Do país basco são conhecidos internacionalmente os Oskorri, hoje uma instituição da folk europeia, e o “virtuose” da “trikitixa” (acordeão) Kepa Junkera, que recentemente colaborou com os Chieftains e Júlio Pereira. Junkera é aqui o parceiro de Ibon Koteron, num álbum que pretende recuperar o “alboka”, clarinete duplo do País Basco – criando para ele um reportório actual -, e, em simultâneo, homenagear alguns dos mestres antigos, os “albokeros”, em particular a figura de Léon Bilbao. Bilbao foi, ele próprio, um revolucionário do “alboka”, na recusa em o reduzir a mero instrumento de pastores, contrariando ainda aqueles que negavam a possibilidade de o tocar recorrendo à técnica do sopor contínuo. Em “Loenen Orroak” é visível este esforço de modernização, tanto ao nível da produção como da orientação estética de um projecto que se insere inequivocamente numa corrente de folk sofisticada e ultra-arranjada com extensões nos diversos países da tradição celta. Não faltam ao “albokero” Ibon Koteron motivos de sobra e contextos instrumentais para fazer evoluir o som estridente do “alboka” sobre tapetes harmónicos que usam e abusam da sanfona, gaita-de-foles (incluindo as “uillean pipes” irlandesas), percussões árabes (por Luís Delgado, de todas as fusões) e, claro, a “trikitixa” inquieta de Junkera. (8)
Eliza Carthy
Heat, Light & Sound
TOPIC, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO
Tem a cara chapada do pai e, em matéria de talento, parece não querer ficar-lhe atrás. Eliza, filha de Martin Carthy e Norma Waterson, é, hoje em dia, uma das vozes mais importantes da folk inglesa – herdando o ceptro das mãos da sua mãe –, bem como uma violinista de razoáveis recursos. Aliás, a família inteira já provara a sua supremacia na obra-prima “Waterson: Carthy”, encontro e passagem de testemunho de duas gerações que fazem do amor pela música da Inglaterra o objectivo de uma vida inteira. Quanto à jovem Eliza, já dera início à sua emancipação num álbum de parceria com Nancy Kerr, “Shape of Scrape”, concluindo-a agora com um trabalho de notável maturidade que cumpre, à risca, as promessas apontadas no passado. Bem entendido, o pai dá-lhe uma ajuda, tal como um número razoável de amigos, entre os quais Olly (Oliver Knight, que também pode ser escutado a tocar ao lado da tia Lal (Waterson), em “Once in a Blue Moon”, álbum por sinal também já disponível no mercado nacional. Eliza bebe na colecção de Cecil Sharp, nos reportórios de A. L. Lloyd e Pete Seeger, na “morris dancing” e no cancioneiro francês, para dar a conhecer uma extensa gama de registos interpretativos e emocionais que unifica num discurso detentor de um inconfundível toque pessoal, mas marcado pela carga genética de uma “englishness” arraigada. (8)
DERVISH
At the End of the Day (10)
Whirling Discs, distri. MC – Mundo da Canção
Tudo bate certo no novo álbum dos Dervish, o quarto, depois de “Boys of Sligo”, “Harmony Hill” e “Playing with Fire”. O “set” inicial de “reels” instala, desde logo, o clima de calorosa intimidade que as várias imagens da capa sugerem. Em tons de ouro e fogo, os músicos da banda misturam-se com o cidadão vulgar, na mesma comunhão que, ao cair do dia, faz do “pub” o templo de convívio entre os homens e as gerações, numa ligação de velhos hábitos que se perpetua na música e nas libações. A sensação de partilha acentua-se ainda mais quando a voz de Cathy Jordan surge na primeira das canções. Mais do que nunca fazendo lembrar, pela semelhança do timbre e das entoações, quase infantis, Triona Ní Dhomnhail, evidenciando uma técnica e controlo talvez ainda mais apurados que os da antiga vocalista dos Bothy Band. A musicalidade que Cathy extrai do gaélico, numa canção como “Peata beag”, representa a depuração e compreensão máximas da quintessência dos ritmos e acentuações mais íntimos desta língua ancestral.
O esquema de alternância entre as “tunes” instrumentais e as canções vocalizadas mantém-se até final, conferindo a “At the End of the Day” um equilíbrio e diversidade de registos cuidadosamente geridos. Na mazurka e “reel” de “Jim Coleman’s set” o espírito dos Bothy Band volta a bailar, sendo verdadeiramente espantosas as prestações de Liam Kelly, na flauta, e Shane McAleer, na rabeca, firmemente apoiados pela batida poderosíssima de Cathy Jordan, no “bodrhan” e “bonés”. De resto, somos esmagados, tema após tema, pelos níveis de execução e sensibilidade atingidos pelos seis músicos que compõem actualmente o grupo. Como curiosidade, registe-se que em “Josefin’s waltz” os Dervish convidaram, para os acompanhar, o grupo sueco Väsen.
Música tradicional irlandesa em estado de completa maturação mas segurando com firmeza a flama do entusiasmo de quem sente ter ainda mais e melhor para lhe dar. Música que estabelece a comunicação com os deuses e os homens, possuída, do princípio ao fim, pelos rasgos de génio que são timbre exclusivo dos eleitos. Música feliz, que sabe não serem necessárias operações de maquilhagem para tocar no coração de quem verdadeiramente a ama. Na contracapa, consumada a alegria pagã do “pub”, com a silhueta recortada em contraluz, os Dervish olham o reflexo do crepúsculo nas águas esmeraldinas de um lago da Irlanda. A mesma tónica de nostálgica contemplação posta nos sons de despedida de “Eileen McMahon”. Uma vocalização “a capella” de Cathy Jordan gravada entre as paredes e a reverberação de uma velha igreja em Laragh, no condado de Wicklow, onde se conta a história de uma “rapariga maravilhosa que aparece num sonho a lamentar a situação triste da velha Irlanda”.
Há nesta luz e nestes sons qualquer coisa de sagrado. É o melhor disco dos Dervish e um dos melhores de sempre da música tradicional irlandesa. No panteão, junte-se aos nomes dos Chieftains, Planxty, Bothy Band, De Dannan, Patrick Street, Altan e Skylark o dos Dervish.