Arquivo mensal: Setembro 2009

V Império – Mar de Folhas

07.05.1997
V Império
Mar de Folhas
ED. E DISTRI. MOVIEPLAY

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A aposta é forte, em termos de promoção. O 5º Império (da música portuguesa, lê-se nas entrelinhas…) sai dia 5 de Maio (quinto do calendário). Três vezes cinco. A imagem e conceito subjacente são familiares. Portugal e a sua História, os mitos, a nostalgia, o mar, a saudade, o destino, os bravos feitos, enfim, o quadro de honra do nosso orgulho, já que o presente deixa muito a desejar (a este propósito, consulte-se a letra de “Ventos de história”, um verdadeiro manual compilado pelo senhor de La Palice).
Um quadro que começou a ser desenhado na música popular portuguesa pelos Heróis do Mar, prosseguiu com a Sétima Legião e culminou nos Madredeus. Mar que está a dar uvas, onde navegam a Ala dos Namorados, Paulo Bragança e Frei Fado d’el Rei. Curiosamente, os V Império cruzam toda esta imagética com um universo musical cujo apuramento se deve a Rodrigo Leão e Vox Ensemble. “mar de Folhas” segue fórmula idêntica, juntar tecnologia sofisticada com textos passadistas. Mas se Rodrigo Leão foge a seguir a via fácil da tal portucalidade aprendida, tantas vezes à pressa, camuflando os seus mitos pessoais no latim e numa atmosfera de missa universal, os V Império ligam a música a uma veia romântica nacional que mergulha as suas raízes num postal ilustrado de Sintra. Depois, enquanto o ex-Sétima Legião e madredeus recorre aos coros, o Império contra-ataca com naipes de instrumentistas clássicos.
Tudo é levado aos extremos da pompa e do enfeite, nesta aliança dos sintetizadores e “samplers” de João Gata e Rui Ricardo, com slistas como Aníbal Lima (violino), alexandra Mendes (violino e viola de arco), Paulo Teixeira (oboé e corne inglês) e João murcho (violoncelo) e a voz da cantora do grupo, Íris. por falar nela, temos que falar nos Madredeus. Ouça-se , por exemplo, um tema como “Sempre (em ruelas sem nome)”. O difícil é encontrar diferenças tanto ao nível da composição como entre cada entoação de Íris e as de Teresa Salgueiro. Um exercício, de resto, aplicável amuitas outras canções de “Mar de Folhas”.
O odor classicizante sente-se à distância. Nada é simples nem evidente. Exige-se solenidade e tragédia. As cordas afogam em mágoas cada nota gemida por Íris. Michael Nyman espreita, como não podia deixar de ser, em cada arremetida. Não custa aprender o truque e resulta sempre. “Décadas” é mesmo um decalque perfeito da música do compositor inglês. se algum dia for feita a versão portuguesa de “O Piano”, algo chamado, sei lá, “A Gaita de Amolador” ou “O Bombo”, os V Império estão prontos para assinar a banda-sonora.
“Mar de Folhas” é o exemplo acabado da exploração de um conceito gasto. Não traz nada de novo à música portuguesa, reduzindo-a, ainda por cima, a uma visão demagógica onde o culto das formas (tão gastas como o conceito) substitui o acto de criação. Um longo, longo bocejo onde as ideias estão mais mortas do que as próprias folhas. (2)

El Hombre Trajeado – Saccade

26.01.2001
El Hombre Trajeado
Saccade
Human Condition, distri. A Orelha de Van Gogh
6/10

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Os El Hombre Trajeado não têm muito para dizer mas dizem-no com convicção. São escoceses e dos que ainda acreditam no pós-rock e este seu novo álbum pouco acrescenta ao anterior, também editado em Portugal, “Skipafone”. Pós-Rock significa para os El Hombre Trajeado o que este movimento apresentou nos seus primórdios, já faz sete anos desde que os Tortoise lançaram o seu disco de estreia: riffs de guitarra eléctrica circulares, bateria dividida entre o apelo das desbundas free e o compasso militarizado legado pelos New Order, e electrónica, de preferência analógica, a enfeitar. É esta a fórmula dos El Hombre Trajeado, perfeitamente assimilada à força da insistência, quase militância. Os riffs são desenhados a régua e compasso, a bateria avança em piloto automático, os sintetizadores insinuam-se com habilidade, dando cor a uma música, na essência, cinzenta. Mas o traje vai ficando apertado.

Blectum From Blechdom – The Messy Jesse Fiesta

12.01.2009
Excêntricos De Luxos
Matmos
The West
8/10

Blectum From Blechdom
The Messy Jesse Fiesta
8/10

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Electric Birds
Electtric Birds
7/10
Todos Deluxe, distri. Symbiose

A distribuição em Portugal da editor Americana Deluxe traz para já consigo três objectos fascinantes, à margem dos parâmetros mais em voga na música electrónica.
“The West”, terceiro álbum dos Matmos (Drew Daniel e M. C. Schmidt), foi considerado um dos melhores discos de 1999 para a revista The Wire. Colaboradores remisturadores de Aerial M, Cul de Sac, Pluramon, Kid606, The For Carnation, tortoise, Labradford, Ground Zero e Björk, os Matmos fazem em “The West” uma música difícil de catalogar na qual se redimensiona o imaginário do western, através de processos que, numa primeira leitura, requisitam todo o formulário identificável do pós-rock para, de forma subliminar, lhe introduzirem o factor electrónico. É usada instrumentação acústica (violino, violoncelo, guitarras) para criar atmosferas de “saloon” que, por força da repetição e de subtis sequenciações computorizadas, se transmutam em “trompe l’Oeil” sonoros e emissões de rádio galáctica. A uma distância apesar de tudo considerável das cavalgadas épicas dos Godspeed You Black Emperor! Os Matmos estarão porventura mais próximos dos Gastr Del Sol, enquanto inovadores de uma linguagem, o pós-rock, a necessitar urgentemente de novas reformulações. Para que consta, o próximo trabalho da banda terá como base as sonoridades de tecnologia médica.
Ainda mais estranhos são os Blectum from Blechdom que, em termos gráficos, remetem para os “cartoons” dos Residents ou Renaldo and the Loaf. A escuta mostra a actividade de cabeças com febre tocadas pelo génio. Grooves cortados à lâmina pelos Severed Heads, samples de conversas em contramão, breakbeats no “sítio errado”, loops em inversão de marcha, humor a la Mr. Bungle, caixas de música com monstros dentro, esgares Aphex Twin e toda a espécie de delírios colados num puzzle sem manual de soluções, arrastam o ouvinte para uma terra de ninguém, fazendo desde já de “The Messy Jesse Fiesta” a primeira grande surpresa de 2001.
No álbum de estreia dos Electric Birds (Mike Martinez, patrão da Deluxe), com co-produção dos Matmos, apesar da estranheza que parece caracterizar todos os lançamentos da editora, descortinam-se com alguma nitidez as vigas que constroem o edifício: Steve Reich, ambientes de digitalindustrial, saturação de software, em “Acoustic Orange” um andamento hipnótico falsamente acústico evocativo dos primeiros Biosphere e, já no final, uma verdadeira canção com patente 4AD, seguida de uma imagem impressa no mesmo formato dos Labradford que, se amenizam o som, contrariam em absoluto a orientação estética do resto do álbum.
Os amantes do bizarro têm nestes três discos com que se entreter para os próximos meses.