Frei Hermano Da Câmara Celebra 30 Anos De Carreira
Desafinação Bíblica
Não esteve em forma, o padre-cantor que gosta de fazer de “Nazareno”. Cumpridos 30 anos de carreira, Frei Hermano da Câmara desafinou nos fados e acrescentou ao termo “kitsch” um significado bíblico. Os fiéis deliraram com a dose de religião-espectáculo. Para entrar no céu basta comprar bilhete.
Em entrevista ao PÚBLICO do passado dia 12, frei Hermano da Câmara afirmava a existência de duas vias para se alcançar o Alto: uma activa e outra contemplativa. Na 1ª parte do concerto inaugural no Coliseu dos Recreios em Lisboa em Lisboa (repete dia 21 no Porto), que serviu para comemorar os seus 30 anos de carreira, o sacerdote que “canta a rezar e reza a cantar” optou nitidamente pela via contemplativa, contemplando a audiência com uma desafinação monumental, do tamanho da Bíblia.
Mas se o cantor desafinou, o público desatinou de entusiasmo: a plateia, que enchia a sala de corpos jubilosos e vibrações positivas, vendo nisso uma atitude ascética, quiçá de sacrifício pessoal, aplaudiu extasiada. Frei Hermano da Câmara, vestido de frade, todo de negro, interpretou, entre a paixão interior e a desafinação exterior, uma colectânea dos seus fados mais conhecidos, acompanhado à guitarra e à viola pelos insuspeitos António Chainho, António Nobre da Costa, Pedro Nóbrega e Raul Silva, que fingiram não dar pela constante saída de tom do cantor. Ao fim de 30 anos, e dada a vestimenta, é caso para dizer que esta noite o hábito não fez o monge.
Ritual Litúrgico-Mediático
Na 2ª parte foi diferente. É difícil dizer se para melhor se para pior. Digamos que o aparato visual teve a virtude de distrair os ouvidos agredidos, através de mais uma encenação de episódios da vida de Jesus Cristo transformada em selecção do “Reader’s Digest”. Ao som de uma mistura grandiosa entre a “Guerra das Estrelas”, Dino Meira, Can-Can e música de circo, o pano abriu para revelar uma cenografia que procurava recriar o interior de uma catedral. Ao fundo, um coro majestoso imitava as elevações vocais gregorianas. À frente, uma mesa em volta da qual se dispunham os 12 apóstolos e, claro, o Nazareno. Estava montado o cenário e o ambiente para o ritual litúrgico-mediático que se havia de seguir.
O espectáculo decorreu como se de uma missa se tratasse, entre canções alusivas à vida do Messias e homilias que difundiam, de forma simples e directa, a mensagem do Novo Evangelho. A música não ajudava a encaminhar as almas: Frei Hermano, agora de branco vestido, continuou a desafinar, embora se notasse menos, graças ao auxílio prestado pelo som da orquestra e do coro (composto por elementos dos “apóstolos de Santa Maria” e do “coro do Estoril”) que lhe abafava as fífias. Coro e orquestra que, diga-se de passagem, foram dos poucos elementos que se salvaram na noite de anteontem. Salvaram-se artisticamente falando, entenda-se.
Pelo palco foram passando os convidados que cumpriram de forma profissional as tarefas de que foram incumbidos: as sopranos Hannelore Fisher e Teresa Couto “tremolaram” na pureza dos agudos que se queriam o mais próximo possível do céu, respectivamente nos papéis da Virgem Maria e do anjo, Teresa Tarouca compôs uma Maria Madalena convincente, o tenor João Costa Campos trovejou num Judas em desespero de causa.
Sucederam-se as cenas sagradas e que assim deveriam ter permanecido: a Anunciação, a Última Ceia, a Crucificação e a Ressurreição – transformadas em caricaturas “kitsch” para consumo imediato de quem procura “mensagens” em “self-service”. Fica a imagem tocante de um “Pai-Nosso” entoado com fervor pelos músicos e pela assistência, em uníssono, naquele que constituiu o momento de catarse colectiva mais alto do concerto.
