Arquivo mensal: Dezembro 2009

Beach Boys – Holland (self conj.)

27.04.2001
As Novas Vidas de Brian
Holland
7/10

beachboys_holland

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Sunflower
8/10
Surf’s Up
9/10
The Beach Boys Love You
8/10
Os Beach Boys não podiam ter encetado da melhor maneira a entrada na fase “seventies” da sua carreira, com um regresso aos estúdios que não trai, antes prolonga, o refinamento de escrita dos anteriores “Wild Honey” e “Friends”. Brian Wilson contribui com cinco temas para um álbum marcado por uma aura de espiritualidade e mistério que culmina na divagação subaquática de “Cool, cool water”, entre lenga-lenga e polifonias dormentes flutuando em bolhas de sintetizador numa noite de trovoada. “Deirdre” e “Tears in the morning”, ambas de Bruce Johston, e “forever”, do irmão Dennis, que Brian considera uma das “coisas mais maravilhosas em termos de harmonia” que alguma vez ouvira, são outras das pérolas de uma despedida da juventude que soa tão ensolarada como triste.
Editado exactamente uma ano depois de “Sunflower”, em 1971, “Surf’s Up” é o álbum clássico dos anos 70 dos Beach Boys. Embora o clima de espiritualidade se mantenha, a adrenalina sobe de nível em canções de teor mais rock e politicamente interventivo como “Take a load off your feet”, de Alan Jardine, e “Student demonstration time”, um standard de Leiber e Stoler recuperado com uma letra nova por Mike Love, que não deixa de fazer lembrar alguns registos idênticos de John Lennon.
De resto, entre resquícios de uma bubblegum teatral que os Aparks transformariam mais tarde em ópera kitsch e um tom declaradamente beatleiano, “Surf’s Up” assinala ainda a descoberta do “progressivo”, em “Feel Flows”, de Carl Wilson, pautado por um solo de flauta e efeitos psicadélicos. Para o final ficam os três temas mais tocantes, todos com a assinatura de Brian: “A Day in the life of a tree”, pura sonatina de luz, “Til I Die”, declaração pungente da vulnerabilidade de um génio, e o título-tema, embalo das ondas para fazer adormecer na praia.
Com Brian Wilson de fora, revolvido nas suas obsessões e dependências, os restantes Beach Boys ficaram com espaço livre para provarem em definitivo que eram algo mais do que os irmãos mais novos do clã Wilson, assegurando a produção e a maioria das composições do álbum que sucede a “Carl and the Passions: So Tough”. Gravado na Holanda, “Holland” abre contudo com aquela que é considerada uma das canções clássicas tardias de Brian, “Sail on, sailor”, tema sem dúvida poderoso mas que, em nossa opinião, perde na comparação com a maioria da sua produção para o par de álbuns anteriores. Colorações country, incursões no passado longínquo (“California saga”), pop despreconceituosa e tom geral de desprendimento fazem de “Holland” um álbum de cruzeiro que a presente reedição torna em algo de especial graças à inclusão do extra “Mt. Vernon and fairway (a fairy tale)”, narrativa infantil/surrealizante em seis partes composta por Brian Wilson onde este rememora as noites de infância passadas em casa dos pais a escutar música no escuro num velho aparelho de rádio. O mesmo Brian Wilson estranho, experimental e electrónico como não se ouvia desde as sessões de “Smile”.
Mas Brian voltaria a sorrir. E a ter motivos para tal. Acompanhado de uma dedicatória de Carl, Dennis, Mike a Alan, onde estes expressam o seu amor e reconhecimento a Brian pelo seu regresso em pleno à banda, “Love You”, que sucede à recapitulação “15 Big Ones”, é, além da dedicatória sincera, o derradeiro testamento relevante do grupo, embora muitos vejam neste álbum mais um trabalho a solo que um esforço colectivo. Brian Wilson produziu e compôs a totalidade dos temas e se pode ser penoso verificar a sua decadência vocal em temas como “Mona” (o arcanjo surfista desaparecera para dar lugar ao esquizóide intermitente), a pujança criativa de outros, como “Johnny Carson”, faz de “Love You” uma obra de onde, apesar das feridas mal cicatrizadas, se desprende uma alegria e uma jovialidade que há muito não se detectavam nos Beach Boys – e muito menos no seu líder reencontrado. O vaudeville de “Good Time” ou a santa loucura partilhada durante um minuto com Roger McGuinn, dos Byrds, em “Ding Dang”, terão arrancado em definitivo Brian da feira das vaidades. Para passar a ser um astro em órbita distante no sistema solar.

Xosé Manuel Budino – Arredor

27.04.2001
Xosé Manuel Budino
Arredor
Yerba Buena, distri. EMI-VC
7/10

xosemanuelbudino_arredor

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Depois de Carlos Nunez se ter vendido a um “Mayo Longo” de divisas, e de Cristina Pato, no novo “Xilento”, ter borrado a música com tintas mais berrantes que as do verde do seu cabelo, é a vez de Xosé Manuel Budino – cuja estreia a solo, “Paralaia”, causara óptima impressão – deixar crescer a trunfa e a lista de convidados (Donald Shaw, Jacky Molard, José Clement, Leilia, Mercedes Péon, Tony McManus, Ove Larsson, Paco Ibanez,…) emprestando o seu virtuosismo a uma música que, a pensar no mercado europeu, se entregou às mãos de uma produção muito pouco folk. Mesmo assim, o virtuosismo e “punch” de Budino enquadram-se de forma harmoniosa com as programações electrónicas e as batidas rock, chamando a atenção para o facto desta ser já uma “música de autor” (todas as composições são assinadas pelo próprio) de alguém que, por acaso, se formou na tradição.

Genesis – Calling All Stations

19.09.1997
Genesis
Calling All Stations (3)
Virgin, distri. EMI-VC

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Numa altura em que os dinossauros estão prestes a regressar pela mão de Steven Spielberg, no segundo capítulo da saga do seu Parque Jurássico, o mundo volta a ser atacado por um dos espécimes mais resistentes e perigosos, o temível Genesiossauro, um dos maiores predadores dos charts. “Calling All Staions” aí está para cavar mais uma estaca no coração daquela que foi uma das bandas mais originais e criativas dos anos 70. Anthony Philips foi-se embora. Peter Gabriel despediu-se. Steve Hackett fartou-se. Ficou o tio Collins, que, por fim, também se fartou. Ficaram Mike Rutherford e Tony Banks. Com as mãos a abanar e uma tarefa por cumprir. Os Genesis, para mal dos nossos pecados, têm que continuar. Ouvidos 35673420 candidatos, foi escolhido um Ray Wilson, ex-Stiltskin, cuja voz – oh espanto e danação! – faz lembrar, em temas como “Congo”, a de Peter Gabriel. Aliás este e outros temas de “Calling All Stations” repescam a mesma estética de batida tribal que Gabriel explorou nos seus trabalhos a solo, com a diferença de que a criatividade é nula. São onze temas que se arrastam e se auto-estimulam, na vã tentativa de, com o esforço, encontrar um caminho, qualquer que ele seja, que vá dar a algum lugar que não o das vendas. Tempos médios sucedem a tempos médios, os refrões esgotam-se nas mesmas fórmulas que os anos foram cristalizando. Os Genesis arrastam-se e arrastam-nos num longo bocejo. Ainda não é desta que matam o borrego. Que, aliás, já foi morto. Há muitos anos, na Broadway.