Arquivo mensal: Fevereiro 2017

Lal Waterson & Oliver Knight – “Once In A Blue Moon”

POP ROCK

5 Março 1997
world

Fantasmagoria

LAL WATERSON & OLIVER KNIGHT
Once in A Blue Moon (10)
Topic, distri. MC-Mundo da Canção


lw

Depois dos Watersons, ainda nos anos 60, da lição dos pais aos filhos, de “Waterson: Carthy” e de a jovem Eliza Carthy, primeiro com Nancy Kerr, recentemente, a solo, em “Heat, Light & Sound”, gritarem alto o nome da família, chegou agora a vez de outro dos seus elementos, Lal Waterson, com a colaboração de Oliver Knight (guitarras), abrir o livro noutra página. Provavelmente a mais brilhante.
A voz de Lal condensa, num universo pessoal e estelar, tudo o que existe de mais emocional em Norma Waterson e existia em Grace Slick (“Flight of the Pelican”) e Melanie (“Stumbling on”, “Wilson arms”) ou de inquietante, numa quase personificação de Nico, em temas como “Her white gown” e “Dazed”, de uma beleza sepulcral. Envolto numa produção atmosférica onde a reverberação e o dramatismo das vocalizações atingem, quase todos, a dimensão do sobrenatural, “Once in A Blue Moon” conta ainda com as colaborações, nos apoios vocais, em dois temas, de Norma Waterson e Jo Freya, uma ex-Blowzabella que também toca saxofone e clarinete, Martin Carthy, guitarra acústica num tema, e Charles O’Connor, rabeca, também num tema, entre outros nomes menos sonantes. Quanto a Oliver Knight, na guitarra, recorda, no estilo e na sonoridade, Martin Simpson. Mas o todo supera a junção das partes.
Disco lunar, parente das fantasmagorias de Nico e de Tim Buckley, difícil de enquadrar numa corrente, oscila entre a emoção levada a extremos de tensão quase insuportáveis e um tipo de experimentação que vai muito além do que a própria June Tabor ousou em “Angel Tiger” e “Against the Streams”. A este título, “Phoebe”, no modo como é feita a teatralização da guitarra eléctrica saturada de efeitos e distorção de Oliver Knight, constitui um dos momentos limite e mais perturbantes de “Once in A Blue Moon”. 1997 está a recolher do ano que findou alguns dos seus melhores trabalhos. Ambiental, trágico, totalmente introspectivo, “Once in A Blue Moon” é uma obra-chave do que poderíamos designar por “pós-folk”, em que a voz de Lal Waterson ultrapassa tudo o que poderíamos esperar. No pólo oposto, mas não menos brilhante, ao sol dos Dervish, está a lua de Lal Waterson.



Calamus – “The Splendour of Al-Andalus”

POP ROCK

5 Março 1997
world

Calamus
The Splendour of Al-Andalus
M.A, IMPORT. DISCO 3


cal

Todo o imaginário ligado à música antiga, seja qual for o seu quadrante geográfico, presta-se a operações de embelezamento que mais não visam do que fazê-la chegar a camadas de público que, de outra forma, não lhe prestariam a mínima atenção. É o caso dos Sarband, já por nós recenseado, com ligações “suspeitas” à música electrónica. É o caso, bastante menos radical, destes Calamus, na sua abordagem da música árabe-andaluz dos séculos XII a XV.
Na ficha técnica do grupo, encontramos os nomes de Eduardo e Luis Paniagua qie, de imediato, nos reenviam para outro grupo a que pertenceram e que fez história na música antiga, os Atrium Musicae de Madrid. Luis Delgado, geralmente presente em projectos de música de fusão, é outro dos elementos dos Calamus, cuja formação se completa com as duas cantoras Begoña e Rosa Olavide. Os cinco são multi-instrumentistas, numa parafernália onde, além dos característicos “’ud”, “târ”, “qanun” e “guimbri”, deparamos com designações mais exóticas como “chabbaba”, “doira”, “caraqebs” e “t’abila”. Juntem-se a estes a flauta, o saltério, a cítola, a viola de arco, o órgão portátil e a “darbuka”, e ficamos com uma ideia da riqueza tímbrica que os Calamus têm à sua disposição.
O processo de embelezamento ao qual nos referimos de início, passa, neste caso, pela embalagem luxuosa, segundo uma estética “new age”, e por uma produção sofisticada que aproveita ao máximo as possibilidades oferecidas, tanto pela tecnologia digital de captação de som como pela acústica o local de gravação, o Mosteiro de La Santa Espina, em Valladolid.
É a imersão total num som cheio e envolvente, por onde passam não só as noções mais básicas e enraizadas no inconsciente ocidental, da música árabe, como as subtilezas de registo e de interpretação com as quais os Calamus lidam com absoluta competência e agilidade. As vozes das irmãs Olavide optam pelo registo mais etéreo da música antiga, conferindo a este “The Splendour of Al-Andalus” o tal apelo generalista que poderá conduzir a outro envolvimento e atitude, perante modos mais viscerais de reinvenção deste tipo de reportório. Seja qual for a perspectiva com que se encare a beleza sem arestas de “The Splendour of Al-Andalus”, sai-se da audição com a alma lavada pela luz. (8)



Yungchen Lhamo – “Tibet, Tibet” + Choying Drolma & Steve Tibbetts – “Chӧ”

POP ROCK

26 Fevereiro 1997
world

Yungchen Lhamo
Tibet, Tibet (8)
REAL WORLD, DISTRI. EMI – VC
Choying Drolma & Steve Tibbetts
Chӧ (8)
HANNIBAL, DISTRI. MVM


yl

“Auuummmm”, incenso, campainhas, tlim, um gongo, bong, a despertar, dias inteiros a entoar cânticos em louvor das divindades, em templos perdidos entre as nuvens, no alto de montanhas inacessíveis. São algumas das imagens que, geralmente, se associam à música tradicional tibetana. Mas algo está a mudar dentro de portas e já faltou mais para que estes monges e monjas se transformem em “pop stars”. Neste caso trata-se de duas mulheres que trazem a religiosidade do budismo tibetano para as regiões profanas do consumo. “Tibet, Tibet” foi um dos álbuns que mais alto subiram nas listas dos “Melhores do ano” de 1996, da “Folk Roots”. É o mais tradicional do par. Voz solo ou acompanhada pelo coro dos Gyuto Monks, que, por sinal, já gravaram “Freedom Chants from the Roof of the World”, incluindo um tema como Philip Glass. Ascese, devoção, serenidade. Não chamamos sereia a Yungchen Lhamo (“Deusa da canção”) porque jamais ela aceitaria que alguém visse na sua música uma tentação. O que não impede que o espírito se rebole de prazer. Já Choying Drolma não tem destes problemas. A religiosidade é, no seu caso, adoçada pela produção e participação “new age” de Steve Tibbetts, guitarrista cósmico da ECM. “Chӧ” recorre também a um coro tibetano mas não dispensa nem arranjos de música de câmara, com as cordas da praxe, nem o sustento de um baixo eléctrico, num namoro hipnótico com o Ocidente que expõe as delícias perigosas do Tantrismo bem como de outros procedimentos da magia sexual tibetana. Música erótica. No leito das altas esferas.