Frei Hermano da Câmara perguntava ao PÚBLICO, dias antes da sua actuação, por que razão um sacerdote não há-de representar a figura de Cristo, da mesma maneira que um actor o pode fazer. Precisamente, padre, porque um sacerdote não é, não pode ser, um actor. Leia-se fundo neste “não pode”. Cumprindo o ritual, saiu-se da sala, de ouvidos feridos e alma aliviada.
Frei Hermano Da Câmara Comemora 30 Anos De Carreira No Coliseu De Lisboa E Porto
“Canto A Rezar E Rezo A Cantar”
Para frei Hermano da Câmara, cantor, sacerdote e “apóstolo de Santa Maria”, o espectáculo não é indissociável da vida contemplativa. Por isso, amanhã e sábado, no Coliseu de Lisboa, e a 21, no Porto, também no Coliseu, volta a encarnar o “Nazareno”, como forma de celebrar 30 anos de carreira, de “fazer apostolado cantando”. Uma coisa “fulgurante”. O próprio Cristo, avisa, “não vai ficar em casa”.
Benedito durante 23 anos, frei Hermano da Câmara, o padre-cantor, acabou por fundar uma comunidade vocacionada para a música e para a oração. É “possível orar em qualquer lado” – diz -, num convento do Sameiro como sob os holofotes do Coliseu. Entre uma oração e o ultimar de preparativos para mais uma encenação espectacular, desta feita celebrando 30 anos de carreira e de apostolado, o PÚBLICO foi ao seminário falar com o “nazareno”. PÚBLICO – O fado foi para si o ponto de partida para muita coisa…
FREI HERMANO DA CÂMARA – Comecei precisamente pelo fado. Nasci em Lisboa e sabe como é… na época em que comecei a gostar de música o fado estava na moda. Mas a determinada altura passei a cantar um pouco de tudo, da música popular à música ligeira. Houve uma certa evolução, sobretudo depois da entrada para a vida religiosa. P. – O fado funciona para si de algum modo como um complemento da vida religiosa, como uma outra forma de comunicar com o transcendente?
R. – O fado teve muita influência em mim, não só na minha vocação. Mexia muito comigo, com os meus sentimentos. Costuma às vezes dizer-se que o fado é uma música de taberna mas a mim elevava-me muito para Deus. De resto tive sempre uma fé muito viva. P. – Depois da sua entrada para a vida religiosa, verificou-se alguma alteração nessa atitude? Porque, apesar de tudo, existe no fado um forte elemento profano…
R. – Quando entrei para a vida religiosa, cantei o célebre “Fado da Despedida” mas logo a seguir senti necessidade de gravar uma “Avé-Maria” e espirituais angolanos. Fui aos poucos perdendo um pouco de interesse pelo fado e a ter vontade de cantar outras coisas, composições minhas, por exemplo, e de procurar letras com mensagem… P. – Em que autores encontrou essa mensagem?
R. – Procurei-a e procuro-a em autores e livros conhecidos, portugueses: Miguel Torga, Pedro Homem de Mello, Augusto Gil, o padre Moreira das Neves…
Apostolado Musical
P. – A que ordem religiosa se encontra ligado actualmente?
R. – Eu entrei para os Beneditinos: 23 anos de vida beneditina durante os quais criei uma fundação. Depois desliguei-me dessa ordem para fundar uma comunidade, os “Apóstolos de Santa Maria” de que sou actualmente responsável. Tenho também um seminário no Sameiro, ligada aos “Apóstolos”. O objectivo principal é o apostolado através da música. P. – O facto de ter uma carreira artística conferiu-lhe algum estatuto especial, de privilégio, no seio da ordem religiosa?
