Arquivo mensal: Maio 2009

Soul Center – Soul Center

14.07.2000
Soul Center
Soul Center (8/10)
W.v.B. Enterprises, distri. Ananana

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LINK (Rosa – 2000)

Nunca perdoarei a Thomas Brinkman a forma como, no fecho do festival “Reset!” do ano passado, em Lisboa, me “obrigou” a dançar, manipulando-me como um boneco nas mãos de um programador mágico… “Vinguei-me”, recebendo com frieza o anterior objecto denominado “Soul Center”. Mas este novo retorno ao “centro da alma”, uma vez mais empacotado, quase com desdém, como uma apresentação miserável, volta a mexer os cordelinhos, obrogando-me a funcionar como o incondicional de “dance music” que nunca fui. Deixemo-nos de rodriguinhos: “Soul Center” é simples, directo, linear e absolutamente devastador e swingante. Sobre programações techno/electro de uma desarmante (e alarmante…) simplicidade, Brinkman dispõe as vozes sampladas de gente como Rufus Thomas, Eddie Floyd ou George Clinton, com a desfaçatez de um ilusionista que, sem esconder o jogo, consegue todavia o prodígio da ilusão perfeita. O tema de abertura, “Can I ask you”, coloca os Can no centro de uma discoteca e “Are you ready” obriga a aumentar impulsivamente o volume de som, como uma máquina cardíaca que tivesse decidido sincronizar o coração no ritmo de um vudu “funky”. E se a perfeita simulação electro soul/funk de “Boy”, “Respect” e “Who in the funk”, e o fantasma de Herbie Hancock, em acção em “Morningstar”, andam de mãos dadas em “Soul Center”, é contudo em “Psycho set” que o transe se transforma em controlo absoluto. O centro da alma é uma estação de energia, um computador vivo, uma orgia de música de dança. Não, jamais perdoarei a Thomas Brinkman…

Roxy Music – Flesh + Blood (self conj.)

12.05.2000
Reedições
Um Outro Tempo, Um Outro Lugar
Roxy Music
Manifesto (7/10)
Flesh + Blood (7/10)
Avalon (6/10)
Bryan Ferry
These Foolish Things (8/10)
Another Time, Another Place (8/10)
Let’s Stick Togheter (7/10)
The Bride Stripped Bare (7/10)
Virgin, distri. EMI-VC
Os melómanos / consumidores mais compulsivos não têm mãos a medir, diante da oferta que se lhes depara, apresentando as gravações mais perfeitas ou as capas mais fiéis aos originais, dos discos reeditados dos seus ídolos. Arrumados os vinis na estante, chegou a vez de também os CD rapidamente ganharem poeira, em remasterizações que competem entre si no recorde de bits. Mas com os Roxy Music, à semelhança de outros casos, vale mesmo a pena possuir o “objecto perfeito”. Completa uma primeira fase de remasterizações dos primeiros cinco álbuns do grupo, compreendida entre “Roxy Music”, de 1972, e “Siren”, de 1975, seguiram-se os três álbuns respeitantes à última fase, “Manifesto”, de 1979, de “Flesh + Blood”, de 1980, e “Avalon”, de 1982. Pouco tempo depois chegavam aos escaparates nacionais as remasterizações, embaladas em capas melhoradas, dos cinco primeiros álbuns a solo de Bryan Ferry.
Dos três últimos Roxy Music, “Manifesto” é o trabalho que menos desmerece dos anteriores trabalhos de estúdio do grupo. O cabaré retrofuturista já fechara as portas e o glam fora definitivamente apagado dos rostos dos músicos, mas a festa não tinha ainda terminado. Continuava no casino e nos passos de uma dance music de manequins cortada ainda por alguma decadência, mas com os seus principais intervenientes, a começar por Ferry, a mostrarem-se incapazes de separar a pose da ironia. Dividido entre um “east side” e um “west side”, o som americano impunha-se através de uma soul elegante (Luther Vandross participa nos apoios vocais) que ofuscava a sofisticação e os maneirismos geniais dos cinco primeiros álbuns. “Angel eyes”, “Ain’t that so” e “Dance away” foram passados na rádio até à exaustão.

