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Nova Música Electrónica Portuguesa: Um Oásis No Deserto

03.11.2000
Nova Música Electrónica Portuguesa
Um Oásis No Deserto
A música electrónica tem sido uma paisagem desoladora, onde a vida escasseia. Mas no meio do deserto surgem, de quando em quando, oásis. É sobre eles que o PÚBLICO fala esta semana, em conversa com Vítor Joaquim, no balanço do festival EME 2000, e através da recensão de alguns álbuns representativos do género, por ilustres desconhecidos.

Nos últimos tempos algo mudou na música electrónica produzida em Portugal. Provam-no a edição, nalguns casos de autor, de diversos e interessantes CD apostados em dignificar a electrónica feita em Portugal e até, pasme-se, a organização de concertos protagonizados por músicos nacionais. É o caso do festival, ou dos encontros, Eme 2000 que recentemente teve lugar em Setúbal onde, entre outros, estiveram presentes Nuno Rebelo, Vítor Joaquim, Emídio Buchinho e Rodrigo Amado. Vítor Joaquim, de nome artístico Free Field, autor do projecto com este nome ao qual se deve a edição de “Tales from Chaos”, um dos marcos da música electrónica feita em Portugal, foi aliás um dos responsáveis pela organização do evento.
“Tales From Chaos” faz parte de um grupo selecto de discos que também inclui clássicos como “Mr Wollogallu”, de Nuno Canavarro e Carlos Maria Trindade, “Plux Quba”, de Nuno Canavarro, “Música de Baixa Fidelidade”, de Tozé Fereira, “Musiques de Scéne”, de Carlos Zíngaro, “Celsianices”, de Celso de Carvalho, “Part Human, Part Simpson”, de Discmen, “Evil Meatal”, dos Telectu, “M2” e “Azul Esmeralda” de Nuno Rebelo, “A Nova Portugalidade”, dos U-Nu, e Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzp!” do grupo com este nome, do qual será editado em breve um novo álbum. A estes nomes pode acrescentar-se os dos No Noise Reduction, Vítor Rua, Rafael Toral e Bernardo Devlin, entre outros.
Mas sob o solo lavrado pelos clássicos agitam-se novos miasmas e organismos vivos em fase de crescimento, ávidos de saírem para a luz do dia. É sobre alguns destes novos discos e projectos que falaremos neste artigo, ao mesmo tempo que convidámos Vítor Joaquim a fazer um balanço do Eme 2000. A electrónica já dá choque, em Portugal.

Eme 2000

O Eme 2000 dividiu-se em três sessões ao longo das quais a electrónica andou lado a lado com a música improvisada. Vítor Joaquim (VJ) explica como foi possível: “Após três meses de produção solitária, maioritariamente de telefone em punho e e-mails intermináveis (enquanto os amigos iam de férias e para a praia!), acabou por surgir um conjunto de apoios bastante interessante que viria a tornar viável a montagem dos encontros, enquanto se delineava simultaneamente uma equipa de pessoas entusiasmadas, que do primeiro ao último momento contribuiu com o seu melhor nas tarefas mais diversas que se possa imaginar: vender bilhetes, servir cafés, esticar alcatifas, carregar aparelhagem, esticar cabos, controlar entradas, etc.”.
Quanto ao critério de escolha dos artistas, a “ideia fundamental foi encontrar um grupo de músicos que pudesse proporcionar um conjunto suficientemente diversificado de abordagens em termos da génese do som – desde a electrónica acentuada até à exclusividade acústica -, assim como do próprio discurso interpretativo sem perder de vista, obviamente, o lado performativo de cada indivíduo na sua relação com o(s) instrumento(s)”. Não foi esquecida, “num plano paralelo de opções, uma perspectiva de ‘sedução’ na apresentação e progressão dos concertos, com toda a subjectividade que o termo pode implicar”.
O Eme 2000 pôde contar com o apoio de “13 entidades que se mostraram disponíveis para prestar apoio à sua realização, sendo que, de entre elas, cinco fizeram apoio financeiro directo, enquanto as restantes colaboraram em termos de permuta publicitária”. Uma crítica à autarquia do concelho que VJ culpa pelo “trabalho nulo ao longo dos anos” e acusa de não ter contribuído “com um único centavo” para a realização destes encontros.
Sobre o saldo final em termos de adesão de público e dos músicos, ou do ambiente, e dada a escala modesta destes encontros, Vítor Joaquim é peremptório: “Em termos de adesão de público foi verdadeiramente surpreendente. Não só pelo número global de espectadores como também pelo aumento na afluência, passando de aproximadamente 85 pessoas no primeiro dia para 100 no segundo, culminando em cerca de 120 no terceiro.”
VJ refere mesmo a existência de “sérios indicadores de um interesse progressivo pela área da improvisação e da experimentação, provando-se desta forma que, quando há trabalho e empenhamento por parte dos músicos e produtores, as coisas acontecem de facto”. “Ao que as pessoas reagem”, acrescenta.