R. – O problema principal é esse mesmo, o de conseguir conciliar a vida artística com a religiosa. A nossa vida como “Apóstolos de Santa Maria” é essencialmente contemplativa, de oração, e é esse o nosso carisma. Mas depois temos como objectivo o tal apostolado através da música. Digamos que existem duas facetas: uma contemplativa, outra activa. As duas têm muita importância mas para mim a mais importante é a contemplativa. De tal maneira que se fosse preciso abdicar do canto e dedicar-me apenas à oração, fá-lo-ia. Acho que Deus quer a parte contemplativa mas não quer que eu abdique da música. P. – Mas isso conduz a uma questão delicada que tem a ver com a venda de discos, concertos, lucros, enfim, aspectos muito pouco espirituais que envolvem o fenómeno artístico…
R. – Todos os lucros resultantes da venda de discos e de concertos revertem para os “Apóstolos de Maria”. P. – Consegue fazer passar a mensagem que há pouco referia, quando actua no estrangeiro, para estrangeiros?
R. – Canto essencialmente para portugueses. Mas já fui convidado, por exemplo, para ir à Grécia, cantar para gregos. Não havia um português na sala. Foi na catedral de S. Nicolau, na ilha de Creta, com um coro de crianças gregas a quem ensinei a cantar em português.
“O Nazareno”, Acto II
P. – Por falar em mensagem, o “Nazareno” foi um espectáculo mediático, uma espécie de “Jesus Christ Superstar” à portuguesa. Os próximos concertos do Coliseu vão seguir a mesma tónica?
R. – A segunda parte vai ser fulgurante (na primeira vou cantar uma selecção dos meus maiores sucessos). Contará com uma orquestra dirigida pelo Jorge Machado, um coro de 75 vozes, um corpo de bailado e artistas convidados: as sopranos Hannelore Ficher e Teresa Couto, um tenor do Teatro de S. Carlos e o João Costa Campos. A Teresa Tarouca também participa. Vão aparecer de novo teatralizações do Nazareno, de Nossa Senhora, de Madalena, de Judas, mas numa óptica diferente da primeira apresentação, com inserção de números inéditos. P. – Pode especificar em que consiste essa diferença?
R. – Vai ter o 2º acto do “Nazareno” – que é a parte dramática e também a 2Ressurreição” – encaixando como que numa grande missa, no interior de uma catedral. P. – O público aderiu sem reservas à primeira apresentação do “Nazareno”, sensível ao aspecto teatral, ao religioso, ou à mistura de ambos. Não há o perigo de a música passar para um plano secundário?
R. – Acho que as pessoas vão aos meus espectáculos à procura de algo mais. Se eu fosse cantar temas religiosos, sem mais qualquer coisa, que puxassem só para o “beato”, talvez não conseguisse chegar a todas as camadas de público. P. – Uma solução de compromisso?
R. – Sim, sem abdicar no fundo dos meus temas que são sempre a figura de Cristo e o Evangelho. P. – Mas não deixa de fazer uma certa impressão esse lado espectacular ligado à religião…
R. – Vou explicar-lhe como procedo para conciliar os dois: a nossa espiritualidade tende para uma oração contínua. Mas não é só quando se está na capela que se reza. Podemos rezar no trabalho, na rua, em qualquer parte. Costumo dizer que faço dos meus espectáculos uma oração. Canto a rezar e rezo a cantar. No próximo espectáculo participam doze “Apóstolos de Santa Maria” e eu preveni-os que Cristo não vai ficar em casa, no Sameiro. Cristo vem connosco. Claro que é preciso uma ginástica, um treino, mas temos de fazer esse esforço. É possível estar num teatro ou num ensaio e permanecer em união com Deus. P. – Poder-se-á associar essa maneira muito especial de propagandear a mensagem de Cristo a um novo tipo de missionarismo?
R. – Acho que sim. Quem ouve dizer que os “Apóstolos de Santa Maria” são contemplativos mas andam a cantar por aí, pode achar que há uma grande contradição. Mas, no fundo, não há. P. – Não receia que acusem os seus espectáculos de folclore, no mau sentido?
R. – Claro que há sempre críticas negativas, como aconteceu com o “Nazareno”. Admito que as pessoas possam dizer mal dos meus espectáculos e não estarem de acordo que eu encarne a figura de Cristo e outras coisas do género. Mas se um actor o pode fazer porque é que um sacerdote não pode? P. – Como resumiria estes seus 30 anos de carreira?
