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Battlefield Band – “O Campo De Batalha” (artigo de opinião)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 29 AGOSTO 1990 >> Videodiscos >> Folk

O CAMPO DE BATALHA

Da Escócia, país de lendas e nevoeiros, a música mágica dos Battlefield Band. O amor pelas lonjuras ancestrais recriado no presente e projetado no futuro. A gaita de foles e o sintetizador. A tradição, o cruzamento feérico da cidade industrial com o verde e a água da floresta.



Gravaram, até à data, doze álbuns, alguns deles peças indispensáveis numa coleção folk digna desse nome. Combinam a interpretação das canções e danças tradicionais com composições escritas pelos membros do grupo. Respeitando o espírito original, iluminando a corrente que liga a terra ao céu.
Só os amantes deste especial tipo de música saberão talvez apreciar, sentir astralmente, as vibrações que se desprendem das sonoridades tradicionais. Irmanados na congregação do Grande Templo, as portas do tempo revelando e escondendo o secreto centro. Fogo, ar, água, terra. Quatro entradas e mais uma, oculta, para o país dos sortilégios. A música fala-nos da eternidade. A tradição aponta-nos o coração ígneo, silêncio pulsante donde nasce o movimento. Em cima, esculpindo as formas do que há-de ser. Em baixo, nos pés que pulam e batem no barro, nas folhas e no húmus, bailando ao ritmo das estações, dos astros e das humanas paixões.
Os novos bardos catalisam o polo positivo do poder, raio forçando a transição entre duas épocas. Força ascensional, percorrendo os quatro eixos do mundo, enquadrando o corpo e a consciência no eixo vertical e superior. A cruz centrando a rosa. Flor de luz.

Em Casa

Os Battlefield Band não serão tão esotéricos. Neste caso, as palavras servem como orientadoras da sensibilidade. Não se ouve música folk da mesma maneira que a pop ou o rock. Aprendizagem é iniciação. A banda escocesa, uma boa escola.
A fase inicial da sua discografia, que vai de 1976 a 1979, constituída pelos três primeiros álbuns, intitulados simplesmente “Battlefield Band” 1, 2 e 3, e por “At the Front” e “Stand Easy”, não se encontra, por enquanto, disponível entre nós. A coletânea “The Story So Far” reúne material deste período, bem como de EP e cassetes da banda. É a fase da procura de uma via pessoal, a exploração de combinações instrumentais inusitadas que se tornariam num dos seus polos mais interessantes e inovadores. Saliência para algumas vocalizações femininas, a partir daí completamente ausentes dos processos musicais dos Battlefield Band.
“Home Is Where The Van Is” assinala a grande explosão. Ged Foley (que viria a formar os House Band), bandolim, guitarra, gaita de foles de Northumbrian e voz; Brian McNeill, violino, viola de arco, “bouzouki”, “cittern”, concertina, sanfona e voz; Alan Reid, teclados (órgão, piano, sintetizador) e voz; e Duncan MacGillivray, gaita de foles das terras altas, “tin whistle”, guitarra, harmónica e voz, dão corpo e alma a uma música verdadeiramente excitante, alternando temas do cancioneiro com composições originais de McNeill e Reid. É o primeiro álbum gravado para a editora Temple, de Robin Morton, que dá uma ajuda num dos temas, tocando “bodhran” (correspondente britânica do adufe).

Computando a tradição

“There’s a Buzz”, outro disco fora de série, está ao mesmo nível que o anterior. Robin Morton volta a participar, tocando trompete em “Sir Sidney Smith’s March”. Dougie Pincock, dos Kentigern, ainda na condição de artista convidado, toca flauta em “Shining Clear”, tema baseado num poema de Robert Louis Stevenson. Em “The Battle of Waterloo” fazem jus ao nome que para si escolheram, com Duncan MacGillivray e Dougie Pincock competindo nas gaitas-de-foles.
O computador de ritmos faz a sua aparição em força no álbum seguinte, “Anthem For The Common Man”, talvez o disco mais fraco, a tecnologia ainda não assimilada de molde a não perturbar a coerência estética do projeto. Ainda assim o disco vale por peças como “I Am the Common Man” ou “The Yew Tree”, em que os Battlefield fazem questão de nos presentear com extraordinárias prestações vocais. MacGillivray é entretanto substituído por Dougie Pincock, na gaita-de-foles, e Ged Foley dá lugar a Alistair Russell. A mesma via é prosseguida em “On The Rise”, com a vantagem de os ritmos computorizados encontrarem o seu justo lugar na hierarquia instrumental, funcionando de maneira mais discreta e contribuindo assim para um maior equilíbrio entre as componentes acústica e eletrónica. Mesmo assim, os puristas dão saltos ao escutar “Bad Moon Rising”, dos Creedence Clearwater Revival, transformado em jiga.