Macacos E Apóstolos

Ainda em relação à Câmara Municipal de Setúbal, VJ não resiste a comentar que “está na fase de aprender a soletrar” e que “demorará ainda algum tempo até que, para além das palavras, as pessoas em causa saibam compreender os conceitos que elas abrigam ou invocam”. E cita Lichtenberg: “Tais obras são como espelhos; se um macaco olhar para dentro delas, nunca poderá ver um apóstolo”.
O Eme 2001 está na calha, com a hipótese de participação de músicos estrangeiros, embora a “primazia continue a pertencer aos portugueses”. Entretanto, “como forma de preencher o vazio existente entre duas edições, está em fase de implementação um programa de espectáculos que carece ainda de um suporte finaceiro regular por forma a poderem ser produzidos espectáculos não só na área da experimentação musical como da dança, perfomance, instalações, etc.”, diz VJ.
Vítor Joaquim prepara entretanto a edição de um novo álbum, que dará pelo nome de “La Strada is on fire” com o subtítulo “And we are all naked”, onde contará com participações de Vítor Coimbra, no baixo, Rodrigo Amado, no saxofone, e o inglês Martin Archer, em saxofone, assim como colaborações de Chris Bywater e Charlie Collins, na electrónica.

Novos Rumos
Code-N
Per:Form
Ed. de Autor
Nuno Correia é o cérebro dos Code-N. Entre temas compostos para um recital de poesia multimédia e para uma peça de teatro, “Per:Form” atravessa os territórios da electrónica ambiental, do dum ‘n’ bass, do breakbeat, do neo-industrialismo e da techno de corridas (“Mach One”), entrando em regiões menos exploradas do universo electro em temas como “Southwest”, “O Som dos Instrumentos” ou “Luzazul”. A manipulação digital assumida a cem por cento, com resultados por vezes surpreendentes.

Mola Dudle
Mobilia
Ed. de Autor
Nasceram em Tavira e arrumaram a mobília da casa segundo o design e a lógica alucinada de um louco. Nanu e Miguel Cabral, os “loucos”, asseguram a totalidade da produção sonora, usando para tal “tudo o que produz som que se pode encontrar em casa”. Colagens, electrónica desconstrutivista e dissecação de canções que não chegam a sê-lo, confluem num compartimento onde a desarrumação sonora é apenas aparente. A estética Recommended espreita, os desarranjos psicológicos de uns Biota, idem, mas quando o swing electrónico de um tema como “Allo…” funciona em pleno, são os melhores Negativland ou os actuais brincalhões da a.musik que deitam a cabeça de fora, enquanto em “Partypooper” enm Frank Zappa faria melhor. Mas os Mola Dudle devoraram todas as influências e, queira alguém “pegar” neles, poderão tornar-se num dos casos mais sérios e originais da nova música portuguesa.

Ras.Al.Ghul
Subharmonic Density Strucutures
Aquatica, distri. Symbiose
Terceiro trabalho desta banda formada por ex-elementos dos “industriais” Cranioclas, “Subharmonic Density Structures” limpou o som das antigas impurezas para se concentrar numa electrónica de cariz hipnótica e forte carga onírica em forma de mantras que comandam os movimentos do cérebro. Do transe psicadélico ao chill out, passando pelo techno ambiental, os Ras.Al.Ghul visitam as divisões vazias deixadas pelos Biosphere para tentarem chegar ao lado obscuro revolvido pelos Coil.