R. – Foram 30 anos gastos ao serviço de Deus. No fundo, é fazer apostolado, cantando. Mas a parte mais importante, aquela que me realiza, é a parte de sacerdote, de direcção espiritual das almas, a confessão. O que eu mais gosto e ajudar as pessoas espiritualmente.
Entre “O Nazareno” e este seu novo disco, “Missa Portuguesa” distam 16 anos. A que se deve um intervalo tão longo?
Deve-se sobretudo à fundação que eu fiz, dos Apóstolos de Maria, uma fundação com duas vertentes. Somos religiosos contemplativos e activos. Pela contemplação rezamos, temos uma via de adoração intensa. Pela acção, temos o nosso apostolado através da música. Como deve calcular, uma fundação nova dentro da Igreja dá sempre muito trabalho. Depois, as minhas gravações são quase todas com músicas compostas por mim e isso exigiu um reportório especial.
Até que ponto o novo disco é fiel às várias fases da liturgia?
Tem todas as características de uma missa. Segue o esquema do missal romano, nas suas partes invariáveis e variáveis. Tem o cântico de entrada, o “Kyrie”, o “Glória”, “Aleluia”…
Porque razão escolheu, em duas canções, textos das místicas Teresa de Lisieux e Teresa de Ávila?
Primeiro porque tenho uma grande paixão pelos grandes místicos, dos carmelitas como Teresa de Ávila, Santa Teresa do Menino-Jesus [Teresa de Lisieux] e São João da Cruz. Achei que Santa Teresa de Lisieux se aplicava ao Ofertório, porque fala de oferta – “os meus perfumes são para ti, Senhor” – e o de Santa Teresa de Ávila à Comunhão.
O disco surge numa altura em que outros, como o dos monges de Silos, estão a ter um enorme sucesso. Que razões encontra para este sucesso?
É um fenómeno que eu não sei explicar. Mas dá-me a impressão que as pessoas estão fartas daquela música que não acalma, que não serena, da chamada música pesada. As pessoas precisam de sossego e de calma.
Em vez de acordar as pessoas, adormecê-las… Não será isso uma fuga, um escape, um sedativo para os problemas do dia-a-dia, em última análise uma outra forma de alienação?
Não sei se o facto de as pessoas ouvirem uma música calma seja uma alienação dos problemas. Pelo contrário, acho que a pessoa, para tomar consciência desses problemas, tem que ter calma e serenidade. Não é neste ruído do mundo, nesta barulheira das “boîtes” e da música que se ouve na telefonia, que as pessoas têm tempo para pensar.
Mas não é possível criar o silêncio necessário no meio desse ruído? Afinal o tal acto contemplativo, mas fora das paredes do convento?
Repare no caso do Papa. O Papa disse numa entrevista que num primeiro momento a sua vocação surgiu para a vida contemplativa, mas depois de ter reflectido – é uma pessoa inteligentíssima, de grande categoria – percebeu que a vida dele não seria a contemplação, a vocação dele não era enfiar-se num convento. Então o que acontece é que o Papa vive a vida contemplativa, mas é um contemplativo do mundo. Mas isso não acontece com toda a gente. Repare, nós também somos contra sociedades contemplativas. A minha fundação é uma fundação contemplativa, mas temos, como já disse, uma vertente activa. De apostolado através da música em que fazemos espectáculos, gravações de discos e programas de televisão. Mas, além disso, todos aqueles que são sacerdotes exercem o seu ministério sacerdotal. Neste momento, estamos num chalé junto da basílica, onde celebro missa todos os domingos.
O Papa conhece os seus discos? Tem alguma opinião sobre a música?
Mandei de facto os meus discos ao Papa. Ele agradeceu imenso e enviou uma bênção. Mandei-lhe “O Nazareno” e outro disco, dedicado a ele, a “Serenata Mística”, que tem o atentado ao Papa, com tiros e tudo.
Porque é que utiliza sempre nos seus discos meios tão espalhafatosos, grandes encenações ou, como neste caso, a Royal Philharmonic Orchestra de Londres?
No meu caso, nunca pedi nada a uma editora, nem esta nem aquela orquestra. Quando gravei por exemplo “O Nazareno” puseram à minha disposição a Orquestra da Gulbenkian e coros do Teatro de S. Carlos. Não pedi nada a ninguém.
