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Mike Oldfield – XXV – The Essential Mike Oldfield

14.11.1997
Reedições
O Céu Pintado De Estrelas
Talvez porque o Natal está à porta, o mercado português está a ser inundado por uma quantidade de colectâneas e redições das chamadas “estrelas”. É uma boa oportunidade para decorar a estante com caixas de êxitos que, na maior parte dos casos, já toda a gente conhece.

Do monte de colectâneas e reedições que chegam ao mercado nesta altura, a caixa mais importante é, sem dúvida, a dupla correspondente à reedição de “200 Motels”, de Frank Zappa, obra de fôlego composta pelo génio entre 1967 e 1971 para a banda-sonora do mesmo nome. O álbum faz parte de uma nova série de “OST” (“Original Soundtrack”, “soundtrack”, em português, “som de traque”), da Rykodisc, cujo primeiro pacote inclui ainda as bandas-sonoras de “Carrie”, “Chitty, Chitty, Bang, Bang”, “It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World” e “Octopussy” (da série James Bond), todas em “Deluxe Edition”, com apresentações impecáveis e uma reprodução dos “posters” de lançamento originais. Inexplicavelmente, estou a usar uma quantidade absurda de termos estrangeiros. Mas voltemos a Zappa. “200 Motels” não é o melhor álbum, longe disso, do homem dos bigodes. Mistura, em doses desiquilibradas, mas sem dúvida capazes de impressionar o desprevenido consumidor de pop no ingénuo ano da graça de 1971, sequências clássicas pela Royal Philharmonic Orchestra, apontamentos humorísticos e “rock ‘n’ roll (“roca e rola”, chega de estrangeirsmos) na veia (na veia?) dos Mothers of Invention (“Matas da Invenção”), como “Magic Fingers”, em duas versões. A reedição inclui ainda quatro “spots” (“potes”) publicitários originais feitos para a rádio e um livrete cheio de informação e fotos da fita. Sendo uma boa amostra da faceta mais erudita de Frank Vincent Zappa, “200 Motels”, não obstante, não se livra de cair ocasionalmente no aborrecimento, o que, sendo o seu autor quem era, não deixa de ser surpreendente. 200 motéis é muito motel. (Rykodisc, distri. MVM, 6)

Outro músico importante que já não petence ao mundo dos viivos é John Lennon, cuja memória volta a ressuscitar através de “Lennon Legend”, subintitulado “The Very Best of John Lennon”. É uma colectânea sem surpresas, que parte da apresentação de alguns dos temas mais famosos do ex-Beatle, como “Imagine”, “Mother”, “Jealous Guy”, sem esquecer a faceta mais politizada dos Plastic Ono Band, de “Instant Karma2 e “Power to the People”, o Lennon “rocker” de “Cold Turkey” e “Whatever gets you thru’ the night”, e o baladeiro romântico, de “Woman”, e esquerdista, de “Working Class hero2, passando pelo “reggae” de “Borrowed time”. O álbum termina, adequadamente, numa nota natalícia, com os manifestos pacifistas “Happy Xmas (war is over)” de “Give peace a chance”. Lennon ficou para a História como o Beatle rebelde, em oposição à imagem de esteta que ficou colada a Paul McCartney. Chamem-me nomes, mas a realidade é que o primeiro nunca chegou aos calcanhares do segundo, em matéria de composição de boas, clássicas canções. Mas é claro que Lennon sempre representou com outra convicção os valores politicamente correctos da sua geração, mesmo que os seus melhores momentos como compositor revelassem, afinal, um incorrigível romântico, capaz de escrever coisas tão belas e tão simples como “Love”, uma das grandes canções desta “Lenda”, que conservou até hoje toda a sua frescura. Só por isso devemos dar algum desconto a Yoko Ono. (Parlophone, distri. EMI-VC, 7).

