Arquivo mensal: Junho 2016

Dervish – “Playing with Fire”

Pop Rock

4 de Outubro de 1995
Álbuns world

Brincar com o fogo sem se queimar

DERVISH
Playing with Fire
(9)
Whirling Discs, distri. MC – Mundo da Canção


drv

Em apenas três álbuns – “Boys of Sligo”, a estreia, já disponível entre nós, “Harmony Hill”, e agora este jogo com o fogo, “Playing with Fire” – os Dervish tomaram a dianteira, a milhas de distância dos debutantes que, às centenas, vão procurando um lugar ao sol (tarefa nada fácil nesta ilha banhada pela bruma…) na “irish traditional music”.
“Playing with Fire” é o prolongamento lógico do seu magnífico antecessor. Sem concessões de qualquer espécie, uma energia transbordante, embora domesticada, e a noção exacta do ponto de equilíbrio entre as normas que é preciso respeitar e a criatividade no manejo e desenvolvimento dessas mesmas normas. Mas será que não é um estado artificial, impossível de reproduzir nas condições, menos susceptíveis de manipulação, das actuações ao vivo? A resposta a esta dúvida, já a sabem todos quantos tiveram a felicidade de assistir ao memorável concerto dado pela banda há dois anos no Intercéltico.
Os Dervish dominam como poucos as técnicas instrumentais, não cedendo nunca a atirar foguetes ou a acender os fogos-de-artifício do exibicionismo. A música tradicional irlandesa, os seus modos e estilos exigem do intérprete uma entrega total, até da sua alma. Não basta ser tecnicamente apto; é preciso aprender por dentro a viver e a sentir séculos de passado que se ligam com o presente nas espirais da eternidade. Por isso é tarefa árdua, quase sobrenatural, para o músico “estrangeiro” tocar da mesma maneira que o músico irlandês, por melhores que sejam as suas aptidões como instrumentista. Há um ritmo e um balanço específicos. O seu domínio é o domínio do fogo. A arte de controlar as chamas, de esculpir a sua intensidade e as suas formas. Numa fase mais adiantada, de saber dançar com e sobre elas. Só então os deuses, se assim o entenderem, dão autorização para brincar com o fogo a um número reduzido de eleitos.
Impressiona o percurso e a aprendizagem intensiva dos Dervish nos últimos anos. O “fiddle” (não soa muito bem dizer “rabeca”, pois não?), de Shane McAleer e a flauta de Liam Kelly já eliminaram todos, ou quase todos, os obstáculos que impedem que a música do espírito coincida em absoluto com a do corpo e do instrumento – a ferramenta. Apenas lhes faltará a sublime e derradeira etapa, de tocar (em solo) devagar e baixinho, ouvidos interiores atentos a um marulhar ainda mais longínquo e profundo, de lágrimas vertidas pela velha Irlanda.
Cathy Jordan – faltava falar dela, definitivamente a sucessora de Triona Ni Dhomnaill, dos Bothy Band, e de Dolores Keane, nos seus tempos áureos com os De Danann e o seu marido, John Faulkner – já aí chegou. Emocionem-se, como eu me emocionei, a ouvi-la cantar a saudade (os irlandeses decerto que a sentem, como nós) que nasce no mar e morre no mar, respectivamente em “Molly and John” e “Willie Lennox”. Ela é a água que tempera o fogo dos seus companheiros mais novos. Os deuses deixam-na brincar.



Steve Ashley – “Family Album”

