Arquivo mensal: Maio 2023

Robert Wyatt – “Dondestan”

Pop-Rock Quarta-Feira, 09.10.1991


ROBERT WYATT
Dondestan
CD, Rough Trade, import. Contraverso


A primeira impressão recolhida diz respeito à vaga de fundo do órgão – o mesmo de “Rock Bottom”, um velho órgão Riviera, que o músico voltou a pôr a funcionar, como que dando um acordo tácito a esse reviver de um passado traumático que acabou por resultar numa obra, sob todos os aspectos, fabulosa. Mas não só o órgão omnipresente traz de novo à superfície os rasgos e a visão amarga desse álbum – temas como “The sight of the wind”, “Catholic architecture” (onde não faltam os perturbantes suspiros de “Alifie / Alifib”, no álbum de 74) e “N.I.O (new information order)” remetem de imediato para as sombras e para a mejestosidade de “Rock Bottom”. “Worship” opta pela via “jazzy” de “Ruth is stranger than Richard”. Em “CP jeebies” e “Dondestan”, curiosamente, Robert Wyatt recupera o estilo silabado e o timbre da vovalização no seio dos Soft Machine. No primeiro caso próximos da serena desolação de “Moon In June”, no segundo das palpitações pop dos volumes 1 e 2.
“Left on man” e “Lisp servisse” (composto de parceria com Hugh Hopper) partem dos pressupostos deixados em aberto por “Old Rottenhat”, com uma maior amplidão nos arranjos, a voz projectada de forma mais solta e extrovertida. “Shrinkrap” apresenta p “rap” (a quem Wyatt se declara rendido) de acordo com a sua visão pessoalíssima, alternando as sacudidelas da voz e a experimentação de estúdio com o piano e delírios fonéticos semelhantes aos de Ivor Cutler, na sequência final de “Rock Bottom”.
Com a particularidade de os primeiros quatro temas terem sido compostos por Alfreda Benje (que, como de costume, assina também a pintura da capa), “Dondestan” funciona, ao nível de textos, no previsível registo de comentário sociológico a que a sensibilidade do músico empresta conotações intimistas. A ironia prevalece sobre a demagogia. Como nos versos de “New Information order”: “Privatizem o mar. Privatizem o vento. O próprio tempo é para se bender. Devia pagar-se imposto para respirar.”
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Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #182 – “E pifo nias”

#182 – “E pifo nias”

E pifo nias (piada fonética), quem as não teve?

Por exemplo, gandas pifos no Baleal… não?…

Mas vamos lá ser sérios:

Tive uma grande epifania ao ouvir pela primeira vez o “Pawn Hearts”, dos VAN DER GRAAF GENERATOR. Vieram-me as lágrimas aos olhos. Sério.

Na música, acho que foi mesmo a única epifania.

Também tive outra epifania ao descobrir o forum SONS. Descobri que podia ser idiota à vontade, que até havia gente que achava piada 

Epifanias (as que me lembro) no cinema (estilo, ficar em estado de choque): “2001 Odisseia no Espaço” (Stanley Kubrick), “Yellow Submarine” (George Dunning), “O Homem Elefante” (David Lynch), “Eraserhead” (idem), “A Hipótese do Quadro Roubado” (Raul Ruiz), “O Último Ano Em Marienbad” (Alain Resnais), “Le Berceau de Crystal” (Philippe Garrel), “O Contrato do Desenhador” (Peter Greenaway), “Videodrome” (David Cronenberg), “O Inqulino” (Roman Polansky), “Fantasia” (Walt Disney), “O Criado” (Joseph Losey), “A Festa de Babette” (não me lembro do nome do realizador), “Os Marx Na Ópera”, “O Cálice Sagrado” (Terry Gilliam/Monty Python), “Lilith e o seu Destino” (Robert Rossen), “Inserts” (John Byrum), “A Casa Maldita” (Robert Wise), “O Navio Farol” (Jerzy Skolimovsky).

Mas há mais…

FM

Rickie Lee Jones – “Pop Pop”

Pop-Rock Quarta-Feira, 09.10.1991


Sonhos Do Passado

RICKIE LEE JONES
Pop Pop
LP / MC / CD, Geffen, distri. BMG



Sonhos de um dia de Verão. Rickie Lee Jones, a “cowgirl” voadora, regressa com um álbum luminoso como se, de súbito, se revelasse a felicidade. Produzido pela própria e por David Was (dos Was Not Was), “Pop Pop” prescinde do superficial e programa os comandos para o coração do sol. A gravação, feita com um mínimo de “takes” num estúdio artesanal, procura recriar uma atmosfera intimista, ao ponto de a voz ter sido captada, na maioria dos temas, ao vivo e em directo no estúdio. O acompanhamento foi reduzido ao essencial e a uma componente exclusivamente acústica. Três músicos fabulosos chegam para construir os alicerces “cool” de um universo impermeável à electricidade e às sonoridades da moda, de maneira a permitir à vocalista viajar, com toda a facilidade, por um reportório que se estende dos “standards” de jazz, a Peter Pan e aos delírios psicadélicos de Jimi Hendrix e dos Jefferson Airplane: Charlie Haden, no contrabaixo, Robben Ford na guitarra acústica de cordas de nylon e John Leftwich, na bateria.
A luz, essa escorre a cada espira da voz, do saxofone de Joe Henderson e do bandoneon de Dinno Saluzzi (o bandoneon “evoca outra era, talvez Paris dos anos 30, ou o espírito de Django Reinhardt” – sugere Rickie, perdida na magia do sonho). Até na escolha de canções, Rickie Lee Jones apostou na diferença, remexendo em temas pouco conhecidos, à procura de ambientes estranhos e de textos que lhe permitissem extrair da sua interpretação um máximo de prazer. Ao longo das dez faixas que compõem “Pop Pop”, a voz da cantora, desliza com a “souplesse” e a emoção só ao alcance das grandes cantoras de jazz, no fundo desmentindo um pouco o Pop do título, por “standards” de Frank Sinatra (“My one and only love”) e Tinpan Alley, nos anos 20, (“Bye bye blackbird”), por um “musical” obscuro da “beat generation”, (“Spring can really hang you up most” e “The ballad of the sad young men”) ou por uma fantasia de “Peter Pan”, (“I won’t grow up”), juntamente com a psicadelia dos Jefferson Airplane (“Comin’ back to me”) e Jimi Hendrix (“Up from the skies”). A disparidade das canções serve para a cantora criar uma atmosfera muito especial, como se pretendesse arrancar do passado uma “Broadway” onde subitamente se confundissem todos os seus mitos.
Impossível permanecer indiferente aos chilreios infantis, ao saxofone em estado de graça de Henderson e ao swing irresistível de “Dat dere”. “I’ll be seeing you” é-nos sussurrado directamente ao coração, por uma voz arrebatada e pela surdina de um clarinete (Bob Sheppard) entristecido, num encontro casual no café. Pungente, o violino de Steve Kindler (Jan Hammer deu-o a conhecer, anos atrás, em “The First Seven Days”, nos tempos gloriosos da Mahavishnu Orchestra), em “Second Time Around”, composto nos anos 60 pela dupla Sammy Cahn / Jimmy Van Hausen. “I Won’t Grow Up” voa sobre telhados antigos, transportando-nos até à era arqueológica das 78 rotações. Na derradeira canção, “Comin’ back to me”, uma sanfona despede-se ao longe, fazendo descer as cortinas sobre o ecrã onde, durante minutos, se projectou o filme de um mundo transfigurado pela luz.
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