Arquivo mensal: Maio 2009

Luétiga – Càntabros (conj.)

17.03.2000
Folk
Almoço para Obélix

luetiga_cantabros

Situada no Norte de Espanha entre as Astúrias e o País Basco, a Cantábria é permeável às influências musicais destas duas regiões, arrastando-se há anos as discussões em torno das suas origens e da sua autonomia. Aos Luétiga (que actuaram em Portugal, na Amadora, no âmbito do Festival ligado ao Prémio José Afonso) tem pertencido um louvável trabalho de pesquisa e divulgação desta música fortemente marcada pela vertente céltica. “Càntabros” é o quarto álbum desta banda, actualmente uma das melhores de Espanha, depois de “La Ultima Cajiga”, “Nel ‘El Vieju” e “Cernéula”.
Um trabalho maduro e seguro que recupera tradições e rituais de uma região cujas origens e civilização remontam à Idade do Ferro. Canções de despertar, canções montanhesas, jotas e pasacalles, música de bailes e romarias desfilam como um rio, tornando vívidas imagens de um mundo que, cada vez mais, como o mítico paraíso dos celtas, se vai escondendo do mundo para sobreviver no espírito e na imaginação dos homens que ainda esperam. Mas a música dos Luétiga não se esgota na leitura, mais ou menos fiel, do cancioneiro, optando antes por se estruturar em pequenas suites (como “Càntabros”, tema central da exposição “Càntabros, la génesis de un pueblo”) onde assumem particular destaque a sanfona e os teclados de Jorge Méndez, ideólogo e multinstrumentista do grupo e um apaixonado pela música e câmara, de cuja discografia fazem parte um álbum inteiramente executado em órgão de igreja, uma obra instrumental inspirada nos mitos celtas e alguma fusões new age. Para os apreciadores do celtismo e da música do Norte de Espanha (já agora, entre os músicos convidados, figura um tal Kepa Junkera…), “Càntabros” é um álbum absolutamente a não perder. (Oca, distri. Distrimúsica, 8/10).

Um passo para oeste e estamos nas Astúrias, onde a influência dos vizinhos galegos se faz sentir com mais intensidade. Juntando-se aos Boides. Llan de Cubet e Felpeyu, três bandas asturianas já conhecidas em Portugal, os Brenga Astur carregam com quanta força podem nesta tecla, em “Cancios del Gochu Xabaz” (na foto). Um daqueles álbuns que impressiona de imediato num piscar de olhos constante aos sons que constantemente brotam não só da Galiza como da Escócia e da Irlanda. Os dois gaiteiros, Fernando Montes e Fernando Diaz, optam quase sempre por tocar em uníssono, utilizando as gaitas asturianas num registo “escocês” que por vezes recorda bandas como os Whistlebinkies e Tannahill weavers e noutras o folk rock de Alan Stivell (de “Chemins de Terre”, quando este músico bretão veste, por sua vez, o kilt das terras altas…). As melodias, como o guerreiro e o javali da capa (o almoço para Obélix) não primam pela sofisticação, caindo por vezes num certo primarismo, pecha que os Brenga Astur compensam com o rigor, uma produção que acertadamente joga no som do colectivo e, sobretudo, com a voz maravilhosa de Marta Arkas, exótica e sem qualquer problema em socorrer-se de um tipo de ornamentações que estamos habituados a ouvir bastante mais para sul… (Fonofolk, distri. Dristimúsica, 7/10).

