Nandkishor Muley
The Resplendent Sound of Indian Santur
I.I.T.M., DISTRI. ETNIA
O “santur” é uma variedade de saltério originária da cultura árabe-persa que se disseminou ao longo da Ásia oriental e do Sul, desempenhando hoje um papel de destaque na música tradicional da região de Kashmir, na Índia, bem como nas canções/orações místicas (“kralam”) “sufi”. Ao longo de quatro “ragas”, Nandkishor Muley, reconhecido “virtuose” do “santur”, tira o máximo partido das suas ressonâncias mágicas, com o apoio de “tablas” e uma “tampoura”. Uma boa chamada de atenção para as raízes de um músico como Laraaji. (8)
Vicente Amigo
Vivencias Imaginadas
COLUMBIA, DISTRI. SONY MUSIC
Os amantes de flamenco da velha guarda decerto franzem o nariz aos tratos que Vicente Amigo aplica à sua menina dos olhos. É verdade que a música deste guitarrista, que volta e meia nos honra com a sua visita, não tem, por agora, o peso e a consistência da dos seus congéneres mais velhos, como Manitas, Habichuela, ou mesmo o seu amigo e mestre Paco de Lucia, só para mencionar alguns dos mais conhecidos internacionalmente. O “duende” de Vicente tem a mão leve, as notas deslizam com facilidade e velocidade, a técnica está toda lá, o coração e a tripas é que ainda não. Ouvem-se as suas rumbas, bulerias, fandangos ou rondeñas com o espírito ligeiro de quem sabe que não há-de sair ferido da contenda. A escola deste menino-prodígio é a mesma de outro “virtuose” da sua geração, Rafael Riqueni, e na sua aprendizagem passam muitas horas de audição e prática de “jazz”. Um dos temas, “Querido Metheny”, no qual participa Paco de Lucia como convidado especial, é mesmo dedicado a Pat Metheny, outro guitarrista por quem Vicente nutre particular admiração. A participação do cantor Duquende, em três temas, traz reminiscências de tradições mais antigas, mas não garante por si só a adesão de quem já se aqueceu (e queimou…) ao lume de outras fogueiras. (6)
ÖKROS ENSEMBLE
Transylvanian Portraits (10)
Koch World, distri. MC-Mundo da Canção
Recuemos no tempo, se quisermos conferir o bilhete de identidade de uma música que hoje, mais do que nunca, se afirma como manifesto de uma minoria étnica, dos povos magiares da região da Transilvânia. Território romeno desde o final da Primeira Grande Guerra, como consequência da dissolução do Império Áustro-Húngaro, a cultura da Transilvânia, sob o domínio de Nicolae Ceausescu, passou a ser sistematicamente marginalizada, quando não dizimada às mãos do ditador romeno. O resultado, como sempre acontece nos casos de isolamento, foi o fortalecimento da identidade cultural e dos laços patrióticos dos húngaros da Transilvânia.
A partir da revolução romena de 1990, e da consequente abertura política e cultural, a ameaça deslocou-se da opressão para a assimilação e descaracterização. Bela Bartók e Zoltan Kodaly, nos domínios da clássica, através das suas recolhas e trabalhos sobre a música tradicional transilvana, juntamente com George Martin e Zolton Kallas e, a partir dos anos 70, o florescimento de uma vaga de folk urbano, lado a lado com a revitalização dos grupos de dança Tanchaz, asseguraram a sobrevivência daquela tradição. E assim se chegou aos Sëbo Ensemble, Kolinda, Vujicsics, Zsaratnok, Vasmalom ou Muzsikas (têm um álbum novo, “Këttos”, sem Marta Sebestyen), grupos cuja divulgação no Ocidente tem sido nos últimos anos uma constante.
Marta Sebestyen é, claro, o nome mais mediático, e não poderia faltar neste trabalho, no qual os Ökros Ensemble se juntaram ainda a músicos locais da vila de Mera, no centro da Transilvânia, onde parte do disco foi gravado. À instrumentação tradicional do Ökros – dois violinos, koboz (uma espécie de alaúde), violoncelo, kontra (violino de três cordas) e contrabaixo -, juntaram-se, nos temas de folclore dos Cárpatos, o gardon, cimbalon e flautas.
Já ambientados, sigamos com o grupo de músicos ciganos da capa, pelas cerimónias mágicas e religiosas da comunidade húngara da Transilvânia. Quem estiver familiarizado com os álbuns dos Muzsikas notará aqui uma maior profundidade e proximidade das raízes, síntese dos antepassados ancestrais asiáticos, turcos e do Médio Oriente, em conjunto com as tradições judaicas e cristãs da Europa Ocidental. Deixemo-nos, pois, embalar pelo inconfundível balanço sincopado, como soluços ou gritos reprimidos durante séculos, dos violinos e do kontra, e pelas vozes moldadas por Deus e pelo barro. Não é um álbum para escutar com a atenção distraída pelos chamamentos do mundo moderno. A sua música fere-nos a alma e obriga-nos a fincar-lhe os dentes. Os adoradores da espuma dos dias deverão passar ao lado. Os surfistas do vazio, idem. “Transylvanian Portraits” é um castelo de portas bem guardadas. E, no entanto, escancaradas. Para entrar basta estar vivo e não ter perdido ainda a capacidade de sentir. Será pedir muito, nos dias que correm?