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Avancemos para gente para quem a rebeldia é conceito totalmente desconhecido. Mike Oldfield, menino-prodígio dos anos 70 que encheu os bolsos ao patrão da Virgin à custa do megasucesso “Tubular Bells”, transformou-se nos últimos anos num dos gurus da “new age”, ultrapassada a fase criativa que caracteriza os primeiros álbuns, “Tubular Bells”, “Hergest Ridge”, “Ommadawn”, “Incantations” e “Five Miles Out”, regressando ainda no mais tardio “Amarok”, antes de se eclipsar nas traseiras da vulgaridade. Foi então que o multiinstrumentista se lembrou da fábula da galinha dos ovos de ouro, partindo para um “Tubular Bells 2” de má memória que, mesmo assim, lhe terá feito reembolsar mais alguns milhões. A má notícia é que, a julgar pelo último tema desta colectânea, há já um “Tubular Bells 3” no prelo. Mas “XXV – The Essential Mike Oldfield” (XXV porque o velho Mike já leva XXV anos de carreira…) dirige-se, em primeiro lugar, aos saudosistas, reunindo excertos das longas composições que ocupavam invariavelmente lados inteiros dos discos em vinilo, pertencentes aos quatro primeiros álbuns, atrás mencionados, seguidos de uma canção gira de “Crises”, “Moonlight Shadow”, vocalizada por Maggie Reilly, e do “single” “Portsmouth”. Depois vem o pior, dois temas de “Tubular Bells 2” juntos com nacos de “Songs of Distant Earth” de “Voyager”, típicos da fase “tecno prog” do músico. Informa-se ainda V. Excªs que Mike Oldfield era o extraordinário guitarrista que acompanhava Kevin Ayers, no não menos extraordinário grupo The Whole World. Mudam-se os tempos… (Warner Bros., distri. Warner Music, 5).

Podia perfeitamente ter pertencido ao grupo de cantoras que, ao longo dos anos, foram dando voz feminina à música de Mike Oldfield, como Maggie Reilly e Sally Oldfield. Só não aconteceu porque não calhou. Para Enya, o destino foi outro. Depois de abandonar os Clannad em 1982, para onde entrara já na fase descendente do grupo, Enya criou o seu estilo pessoal, tirando partido de uma voz incomparavelmente doce e de um tipo de produção dirigido ao mercado “new age” de influência “celta” (a “celtic ambient”, como já lhe chamam na “Folk Roots”…), o que lhe valeu a conquista do prémio de “melhor álbum” nesta categoria, em 1995, com “The Memory of Trees”, e de um “Grammy”, quatro anos antes, com “Sheperd Moons”. “Paint the Sky with Stars: The Best of Enya” passa em revista alguns dos melhores momentos da cantora, incluindo, a abrir, o altamente trauteável “Orinoco Flow” e “The Celts”, título-tema do álbum que melhor soube recriar as envolvências celtas que sempre a inspiraram. Os indefectíveis têma ainda ao seu dispor um par de inéditos, “Only if…” e “Paint the sky with stars”, um belo título, ao nível do cuidado extremo posto na embalagem, jogando nas cores e nas texturas de uma proposta musical e de um rosto que, goste-se ou não, possuem um incomparável poder de sedução. (Warner Bros. distri. Warner Music, 6)

Mais uma senhora, a terminar. Esta mais recente e cultivadora de outro tipo de imagem. Falamos de Sheryl Crow, que em “Special Edition” (o álbum editado recentemente, “Sheryl Crow”, acrescentado de um segundo CD com actuações ao vivo) confirma estar alguns furos acima da chusma de candidatas a estrelas que todos os dias vão aparecendo com o fito de tentar chegar aos “tops”. Feita a aposta numa produção seca e numa criteriosa selecção de canções, tudo se conjuga para fazer brilhar ao máximo a voz de Sheryl, que aqui se revela capaz, tanto de recriar o neo-country, em “Redemption Day”, como de fazer a evocação de John Lennon, em “Ordinary Morning”, ou de se afirmar como veículo de uma “rocker” de cabelos ao vento. Para os registos, fica uma canção absolutamente a guardar no cofre das excepções, a belíssima e interiorizada “The Book”, virando as mesmas folhas de Suzanne Vega, e a ideia de que um corte no alinhamento poderia valorizar ainda mais um álbum onde o sentido comercial não dispensa um elevado nível de exigência. (A&M, dustri. Polygram, 6).

Mike Oldfield – Amarok (conj.)

05.01.2001
Reedições
Parque Jurássico Remasterizado
Em tempo de MP3, as editoras suam para “oferecer” objectos apelativos, com as remasterizações a ganharem espaço num fenómeno de reciclagem que não tem fim. Os “dinossauros” agradecem.

Com o advento do MP3 e a possibilidade de qualquer um poder adquirir música gratuitamente através da Internet, as editoras procuram a todo o custo rentabilizar os seus produtos, tentando tornar o mais possível apetecível o objecto CD. Ao nível das reedições, aposta-se na melhoria do som (nalguns casos mais aparente do que real…) através de gravações remasterizadas, enquanto no capítulo da apresentação, tendo em mira o coleccionador, se socorre de embalagens cartonadas que são réplicas em miniatura das capas dos discos em vinilo. O impacte, a nível psicológico, destas últimas, é indesmentível. Velhos álbuns dos King Crimson, Genesis ou Roxy Music ganharam nova vida, visual e sonora, e mesmo os velhos melómanos na posse das edições originais não terão ficado insensíveis aos “brinquedos”, voltando a investir nos mesmos títulos.
É o cada vez mais forte fenómeno da reciclagem a fazer-se sentir, impelindo o consumidor a comprar o que já tinha em casa, sob o pretexto da melhoria de um produto que é apresentado como a “versão definitiva”, possuidora do “melhor som possível”, sem dúvida um objecto estimável até à eternidade. Até o novo e “definitivo” “melhoramento” surgir para o desmentir. Depois das edições remasterizadas e re-remasterizadas, dos “digipaks” e das capas em miniatura, teremos a seguir, quem sabe, as edições desremasterizadas, com a garantia de que, afinal, os ruídos e estalidos do vinilo (devidamente digitalizados e contextualizados, como é evidente…) é que são o “it” na sua forma mais pura e genuína.