Vários
Ar Da Guarda
Ed. Câmara Municipal da Guarda
A julgar pelos 13 exemplos apresentados nesta colectânea, a Guarda apresenta-se na vanguarda das novas músicas nacionais. Entre os exercícios das guitarras “new age” de Rogério Pires a parasitária de Albrecht Loops, o neoclassicismo pianístico de Maria João Magno e de Hélia Fernandes, destacam-se as colaborações de Leonel Valbom e José Tavares, ambos discípulos do “sequenciador analógico” dos Heldon, Vítor Afonso, do projecto Kubik, com uma sequência acutilante de percussão e vozes de “contemporânea erudita”, sax zorniano e electrónica fraccionada (David Garland meets Holger Hiller meeets Laibach) e Miguel Prata Gomes, com um excelente pedaço de mistério em fita magnética na linha de Steve Moore/Jocelyn Robert. Anote-se ainda a proposta consistente de Gilberto Costa na área do jazz fusionista tendência “electrodowntown”, a portugalidade bizarra de um fado astral electrocutado por Carlos Barreto Xavier e o “jazz mesmo” que Maria João e Mário Laginha poderiam assinar se estivessem pedrados, de António Cavaleiro, com a voz de Joana Correia. Saudáveis e inovadores estes ares que sopram da Guarda.

“The Wall” em CD e DVD: O Muro Reconstruído

31.03.2000
“The Wall” em CD e DVD
O Muro Reconstruído

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Por mais que as duas Alemanhas se unifiquem, por mais que a guerra fria tenha acabado, por mais que os alunos batam nos professores, o muro dos Pink Floyd não vai abaixo. Foi construído pela primeira vez em 1979 por Roger Waters, que, em matéria de paranóia, não fica a trás de Syd Barrett, com a diferença de ter jeito para pedreiro. Vinte anos depois o muro continua sólido, como provam a edição do espectáculo ao vivo de “The Wall” e o lançamento do filme de Alan Parker em DVD.

Foi a resposta dos Pink Floyd ao punk. A vingança do novo-riquismo contra a penúria de meios, a vitória do artifício sobre a realidade nua e crua. “The Wall”, dos Pink Floyd, é um monstro na verdadeira acepção do termo, uma ideia megalómana de um músico dilacerado posta em prática por um grupo que nasceu das alucinações do psicadelismo e acabou a mamar nas tetas da indústria.
Apesar de tudo isto, do exagero, dos gritos e da despesa em tijolos, “The Wall”, o álbum original de estúdio, de 1979, dos Pink Floyd é uma das obras-chave do final dessa década. O testemunho individual de um músico cercado pelos seus fantasmas em pleno domínio do grupo, um pouco como “The Lamb Lies On Broadway” representou em relação a Peter Gabriel e aos Genesis.
Mas não era suficiente. Não foi suficiente. Em breve esta fantasia sobre a prisão que quase todos vamos construindo para nós próprios ao longo da vida se transformou em espectáculo de circo. Em arenas pejadas de multidões histéricas, ávidas de verem porcos insuflados voar sobre as suas cabeças e de assistirem ao desmonoramento real de um muro verdadeiro construído laboriosamente ao longo de mais de duas horas de um espectáculo que obedecia mais às regras da ópera do que do concerto pop convencional.

Mãe Querida
A presente reedição de “The Wall”, reintitulada “Is there anybody out there? The Wall live”, com distribuição EMI-VC, reproduz alguns dos concertos incluídos na digressão mundial realizada entre 1980 e 1981 constituindo nova oportunidade para a miudagem de todo o mundo gritar “Ei, professores, deixem os putos em paz!2 e os adultos exorcizarem alguns dos seus traumas, sobretudo em relação às mães gordas que os estrangulavam com muitos beijinhos, chocolates e avisos sobre a ameaça que constitui a existência de todas as outras mulheres para os seus queridos filhinhos. No filme de Parker eram exemplarmente representadas pelo trabalho de animação de Gerald Scarfe como flores-vaginas canibais.
Roger Waters passou por uma série desses traumas. “The Wall” é, pois, o seu testemunho autobiográfico. É a história da ascendência e queda, da alienação e, finalmente, do julgamento da personagem Pink (alter ego de Waters), uma estrela de rock afundada nos seus próprios medos e contradições. Uma obra amarga, sobre a impotência e o jugo exercido pelo poder sobre o indivíduo, desde o berço até à morte, passando pela família e pela escola. A mãe (a figura do pai está ausente da trama, o de Roger Waters foi morto durante a II Grande Guerra), os professores, as namoradas, os juízes são todos personagens sinistras cuja única finalidade é acusar-nos pelo simples facto de estarmos vivos. Perante este ataque concertado restam aos indivíduos duas hipóteses: ou se rende e se deixa esmagar pela engrenagem, ou junta-se aos esquadrões da morte, passando ele próprio de vítima a carrasco. É esta a opção do herói do filme. Mas, seja qual for a escolha, o resultado é o mesmo: a solidão, a prisão, o muro, cada vez mais alto e sólido, a abraçar-nos com os seus braços de cimento, como a tal mãe gorda que dava beijinhos e chocolates. Resta a fuga e esta é a loucura. “Crazy, crazy, over the rainbow, I am crazy” canta Roger Waters na faixa do julgamento, “The Trial”, uma das mais belas e pungentes de “The Wall”. Syd Barrett já o tinha percebido antes, assinando a sua rendição logo no início de carreira dos Pink Floyd. Roger Waters teve a vantagem de poder levantar voo no helicóptero da razão e sobrevoar a sua própria paranóia, assistindo de cima ao espectáculo da demência. Reconheça-se-lhe a força e o engenho para, pelo menos durante duas horas de catarse, domar a fera, aprisionando-a na redoma do “show business”.

