Arquivo mensal: Dezembro 2009

Eliza Carthy – Eliza Carthy & The Kings of Calicutt (conj.)

25.07.1997
Três Inglesas Românticas
A folk britânica está nas mãos de três mulheres. São inglesas e têm uma visão romântica da música tradicional, enquanto projecção de estados de alma subjectivos ou lugar onde as forças cósmicas confluem no indíviduo. A alegria, em eliza Carthy. A sensualidade, em Kathryn Tickell. A magia em Maddy Prior. Entre cada uma delas existe uma diferença de idades de mais ou menos dez anos, começando em eliza e acabando em Maddy. Aproxima-as a entrega à música que amam. E uma visão: de que a Tradição é algo sempre vivo e inacabado.

elizacarthyandthekingscallicutt

LINK (“the union chapel london”)
pwd: sharedmusic.net

Eliza Carthy é a mais nova das três. Filha de pai e mãe ilustres, Martin Carthy e Norma Waterson, gravou com eles um par de álbuns de luxo que vieram reorientar a “folk” inglesa no sentido de ajustamento ao veio mais sólido da tradição, “Waterson: Carthy” e “Common Tongue”.
Só que no seu novo álbum, “Eliza Carthy & The Kings of Calicutt”, a jovem Carthy decidiu romper com os progenitores, pondo os seus talentos de violinista e vocalista ao serviço de uma música com outro tipo de energia que deve tanto às danças “morris” como ao rock. A sua ligação aos Kings of Calicutt – quarteto de bateria, baixo, acordeão-vox e saltério-voz – corresponde, no fundo, a um fenómeno de retorno periódico dos “folkers” ingleses ao “folk rock”, dando razão aos que não encontram nas bases tradicionais material suficiente para uma progressão e manutenção, a longo prazo, no sentido da sua modernização. Exemplos não faltam: dos Fairport Convention aos Steeleye Span, dos Fotheringay aos Woods Band, dos Home Service aos Albion Band, dos New Celeste aos Pyewackett, dos Whippersnapper aos Blowzabella.
Com o quarteto, uma secção de sopros (na velha tradição dos Brass Monkey, Albion Band e Home Service, mas também da música do princípio do século, como foi recriada pelos New Victory Band) e o violinista convidado, John McCusker, dos Battlefield Band, o grupo recria de forma eficaz os “jigs” e demais danças da praxe, por vezes num registo próximo do “bluegrass”, resguardando-se os instrumentos solistas numa linguagem mais tradicional, enquanto a secção rítmica se socorre dos compassos rock. Como vocalista, Eliza continua a evoluir a passos largos. Ouçam, para comprovar, a profundidade a que já consegue chegar, em “Mother, go make my bed”. Imagine-se a música dos pais, sem o tom épico do pai e da tragédia da mãe, aumentada pela alegria juvenil de quem já reservou o seu lugar na História. (Topic, distri. Megamúsica, 8)

Maddy Prior, essa já ocupa o seu há muito tempo. Para esta cantora carismática, o tempo tem sido repartido, nos últimos tempos, pelo seu grupo de sempre, os Steeleye Span, as aventuras pela Música Antiga, com os Carnival Band, e álbuns a solo, com ou sem a participação do seu marido, Rick Kemp, também elemento dos Steeleye Span. Depois do fabuloso “Year”, a voz que compartilha com June Tabor os louros de melhor cantora folk inglesa actual regressa com “Flesh And Blood”, que inclui, uma vez mais, um longo tema conceptual, neste caso a suite “Dramatis Personae”, composta de parceria com o marido.
É menor a tensão criativa que pulsava em “Year”. A voz opera prodígios, como sempre, mas sente-se que a altura é de descompressão, de pausa num período de intensa actividade na carreira da cantora. Entram no reportório uma composição de Todd Rundgren e outra do clássico Sibelius, entre três tradicionais e um tema do grupo (Nick Holland, teclados, Troy Donockley, “uillean pipes”, guitarras, “whistles” e cistre, Terl Briant, bateria e percussão, e Andy Crowdy, baixo). Sem sobressaltos, mas também sem grandes rasgos. Um prazer, a abertura de “uillean pipes” na “Finlandia” de Sibelius. Certas facilidades rítmicas, nos restantes temas (aos quais falta, desta vez, a força dos Steeleye Span, que também usaram e abusaram do rock…) eram dispensáveis.
“Dramatis Personae”, com os seus sete segmentos unificados pelo conceito da personalidade e o recurso ao esoterismo e à topografia mágico-biológico dos “chakras” (centros nervosos etéreos), constrói-se em torno de um piano clássico, com assento na “new age”, numa peça que só por simpatia podemos associar à “folk”. Para abreviar, estamos em presença da melhor “folk progressiva”, com mudanças constantes, predominância dos teclados e alternância entre momentos épicos e contemplativos, um pouco à maneira dos Renaissance. Bom álbum, embora inferior ao anterior, “Year”. (Park, distri. Megamúsica, 7)

