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7 Novembro 2003
MADDY PRIOR
Lionhearts
Park, distri. Megamúsica
7|10
Depois de “Arthur the King”, Maddy Prior volta a gravar um álbum temático centrado na vida de reis lendários da velha Inglaterra. “Lionhearts” narra a história de Ricardo I, “Coração de Leão”, na perspetiva da sua mãe, Eleanor da Aquitânia. Mais generalista e “entertainer” do que nos The Carnival Band, um “gosto adquirido” para quem não tem da música antiga uma ideia redutora e pruridos de purista, a antiga cantora dos Steeleye Span volta a colocar a sua voz magnífica ao serviço de uma música onde o eclectismo impera, misturando “uillean pipes” e sintetizador Moog, a new age épica de “Salah Ed-Din”, o rock FM com guitarras elétricas “à la” Mike Oldfield, de “Old lion”, e a recriação de “standards” folk como “Salisbury plain” e um “John Barleycorn” a recordar os melhores tempos dos Steeleye Span. Mas uma boa ideia nem sempre tem concretização à altura. O principal problema de Maddy Prior será hoje o de tentar agradar a várias camadas de público, da folk à “música de elevadores” inteligente, com os consequentes desequilíbrios e fraquezas que tal opção acarreta. “Lionhearts” é, apesar de tudo, um trabalho que não envergonha o seu passado, mesmo a pedir que o arrumem ao lado do disco de Natal dos Jethro Tull…
Para que conste: “Year” é o melhor álbum de sempre na carreira, longa de quase 30 anos, de Maddy Prior. Incluindo os três discos, circunscritos a uma área específica – o cruzamento da folk com a música antiga –, que gravou com os Carnival Band e, obviamente, aqueles assinados em seu próprio nome, que até à data não faziam justiça à grandeza da cantora. Num plano superior, embora não muito, continuam a estar os álbuns fundamentais que gravou com os Steeleye Span entre 1971 e 1974, “Please to See the King”, “Tem Man Mo por Mr. Reservoir Butler Rides again”, “Below the Salt”, “Parcel of Rogues” e “Now We Are Six”. “Year” anda lá perto. Ao contrário dos anteriores discos a solo da “irmã tontinha” de June Tabor, em que a folk, o rock envernizado e a pop rural se misturavam de forma mais ou menos inconsequente, num veículo “mainstream” que, sem ser ofensivo, passava sem deixar marcas nem saudade, o novo “year” afirma-se logo de entrada com a força e a unidade de um clássico. Maddy está em grande forma. E o seu canto, um mimo, uma iguaria, nos arredores da perfeição. As composições não lhe ficam atrás. A principal é uma sequência de temas sobre as estações do ano, apresentado em estreia mundial, ao vivo, há dois anos, no festival Intercéltico do Porto. Um desses temas fica desde já como uma das melhores interpretações de sempre da cantora: “Marigold”, a canção do Outono. Emoção em estado puro, numa vocalização de sereia, sinuosa e insinuante. Maddy em verdadeiro estado de graça.
Não há momentos fracos, nem nas composições originais nem nas tradicionais, sem esquecer a melodia de Verão saída da pena de Loudon Wainwright III, “Swimming pool”, e que se pode considerar a mais próxima de uma sensibilidade pop, num disco que por três vezes se revê no passado dos Steeleye Span. Em “Saucy sailor”, de “Below the Salt”, “Boys of Bedlam”, de “Please to See the King” e “Twa corbies” – meditação sobre a morte incluída na estreia “Hark! the Village Wait”, neste disco com um texto do escocês antigo, cantado sobre uma melodia da Bretanha –, transpostos de forma gloriosa para novos arranjos. “Long shadows” e “Somewhere along the road” transportam consigo as sombras, os espectros e as lendas da Inglaterra rural como ninguém o havia feito depois de a grande, desaparecida e menosprezada banda chamada Mr. Fox, de Bob e Carole Pegg, o ter feito em dois álbuns seminais, “Mr. Fox” e “The Gipsy”. “The fabled hare”, “suite” dividida em seis partes, é uma homenagem à lebre, esse animal tantas vezes evocado nas canções da tradição inglesa e considerado na antiguidade como símbolo da deusa pagã da fertilidade e do renascimento (“re-birth”), Aestre. Começa por parecer-se um pouco com os Jethro Tull (refira-se a propósito que Ian Anderson colaborou em “Now We Are Six”) e segue em mudanças de velocidade, com as do quadrúpede em questão, que mostram o lado mais inovador deste “Year” de boa memória.
