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Joni Mitchell – The Complete Geffen Recordings

27.02.2004
Joni Mitchell
The Complete Geffen Recordings
4xCD Geffen, distri. Universal
6/10

LINK (“Night Ride Home” – Parte 1)
LINK (Ride Home” – Parte 2)

Os anos 80 não foram gentis para Joni Mitchell nem ela foi gentil para os anos 80. “Wold Things Run Fast” (1982), “Dog Eat Dog” (1985), “Chalk Mark in a Rain Storm” (1988) e “Night Ride Home” (1991) foram (des)considerados desfasados da época. A cantora canadiana retorquiu, queimando os “eighties” como a década da decadência e do materialismo. Mas Joni condescendeu e estes quatro trabalhos podem ser considerados os mais fracos da sua discografia. Afastada da veia jazzística e experimental de “The Hissing of Summer Lawns”, “Hejira” e “Mingus”, entrou de cabeça na pop mas deu-se mal com a superficialidade de uma música formatada no lado mais plastificado da electrónica. Se “Wild Things” pode ser apreciado como operação de simplificação, com entrada no rock FM, “Dog Eat Dog” desce aos baixos da electropop e “Chak Marks…” afunda-se no lodo de colaborações pouco enriquecedoras (Peter Gabriel, Willie Nelson, Tom Petty, Billy Idol). Em “Night Ride Home”, felizmente, Joni sacudiu a poeira e as ramelas dos olhos e arranjos, despertando de novo para as grandes canções. Os discos, remasterizados, ressurgem em caixa e capas de cartão que são simplificações das originais.

Joni Mitchell – Shadows and Light

22.10.2004
Joni Mitchell
Shadows and Light
DVD Warner Vision
7/10

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Joni Mitchell foi uma revolucionária dos sentimentos contidos entre o amor e a perda, evoluindo no sentido de um aprofundamento das formas musicais do canto e da emoção – das baladas folk de “Ladies of the Canyon”, “Blue” e “For the Roses” ao jazz de “Mingus”, do experimentalismo de “The Hissing of Summer Lawns” aos ventos gelados de “Hejira”, da electrónica falhada (o seu único passo em falso) de “Chalk Mark in a Rain Storm” ao mergulho final num classicismo de luxo dos derradeiros “Turbulent Indigo”, “Taming the Tiger”, “Both Sides Now” e “Travelogue”. Depois, desiludida com a indústria, abandonou a música. Primeiro a estrada, depois o estúdio. “Shadows and Light” apanha-a no último ano da década de 70, ao vivo no Santa Barbara County Bowl, num concerto com um naipe de músicos de primeira água ligados ao jazz. Pat Metheny, Lyle Mays, Jaco Pastorius, Michael Brecker e Don Alias, mais o grupo vocal The Persuasions. O DVD não inclui a totalidade das canções do álbum do mesmo nome editado em 1979, oferecendo como extra apenas um diário de fotos da digressão. Joni aparece vestida de senhora já na meia-idade, armada com guitarra acústica e aquela voz que hoje faz escola na nova geração de “singer songwriters”. O alinhamento inclui clássicos como “In France they kiss on main street”, “Coyote” e “Amelia”, do período mais aventureiro da autora (de “The Hisssing…”, “Hejira” e “Mingus”), a par de “standards” como “Goodbye pork pie hat”, e de dois momentos reservados aos solos de Jaco Pastorius, no baixo eléctrico, e Metheny, na guitarra. Pouco compreensível é a introdução, com imagens de James Dean em “Fúria de Viver”, de Kazan. Pelo meio há excertos de clips também pouco espectaculares. A cantora surge disfarçada de corvo (como na contracapa de “Hejira”) a patinar sobre o gelo, no meio de “Black Crow” e, em “Coyote”, há imagens – surpresa! – de um coiote. O que significa que este é um DVD mais para se ouvir, nos prazeres da alta definição do %.1 Dolby Digital Surround, do que para se ver.

Joni Mitchell: Cinco Estrelas

12.05.2000
Cinco Estrelas

33 anos de carreira, 20 álbuns de originais ao longo dos quais a cantora e compositora canadiana tem escrito e reescrito a sua própria história. Um universo pessoal, tão musical como pictórico, sem paralelo na enciclopédia dos grandes singers-songwriters norte-americanos. Desta longa viagem confessional retirámos cinco momentos que são outros tantos álbuns de retratos. Uma escolha assumidamente subjectiva, não consensual, que exclui a fase mais recente da cantora, presente em álbuns como “Turbulent Indigo” ou “Taming the Tiger”, sem dúvida excepcionais. Apenas porque a intenção foi, acima de tudo, chamar a atenção para o barro e para as estrelas de um passado sem o qual nunca se teria iluminado o firmamento de clássicos que Joni Mitchell, no seu mais recente capítulo de uma história de amor interminável, entroniza em “Both Sides Now”.