Para os apreciadores da farra e da excitação dos discos ao vivo, há o sexto álbum dos escoceses (estes de verdade) Old Blind Dogs. Até porque já colaram a esta banda o rótulo de praticantes de “sexy folk music”. Ainda com a presença do cantor e guitarrista Ian F. Benzie e do percussionista Davy Cattanach, que entretanto abandonaram este grupo, “Old Blind Dogs Live” vale pela celebração do ambiente e da comunicação que nestas ocasiões sempre se estabelece com o público, com palmas de acompanhamento, gritos excitados e falatório dos músicos em barda. A música não apresenta novidades: a habitual sequência de danças intercaladas com as vocalizações de Benzie, muitas delas a pedir coro e a participação da assistência, assim ao jeito de uns U2 da folk, cada canção um hino. Embora reconheçamos ser difícil resistir a um standard como “Bedlam boys”, aqui num registo bastante mais acelerado do que a formidável versão dos Steeleye Span incluída no álbum “Please to see the king”. O mesmo se podendo dizer de “The Cruel Sister”, em relação à versão dos Pentangle no álbum com este nome. Além de que a voz de Ian Benzie não faz esquecer, de modo nenhum, as de Maddy Prior e Jacqui McShee… Por nós, preferimos festejar estes acontecimentos “in loco”, soando estes álbuns ao vivo, com raras excepções, a sucedâneos do momentos impossíveis de ser vividos à distância. Apesar de este “Live” ser até bastante apetecível e ter momentos de subtileza como “The Buzzard”, sublinhada por um belíssimo solo de violino realmente “sexy”. (Lochshore, distri. Distrimúsica, 7/10).

Trilok Gurtu, percussionista indiano há longos anos em actividade, virtuoso convidado para tudo o que é álbum de “world music”, não escapou à tentação de computorizar a sua música, transformando música de dança que brota da terra em música de dança que começa e termina quando se carrega num botão. Não é pecado, quando é bem feito. Estou a lembrar-me do fabuloso trabalho de Hector Zazou com Boni Bikaye, “Noir et Blanc”, ou da negritude electrónica produzida por Dieter Moebius, Conny Plank e Mani Neumeier com uma voz do Sudão, em “Zero Set”. Em “African Fantasy”, Trilok Gurtu estende a mão à música africana mas arrisca menos do que qualquer daqueles dois discos. Convidou, entre outras vocalistas, Angelique Kidjo, do Benim, Oumou Sangare, do Mali, e Sabine Kabongo, do grupo vocal Zap Mama. E são precisamente Kidjo, em “African Fantasy” e “Africa com India”, e Sangare, em “Big brother”, que assinam os momentos mais belos e expressivos de “African Fantasy”. Fantasia por fantasia, depois de desbravado a selva, é só levitar uns quilometrozitos até aos Himalaias, e descer a cavalo numa “sitar” m “Folded Hands”. Não há como viajar com segurança. (ESC, distri. Sony Música, 6/10).

Slow Poke – Redemption

14.07.2000
Slow Poke
Redemption (7/10)
Intuition, distri. Dargil

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Aos Lounge Lizards, de John Lurie, se deve em grande parte ter aproximado o jazz de um público habituado ao consumo de música rock, sem condescender nos caminhos fáceis do “jazz rock” ou das fusões concebidas em laboratório. Curiosamente, a partir desta abertura, o próprio jazz acabou por se refrescar através de novas direcções como as encetadas por Lenny Pickett com os seus Borneo Horns ou por Peter Apfelbaum com os seus Hieroglyphics Ensemble. A junção do jazz com a electrónica permitiu, por outro lado, a formação de projectos – mais ou menos convenientemente conotados com o pós-rock – como os Chicago Underground Duo, isotope 217º, Vandermark Five, Pothole ou Tied & Ticked Trio. Os Slow Poke optaram por uma maior fidelidade ao jazz tradicional, sem dispensar a utilização, discreta, do sampler, mas evitando de todo qualquer coloração electrónica mais ostensiva. Baladas como “Sixthe Sense” colocam em evidência as capacidades do saxofonista tenor e soprano Michael Blake, solista na senda do actual mestre Ken Vandermark ou, num tema como “Jar of hair”, de John Lurie, precisamente. “Dear ear” é tão “lounge” como “lizard” e “Cilantro” insinua o cabaré impressionista de Pascal Comelade no universo do “fake jazz” ainda e (quase sempre) dos Lizards enqunato em “God don’t never change” chega a ser perturbante a forma como Blake recria no saxofone a sonoridade e o swing de Dana Colley, dos Morphine. “Redemption” se não redime o jazz, empresta-lhe porém o calor da crença e do idealismo.