Quem não se debate com problemas de qualquer espécie é Kathryn Tickell. É bonita, toca “Northumbrian pipes” como se fosse o instrumento mais sensual do planeta e “The Gathering” é daqueles álbuns que faz correr água na boca de princípio ao fim.
As “pipes” provocam arrepios logo a abrir, com “Raincheck”. Não poderiam soar desta forma nas mãos e no coração de um homem. Apetece apertar, beijar quem assim faz da música algo tão próximo do Paraíso sobre a Terra, perdoe-se-me o tom, talvez demasiado literal, da linguagem. É que “The Gathering” pertence àquela categoria de discos onde a análise sucumbe e os sentidos se deleitam. Quanto a técnica, ouçam o tema seguinte, “Lads of Alnwick”, e estamos conversados. O mesmo se podendo dizer, no difícil registo dos compassos lentos e interiorizados, de “Redesdale”.
Na segunda parte do disco, o violino de Kathryn adquire maior predominância, num ábum que ainda por cima é abençoado pelo ecletismo, seja na valsa “cajun”, “La betaille dans la pétit arbre”, seja em dois duetos alucinates com a harmónica de Brendan Power. Quem ainda chora a saída do grupo da acordeonista Karen Tweed pode ir secando as lágrimas – “The Gathering” é um dos grandes discos deste ano. (Park, distri. Megamúsica, 9)

25.07.1997
Nota: Duas correcções relativas às reedições da semana passada. “Space Cabaret”, dos CMU, foi editado em 1973 e não em 1983, como por lapso se escreveu. E não foi Shirley Collins quem participou no álbum “Bells, Boots & Shambles”, dos Spirogyra, mas sim a sua irmã Dolly Collins, responsável pelos arranjos de um dos temas.

Matmos – A Chance To Cut Is A Chance To Cure

04.05.2001
Matmos
A Chance To Cut Is A Chance To Cure
Matador, distri. Zona Música
8/10

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LINK

É o novo álbum dos Matmos, M. C. Schmidt e Drew Daniel, indivíduos de gostos estranhos, filhos de médicos, para quem um dia bem passado é permanecer 24 horas numa sala de operações a gravar o som da carne esquartejada e esturricada. Pode soar a mórbido, mas os resultados justificam os procedimentos – cirúrgicos – utilizados. Em “L.A.S.I.K.”, o som das serras de laser funciona como um “Groove box” para o drum ‘n’ bass mais experimental, a fonética pediátrica de “Spondee” transforma-se em house viciante, os Dat Politics não utilizaram melhor um crânio, em “Memento mori”. Os sons do corpo manipulado pelos bisturis confundem-se com os sons sintéticos do estúdio, num laboratório virtual onde a electricidade e a mecânica moldam os corpos e estes determinam o “corpus” da música. O tratamento é radical, mas no bloco pós-operatório dança-se, sem recurso a anestesia.

Peter Hammill – Sonix (conj.)

Um Gerador na Capela
Guy Evans & Peter Hammill
The Union Chapel Concert (6)
2XCD
Peter Hammill
Sonix (7)

