Arquivo mensal: Junho 2016

Bert Jansch – “When the Circus Comes To Town”

Pop Rock

25 de Outubro de 1995
Álbuns world

FANTASMAS NO CHAPITÔ

BERT JANSCH
When the Circus comes to Town (8)

Cooking Vinyl, distri. MVM


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De quando em quando, surgem discos como este, de sedução indefinida. Tocam uma vez e outra e outra. Discos que se ouvem devagar, com os quais se confraterniza como com um novo amigo que se vai dando a conhecer. Bert Jansch não é novo, muito menos um novato, mas um dos elementos da formação original de uma das bandas míticas da folk inglesa, os Pentangle, de John Renbourn, Danny Thompson e Jacqui McShee. Os anos passaram e bert remeteu-se a uma penumbra apenas quebrada pela edição esporádica de alguns álbuns, nenhum deles distribuído no nosso país. “When the Circus comes to Town” acena-nos de um lugar imaginário, algures entre uma “village” inglesa e o Mississipi. A linguagem de Bert Jansch define-se nessa síntese da “folk” inglesa, como a diziam os Pentangle, e os “blues” subtis de um branco receptivo às múltiplas confidências do mundo. O pano abre para um palco de nostalgia, povoado por personagens de um circo fora de uso. Velhas fotografias e cartazes desbotados do maior espectáculo do mundo que Bert vai apresentando como se esta companhia de sonhos fosse sua. Os arranjos são de uma simplicidade desarmante. Uma guitarra, a sua, condimentada pelo fraseado “fingerpicking”, alguns coros esporádicos, um saxofone na linha do horizonte, um violino dormente (“Step back”, uma balada arrastada na linha de “Sloth”, um dos temas de “Full House”, dos Fairport Convention), naipe de cordas sussurrantes. Esvoaçam por aqui os mesmo espectros que se passeiam na obra-mestra de John Martyn, “Solid Air” (ouça-se, como exemplar assombração, uma faixa como “Summer heat”). Um ambiente geral de amplitude e limpidez de sentimentos. Tempo suspenso, como num sonho. Quando o circo chega à cidade, transformamo-nos de novo em crianças. O de Bert Jansch está cheio de atracções, num desfile de canções de alto calibre, como “Walk quietly by” (o som dos Pentangle, no seu melhor) “Open road”, “No one around” e “Born with the blues” (se existe um “blues” no “green” inglês, ele encontra-se nestas duas faixas), “Just a dream” (fabuloso “swing” ao estilo de um J.J. Cale) e “Living in the shadows”. O maior espectáculo do mundo. No ventre do mais estranho chapitô.



Baka Beyond – “The Meeting Pool”

Pop Rock

25 de Outubro de 1995
Álbuns world

Baka Beyond
The Meeting Pool

HANNIBAL, DISTRI. MVM


bb

Martin Cradick tem uma fixação nos pigmeus “baka” e na sua música. Todo o projecto Baka Beyond gira em torna dessa espécie de iniciação nos segredos da gente pequena dos Camarões. Encetada com “Spirit of the Forest”, nas suas duas versões, uma com assinatura do grupo, outra com registos naturalistas do som da selva e dos pigmeus, a aventura prossegue aqui com maior incidência nos arranjos electrónicos e nas programações rítmicas. Por outro lado, a matriz geográfica universalizou-se. O rio de influências desagua tanto na música e nos intérpretes do Uganda e do Senegal (através do descendente de “griots” Sagar N’Gom, companheiro de Cradick nos Outback), como num pueril exercício de “celtismo”, personificado pela voz de Kate Budd e o violino de Passy LeMercier. A instrumentação estende-se dos tambores de água ao “didgeridoo” e à gaita-de-foles dos Balcãs. As vozes dos pigmeus permanecem, mas a música já pouco ou nada tem que ver com a fonte da floresta que lhe deu origem. Disco típico de fusão, “The Meeting Pool” constitui um bom exemplo de como meter a foice em seara alheia sem causar estragos nem provocar vergonhas de maior. Alternativa “ultra light” para as operações de maior envergadura de uns Lights in a Fat City, nas margens mais pacíficas do “quarto mundo”, capaz de trazer para a “causa” um número razoável de novos aderentes. (7)



Varttina – “Aitara” + Garmarna – “Vittrad” + Henry Kaiser & David Lindley – “The Sweet Sunny North”