Maire Brénnan – Whisper To The Wild Water (conj.)

21.04.2000
World
Em Abril, Águas Milladoiro

mbrenan_whisper

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Bem bonita a capa de “Whisper to the Wild Water”, toda céltica, toda mística, rochas, azul e verde da cor do mar. E Maire Brénnan, a cantora dos Clannad, muito distinta, disfarçada da mana Enya com as mesmas roupas e a mesma voz. E a mesma música, já agora. O mercado de world music criou este tipo de sucedâneo que de música tradicional não tem rigorosamente nada, embora tente fazer-se passar por tal. Adivinha-se teledisco a condizer. Para quem se deleita em decorar a sala de audições com este imaginário plastificado e recauchutado de new age, “Whisper to the Wild Water” pode constituir uma opção. Uma opção pimba, mas uma opção. Para os que, simplesmente, gostam de música, trata-se de um objecto a evitar (Word, distri. Universal, 2/10).

Falemos, então, de coisas sérias. Do novo álbum dos Milladoiro, por exemplo, mais do que um grupo, a orquestra-folk por excelência da Galiza. Chama-se “Auga de Maio”, um belo título, com música apropriada para o mês que se avizinha. O que espanta nos Milladoiro, mais ainda do que nos irlandeses Chieftains, com quem têm vários pontos em comum, é a fidelidade a uma linha de conduta sem concessões e a capacidade renovada de a alimentarem com elementos musicais enriquecedores, como a música de câmara e, por vezes, um certo classicismo. Também neste caso já não fará muito sentido falar de maior ou menor proximidade das raízes tradicionais de tal forma os arranjos se tornaram sofisticados e o grau de execução dos músicos do grupo se aproxima de um apuro formal onde a improvisação e o toque “rural” há muito desapareceram. E, todavia, no lugar da fonte nasceu uma árvore de ramagem frondosa sob a qual os amantes da folk se podem abrigar.
Aqui estão, depurados como cristais, os alalás e muineras, as polcas e as marchas processionais, mas já susceptíveis de provocar no auditor um tipo de estímulos que não se compadece com a pureza das origens. A harpa, a gaita e a sanfona, a voz suave da convidada Olga Cerpa foram polidas, como o diamante que necessita de ser lapidado para melhor brilhar. Folk de câmara, nobre e envolvido em roupagens de luxo, “Auga de Maio” destina-se a gostos epicuristas, amantes do requinte, longe, muito longe da força mágica dos primeiros e fabulosos “O Berro Seco” e “Galicia de Maeloc”. Mais ainda do que o recente “Cabo do Mundo”, dos Luar na Lubre, um álbum que introduz a música galega nos salões elegantes da academia, como sempre pela mão e com a classe de Antón Seoane e Rodrogo Romani, os velhos mestres dos Milladoiro (Discmedi, distri., Letra e Música, 8/10).

Os apreciadores de sonoridades menos célticas têm com que se entreter com os dois álbuns do grupo basco Hiru Truku, “Hiru Truku” e “II”. O primeiro tem um som mais popular, de baile, como alguns dos trabalhos dos seus compatriotas Oskorri. O segundo dá um enorme salto em frente, primando pela riqueza e originalidade dos arranjos e pelas notáveis vocalizações – num registo que por vezes faz lembrar bandas italianas como os La Ciapa Rusa e Barabán e noutras os gascões Perlinpinpin Folc e Verd e Blu – de Ruper Ordonika. É nas baladas, de resto, como nas épicas “Hasi durangon eta” ou “Solora nindoala”, que os Hiru Truku se mostram excepcionais, denotando a enorme evolução do primeiro para o segundo trabalho. Mas talvez o facto se deva à presença tutelar e à influência em “II” de um convidado muito especial, o papa inglês Martin Carthy, que aqui toca guitarra acústica e cujas afinidades com a música basca já tinham sido exercitadas antes através da presença no álbum do 25º aniversário dos Oskorri. É verdade, também participa, como convidada, em “Hiru Truku” e “II”, a violinista Nancy Kerr, no primeiro ao lado da sua parceira habitual no violino, Eliza Carthy. Com convidados deste quilate era impossível falhar. Os Hiru Truku foram mais longe e, ao segundo álbum, arreigando-se apenas ao essencial, assinaram um clássico da música tradicional basca (Nuevos Medios, distri. Farol Música, 7/10 e 8/10).