roxymusic_fleshblood

LINK
pwd: Mussiqa.Net

O álbum seguinte, “Flesh + Blood”, recupera as imagens das amazonas, mas perde na comparação com o seu antecessor. A energia está mais dispersa, a tensão de opostos que sempre servira de carburante para a criatividade do grupo dera lugar a uma máquina bem oleada. Mas, se “Same old scene” ou “My only love” são canções feitas para ficar no ouvido, é difícil resistir ao apelo nocturno de “In the midnight hour” e, sobretudo, à versão estratosférica de “Eight miles high”, dos Byrds.
Previsivelmente, o último capítulo da saga, “Avalon”, capitaliza em exclusivo no enfeite e no luxo dos arranjos e da produção. Álbum limpo, suave ao ouvido como cetim, o seu brilho é o de um pechisbeque bem confeccionado que procura arrancar em força com mais um “hit”, “more than this”, mas rapidamente se esgota em instrumentais de um hedonismo onde a pele dera lugar a uma película de plástico. Ah, é verdade, já circulam por aí as versões cartonadas destes três álbuns…
Bastante mais interessante acabou por ser o percurso a solo de Ferry, também neste caso, com os cinco primeiros álbuns a mostrarem-se os mais pujantes. “These foolish things”, de 1973, confirmava a faceta de “crooner” do cantor, ao mesmo tempo que o impunha como um “gourmet” apto a degustar tanto os “standards” de décadas mais recuadas (de forma infinitamente mais conseguida, diga-se de passagem, do que no recente “As time goes by”), como clássicos pop de Dylan ou dos Rolling Stones. A afectação e o exagero resultavam bem melhor do que a imagem cansada e “snob” que viria a seguir.
“Another Time, Another Place”, editado no ano seguinte, continua a mesma estratégia de versões nas quais se torna difícil distinguir a desmontagem sarcástica e a homenagem devota. Fosse como fosse, ganham colorido e um delicioso desequilíbrio canções como “Help me make it through the night” e a irresistivelmente apaixonada “Smoke gets in your eyes”, dignas de partilharem as imagens de Ingrid Bergman e Humphrey Bogart.
Em “let’s Stick Togheter”, Bryan Ferry insistiu nas versões, mas desta feita de temas dos Roxy Music, como “Casanova”, “Sea Breezes”, “2HB”, “Chance Meeting” ou “Re-make / Re-model”, as quais, se não fazem esquecer o vigor e a faceta desestabilizadora veiculada pela banda, ganham porém no modo como o cantor extrai delas um licor amargo que, infelizmente, muito em breve iria perder todo o sabor.
Em 1977 o punk era rei e senhor e em “In Your Mind” Ferry não de furta a uma aproximação mais visceral ao rock. Foi o primeiro dos seus álbuns a ter honras de edição portuguesa. Em vez de um cenário de Hollywood e de idílios etílicos à beira de piscinas de champanhe, Ferry compunha agora as suas próprias canções, escudando-se por detrás de uns óculos escuros e transferindo as suas obsessões, em “All night operator”, para uma conversa telefónica – “All night operator, dial me a better line (…) Can’t you hear me talkin’ to you? Do telephones make you cry?” – com chamada a pagar no destino, por um eco de amargura.
Recebido na época como um álbum “surrealista”, “The Bride Stripped Bare” (o título é, aliás, o de uma pintura de Marcel Duchamp), de 1978, é um álbum atravessado por pulsões contraditórias (que era o que distinguia os Roxy Music da primeira fase de todos os outros grupos dos anos 70), onde o gospel, a soul, o sentimento de culpa, a passagem do tempo, a desilusão e – sempre – uma inultrapassável elegância correm por lamentos como “Take me to the river” ou pelo tradicional irlandês “Carrickfergus” antes de desaguarem – “so near, yet so far” -, uma vez mais, na solidão.

Hoahio – Ohayo! Hoahio!

14.07.2000
Hoahio
Ohayo! Hoahio! (8/10)
Tzadik, distri. Ananana

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LINK

Aos aficionados da chamada estética Recommended soará familiar o nome da banda japonesa After Dinner, autora de dois álbuns magníficos, “After Dinner” e “Paradise of Replica”, nos quais o gosto por arranjos de extrema complexidade e sofisticação, aliados a uma subtileza e delicadeza tipicamente japoneses, faziam do grupo uma espécie de Gentle Giant dos anos 80. Extintos os After Dinner, a sua principal figura, a vocalista Haco, surge agora associada às suas compatriotas Yagi Michiyo e Sachiko M, no projecto Hoahio. Dados os antecedentes, é com alguma surpresa que encontramos este álbum na editora de John Zorn, aparentemente mais vocacionada para o “noise” experimental. Não que “Ohayo! Hoahio!” dispense o ruído, pelo contrário, a sua construção inclui arquitecturas alicerçadas em abstracções electrónicas, mas estas submetem-se ao formato de canção. Samplers, o tradicional koto, bandolim, sintetizadores, percussões electrónicas e “found objects” combinam de forma extremamente original electrónica e sons acústicos, servindo Às três japonesas para construírem pequenos edifícios com a definição de gráficos de jogos de computador, umas vezes rodeados pelo ambientalismo depurado de um jardim zen, noutras perfurados por obturações de ruído quase industrial que lembram as manufacturas de computação “hard” da canadiana Diane Labrosse. Para quem pretenda descansar das constantes investidas da vaga electrónica alemã, tem em “Ohayo! Hoahio!” uma agradável surpresa para desembrulhar.