Pacotes para fetichistas. Em matéria de MP3, confesso que não uso. Enquanto coleccionador, fetichista, a quem, ainda por cima, os discos saem à borla, prefiro o objecto físico – passível de ser tocado, lido e mesmo estragado – ao virtual. Mas também acho que as editoras e a indústria em geral, que durante anos tem inflacionado os preços dos CDs, merecem sofrer e ter um bocadinho de prejuízo.
Passemos então em revista algumas das reedições remasterizadas (lojas há que exibem escaparates inteiros preenchidos por elas…) lançadas no últimos meses em Portugal.
Cat Stevens, o velho Gato Esteves, que há bastante tempo abandonou a música para pregar o islamismo, voltou remasterizado e remoçado, com as reedições de “Catch Bull at Four” (1972), “Foreigner” (1973) e “Buddha and the Chocolate Box” (1974). Os três posteriores aos bem melhores “mona Bone Jakon” (1970, o seu melhor de sempre), “Tea for the Tillerman” (1971) e “Teaser and the Firecat” (1971) que, estranhamente, ficaram de fora do pacote nacional.
Se “Catch Bull at Four” condensa os tiques vocais do cantor em canções bem pouco inspiradas, como a agoniativa “O Caritas”, também “Foreigner” não ganha com a inclusão de uma longa “Foreigner Suite” pseudo-progressiva que não é mais do que uma colagem, enfeitada por orquestrações inócuas e pretensamente exóticas, de canções mal amanhadas. Já “Buddha and the Chocolate Box” recupera uma parte da magia perdida.
Outro “remasterizado” ilustre é Mike Oldfield, este sim, digno de figurar no quadro de honra dos anos 70. A totalidade da sua obra compreendida entre a estreia “Tubular Bells”, de 1973 – e da qual já existia uma anterior versão remasterizada na edição especial do seu 25º aniversário – e a colectânea “Elements”, está de volta, agora em “High Definition Compatible Digital”. E se o som faz justiça à qualidade de obras como o já citado “Tubular Bells”, “Hergest Ridge”, “Ommadawn”, “Incatations”, “Five Miles Out” e “Amarok”, é pena a impressão das capas não estar ao mesmo nível (cores mais esbatidas, tonalidades deturpadas) e a informação não primar pela abundância. O destaque vai para “Amarok”, por ser um álbum dos anos 90 que constitui excepção ao período de maior criatividade – os anos 70 – deste multinstrumentista inglês que encheu os bolsos a Richard Branson e permitiu o nascimento do império Virgin.
Os The Who merecem todas as melhorias, eles que tiveram fama de ser do “piorio”, “enfants terribles” dos anos 60 e 70. Os álbuns andavam por aí perdidos em edições rascas. Depois de “Who’s Next” já circular remasterizado desde há dois anos, são as óperas-rock “Tommy” e “Quadrophenia”, correspondentes à fase conceptual e megalómana do seu líder, Pete Townshend, que ressurgem como objectos de luxo, aqui sim, com embalagens à altura e livretes informativos, profusamente ilustrados.
Mais dispensável, mas mesmo assim interessante, é a aglutinação no formato “dois em um” dos dois primeiros álbuns do supergrupo inglês Humble Pie, “As Safe As Yesterday Is” e “Town and Country”, ambos de 1969 e os únicos editados no selo Immediate por este grupo do qual faziam parte Peter Frampton, ex-The Herd e futuro herói da guitarra, Steve Marriott, ex-Small Faces, e Dave Clempson, ex-Colosseum. Excelentes desempenhos instrumentais para uma música que só esporadicamente foge aos lugares comuns do rock e rhythm ‘n’ blues, quando pega em “sitars” e brinca ao psicadelismo.
Óptimos músicos eram também os norte-americanos Blood, Sweat and Tears, uma das primeiras bandas a integrar uma secção de metais. “Child is Father to the Man”, ábum de estreia de 1968, não era ainda o rock-jazz festive que os viria a catapultar para os tops mas um híbrido de psicadelismo, pop e soul, tingido por referências clássicas e pelo talento do singer-songwriter Al Kooper.