Hotel Celta Universal

“Celtic Hotel” constitui novo marco de exceção. O leque instrumental alarga-se ainda mais, com a introdução do saxofone e do “mandocello”. Os Battlefield Band assumem-se definitivamente como uma das forças criativas a ter em conta no desenvolvimento da folk escocesa, numa perspetiva semelhante à de Alan Stivell em relação à música e tradição bretãs. O som torna-se mais universal, e abre-se, em “Muineira Sul Sacrato Della Chiesa”, a essa outra fonte inesgotável da cultura e imaginário celtas que é a Galiza e à Bretanha, em “E Kostez An Henbont”, um “dro” (cadência rítmica utilizada com frequência nesta região). Brian McNeill confirma, em “The Rovin’ Dies Hard”, o estatuto de compositor à altura para contribuir com novas canções para o património cultural popular escocês, numa balada que relata o confronto entre a nova geração de músicos e o passado e legado históricos que lhes estão na origem.
“Homeground”, o mais recente trabalho da banda, é o único gravado ao vivo, até à data. Ao lado de irrepreensíveis interpretações de temas de álbuns anteriores, surge um “medley” impensável que junta, no mesmo saco e a um ritmo diabólico, jigas, “reels”, rock ‘n’ roll, os Beatles de “With a Little Help from my Friends” e mesmo algumas brincadeiras rap. A diversão total, o puro gozo de tocar ao vivo, a alegria de uma música que não se esgota em discursos de academismos enfadonhos.
Assinalem-se ainda, a par da discografia do grupo, os discos a solo de Brian McNeill, “Monksgate” e “Unstrung Hero”, bem como a colaboração, em dois volumes, dos Battlefield Band com a harpista Alison Kinnaird, no projeto “Music in Trust”, com a música composta para o programa televisivo do mesmo nome. Série de documentários sobre zonas e edifícios de interesse histórico-cultural, em que o vigor e a complexidade formal do quarteto se casam na perfeição com o tom mais sereno e introspetivo de Alison Kinnaird, que cintila nos fulgores e vibrações das cordas da “clarsach” (designação local para a harpa escocesa).
A maior parte dos discos gravados para a Temple são distribuídos no nosso país pela Mundo da Canção, sediada no Porto, que tem desenvolvido um meritório trabalho de divulgação das propostas mais atuais do movimento folk britânico.
Pedra a pedra se vai construindo o templo. Portugal está prestes a ocupar nele o lugar que, por divino direito, lhe pertence. Saibamos ser a alma, visão e respiração de um mundo a arder.

Vários (Barzaz, Battlefield Band, …) – “Começou O Festival Intercéltico Do Porto – Artífices Do Mar”

cultura >> sábado, 03.04.1993


Começou O Festival Intercéltico Do Porto
Artífices Do Mar


Duas notas distintas marcaram o início da 4ª edição do Intercéltico. Ao registo mais interiorizado dos bretões Barzaz responderam os escoceses da Battlefield Band com a apresentação festiva de temas do seu último álbum, “Quiet Days”. O Intercéltico arrancou em beleza, em ano de consagração.



Coube ao grupo da Bretanha Barzaz esculpir em rochas, vento e sal a primeira curva da tríplice espiral céltica “na triskell”, na 4ª edição do Festival Intercéltico do Porto. Principais artíficies, o flautista Jean-Michel Veillon e o percussionista de origem irlandesa David Hopkins, este o discreto tecelão das texturas ambientais que caracterizam a estética do grupo, ao vivo, e no álbum “Na Den Kozh Dall”. Paisagens marítimas em constante mutação, espelho salgado que reflecte a natureza profunda da brumosa e ancestral Bretanha. Músico ligado à “new age”, Hopkins rubricou, já no último “encore” um excelente solo de “bodhran”.
Paradoxalmente a música dos Barzaz “quebrou” pelo seu elo mais forte, nas vocalizações de Yann Fanch Kemener, voz profundamente enraizada na tradição vocal bretã mas que em dois ou três temas cantou ligeiramente acima do tom. Por culpa do frio, queixava-se ele nos bastidores, depois de ter surgido em palco envolto num pesado sobretudo. Entre suites de danças “plinn” e “fisel”, entrou para o quadro de honra do Intercéltico uma fabulosa adaptação de um “endro” profundo e diluviano que fez estremecer as fundações do Rivoli.