Pop Rock

27 de Julho de 1995
Álbuns world

Steve Ashley
Family Album

ROAD GOES ON FOREVER, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO


sa

Reedição de um original gravado em 1979 nos estúdios Woodworm de Dave Pegg, dos Fairport Convention, mas editado somente três anos mais tarde no selo com o mesmo nome, “Family Album” é um trabalho conceptual que etrata de maneira satírica, faixa a faixa, os vários elementos de uma família inglesa. O seu autor já entrara anteriormente na obra-prima “Anthems in Eden”, de Shirley e Dolly Collins, integrar uma das primeiras formações dos Albion Band e, já a solo, gravara, entre outros discos, uma pérola do “folk progressivo” dos anos 70, “Stroll on”, fundando anos mais tarde o seu próprio grupo, Ragged Robin.
“Family Album” oscila entre o cinismo e a ternura, o humor e a poesia das tardes inglesas, dos jardins infinitos e do “five o’ clock tea”, como em “Pancake day”, um retrato onde entram sinos e pássaros, e um coral de outros tempos, como gostamos de o imaginar, elevando-se de uma capela perdida numa esquina do tempo, no meio do “country”.
Baladas assombradas pelo génio da melodia e da fragilidade, como “once in a while” e “Love is all we live for”, na linha de grupos como os Dando Shaft e Fairfield Parlour (preciosidades desconhecidas pelas quais vale a pena rebuscar no baú dos anos 70), ou próximas da amargura de Richard Thompson, como “Days like today”, contrastam com a violência de “Lost and found (The dog’s day)”, alegadamente cantado num “estilo canino”, onde Steve Ashley parece estar possuído pela loucura dos Residents, ou com as vocalizações “doo wop”, revistas de forma brilhante no exercício revivalista de “I’m a radio”.
Para quem se deixou conquistar pela recente colectânea de Leon Rosselson e não dispensa uma dieta de folk inglês, para desenfastiar das grandes pratadas irlandesas, “Family Album” constitui uma alternativa obrigatória. (8)

Luar Na Lubre – “Ara-Solis”

Pop Rock

19 de Julho de 1995
Álbuns world

“Dun tempo para sempre”

LUAR NA LUBRE
Ara-Solis (10)

Sons Galiza, distri. MC-Mundo da Canção


lnl

Nesta altura, os que já conhecem este grupo galego, e ainda mais os que tiveram oportunidade de assistir à sua actuação no Intercéltico de Abril passado, já deverão ter adquirido o disco e perguntado por que razão é que “o gajo do PÚBLICO” ainda não escreveu nada sobre ele. Têm toda a razão. As razões do atraso são as do costume: falta de espaço e excesso de oferta. Mas os outros, os que não fazem a mínima ideia de quem são os Luar na Lubre nem ouviram os anteriores “O Son do Ar” e “Beira-Atlântica”, merecem que recapitulemos este novo trabalho de uma das melhores bandas do actual circuito tradicional da Galiza.
Os Luar na Lubre vão pelo caminho que poderia ser hoje o dos Milladoiro, se estes não tivessem, a determinada altura, enveredado pela via do classicismo. Domínio perfeito da linguagem tradicional e um bom-gosto inexcedível nos arranjos, plenos de energia e subtilezas escondidas, conferem à música do grupo um grau de alta qualidade. Em termos individuais merece ser referido o fenomenal desempenho de Bieito Romero, na “gaita”. Na “Muiñera de Malpica” inicial consegue mesmo ser empolgante, o mesmo acontecendo em “Muiñeira de Poio”, com um balanço imparável, ou no tom “processional” (mais arrastado e apoiado no bordão) de “Marcha procesional de Mato”. No extremo posto da escala de timbres, a saliência vai para a harpa, clara e luminosa, de Cris Gandara, simplesmente em estado de encantamento na composição da sua autoria, “Nodaiga”. Com meios instrumentais riquíssimos à sua disposição (harpa, acordeão, bouzouki, violino, flauta, contrabaixo, gaita-de-foles galega e de Northumbrian…) e a capacidade para os aproveitar da melhor maneira, os Luar na Lubre têm o céu ao alcance da mão. E a poesia, que se desprende dos versos de “Dun tempo para sempre”, cantados por Ana Espinosa, sobre a cadência mágica de um “alalá”, ou “ailalelo” (cântico tradicional ancestral da Galiza): “Cando atoparemos/ druidas envoltos/ nos fumes das lubres/ nos bosques de emain? E o luar enfeitizado/ polas sombras que ainda emerxen/ da última noite/ noite de luar. Soños galopando/ xa rachan co silencio/ e o vento assubia/ acordes de alalás.” Um clássico.