“Show” de Insufláveis
Também é verdade que a partir daí ele e os Pink Floyd se transformaram em sombras, em ecos, em fragmentos estilhaçados desse momento irrepetível em que, como aconteceu frequentemente ao longo da História, a loucura se converteu em arte. Hoje, os Pink Floyd já nem sequer se importarão em verificar se estão dentro ou fora do muro. Mantêm-se como invólucros vazios (na capa de “Is there anybody out there?” – The Wall live os rostos dos quatro músicos são mostrados como máscaras…), reciclando velhos fantasmas em cerimónias de luxo. O muro está, pois, mais sólido do que nunca.
“Is there anybody out there” é, em conformidade, um objecto apelativo, envolto em imagens e memórias. Além dos dois CD, arrumados em caixa, esta primeira reedição (limitada) inclui um livro profusamente ilustrado, com dados detalhados sobre o espectáculo, inclusive várias plantas dos recintos e, claro, imensas fotos da bonecada (reproduzida a partir das imagens animadas de Gerald Scarfe criadas para o filme de Alan Parker), insufláveis e marionetas: a mãe, o professor, o juiz, o porco…
Em simultâneo com a edição do CD duplo, “The Wall” ressurge igualmente na forma de uma versão em DVD, editada pela Sony Música, do filme realizado em 1982 por Alan Parker. Ao contrário do álbum de estúdio, mais metafísico, o filme segue as pisadas da estrela de rock protagonizada por Bob Geldof, ficando o lado onírico representado sobretudo pelo espectacular trabalho de animação de Gerald Scarfe. O DVD, com som remasterizado e imagem melhorada para alta definição, inclui material de filmagens inédito, um “making of” de 25 minutos e um documentário de 45 minutos com entrevistas a Roger Waters, Gerald Scarfe e Alan Parker, entre outros. Menus interactivos e a possibilidade de seleccionar cenas e canções constituem atractivos adicionais do presente formato de “The Wall”, uma das obras mais amadas e odiadas do rock.

Dossier: Música Electrónica Portuguesa

14.01.2000
Dossier
Música Electrónica Portuguesa

“Tenho que lhe dizer o quanto apreciei o seu álbum ‘Plux Quba – Música para 70 Serpentes’. Considero-o um dos mais originais e maravilhosos trabalhos que alguma vez ouvi. Delicio-me com cada momento do disco, terno e humano e, contudo, caracterizado por uma linguagem muito própria. A partir do momento em que o ouvi fiquei com vontade de conhecer mais música sua. Escreveu algum material novo desde essa altura? Tem planos para um novo disco? Caso esteja interessado gostaria de gravar alguma da sua música na minha editora.”
(excerto de uma carta endereçada a uno Canavarro por Cristoph Heeman, músico alemão, ex-Coil e actual elemento dos H.N.A.S. e Mimir.)

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Música Electrónica Portuguesa em Análise
O Ovo da Serpente
Christoph Heeman adorou o disco de Nuno Canavarro, prontificando-se a gravar mais material deste músico português. Por cá é mais difícil. Fizemos o retrato do estado actual da música electrónica no nosso país, convidando os músicos a pronunciarem-se.

