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Barabàn – “‘Il Valzer Dei Disertori’ + ‘Naquane'”

pop rock >> quarta-feira, 31.03.1993
WORLD


Barabàn
Il Valzer Dei Disertori (10)
Naquane (9)
CD Associazine Culturale Barabàn, distri. MC – Mundo da Canção



A música das regiões celtas do Norte de Itália, da Lombardia e Piemonte, tem sido até agora praticamente sinónimo dos La Ciapa Rusa. Os Barabàn repartem com o grupo de Maurizio Martinotti o mesmo trabalho de investigação e uma atitude idêntica de “revivificazione” do passado. A par, é claro, da utilização dos mesmos instrumentos populares da região: o “piffero”, o “organetto” diatónico, a sanfona (“ghironda”) e a gaita-de-foles (“musa”). A semelhança entre as duas bandas é perceptível sobretudo ao nível das vocalizações masculinas. Temas como “Gentil galente” ou “La brunetta”, de “Naquane”, enquadram-se na perfeição na estética dos La Ciapa Rusa. Em “Il Valzer dei Disertori”, de 1987, a banda de Giuliano Grasso e Aurelio Citelli assinou um trabalho sem mácula, de personalidade mais vincada, que restitui ao presente, com o mínimo de desvios permitido pelo tal processo de “revivificazione”, toda a beleza das baladas, “monferrinas”, “alessandrinas” e, neste caso, das valasas piemontesas. “Naquane” apenas sofre do uso, por vezes despropositado, das programações de computador, algo incomodativas no tema “Stranot di Lisander”, problema que os La Ciapa Rusa resolveram da melhor maneira em “Faruaji” e “Ratanavota”. Pormenor de somenos importância num álbum de aquisição indispensável.

Bothy Band (The) – “Old Hag You Have Killed Me”

pop rock >> quarta-feira, 31.03.1993
WORLD


O FULGOR DO RELÂMPAGO

THE BOTHY BAND
Old Hag You Have Killed Me
CD Green Linnet, distri. Megamúsica



Há discos agradáveis, discos coerentes, discos importantes, discos que se deixam ouvir. Discos de que se gosta e discos de que se aprende a gostar. Mas há também uma espécie rara de discos que impressiona de maneira diferente. Discos que, além das qualidades passíveis de análise, têm algo que os distingue e os torna excepção. “Old Hag You Have Killed Me” é um desses discos. É o segundo álbum dos Bothy Band e permanece até hoje como um marco da música tradicional irlandesa.
De entre o quadrado mítico formado pelos Planxty, Chieftains, De Danann e Bothy Band, este últimos são um caso à parte. Enquanto qualquer daquelas bandas teve uma obra em continuidade, de onde sobressaíram inevotáveis obras-primas, os Bothy Band surgiram mais como um relâmpago, uma conjugação cósmica de talentos que viveu em permanente estado de graça. Nos três álbuns de estúdio que gravaram, concentraram doses maciças de talento, chispas de génio que revolucionaram por completo o modo de sentir e dizer a música irlandesa. “Old Hag You Have Killed Me” é o cume dos cumes desse génio. Era difícil encontrar reunida numa formação os nomes que no ano de 1976 se congregavam nos Bothy Band: Matt Molloy, Paddy Keenan, Kevin Burke, Triona Ní Dhomhnaill, Micheál Ó Dhomhnaill e Donal Lunny.
Os mesmos que incidiriam no posterior e igualmente magistral “Out Of The Wind Into The Sun”, já há bastante tempo editado em CD no nosso país. Impressionava então como continua a impressionar hoje, a violência e virtuosismo desmedidos das “uillean pipes” de Paddy Keenan, deste lote de músicos aquele que apresenta uma carreira mais discreta mas não menos importante (façam o favor de escutar o seu álbum a solo “Poirt Na Phiobaitre” e tirem conclusões…
Os arranjos inovadores, onde assumiam primordial relevo as cordas de Donal Lunny e a originalidade da espineta electrificada de Triona Ní Dhomhnaill (mais tarde viria a especializar-se no cravo), constituem outro pólo de originalidade. As proezas vocais de Triona ombreavam na altura com as de uma tal Dolores Keane dos De Danann. “16 come next Sunday, faixa que abria o segundo lado da velhinha rodela de vinil, brota com a frescura da água de uma fonte. Deleite absoluto. “Fionnghuala” é um exercício espantoso sobre a “mouth music” gaélica ao qual não falta o humor de palavras/fonemas totalmente inventadas.
Espantosas são igualmente todas as sequências instrumentais, com destaque para os vertiginosos “Farewell to Erin” e um “Michael Gorma’s” de antologia. A combinação da flauta de Matt Molloy com as “pipes de Paddy Keenan e o violino de Kevin Burke (álbum novo nos escaparates, “Open House”, objecto de crítica num dos próximos números deste suplemento) é perfeita. Fulgurante.
A conjunção de todos estes elementos num só disco acontece muito raramente. Como tal, a reedição, várias vezes adiada deste álbum é um acontecimento. Um objecto de culto. (10)

