descobrimentos, observados pelo prisma do sonho do qual não se regressa. O canto solta-se nos “amores primeiros”. Lua-cheia. O tema do mar regressa no romance popular “Nau Catrineta” sobre a cadência grave da sanfona de Carlos Guerreiro, instrumento que acrescenta à música da Lua Extravagante o tom exacto de profundidade, de intemporalidade da “noite antiquíssima”.
Janita Salomé dá voz aos festejos de uma casamento cigano do séc. XIX, em “Cante cigano”, cerimónia solar, de união. Filipa Pais, a voz feminina da Lua, brilha em “Adeus ó serra da Lapa”, de José Afonso, “Andorinha negra” e “Cantiga da ceifa”, um tema popular beirão recolhido por Giacometti. A altura da serra, o voo, a vastidão da grande planície alentejana, cantados por Filipa Pais, com amplitude e elevação. “Fado Pessoa” proporciona a Vitorino mais uma bela interpretação, desta vez das palavras de Fernando Pessoa, num fado em que o acordeão, muito parisiense, tocado pelo próprio, sugere a alma desenraizada no vazio urbano, “cercada com um andaime, a casa por fabricar”.
O segundo lado do disco peca por não conseguir manter o nível do primeiro. Descontando a já referida “Cantiga da ceifa”, os temas normalizam-se nas interpretações vocais, de Janita Salomé, em “Margarida do convento” e “A bela do castelo sem portas” (pese embora, neste último, a qualidade das palavras escritas por Janita, sobre o amor na sua vertente mágica e esotérica, iniciação ao “amor virgem, fonte de todas as nascentes”); de Carlos Salomé, em “Lua de papel” (destaque para a guitarra de José Peixoto); e de Vitorino, no tema que fecha o disco – “Lua extravagante” -, que de novo canta o mar e os amores (“de amores nasce a lua extravagante”), dos marinheiros e de Lisboa, retomando, no som e na temática, a canção inicial, a concluir o ciclo lunar: “Oh lua vê lá dos teus cuidados com a gente / porque o cabo mau não quer / deixa que o meu barco volte ao cais / donde parti confiante / Lisboa não pode esperar mais…”. É a hora? (7)

Cliff Richard e Eros Ramazzotti – “Madurezas”

Pop-Rock Quarta-Feira, 04.12.1991


MADUREZAS

Cliff Richard e Eros Ramazzotti personificam, à sua maneira, os lados “bom” e “mau” do Natal discográfico deste ano, fornecendo estímulos opostos ao apelo contraditório que pulsa no coração e na líbido da meia-idade. Entre a depravação e a abstinência, que venha o Pai Natal do mau gosto e escolha.



A humanidade divide-se em duas partes, como diria o sociólogo Serafim Saudade: a parte A e a parte B (sem falar na parte C, que são as minorias). No Natal, só conta a parte B. “B” de bons e boas. “B” de beleza, “B” de boa vontade. No Natal, toda a música é boa e penetra melhor nos corações. Tendo em conta o que nos é proposto pelos discos que esta quadra pousaram de trenó nas chaminés (“Música para Fazer Amor”, por exemplo), ela é capaz até de dar “uma forcinha” e ajudar a penetrar noutros lugares, quiçá mais íntimos, mas que nem por isso deixam de fazer parte da natureza humana.
Às vezes, porém, exagera-se e vai-se longe de mais. É o caso do duplo-álbum “Eros in Concert” do italiano Eros Ramazzotti. Eros era considerado pelos gregos o deus (melhor dizendo um “daimon”, demónio, no sentido de génio) do amor. Adaptando as funções do “daimon” às necessidades do coiso, e contemplando o ser na sua totalidade, Eros acabou por dar para os dois lados, como se costuma dizer. O HIV ainda hibernava.