Editado pela Ama Romanta, em 1988, em paralelo com “Música de Baixa Fidelidade”, de Tó Zé Ferreira, “Plux Quba” acabou por ser reeditado em CD no ano passado, mas pela editora norte-americana Moikai, de Jim O’Rourke, um dos gurus do pós-rock. Acrescente-se ainda o facto de Chrstoph Heeman e Jan Saint-Werner (Mouse on Mars, Microstoria) admitirem a influência de “Plux Quba”.
Mas, como santos da casa não fazem milagres, muito menos se os fizerem música electrónica e ainda menos se viverem em Portugal, por cá, este e outros trabalhos são sistematicamente ignorados e mal apoiados pelos “media” e recusados pelas grandes editoras. Aos poucos, contudo, criou-se em Portugal um circuito paralelo, no qual tanto a música electrónica como outras rotuladas de “alternativas” conquistaram um pequeno mas merecido espaço. Editoras/distribuidoras como a Ananana, a Áudeo e a Symbiose arriscaram produzir e editar álbuns nacionais que escapam aos esquemas do “mainstream”.
É verdade que a música electrónica não tem grandes tradições em Portugal, se exceptuarmos obras de compositores eruditos como Jorge Peixinho, Constança Capdeville ou Emmanuel Nunes. Na música popular, no auge do rock progressivo foi preciso esperar que o actual maestro Miguel Graça Moura trouxesse de Londres o primeiro sintetizador Moog ouvido em Portugal. O então teclista dos Pop Five Music Incorporated formou, especialmente para o efeito, em honra do aparelho, os Smoog, cuja estreia ao vivo teve lugar no Coliseu dos Recreios em Lisboa, na primeira parte de um concerto de B. B. King. Depois disso os músicos portugueses não se interessaram muito pela tecnologia electrónica então emergente. Os Moogs, A.R.P. e Korgs eram caros, era preciso mandar vir de fora, e saía mais em conta adquirir um bom órgão Hammond ou Farfisa ou um piano eléctrico Fender Rhodes ou RMI…
Os Anar Band, de Jorge Lima Barreto e Rui Reininho, foram outros dos pioneiros na utilização do sintetizador em Portugal, com uma música artesanal que misturava a electrónica e o free-jazz. Na pop era mais raro escutar-se o Moog com uma excepção honrosa: o álbum “10.000 Anos depois entre Vénus e Marte” de José Cid, um dos marcos da pop progressiva nacional. Alguns anos mais tarde também os Tantra, considerados os Genesis nacionais, usaram e abusaram dos sintetizadores.
Chegados aos anos 80, assistiu-se à explosão da electropop, representada em Portugal pelos Street Kids, de Nuno Rebelo e Nuno Canavarro, pelos Corpo Diplomático, de Pedro Ayres e Paulo Gonçalves, antes de formarem os Heróis do Mar, e pelos Ocaso Épico, de Farinha. Era a época de ouro dos sequenciadores e das caixas-de-ritmo. Mas a pedrada no charco foi atirada, nessa mesma década, pela editora Ama Romanta, de João Peste, com o lançamento simultâneo de dois álbuns fundamentais: o já citado “Plux Quba”, de Nuno Canavarro, e “Música de Baixa Fidelidade”, de Tó Zé Ferreira, dois músicos de formação na área da electrónica erudita, mas com uma sensibilidade pop. “Sagração do Mês de Maio”, composto por Nuno Rebelo para um desfile de moda, é outro objecto incontornável da electrónica portuguesa. Jorge Lima Barreto, agora na companhia de Vítor Rua, ex-GNR, formara entretanto os Telectu, continuando a experimentar novos sintetizadores e fórmulas musicais como o minimalismo.
Nos anos 90, com a democratização e progressivo compactamento e acessibilidade da tecnologia electrónica digital (“Power stations”, “sampler”, computador, etc.), tornou-se mais fácil e menos dispendioso criar música electrónica em Portugal. Proliferaram os grupos, num leque de estilos que vai da música industrial dos Bizarra Locomotiva à música cinemática do veterano Luís Cília (em “Bailados”), da new age inteligente de Carlos Maria Trindade (a solo, em “Deep Travels” e, com Nuno Canavarro, no clássico “Mr. Wollogallu”) à electrónica “noise” dos No Noise Reduction, da colagem estruturalista de José Pedro “Discmen” ;oura à visão mais lata e universalista de Nuno Rebelo, Vítor “Freefield” Joaquim e António Emiliano. Para os lados da electrónica erudita João Pedro Oliveira, Carlos Zíngaro e os Miso Ensemble experimentam, por seu lado, as possibilidades e novos horizontes de uma música que marcará, decisivamente, as sonoridades e a sensibilidade artística do novo milénio.