Mat Molloy, Sean Keane, Liam O’ Flynn – “The Fire Aflame”

pop rock >> quarta-feira, 17.03.1993
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DANÇA DO FOGO

MAT MOLLOY, SEAN KEANE, LIAM O’ FLYNN
The Fire Aflame
CD Claddagh, distri. VGM



O ano editorial promete. “Vox de Nube”, já levou muitos ao céu. “Acrobates et Musiciens”, dos Lo Jai, de Eric Montbel (nos anos 70 ajudou a lapidar uma das jóias da Hexagone, os Le Grand Rouge), apresenta em glória a música da região do Limousin, da Idade Média à Renascença. Há um álbum novo a rebentar. Vindos do frio, os suecos Hedningarna (“Kaksi!”) são apontados como verdadeiros renovadores da música tradicional europeia. Mas por agora concentremo-nos, ainda e sempre, na Irlanda. Confira, por favor, o nome dos músicos, “le crème de la crème”, “Irish coffee” da melhor qualidade: Matt Molloy, é “apenas” o melhor flautista irlandês da actualidade. Dá a ideia que não necessita de respirar, tal a técnica que possui. Passou pela santíssima trindade Planxty / Bothy Band / Chieftains, fazendo parte actualmente desta última banda. O seu bar, em Westport, foi palco da desbunda gravada para a Real World, “Musica t Matt Molloy’s”. Sean Keáne é, desde há anos (melhor dizendo, décadas…), violinista dos Chieftains, depois de integrar as fileiras dos lendários Ceoltóiri Chualann, de Séan Ó Riada. Quem o quiser ouvir meis em particular procure-o no seu álbum a solo “Jig it in Style”. Acreditem que não é só nas jigas que ele tem estilo. Até Ali Farka Toure, imagine-se, o convidou para tocar consigo, em “The River”. Liam O’ Flynn, por seu lado, é um dos mestres actuais das “uillean pipes”. Fez igualmente parte dos Planxty. Habitual solista nas obras orquestrais de Shaun Davey (“The Brendan Voyage”, “The Pilgrim”, “Granuaile”), discípulo dos grandes Leo Rowsome, Wille Clancy e Séamus Ennis, trabalhou com John Cage e a companhia de dança de Merce Cunningham. Arty McGlynn, claro, tinha de estar presente. É o guitarrista dos guitarristas, rei e senhor na arte do contraponto. Felizes dos que o viram e ouviram ao vivo com os De Danann, no Intercéltico do ano passado. Noel Martin, membro da Belfast Baroque Consort, no violoncelo e teclados (aparece em “Lament” – ver crítica nesta página), e Noreen O’ Donoghue, debutante nos Oisin e actualmente nos Bakerswell, em harpa e teclados, completam o lote de participantes. Apenas resta entregarmo-nos às delícias da audição. Os músicos disparam em classe pura até ao coração da Irlanda. Jigs, reels, airs e hornpipes encontram aqui a sua expressão mais elevada. Não é apenas o virtuosismo, nem sequer a energia contagiante desta música que progressivamente se infiltra nos veios invisíveis do mundo, que impressiona. “The Fire Aflame”, como o título deixa entender, é um acto de amor. A síntese de vários talentos individuais acesos numa chama única, capaz de nos conduzir ao centro do sonho, à Irlanda do mito que, rezam as lendas, continua a orradiar de Tir Nan Aog. Não vale a pena racionalizar. Quer queiramos quer não, há uma parte de nós que habita do lado de lá do nevoeiro. No único tema não instrumental, Brian Keenan lê um poema da sua autoria, “Night Fishing”, em cujas letras é possível vislumbrar o lado lunar, espelhado nas águas do inconsciente, desta Ilha unida por um elo secreto a Portugal… Outras histórias… Mas se não quisermos mergulhar nessas águas que tudo religam (e afogam, se o navegante não souber a arte…) e ardermos no fogo que tudo anima, consome e transforma (na Irlanda, acendiam-se e ainda se acendem, no princípio de Maio, os fogos de Beltane, em louvor de Belenos – o Apolo dos celtas – e da terra renascida), resta sempre a dança. Dança do fogo. Que também se aplica às jóias. O diamante lapidado com perfeição decompõe a luz branca nos sete raios coloridos. Assim, de um diamante melhor ou pior lapidado se diz que tem mais ou menos fogo. Matt Molloy, Sean Kean e Liam O’ Flynn são joalheiros exemplares. Mais não posso explicar. (10)