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Telectu – “Evil Metal”

POP ROCK

27 DEZEMBRO 1992
DISCOS PORTUGUESES DE 1992
ALTERNATIVA

TELECTU
Evil Metal

Edição Área Total

Os Telectu progridem por avanços e recuos. Mudam de géneros e conceitos como quem muda de camisa – inconstância que tem, porventura, obstado à exploração de uma linha musical definida. Seja como for, “Evil Metal” é um tiro em cheio no panorama das músicas alternativas feitas em Portugal, podendo ombrear com obras da escola nova-iorquina representada por David Linton, David Fulton, J. A. Deane e Elliott Sharp, entre outros nomes. Jorge Lima Barreto tira o melhor partido dos timbres e estruturas repetitivas electrónicos, Vítor Rua navega entre as ondas frippianas e as fragmentações de Robert Musso. Elliott Sharp aparece num par de temas, mas a sua presença era escusada.
“Evil Metal” divaga e transtorna. Brinca, destrói e refaz géneros como o rock sinfónico, o art rock, o jazz mutante e a “systems music”, com uma mão cheia de acentos numa espécie de etno-traficada. A propósito, haja a esperança de que, desta vez, nenhum “p” atrevido transforme “raga” em “praga”. Mesmo que o tema em questão de indiano pouco tenha. Monstro devorador de músicas e ideias feitas, “Evil Metal” passa a liderar o pequeno pelotão dos discos nacionais que se posicionam orgulhosamente à margem. Das negociatas e do vil metal.



Duplex Longa – “Forças Ocultas”

Pop Rock

22 ABRIL 1992

Duplex Longa
Forças Ocultas

CD, MTM, distri. El Tatu

Tivessem os Duplex Longa, um duo constituído por Mário Resende, violino, flauta, electrónica, e Carlos Raimundo, baixo, electrónica, cortado alguns temas e uma mão cheia de segundos a estas forças ocultas, ou seja, tivessem sido mais Duplex e menos Longa, e estaríamos em presença de um grande disco de música feita em Portugal. Em vez disso, o duo optou pela exibição do catálogo, já um pouco estafado, do pós-modernismo, com todo o seu cortejo de tiques e truques.
As influências musicais são múltiplas, algumas óbvias. Nos temas confinados ao formato violino/baixo/caixa-de-ritmos é todo o universo estético dos Tuxedomoon e quejandos que assoma sem ocultação possível. “Manitu”, entre a mecanicidade, a improvisação jazzy e o delírio barroco, e “Tuareg”, um “show” autónomo da caixa-de-ritmos, remetem para uma obra como “Colorado Suite” de Blaine Reininger com a Mikel Rouse Broken Consort.
“Primeira viagem” e “Ab origine II” preferem o romantismo kitsch de Stevem Brown. Depois é todo o estendal “étnico”, exótico e “world”, em pinceladas poderosas (“Ab origine I”), em estilo de apontamento (“Pinzacucha”) ou nas divagações perfeitamente dispensáveis de um “Phado” das Arábias, onde não faltam sequer os maneirismos vocais de Anabela Duarte. Há um pastiche espanholado de Michael Nyman em “Chuva, vapor e electricidade” e o melhor de tudo que é “Hardgore” que só por si vale todo o disco – uma sucessão de clímaxes explosivos onde se destrói/reconstrói, segundo a segundo, o “free jazz”, o “hardcore” e o classicismo maricas, numa só penada e a grandes pedaladas do violino de Mário Resende e do sax de Paulo Curado. Uma boa estreia a que faltou mais afinada pontaria. (7)

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Fred & Ferd – “Dropera”

Pop Rock

 

13 NOVEMBRO 1991

LP’S

 

FRED & FERD

Dropera

CD, Rec Rec, distri. Contraverso

ff

“Fred” é Fred Frith. “Ferd” é Ferdinand Richard. Do primeiro já tudo ou quase se disse. Ferdinand Richard é desde sempre o baixista, vocalista e principal dinamizador dos Etron Fou Leloublan, mistura francófona de Captain Beefheart, Brecht e free-jazz. “Dropera” prossegue um trabalho de colaboração há muito encetado por ambos em vários projectos da Recommended. A referência à ópera reduz-se neste caso à continuidade narrativa e conceptual de um disco que, no resto, subverte por completo os códigos daquele género.

O “libretto” gira à volta das aventuras de um “escocês vendedor de Whisky e de um cozinheiro francês perseguido pela polícia por ter inventado um alimento milagroso”, numa viagem alucinatória através de restaurantes e de sonhos em situações absurdas onde a acumulação ilógica de símbolos acaba por valer sobretudo pela sua riqueza fonética. Táctica semelhante à seguida por René Lussier em “Le Trésor de la Langue”, mas onde as pretensões de tratado linguístico são substituídas pelo humor, por vezes negro, que aproxima “Dropera” dos delírios surrealistas.

No capítulo sonoro, abundam as surpresas, em arranjos que dão livre curso às excentricidades e ao virtuosismo dos dois músicos. Descontando o facto de Richard não ser propriamente um grande vocalista, dando por vezes a ideia de querer encaixar
à força o texto na música, “Dropera” leva-nos à deriva, pela estranheza dos sons e das palavras, através de universos alternativos. Uma espécie de “Submarino Amarelo” dirigido por Dada. (8)

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