Arquivo mensal: Fevereiro 2017

Zap Mama – “Seven”

POP ROCK

19 Fevereiro 1997
world

Os elefantes voam baixinho

ZAP MAMA
Seven (7)
Virgin, distri. EMI-VC


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Bobby McFerrin gravou, certo dia, uma obra-prima da música vocal, “The Voice”, viagem solitária pelos limites do canto e da multiplicidade das suas formas. Depois, aos poucos, foi-se adaptando, até se tornar apenas um bom cantor, alinhado no “mainstream”. Esta história, tantas vezes repetida, aplica-se ao novo álbum das Zap Mama, outrora um grupo vocal que, através de um par de álbuns, “Zap Mama” e “Sabsylma”, abriu algumas das portas que hoje escancaram a “world music”. O sucesso surgiu e, de novo uma história já sabida, o grupo assinou por uma multinacional. Há quem resista. As Zap Mama não resistiram. Uma das características que fazia a diferença, a criatividade dos ritmos, expressa em arranjos onde polifonia e polirritmia se casavam, diluiu-se na utilização de fórmulas alheias ao grupo e já ensaiadas por outrem. O ritmo pegajoso em que se torna o “hip-hop” quando é segurado por mãos de pouca agilidade entrou a pontapé no universo, até então pessoal, das Zap Mama (“Jogging à Tombouctou”, “Baba hooker”, “Poetry man”, “Timidity”). A ginástica vocal envereda igualmente pela repetição dos gestos, agora subjugados pelos imperativos de danças de aprendizagem acelerada. São os lugares-comuns da música africana. São uma chusma de músicos a encher cada buraco da mistura. É um bocejo que facilmente se instala, acompanhado pela sensação de desperdício. Até se chegar ao tema número nove, “Telephone”, o momento menos preguiçoso do disco, desenvolvido, ainda assim, a partir das mesmas premissas de “Taxi”, do álbum de estreia, quando os tímpanos se congratulam com a verificação de algo mais consistente e original. Mas algo desperta, de facto, a meio do percurso. “Nostalgie amoureuse” cria outro momento que apetece investigar mais fundo, enquanto “Timidity” mistura Billie Holiday, Shirley Bassey, “hip-hop” e “acid jazz”. Ou seja, como que dando por cumpridas as obrigações contratuais, as senhoras resolveram, enfim, arriscar como faziam antes, aproximando-se da veia inovadora que caracterizava os dois primeiros álbuns. Decisão que peca por tardia. Sob a rodela de alumínio, a ilustração de um elefante, envia a mensagem: “Eleve a sua consciência”. Mas como o animal é de peso, a elevação torna-se difícil. O que não impede que “Seven” dê ao grupo a oportunidade de conseguir outros voos, mais altos. Mas é o primeiro passo, não diríamos para trás, mas ao lado, das Zap Mama.



Anna-Kaisa Liedes – “Oi Miksi”

POP ROCK

19 Fevereiro 1997
world

Anna-Kaisa Liedes
Oi Miksi
RIVERBOAT, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO


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Não, não é a sósia finlandesa de Teresa Salgueiro, como se poderia depreender das primeiras notas de “Oi Miksi”. Anna-Kaisa é um dos vários diplomados com distinção pela Academia Sibelius, de Helsínquia. Fez parte da semente comum a vários projectos de renovação da folk finlandesa, as Niekku, e recebeu lições de kantele de Martti Pokela, o mestre dos mestres. O reportório pertence às regiões da Ostrobothnia, Karelia e Ingria. Os arranjos e a postura vocal não andam longe de Mari Boine Persen. Entre os convidados, está a sua antiga companheira, nas Niekku, Maria Kalaniemi, no acordeão. (8)



Leon Rosselson – “Intruders”

POP ROCK

5 Fevereiro 1997
world

“Sabemos quem devemos acusar”

LEON ROSSELSON
Intruders (8)
Fuse, distri. MC – Mundo da Canção


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“Para alguns, falar em canção é falar em mensagem, em argumentos, em abstracções, numa procura interior, em garatujas de introspecção, em fazer dinheiro. Para mim, uma canção torna-se mais importante do que tudo isto quando procura inventar personagens e histórias. A canção como teatro”. Há nesta declaração de intenções de Leon Rosselson um aparente paradoxo, na medida em que este músico se insere na vertente mais interventiva da “folk” urbana, campo no qual se pode equiparar a Christy Moore, na Irlanda, ou ao seu compatriota Martin Carthy que, aliás, o acompanha neste álbum, em guitarra acústica. As dúvidas desfazem-se, porém, de imediato, quando, a propósito do tema de abertura, “The heartening tale of John Pratt”, uma história sobre “um ‘tory’ dos dias de hoje”, garante que “qualquer semelhança entre o herói desta história e alguma pessoa viva, morta ou num estado intermédio, não passa de uma maravilhosa coincidência”.
Escudado nesta ironia, Leon Rosselson passa a disparar com pontaria certeira sobre a política, acontecimentos sociais ou o quotidiano sem chá nem poesia do cidadão inglês das classes menos favorecidas. Como na obra-prima “Guess what they’re Selling at the Happiness Counter” – colectânea revista e corrigida pelo autor, aqui já recenseada com nota máxima, disponível pela MC, bem como a reedição de “Wo Sind die Elefanten?” – “Intruders” justapõe a acutilância das palavras à força melódica de melodias que, em contraponto aos arranjos mais sofisticados daquele álbum, sendo estruturalmente simples, jamais se confundem com simplismo. Além do suporte básico das guitarras de Rosselson e Carthy, a instrumentação conta ainda com os teclados de Fiz Shapur e a voz de Lisa Mansfield, em dois temas. No último, Leon desaparece, dando lugar ao registo mais tradicional das vozes, guitarra e violino de Chris Foster e Sianed Jones.
Se compararmos, de novo, com Christy Moore, é curioso notar, nestes dois trovadores dos tempos modernos, a existência de um contraste entre a violência, ideológica ou emocional, dos textos, e a suavidade das vozes. A válvula de escape apenas deixa escapar a pressão através de voz de Lisa Mansfield, cujo registo de opereta enfatiza a teatralidade defendida, de início, por Rosselson.
Dividido em três actos – “Manter o controlo”, “Está a habituar-se a isto?” e “Sabemos quem devemos acusar” –, “Intruders” termina com uma nova nota de ironia, com uma “coda” “para aqueles que preferem um final feliz”, extrapolada de um poema de William Blake, em “All that is different is part of the dance”: “Porque toda a vida é sagrada, disse certa vez o poeta/E tudo o que é diferente faz parte da dança/A teia de cores da vida necessita do mínimo filamento/Para que a dança continue sem quebrar”.