Regressemos ao celtismo – com dois novos álbuns especialmente indicados para os viciados na gaita-de-foles. “Shouting at Magpies” apresenta uma excepcional executante das “Highland bagpipes”, “smallpipes” e “shuttle pipes” escocesas e do “overton whistle”: Ann Gray. Um “punch” demolidor, uma expressividade demonstrativa de um conhecimento profundo das fontes e uma digitação de grande recorte revelam-na como uma gaiteira de primeira água, fiel ao estilo e ao reportório tradicionais. Rodeada de convidados que acrescentam ao fogo das “pipes” os timbres da harpa céltica, violoncelo, guitarra de flamenco, teclados e um didgeridoo, Ann Gray percorre a tradição da Escócia sem grandes rasgos de ousadia, mas com um rigor a toda a prova. Saboreie-se o ardor das suas “pipes”, sentindo na cara o vento e as neblinas das terras altas (Lochshore, distri. Distrimúsica, 7/10).

O outro álbum com a gaita-de-foles como rainha é “The Sound of the Sun”, de Fred Morrison, dos gaélicos Ceolas e antigo elemento dos Clan Alba. Também neste caso se assiste à fidelidade total à ortodoxia – da região do Uist e do estilo “stepdance” das ilhas Hébridas – e a um espectáculo na arte de bem tocar, além das “border pipes” escocesas, aquela que é a mais completa e complexa de todas as gaitas-de-foles, as “uillean pipes” irlandesas. E como a música e o “piping” irlandeses possuem um swing e uma fluência que diferem do tom mais guerreiro e explosivo do “piping” escocês, também o grau de excitação provocado pela música sobre um degrau na escala do prazer sempre que a “rainha” entra em cena. Fred Morrison, apesar de escocês, trata as “uillean pipes” por tu, soando totalmente convincente um “reel” irlandês como “Sandy Cameron’s”. Convém elucidar que Fred é discípulo do grande Paddy Keenan, que, se bem se lembram, era o gaiteiro no álbum de estreia dos The Bothy Band (Lochshore, distri. Distrimúsica, 7/10).

Terminemos este périplo pela “celtic music” com um álbum onde esta música encontra aquele que terá sido o seu ramo primordial, localizado a oriente, “Touch Me Like the Sun”, da harpista Savourna Stevenson. Desde “Tickeld Pink” que Savourna vem desenvolvendo um estilo na harpa céltica no qual a experimentação de novas linguagens coloca a sua música no limiar da folk, do jazz e de um classicismo neste álbum tão próximo da música indiana (os glissandos do tema de abertura, “Emily’s calling”, num “jazzy air” minimalista num compasso dos Penguin Café Orchestra), como da new age de câmara de Roger Eno (nos três movimentos da longa peça para quinteto de cordas) ou do esteticismo orientalizante de um Ryuichi Sakamoto. O título tema é uma canção pop vocalizada por Eddi Reader, que recentemente actuou ao vivo num concerto da harpista em que também esteve presente June Tabor. Álbum terapêutico, de uma beleza fria, ideal para abrir uma nova série, de “jazz folk de câmara”, da editora ECM… (Cooking Vinyl, distri. Megamúsica, 6/10).