Eros Em Acção



“Eros in Concert” é um disco e uma metáfora sobre o amor, na sua vertente “último tango”, dirigida à meia-idade – aquela que pisca muito os olhos, quando traz do clube o vídeo “hard-core”, para ver a meias com o cônjuge, numa atitude de “grande abertura de espírito”, que serve de preliminar às aberturas consequentes.
Toda a gente sabe que ao vivo é que é bom. À distância, não tem muita graça. Em estúdio, também não costuma resultar, devido à falta de espaço. Eros Ramazzotti sabe isso muito bem e trata de friccionar as líbidos das multidões, sugerindo orgias monumentais, que acabam por retirar muito de significado àquela maravilhosa diálise entre dois seres que é o amor.
Basta observar a fotografia impressa na parte interior da capa, para ficarmos a perceber as verdadeiras intenções deste pornógrafo encapotado: uma multidão ululante de braços bem erguidos para o alto, em estado de tensão latente. É óbvio que os braços são metáforas, e é neste ponto que deveria haver um pouco mais de contenção (já não digo de puidor), na exibição descarada dessa ascese gestual. Na contracapa, as coisas pioram, já que na foto é o próprio Eros que ergue o braço, com o dedo indicador bem espetado para a frente.
Depois, os títulos das canções não enganam: “Intro” (versão “soft” de “Introdução”), “Fuggo dal nulla” (“Fogo nela”), “Taxi story” (“No banco de trás”), “Ciao pà” (“Não me apetece, pá”) e “Ancora vita” (“Ainda mais depressa”). Todo um estendal de obscenidades de fazer corar o mais liberal. Mas no calor e no aconchego do lar, o casal, não de pombinhos, mas de pombos, dá cambalhotas de contente (correndo mesmo o risco de, numa pirueta mais exuberante, deitar abaixo o pinheiro de Natal) e refastela-se na perversão. Que ninguém se iluda. A cada cambalhota, a cada pinote, é toda a civilização ocidental que vacila, minada nos seus alicerces.
Nesta perspectiva “Eros in Concert” é bem um disco do nosso tempo e um exemplo acabado da atitude pós moderna, que serve de antecâmara ao apocalipse. Homens e mulheres de Portugal é isto que quereis? Não, mil vezes naaããooo! Lancemos Eros à fogueira e cantemos todos juntos um hino de Natal.

Ágape Em Descontracção



Por exemplo, o álbum de Cliff Richard, “Together”, serve na perfeição para nos limparmos do pecado e juntarmos as mãos, num gesto fraterno de amor ao próximo. Desde sempre mouco aos apelos do Eros demoníaco, Cliff Richard continua a representar o papel de rapazinho virtuoso que só dá bons conselhos e aponta o caminho da salvação (diferente do dedo ostensivo de Ramazzotti). Olhar a expressão extasiada, sobre um fundo de estrelas, que ostenta na capa, é meio caminho andado até ao paraíso. O outro meio, nem se dá por ele. Entre um suspiro e um cântico de paz, eis-nos chegados ao céu, levados pelo beicinho, ao som da voz de menino de coro de Cliff Richard.
“Saviours’s day”, “Merry Christmas to you”, “We should be together” ou “Christmas alphabet” são outros tantos hinos de amor, agora sim, na sua plenitude de comunhão (platónica, atenção!) com o próximo, dando sentido ao “ágape” que simboliza o casamento. Dar as mãos, porque não? Olhar as estrelas, porque não? Um beijo na testa antes de adormecer, porque não? São gestos bonitos, que dignificam o ser humano, exemplos a seguir por todos os homens e mulheres de boa vontade, em vez de andarem pelos caminhos da perdição e da pouca vergonha.
“Let your heart be high”, “Someday soon we all be together”, “Sleep in heavenly oeace” são apenas alguns exemplos escolhidos ao acaso das letras de canções de Cliff Richard. Palavras sábias, que calam fundo nos corações de todos. Saibamos ser dignos delas. E para os casais entrados na meia-idade aqui fica o conselho, dado pelo cantor, em “This new year”: “Don’t you depend on love that’s here then gone / this new year we’ re gonna find true love and cherish it always”. A mensagem não podia ser mais clara: “Prò ano que vem trabalhem mais e façam isso menos”. Vamos entrar na CEE e há que poupar energias. Por que não já neste Natal?



EROS RAMAZZOTTI
Eros in Concert
2XLP / CD, DDD, distri. BMG

CLIFF RICHARD
Together
LP / CD, EMI, distro, EMI – Valentim de Carvalho