peterhammill_sonix

LINK

David Jackson
Fractal Bridge (7)
Todos Fie, distri. Megamúsica
Refazer a história é difícil. Ressuscitar o mito é impossível. Os Van Der Graaf Generator são, quer se queira quer não, um mito, dos poucos que, nos anos 70, elevaram, de facto, a música progressiva à categoria de grande arte. Assinaram uma obra-prima absoluta, “Pawn Hearts”, dissolveram-se, reuniram-se de novo para viver uma segunda vida que culminou noutra obra-chave, já na antecâmara da década de 80, “Still Life”. Finalmente, o gerador extinguiu-se e cada músico seguiu o seu próprio caminho, embora as ligações entre os vários lementos jamais se extinguisse. Guy Evans foi, desde o primeiro álbum do grupo, “The Aerosol Grey Machine”, o baterista dos Van Der Graaf Generator (VDGG). Anos mais tarde, gravou com Hammill um disco instrumental de música electrónica que passou despercebido. “Spur Of The Moment”. Em “The Unon Chapel Concert” retomaram ambos, ao vivo, essa colaboração, com a curiosidade de contarem com a participação de todos os músicos que, em diversas fases, passaram pelo grupo. É assim que, a par dos diversos duos e trios com Stuart Gordon e Manny Elias, chegamos ao momento culminante do disco: Peter Hammill, Guy Evans, Daviod Jackson e Hugh Banton, os quatro juntos, ou seja, a formação mítica dos VDGG, de “Pawn Hearts”, para tocarem um tema deste disco, “Lemmings”. Poderia ser um momento de magia, mas, como já dissemos, os mitos não se ressuscitam. Não são os VDGG mas apenas quatro homens a tentar puxar pela memória, buscando uma mística inalcansável. Custa ouvir Hammill entrar atrasado com a voz numa aglomerado sonoro em que os decibéis não disfarçam a pobreza de uma estrutura que reduziu a um casebre o que era uma catedral. O resto do disco, incluindo uma versão, tanbém simplificada, de “Red Shift” (do álbum de 1974 de Hammill, “The Silent Corner and the Empty Stage”), é interessante. Diálogos entre as percussões computorizadas de Evans com as “hammilltronics”, na guitarra, de Hammill, Banton a comprometer-se com um “Adagio for Strings”, de Samuel Barber (1910-1981), e Stuart Gordon perdendo-se no violino no tradicional irlandês “Women of Ireland”.
Quanto à discografia a solo de Peter Hammill, já se sabe, o homem é mais prolífero que um coelho. Também no seu caso o tempo fez estragos. O génio que marca toda a sua obra até “A Black Box”, incluindo o equivalente solitário de “Pawn Hearts”, a descida solitária aos infernos que é “In Camera”, cedeu à pura excentricidade, de alguém que, seja como for, teima em não se deixar prender nas malhas do sistema. “Sonix” não é o seu novo álbum, mas sim um capítulo semelhante a “Loops & Reels”, isto é, uma colecção de temas, quase todos instrumentais, que incluem a banda sonora de “Emmene-moi”, uma peça extensa (26 m, a única vocalizada), “Labyrinthine Dreams”, para bailado, e experiências com “loops” (Dark Matter”) ou com novas tecnologias de estúdio (“Four The Floor”). Entre os diálogos pungentes da guitarra com o violino de Stuart Gordon, a graça de programações que fazem um teclado tocar sozinho e alguns ruídos curiosos, fica, também aqui, como já referimos, não estejamos perante a sucessão “oficial” do excelente e anterior álbum da Hammill, “Xmy Heart”.
Acaba por ser o álbum do saxofonista David Jackson o mais inovador dos três. Jackson era camionista, antes de entrar para os VDGG. Com o desaparecimento destes, participou em diversos projectos, entre os quais “The Long Hello” (uma série de álbuns descomprometidos que podem levar a assinatura de qualquer dos antigos elementos do grupo), antes de se dedicar à terapia pelo som. É neste âmbito que surge “Fractal Bridge”, um trabalho de música electrónica que usa, em larga escala, o chamado “Soundbeam”, um sistema de sintetizadores interligados por MIDI cuja particularidade é poder ser accionado através de movimentos do corpo. Uma espécie de harpa de feixes electrónicos de múltiplas frequências suspensos e manipulados no ar. “The Amazing Invisible Elastic Keyboard In The Air”, como David Jackson lhe chama.
Cada faixa corresponde a uma especificidade do sistema, jogando na combinação entre um número diferente de “soundbeams” e nos diferentes comprimentos de cada um, pondo em prátic ao conceito de “ponte fractal” enunciado no título. Mas o que poderia soar como um catálogo de sons bizarros é contido dentro de uma esfera estritamente musical, funcionado o “Soundbeam” e as suas quase infinitas potencialidades como um parceiro dialogante para os saxofones e flautas de Jackson. Umas vezes próximo da serenidade “new age”, outras agitado pela fricção da interactividade com a máquina, “Fractal Bridge” (produzido e com a participação de Peter Hammill, como em “Wildman”, um concentrado louco de Urban Sax) constitui um objecto de algum fascínio, enquanto pesquisa de formas sonoras e estados psíquicos alterados.