Um grande álbum que vem ocupar o lugar no trono, ao lado de “Angel Tiger” de June Tabor. Magnífico. (9)
Maddy Prior vem cantar de novo a Portugal. Depois de uma primeira actuação, falhada, em 1991, na estreia do Folktejo e de uma rectificação memorável rubricada no ano seguinte no festival Intercéltico do Porto. Os dias 11 e 12 de Março são as datas confirmadas para os concertos da vocalista dos Steeleye Span em Portugal, com organização dos Concertos de Portugal e integrados na digressão europeia da cantora, de promoção ao seu novo disco a solo, “Year”, inspirado nas quatro estações do ano e cujo tema principal foi apresentado pela primeira vez ao vivo no nosso país no referido Intercéltico.
Com uma carreira iniciada em 1968, na companhia de Tim Hart, com quem gravou os dois volumes de “Folk Songs of Olde England” e “Summer Solstice”, Maddy Prior explodiu na cena folk britânica como vocalista dos Steeleye Span, ao lado dos Fairport Convention, uma das bandas responsáveis pelo aparecimento da corrente folk rock em Inglaterra, no início da década de 70. Com os Steeleye Span, por onde passaram os grandes mestres Martin Carthy e Ashley Hutchings, Prior recolheu para o seu currículo obras fundamentais – descontando a estreia, algo incipiente, “Hark! The Village Waits”, e a colaboração com Martin Carthy em “Shearwater”, de 1971 – como “Please To See The King” (considerado “álbum folk do ano”, em 1971, pelo jornal “Melody Maker”, que nessa época apresentava uma secção de música folk), “Ten Man Mop Or Mr. Reservoir Butler Rides Again”, “Below The Salt”, “Parcel Of Rogues” e “Now We Are Six”, de 1974, data a partir da qual os Steeleye Span entraram em decadência irreversível, vivendo hoje à sombra do nome e da fama granjeados no passado.
Com June Tabor, a sua grande “rival” e amiga de sempre, Maddy Prior assinou dois álbuns de antologia, sob a designação Silly Sisters: “Silly Sisters”, de 1976, e, doze anos volvidos, a obra-prima “No More To The Dance”. A partir de 1987, Maddy Prior passou a integrar um projecto denominado The Carnival Band, que faz a aproximação da folk inglesa com a música antiga, medieval e renascentista. Desta banda foram editados até à data os álbuns “A Tapestry Of Carols” (dedicado às canções de Natal da tradição inglesa, bem como de outras regiões da Europa céltica), “Sing Lustilly And With Good Courage” e “Carols & Capers”, de novo subordinado à temática do Natal.
Esta dispersão de talento é, de resto, parte intrínseca da sua personalidade, expressa numa bisca constante de novas fórmulas e formatos adequáveis a sua voz. “A variedade é algo por que luto e que representa o meu próprio eu”, declarou Maddy um dia. “Gostaria de não ter tido tanto medo no início. Devia ter tentado mais coisas, ter-me atrevido e arriscar. Procurem-me daqui a outros vinte anos e provavelmente direi que deveria ter arriscado mais agora!…”
A solo, onde paradoxalmente a cantora obteve até agora resultados artísticos menos interessantes, Maddy Prior gravou “Woman In The Wings”, “Changing Winds”, ambos de 1978 – o mesmo ano em que emprestou a sua voz ao duplo álbum de Mike Oldfield, “Incantantions” –, “Hooked On Winning” e “Happy Families”, este de parceria com o seu actual marido e membros dos Steeleye Span, Rick Kemp. O novo “Year” veio inverter esta tendência.
11 DE MARÇO, CASA DA CULTURA, COIMBRA, 22H
12 DE MARÇO, TEATRO S. LUIZ, LISBOA, 22H