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“Blue” (1971)
“Sentia-me isolada, como uma ave presa na gaiola. Já não conseguia relacionar-me com as pessoas. Uma certa dose de sucesso pode acabar com uma pessoa, de várias maneiras”. Esta dose de sucesso tinha sido granjeada ao longo dos três álbuns precedentes e “Blue” é a resposta aos que queriam ver nela apenas a “hippie” que assinou o hino “Woodstock”. Com “Blue”, Joni Mitchell demarca-se do seu passado recente, abandonando os concertos ao vivo para se auto-analisar num retiro interior do qual resultou este álbum, onde é possível descortinar os claros-escuros de um poço emocional e criativo sem fundo. É ainda a autora que, a propósito deste seu trabalho, afirmou: “Neste período da minha vida não tinha quaisquer defesas, por isso dificilmente se encontrará nas letras ou na voz o mínimo sinal que não corresponda a uma sinceridade absoluta”.

“For The Roses” (1972
Apesar da ausência voluntária dospalcos, “For the Roses” entra, num ápice, para as listas de vendas dos EUA, feito para o qual muito contribuiu o impacto do single “You turn me on, I’m a rádio”, o primeiro “hit” da cantora que chegou a ter alguma divulgação em Portugal. Embora muitos prefiram o tom mais extrovertido do álbum seguinte, “Court & Spark”, é em “For the Roses” que a relação entre a voz e o piano de Joni Mitchell – nalguns casos e pela primeira vez, pontuados por uma orquestra – se tornam cúmplices de mil e uma solidões repartidas. Um crítico do “New York Times” apontava então para ela como uma “cantora e compositora de génio que fazia com que não nos sentíssemos sozinhos”, enquanto ela própria, na canção “Woman of heart and mind”, canta: “Pensas que sou como a tua mãe, ou outra das tuas amantes, ou a tua irmã, ou a rainha dos teus sonhos, ou apenas outra rapariga tonta, quando o amor faz de mim o que quer.”

“The Hissing of Summer Lawns” (1975)
Há quem não morra de amores por este álbum, embora tivesse sido, uma vez mais, um sucesso de vendas. Ao contrário de todas as obras anteriores, auto-confessionais, “The Hissing of Summer Lawns” aponta o bisturi para o exterior, fazendo a dissecação de alguns dos vícios da sociedade americana. É, em simultâneo, em termos musicais, o álbum mais experimental da compositora, carregado de uma electrónica densa que atinge o esplendor em “The jungle line”. Manhattan transformada numa selva tropical, cimento e lianas, atravessada por jibóias e batuques rituais. E o jazz começava a despontar.

“Hejira” (1976)
O oposto do anterior. Se “Hissing tjhe Summer Lawns” era calor e humidade, “Hejira” é branco e frio, com o desenho rigoroso de uma patinadora no gelo. Conta Joni Mitchell que a maioria das canções foi composta em viagens de automóvel. O título significa “uma viagem empreendida com a finalidade de escapar a um ambiente hostil ou indesejável”. Por vezes algo hermético, de um apuro formal levado à perfeição, “Hejira” é um exercício de jazz ambiental, cuja arquitectura depende em grande parte do baixo de Jaco Pastorius, da bateria de John Guerin e do vibrafone de Victor Feldman. Neil Young, um velho amigo, toca harmónica como convidado. “Coyote” e “Amelia” são as canções que fogem um pouco a esta paisagem imaginada por uma esteta.

“Mingus” (1979)
Depois da participação, em 1978, no filme de Scorcese, “A Última Valsa”, Charles Mingus, um dos maiores contrabaixistas e compositores da história do jazz, já na fase terminal da sua doença, contactou-a, manifestando-lhe o desejo de trabalharem juntos numa adaptação musical de “Four Quartets”, de T. S. Eliot. Ele escreveria a música, ela editaria os textos. Joni Mitchell declinou a oferta, com a justificação de que seria mais fácil fazer uma síntese da Bíblia. Mingus, insistiu, compondo seis composições para a voz da cantora. Acabaram por ser utilizadas apenas quatro, incluindo o “standard” “Goodbye pork pie hat”. Completam o alinhamento de “Mingus” dois originais da cantora e cinco designados rap, que não são mais do que curtíssimos excertos de monólogos de Mingus, um “Parabéns a você” e conversas e sons de circunstância captados durante o funeral do músico. Mingus morreu a 5 de Janeiro de 1979, mas “Mingus”, o álbum, ficou como uma tocante homenagem a esse músico visionário. Contribuíram para a gravação, além de Guerin e Pastorius, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Peter Erskine e Don Alias.