Electro-Reparadora Lusitana
Carlos Zíngaro, Tó Zé Ferreira e Miguel Sá (dos ZZZZZZZZZZZZZZZZP!) responderam a um questionário sobre o estado actual da música electrónica portuguesa e sobre a música electrónica em geral. A reparação possível.
FM – É possível a criação de um circuito regular de música electrónica (edição de discos, espectáculos, seminários, etc.), em Portugal? Em que moldes? Quais os principais obstáculos?
CARLOS ZÍNGARO – Apesar de algumas fronteiras se diluírem, continua a existir uma diferença determinante entre o que é comercial e de consumo e o resto (margens?). Como tal, deixando de lado a discoteca ou a “rave”, pergunto: onde estão os locais para a apresentação das “live electronics” contemporâneas, experimentais, interactivas, etc., com um mínimo de regularidade e condições económicas e técnicas? Onde estão os editores minimamente interessados na publicação/divulgação destas músicas? Ainda, quais as instituições vocacionadas para a organização de seminários temáticos? (Em abono da verdade, o CCB organizou um em 1998, comigo e com o Richard Teitelbaum – desconheço outras iniciativas do género.)
A música electrónica sofrerá exactamente dos mesmos problemas daquelas áreas no nosso país. Por um lado, um eruditismo formal(izador), fechado, institucional e museológico da chamada “obra” – nos casos das músicas contemporânea e electroacústica -, por outro, a quase total marginalização e mesmo boicote para com todas as outras…
Principais obstáculos? Sendo [certo] que o público existe (já o comprovei repetidas vezes), só poderá ser a ignorância, incultura, reaccionarismo e analfabetismo generalizados de quem decide, divulga e organiza… – apenas para ser elegante na linguagem.
TÓ ZÉ FERREIRA – Se pensarmos em termos da existência de produção ou de obras que deveriam ser difundidas ou divulgadas, é claro que existe um pequeno mundo em Portugal à espera de ser ouvido. Posso citar a actividade do músico-compositor Miguel Azguime com o seu festival (anual) Música Viva. Estou ciente das dificuldades de logística em termos de organização. Para além da questão financeira, há a questão de pessoal técnico motivado. Um primeiro passo seria a produção de um calendário dos eventos que se realizam pelo país e sem restrições de géneros ou estéticas, talvez nos moldes da Electronic Music Foundation.
Um dos maiores problemas é que, paradoxalmente, para um país tão pequeno – não em termos físicos, mas no número de praticantes – se saiba tão pouco das actividades dos músicos, compositores, intérpretes, DJ, etc. Creio que um melhor contacto entre “almas gémeas” seria um bom catalisador de eventos. A mencionada Electronic Music Foundation organizada por Joel Chabade dispõe na Internet de calendários, glossários, informações diversas e CD. O próprio festival Música Viva na edição deste ano promove um concurso de obras electroacústicas a nível nacional.
MIGUEL SÁ – Visto Portugal ser um país periférico, apenas com um súbito e não muito provável florescimento de novos projectos, o surgimento de uma publicação especializada de qualidade e um significativo incremento nos concertos / ciclos de música electrónica, que promova o encontro com e entre músicos internacionais, se pode alimentar uma cena electrónica consistente, que abra caminho a uma edição discográfica estimulante e regular.