Cat Stevens
Buddha and the Chocolate Box
Island, distri. Universal
7/10
Não tem o charme “hippie” dos primeiros discos e tresanda já ao misticismo que transformaria Cat Stevens de músico em profeta, mas estas eram ainda canções que falavam de amor como se fosse possível acreditar nele, num bouquet de sonoridades subtis dedicadas a Buda e a Jesus, onde a pop e a folk percorrem de mãos dadas uma cidade-fantasma.

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LINK (Parte 2)

Mike Oldfield
Amarok
Virgin, distri EMI-VC, import. FNAC
8/10
20º album de studio do compositor, “Amarok”, editado em 1990, é uma peça de 52 minutos pioneira da vaga “world” e fusionista que caracterizaria a década agora finda. Percussionistas zulu, as uillean pipes de Paddy Moloney, dos Chieftains, uma comediante a fazer as vezes de Nargaret Tatcher e o ruído do compositor a lavar os dentes, juntam-se numa obra complexa que nada deve ao aclamado “Tubular Bells”.

The Who
Quadrophenia
2XCD Polydor, distri. Universal
8/10
Como os Kinks, os The Who forma sinónimo da Londres dos anos 60, sufocada entre as pulsões da moda, a nostalgia vitoriana e o muro cinzento de uma classe operária sem horizontes. “Quadrophenia” é a alucinação hiper-realista e duplamente esquizofrénica de um mod de Brighton,. Aliás Pete Townshend, o punk anterior a todos os punks que almejava compor uma sinfonia.

Humble Pie
Natural Born Bugie
2XCD Immediate, distri. Universal
6/10
Intitulado a partir do “hit” de 1969, “Natural Born Bugie” (e não “boogie” como poderia parecer…) junta “As Safe as Yesterday is” e “Town and Country”. Apesar do rótulo de supergrupo e do virtuosismo dos seus elementos, os Humble Pie raramente conseguiram escapar à mediania de um rock mainstream em contradição com o brilhantismo pop da banda que acolhera antes Peter Frampton, The Herd.

Blood, Sweat & Tears
Child is Father to the Man
Columbia, import. Lojas Valentim de Carvalho
7/10
Das primeiras pequenas big-bands da música pop, os Blood, Sweat & Tears trouxeram para os finais dos anos 60 a fanfarra, com a inclusão de uma secção de sopros que procurava honrar os ensinamentos do trompetista canadiano Maynard Ferguson. Ainda hesitantes quanto ao caminho que os haveria de conduzir ao sucesso, “Child is Father to the Man” cruza, entre a exaltação e a devoção, a herança dos blues e da soul com o psicadelismo em voga, revelando Al Kooper como um notável escritor de canções.

05.01.2001
Maddy Prior
Ballads & Candles
Park, distri. Megamúsica
7/10
O encontro, 20 anos depois, com June Tabor, é o principal atractivo de “Ballads & Candles”, celebração dos 35 anos de carreira da cantora dos Steeleye Span, gravado na digressão de Natal do ano passado, em simultâneo com o disco de estúdio “Ravenchild”. Para além de June Tabor, foram chamados, entre outros músicos, Peter Knight e Rick Kemp, ambos dos Steeleye Span, e Troy Donockley, multinstrumentista dos Carnival Band, mas são os desempenhos “a capella” com a sua antiga companheira nas Silly Sisters, ou com a filha, Rose Kemp, que justificam a audição sem reservas deste “best of” de uma das vozes femininas mais importantes a emergir da vaga folk rock dos anos 70. Não acrescentará grande coisa à sua carreira mas servirá para chamar a atenção dos que a desconhecem, sobretudo num registo de júbilo como é o deste “Ballads & Candles”.

05.01.2001
Muslimgauze
The Inspirational Sounds of Muslimgauze
Universal Egg, distri. Sabotage
8/10
“Comecei a interessar-me pela música dos Faust e dos Can, pelo punk e pela música industrial, mais tarde pelas músicas árabe e indiana”. “A minha música é influenciada por acontecimentos particulares, tenham eles origem na Palestina, no Irão ou no Afeganistão”. “É fina a linha que separa a doutrinação da informação”. “A nossa música não é política, a maneira como a fazemos, sim”. São declarações recolhidas de entrevistas com Bryn Jones, mentor dos Muslimgauze, falecido em 1999 vítima de uma infecção rara. “The Inpsirational Sounds…” reúne excertos de uma discografia extensa por uma banda de activistas de Manchester fascinada pela ideologia muslim. Música ritualística, com cheiro a pólvora, que ao longo das últimas duas décadas explorou os terrenos minados que vão dos Young Gods a Meira Asher.