Rickie Lee Jones
Naked Songs
Reprise, distri. Warner Music
Desta feita em regime inteiramente acústico, ao vivo, guitarra à tiracolo e um lote antigas canções que falam dos mistérios da vida que lhe agitam a alma, Rickie Lee Jones regressa em passinhos de veludo com o coração nas mãos e a voz no nariz mais do que nunca. Um “unplugged” não oficial em que as canções se desnudam para revelar os seus mais íntimos segredos e a cantora expõe todas as fragilidades da interpretação. “Naked Songs” tem como principal virtude aproximar ainda mais o seu discurso, já de si intimista, do ouvinte, esforço talvez desnecessário para alguém que, como ela, conseguiu estabelecer essa mesma proximidade e um grau máximo de comunicabilidade – presente na sensação de acompanharmos e sentirmos passo a passo as histórias que nos são contadas – num álbum como “Pop Pop”. A questão está então na distância certa a manter em relação à artista, que aqui fez a ampliação do plano americano para o “close up” emocionalmente sobrecarregado. Doloroso, em mais do que um aspecto, o contacto íntimo com canções de “The Magazine” ou “Flying Cowboys” revela-se deste modo indicado, sobretudo para os que apenas se contentam com sentir no rosto a respiração da cantora, encostar o ouvido às suas confissões e roçar-se contra a sua pele. Há, contudo, limites para a nudez, ainda que não seja castigada. No caso de Rickie Lee Jones, uns trapos em cima, digamos não mais do que “lingerie”, ficam-lhe melhor. (5)
Há vozes às quais acenamos de longe. Vozes que cumprimentamos com um aperto de mão. Vozes que nos abraçam e nos beijam apaixonadamente. Vozes pelas quais nos apaixonamos. Umas fazem-nos sonhar. Outras fazem-nos sofrer. A querer-nos mal. A querer-nos bem.
As piores vozes são as vozes que nos deixam indiferentes. A voz de Rickie Lee Jones, mais que não fosse, dá vontade de espirrar. Mas não em “The Evening of my best day”. Não, porque a respiração está mais solta e tudo parece fluir como o movimento da lua entre os eucaliptos, a envolver a silhueta de uma mulher que dança.
A tarde do melhor dia dela tem tudo para ser uma ocasião inesquecível para nós. “Justa a perfect day”, como diria Lou Reed… A autora de “Pop Pop”, o disco de jazz mais pop do mundo, e do fantasmagórico e experimental “Ghosty Head” (um dos nossos preferidos), regressou com um novo álbum só de originais, pondo fim a um interregno de seis anos. Está melhor da constipação. Ou são as canções que se pegam, nos contagiam, nos infectam com uma doença parecida com os sintomas da luxúria.
“The Evening on my Best Day” começa por deslumbrar pela riqueza e diversidade dos arranjos. Como palco de cada registo interior encontram-se paisagens pop, jazz, country, rhythm & Blues, “americana”, gospel… Ecos de Joni Mitchell (“A Second Chance”) e certidões de apadrinhamento a Suzanne Vega. E, em “Bitchennostrophy”, o Brasil, cantado em francês, “Jane Birkin meets Astrud Gilbert” naquele areal que os Stereolab e os High Llamas tentam desesperadamente tornar um local quente.
Órgãos “lounge”, vibrafones marinhos, flautas de pássaros, violinos de outras épocas vestidas de fraque, trombones de bigode, guitarras a escorrer sucos do espírito. E a tais grandes canções, em alguns casos enormes, como “Sailor song”, trágica como um naufrágio. Ou a “A tree on Allenford”, com a beleza intricada de um enigma oculto no nevoeiro da infância (a capa do disco mostra uma criança), desenhados nas margens por um acordeão e um clarinete baixo. Passam acusações a George W. Bush, em “Tell somebody (repeal the patriot act)” e melodias leves como “It takes you there”, de fazer inveja aos The Sea and the Cake, e o “blues” carnívoro mas depois doce e torta de angústia de “Mink coat at the bus stop”, com uma das mais legíveis e fortes assinaturas vocais de todo o disco.
“Evening of my best day” faz-nos querer mais, levando-nos, a cada audição, a penetrar profundamente neste dia com a duração da eternidade mas que finalmente se apaga no crepúsculo até nada ficar senão a noite. Tal qual o tempo da infância. E da paixão. Iluminado por fora, escuro como um poço dentro.
Rickie Lee Jones não pretendeu mais nada senão partilhar connosco este seu mundo. Sem no-lo atirar à cara, antes com o calor e o toque sensual de uma carícia. E, ao contrário de outras “singer songwriters”, sem confundir simplicidade e sinceridade com penúria de meios e pose de pobrezinha sofredora. Mulher e esteta, oferece-nos sentimentos como se fossem iguarias. Entre a extensa lista de ,úsicos convidados encontram-se Syd Straw, Rob Wasserman, Alejandro Acuna, Bill Frissell, Nels Cline, Grant Lee Philips e Ben Harper com os innocent Criminals. Todos contribuem de maneira tão discreta como eficaz, acrescentando recortes de outras músicas a um fluxo inesgotável de ideias e emoções que conseguem soar ao mesmo tempo complexas e naturais. Saúde-se a saúde deste dia.
“It´s Like This” foi nomeado para um Grammy na categoria “pop vocal tradicional”, ao lado de Barbra Streisand, Joni Mitchell, Bryan Ferry e George Michael. Há alguma ironia no facto desta consagração coincidir com o “tradicional”, quando no seu anterior trabalho, “Ghostyhead”, a cantora rompera com o seu próprio passado. Este seu novo álbum, como os dos rivais Mitchell e Ferry, um conjunto de “standards”, concretiza afinal uma tendência que já se adivinhava em “Pop, Pop”, nomeadamente na pessoalíssima versão de “My funny Valentine”. Exceptuando “The Low Spark of High Heeled Boys”, dos Traffic, e o music-hall de “One hand, one heart” de Bernstein/Sondheim, em dueto vocal com Joe Jackson, Rickie Lee Jones usou a plaina do jazz na adaptação de canções dos Steely Dan, Beatles ou Gershwin ao registo de indolência intimista que lhe é peculiar. Sem rasgos mas com a segurança dos clássicos.