“Ainda Temos Uma Canção!”

Seguiu-se a festa imparável dos Battlefield Band, grupo amado por uns e odiado por outros, mas ao qual não se pode recusar uma coerência absoluta, na proposta que adoptaram desde o início de carreira. Alan Reid é hoje o maestro de uma formação renovada onde pontificam o virtuosismo e o poder das “highland pipes” de Iain McDonald e o violino desse prodígio de apenas 18 anos de idade que é John McCusker, bem secundados pelo sóbrio acompanhamento de Alistair Russell, na guitarra.
Se algumas reservas podem ser colocadas a uma certa “normalização” das vocalizações (faceta onde se faz sentir com maior acuidade a ausência de Brian McNeill), o mesmo não se pode dizer da maestria instrumental revelada pelo grupo, autêntica máquina de fazer música que pôs a assistência do Rivoli em delírio.
Num concerto que privilegiou os temas do álbum novo “Quiet Days”, “strathspeys”, marchas, “reels” e “jigs” alternaram com baladas de cariz politizado (“The hoodie craw” ou “Hold back the tide”, sobre a decadência da indústria naval na Escócia) e momentos de pura loucura, como o “celtic country bayou rock & roll” de “Six days on the road” ou o clássico “Afterhours”, exemplo da mais pura “celtic twilight poetry”, segundo a definição irónica da banda. O público exigiu dois “encores” – “pode ser, ainda temos uma canção!” – acabando o concerto em ambiente de loucura, com as “pipes” de Iain McDonald no comando das operações.
Já pela noite dentro, num bar da Ribeira, entre fumos, (mais) copos e música de dança, Robin Morton, o “papa” da Temple Records revelou ao PÚBLICO o lançamento próximo de um álbum conjunto de Edith MacKenzie, Christine Primrose, Arthur Cormack e Alison Kinnaird, resposta inteligente à actual superbanda escocesa Clan Alba, enquanto o líder dos Battlefield Band, Alan Reid, anunciava o seu primeiro projecto a solo. Debaixo dos holofotes e da batida frenética, escoceses e bretões perdiam-se no meio da confusão. Todos querem voltar.

Battlefield Band – “Quiet Days”

pop rock >> quarta-feira, 31.03.1993
WORLD


Battlefield Band
Quiet Days
CD Temple, distri. MC – Mundo da Canção



Fase calma, a que os Battlefield Band atravessam de momento. De calma e de uma certa falta de inspiração. Começa a tornar-se evidente que a banda não é a mesma desde a saída de Brian McNeill, como de resto já era visível no álbum anterior, “New Spring”. É que se o espírito de celebração permanece, até porque o grupo carrega sobre os ombros a responsabilidade de se ter tornado numa instituição da música escocesa, a vivacidade e o entusiasmo perderam-se um pouco com a saída daquele músico. A falta faz-se sentir sobretudo ao nível das vocalizações, que em McNeill chegavam a atingir uma dimensão épica e na actual formação não encontraram substitutos à altura, soando os novos desempenhos, por comparação, quase vulgares. Não fariam mal os Battlefield em procurar um vocalista à altura, até porque instrumentalmente, embora se possa sentir a ausência da versatilidade das cordas e do violino de McNeill ou da subtileza das “pipes” de Dougie Pincock, a banda continua em forma. Na tradição dos bons gaiteiros que passaram pelo “campo de batalha”, Iain McDonald assina as melhores prestações de “Quiet Days”, no “medley” de abertura ou dois “tours de force” finais de “Col. MacLean of Ardgour / Pipe major Jimmy MacGregor / Rocking the baby” e “Now will I ever be simple again?”, passando pelo magnífico diálogo em uníssono com o violino de John McCusker, em “The ass in the graveyard”. (7)