O Paradigma Aphex Twin
FM – Nesta transição de milénio, o termo “electrónica” impôs-se” como “médium” universal. Qual o ponto da situação na relação entre uma electrónica mais conceptual (com “background” na música contemporânea, música industrial, minimalista, ambient, kozsmischerock, etc.) e a música de dança.
MIGUEL SÁ – A música de Richard D. James (Aphex Twin, Poligon Window, entre outros disfarces) é o paradigma da difícil definição de fronteiras na actual música electrónica e vital para a compreensão dos géneros musicais que circundam a música de dança urbana. Quem acompanha a sua obra tem assistido à quebra regular de regras formais. Trabalhando com gira-discos, mesas de mistura, computadores e “instrumentos” por ele criados através da modificação dos circuitos electrónicos das suas máquinas, e usando como matéria-prima fontes sonoras processadas de LP, CD, ficheiros de computador, fontes acústicas e eléctricas.
CARLOS ZÍNGARO – Não poucos praticantes da música de dança foram buscar, manipular, referir, elementos experimentais e divulgados nas áreas mais conceptuais, assim como também se assiste ao inverso: a entrada do DJ, do beat e de outras preponderâncias da dance nos conceptualismos mais alargados. Convém, no entanto, assinalar que este tipo de mestiçagens se verifica em realidades mais abertas e universalistas. Em Portugal, o que é pop continua orgulhosamente a sê-lo e o sério permanece de costas voltadas para os outros sons, cada um no seu minúsculo cubículo…
TÓ ZÉ FERREIRA – No limite, qualquer gravação, da captação à difusão, digam o que disserem os puristas da música acústica, está dependente de meios electrónicos. Existem. Simplificando, duas atitudes: uma de engenharia, em que o sistema deve ser o mais neutro possível e outra em que a cor do sistema é causadora de estímulo para a criação; no extremo, o sistema gera o próprio som.
Distinções entre géneros de músicas são cada vez mais difíceis de concretizar. Impulsionados pela sua própria actividade, os criadores de música de dança acabam por se ligar a uma corrente pluralista electroacústica. Certas peças de dança lembram-me formalmente algumas experiências da música concreta dos anos 60.

“ À espera que o ‘load’ funcione”
FM – O computador e o “software” composicional são factores de normalização. Um músico como Paul Schütze recusa liminarmente a utilização de “software”, alegando que o resultado sonoro denuncia o programa utilizado.
CARLOS ZÍNGARO – esa afirmação de Schütze é muito relativa. Talvez fazendo um “blindfold test” às diversas composições alegadamente assistidas por computador, chegássemos a conclusões interessantes… Quando o “software” é denunciado na composição, estaremos talvez a referir a sua utilização mais primária e “democrática”… São infelizmente raros aqueles que sabem ou se interessam por perverter/subverter as máquinas ou os programas! Em contrapartida, a tecnologia permitiu que o compositor se tornasse mais num “performer”/intérprete. Com alguns riscos… Se nos antigos concertos de electroacústica passávamos horas a olhar para uma série de colunas de som num palco, agora encontramos alguns senhores sentados atrás de um computador, com um ar geral de erudito enfado, carregando em teclas que não vemos e à espera que o “load” funcione.
TÓ ZÉ FERREIRA – Como alguém com experiência em programação, compreendo o ponto de vista acima apresentado. É verdade que a implementação de uma ideia sobre a forma de programa reflecte escolhas e a habilidade de quem o faz. Um determinado programa ou processo tem sempre um “som” próprio. É de facto no campo de organização dos sons que a utilização de programas se pode tornar problemática. Mas tal só acontece se o aceitarmos como aquilo que não são – “soluções” universais para problemas de composição. Solução óbvia seria implementar-se programas escritos pelo próprio compositor.
FM – O “sampler” – muleta, fábrica de sons, arquivo… Veio democratizar a criação electrónica, vulgarizando-a ou, pelo contrário, desafiar a criatividade dos músicos?
CARLOS ZÍNGARO – Esta apregoada democratização veio colocar diferentes questões aos que querem fazer música. Todos sabemos que basta carregar num botão para fazer música… E vivam as benesses das facilidades consumistas! Continuo a tocar um instrumento tão antiquado como o violino e, apesar de fazer electrónica há mais de 20 anos, continuarei a ser cuidadoso (cínico?) em relação às “novas descobertas”, que são fáceis, baratas e dão milhões…
MIGUEL SÁ – O “sampler” permitiu um novo olhar sobre o passado, colocando todos os sons do mundo ao alcance de quem os manipula, deixando deste modo de ser determinante o modo de reproduzir o som. Hoje em dia, a música pode ser feita em casa, mas sem prescindir do conhecimento e da intuição.