Pop Rock
18 de Outubro de 1995
Álbuns world

Vida para além dos Hedningarna

VÄRTTINA
Aitara (8)

Xenophile


varttina

GARMARNA
Vittrad (9)

Xxource


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HENRY KAISER & DAVID LINDLEY
The Sweet Sunny North (8)

Kosh International
Todos distri. MC-Mundo da Canção


hk

O sucesso estrondoso alcançado pelos suecos Hedningarna acarretou algumas vantagens mas também algumas desvantagens. A principal vantagem foi ter chamado a atenção para uma região, a Escandinávia, cuja música tradicional andou sempre afastada dos principais centros de decisão do mundo “folk”. A maior desvantagem está em que, rapidamente, um número razoável de grupos da mesma proveniência geográfica descobriu o filão e tratou de “imitar” os autores de “Kaksi!” e “Trä”, transformando numa fórmula o que na origem era uma música profunda e genuinamente original. O “perigo” da criação do que poderíamos chamar uma escola Hedningarna, por muito boa que seja a música de grupos como os Den Fule ou Hoven Droven (só para citar os mais aplicados), está na normalização, padronização, do que seria um “som escandinavo”. Algo que poderíamos situar no cruzamento da herança tradicional com uma prática estilística firmemente enraizada no jazz (cujos paradigmas recuam ao pioneirismo dos Sammla Mannas Mama e Arbete & Fritid), a par de uma certa “anarquização” (leia-se “selvajaria”) dos arranjos. No caso dos Garmarna, as semelhanças com os Hedningarna são até bastante ténues. É antes na música medieval ou no imaginário “folk” imposto pela vaga irlandesa dos anos 70 que a música de “Vittrad” se afirma.
Por muito que a terminação fonética seja a mesma, a verdade é que os Garmarna se dirigem a gostos educados num passado mais remoto, que assistiu já a várias “revoluções”. Depois, nem a sanfona explode nem a voz de Emma Härdelin pertence à tribo das feiticeiras, como fica amplamente demonstrado em temas de uma beleza interiorizada como “Inte sorja vi…”, “Liten kersti” , “Domschottis” e “Styvmodern”, bem mais chegados às litanias rosa-gelo de Agnes Buen Garnas, em “Rosensfole”, que ao furor “viking” dos diabos de “Trä”. Em poucas palavras: excepcional.
As Värttina são outra coisa, mais solar e, a julgar por este seu quarto álbum, divertida. Depois dos magistrais “Oi Dai” e “Seleniko”, o grupo vocal, de novo apoiado numa secção instrumental variada, regressa de cara lavada e decidido a investir num alargamento de mercado. Em “Aitara”, as Värttina aumentaram a voltagem e arredondaram as arestas rítmicas. São agora uma banda folk-rock (“Outona omilla mailla” e Kannunkaataja” a passarem na rádio, numa emissão rock?…). Sem vergonha. Com a bateria e o baixo a baterem com força. Forçam a dança, sem hipótese de resistência. Mas, ó maravilha, no camiho da euforia, o ritmo tropeça em momentos como “Maamo” (“mãe”) e silenciamo-nos e sabemos que a Finlândia ancestral continua a respirar na alma destas sacerdotisas. As Värttina estão, é certo, mais cosmopolitas e sofisticadas, o que retirou à sua música um pouco da sua coloração “étnica”, patente nos álbuns anteriores. Mas apostamos que “Aitara” trará para o grupo uma legião de novos admiradores.
Por fim, temos o “caso” Kaiser, Lindley e o seu “affaire” Noruega. Henry Kaiser e David Lindley são dois americanos com um pé nas “novas músicas” e outro na música tradicional. Como todos os americanos que se prezam, sentem-se bem no papel de turistas. Só que, para eles, não é só ver e fotografar. Metem as mãos no fogo, que é como quem diz, no melhor que a música tradicional das regiões que visitam tem para oferecer, e com ele fazem “cocktails” de originalidade e, diga-se de passagem, legitimidade garantidas. Como já acontecera na anterior aventura, em dois volumes, passada em Madagáscar (“A World out of a Time”), a dupla reuniu alguns dos melhores grupos e solistas vocais e instrumentais, desta feita da Noruega, nalguns casos não lhes tocando, noutros metendo a colher, isto é, guitarras de todo o tipo, para obter exóticos exemplares de “world music” de focagem incerta. Mais uma vez, levam na bagagem bastante que contar e uma obra que é, em simultâneo, um tratado de etnomusicologia e um divertimento.