A riqueza da “imprecisão”
FM – Digital ou analógico, eis a questão. O pós-rock recuperou os sintetizadores analógicos (Moog, ARP, Korg). E que dizer quando um antepassado dos próprios sintetizadores, como o theremin, ganha de novo protagonismo na produção electrónica mais recente?
MIGUEL SÁ – Desde 1906, altura em que foi criado o primeiro instrumento electrónico, o Telharmonium, e feita a primeira emissão via rádio, foram surgindo os meios para a criação electrónica: Ondes Martenot (1928), gravação estéreo (1930), sintetizador RCA (1955), “sampler” analógico mellotron (1965), sintetizador Moog (1965), gravador de pistas (1966), sequenciador digital Roland MC-8 (1977), “sampling keyboard” Fairlight CMI (1979), “compact disc” (1980), MIDI (1983). O “software” composicional, assim como os exemplo anteriores, veio expandir a capacidade de criação de novos recursos tímbricos. O seu surgimento em nada impede ema saudável coabitação com a invenção de 1920 de Leon Theremin.
CARLOS ZÍNGARO – É perfeitamente possível obter as mais diversas sonoridades analógicas com a recente tecnologia digital. O que se passa é que – como de costume com a música de consumo – mais uma moda atravessa inúmeras discussões técnicas e temáticas. A tecno descobriu os velhos monstros analógicos assim como “descobriu” formas de fazer música já praticadas há vinte e tal anos. Nada mais lógico que utilizar os mesmos meios, as mesmas máquinas, até porque sempre dão uma certa “patine” e “look”… Interessante ver superestúdios “hi-tech” com a mais sofisticada tecnologia digital, gastarem fortunas em periféricos digitais que irão dar uma “cor analógica” (inclusive ruído) à mistura final… O cúmulo dos “modismos” e outros “ismos”.
Pessoalmente continuo a manipular o meu velho ARP 2601, adquirido em 1978, e que tem agora um valor museológico acrescido. É uma dor de cabeça se comparado com a facilidade de tecnologias mais recentes, mas continua a ser um ruídos monstro sagrado!
TÓ ZÉ FERREIRA – Creio que é mais nostalgia do que qualquer impossibilidade dos sistemas digitais actuais. No entanto, existem talvez outras razões para o retorno da popularidade destes sistemas. Uma forma de onda triangular produzida por um gerador analógico é mais ou menos impura – com bastante harmónios adicionais – o que, combinado com os filtros, gerava os tão procurados sons. Conseguem-se representações mais controladas sob a forma digital, mas perde-se um pouco a riqueza da imprecisão. Mas claro que, com programação e sistemas digitais flexíveis, se conseguem também sons extremamente ricos e creio que quase todos os sintetizadores actuais são digitais de uma maneira ou de outra. Quanto o theremin, a sua expressividade como instrumento advém muito do seu interface, sendo necessário ter alguma prática, como, por exemplo, num violino, para poder retirar a sons e/ou gestos expressivos satisfatórios.
FM – Quais os discos de música electrónica que considera mais importantes ou que mais o influenciaram?
CARLOS ZÍNGARO – MEV (Musica Electronica Viva, com Richard Teitelbaum, Alvin Curran, Frederic Rzewski), John Cage, John Chowning, Charles Dodge, Pierre Henry, Max Matthews, Ilhan Mimaroglu, David Tudor.
TÓ ZÉ FERREIRA – As primeiras composições de Karl Heinz Stockhausen, como “Gesang der Junglinge” e, de Bernard Parmegiani, “De Natura Sonorum”. Como influência recente, as composições da jovem Natasha Barrett.
MIGUEL SÁ – Kraftwerk, “Autobahn” (1974); Negativland, “Escape From Noise” (1988); Oval, “Diskont 94” (1995). Nos Cluster, Coil e Aphex Twin, o brilhantismo reside no conjunto da sua obra.

10 DISCOS FUNDAMENTAIS
1.NUNO CANAVARRO: Plux Quba-Música para 70 Serpentes (Ama Romanta / Moikai, 1988)
2. TÓ ZÉ FERREIRA: Música de Baixa Fidelidade (Ama Romanta, ed. em vinilo, 1988)
3. CARLOS MARIA TRINDADE & NUNO CANAVARRO: Mr. Wollogallu (União Lisboa, 1991)
4. TELECTU: Evil Metal (Área Total, 1992)
5. JOÃO PEDRO OLIVEIRA: Electronic and Computer Music (Numérica, 1993)
6. CARLOS ZÍNGARO: Musiques de Scène (Ananana, 1993)
7. NO NOISE REDUCTION: The Complete No Noise Reduction (Moneyland, 1995)
8. NUNO REBELO: M2 (Ananana, 1996)
9. VÍTOR JOAQUIM: Tales From Chaos (Ananana, 1997)
10. ZZZZZZZZZZZZZZZZP!: Ficta 003 (Ananana, 1998)