É para chegar mais facilmente às pessoas?
Pode chegar-se de qualquer maneira às pessoas. Até só com uma simples guitarra, como foi o caso, por exemplo, da célebre “Irmã sorriso”, uma dominicana belga que cantava, tocava guitarra, e gravou um disco que apareceu nos escaparates do mundo inteiro. Ou o caso dos monges de Silos que cantam sem qualquer acompanhamento.
Já agora, não há monges em Portugal capazes de fazer uma coisa semelhante?
Já podia ter sido feito, com os Beneditinos. Penso que ainda não se fez nada pela mesma razão de sempre: as editoras não querem arriscar. Possivelmente nunca lhes passou pela cabeça que gravar um disco de gregoriano com monges portugueses poderia ser um sucesso mundial.
Mudando de assunto, o que pensa dos cátaros, místicos cristãos da Idade Média que professavam a religião do amor (“Amor”, anagrama inverso de “Roma”) e praticavam a gnose (contacto directo com Deus, sem intermediários) sem obediência à Igreja Católica, que os considerava heréticos?
Na minha opinião, tudo o que seja uma separação, que não esteja em ligação com o vigário de Cristo, o Papa, está errado. Desde que seja conscientemente. Está errado porque Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu uma hierarquia, pôs Pedro como pedra da Igreja, e disse: “Tu és Pedro e sobre esta pedra fundarei a minha Igreja e as forças do Inferno não prevalecerão contra ela.” A partir de Pedro há uma sucessão apostólica transmitida de Papa para Papa, portanto tudo quanto seja fora não está em união com a cabeça. Cristo é a cabeça da Igreja e nós somos um corpo. A igreja não é só o templo, são os sacerdotes e os leigos. As pessoas. Somos pedras vivas, como diz S. Pedro. Depois, há religiões e há seitas. Todas aquelas religiões que estão bem intencionadas e não ofendem a dignidade humana, mesmo que aparentemente estejam fora da Igreja, acho que essas pessoas se salvam da mesma maneira que um católico. Porque acreditam que a sua religião é que é a verdadeira. Agora as seitas, que ofendem a dignidade humana, essas não as aceito. Aí já há uma coisa diabólica pelo meio, contra a qual temos de lutar.
Há quem diga que o Diabo já se instalou em Roma…
Aí está. É isso mesmo. Não diria que o demónio se instalou em Roma, mas sim que o demónio está instalado em toda a parte. Digo muitas vezes na minha comunidade que é preciso dar um testemunho de amor, como os primeiros apóstolos que diziam “vede como eles se amam”, marca pela qual se conhecem os apóstolos de Cristo. Costumo dizer na minha comunidade, quando há qualquer coisa mal, uma tempestade lá dentro, que é porque está lá a garra do demónio.
Já teve algum contacto com esse mal, com o demónio?
Nunca o vi, mas sinto que ele existe. Muitas vezes há coisas que não consigo explicar e digo “isto é o demónio!”. Santa Teresa de Ávila era muito perspicaz e tinha uma facilidade muito grande para descobrir onde é que o demónio estava. Mas não são todas as pessoas que têm esse discernimento.
Concorda com as recentes posições do Papa contra o aborto ou a utilização do preservativo?
Estou plenamente de acordo com ele. Embora as pessoas que são atingidas por esses problemas, problemas reais, gostassem de outra resposta, tenho que acreditar, e acredito, eu as posições que o Papa toma são para o bem da humanidade. O Papa não é um carrasco, que esteja ali com uma disciplina militar. Não se trata sequer de leis. O Papa reza e pede ao Espírito Santo que o ilumine e lhe diga o que é melhor para a humanidade. Por exemplo, no caso de pessoas casadas pela Igreja que se separaram e perderam o direito a receber os Sacramentos. Tem havido uma pressão grande para que o Papa autorize essas pessoas a frequentarem os Sacramentos. Veja o que seria uma abertura, abrir um precedente, neste sentido. O casamento ia ao ar!
Estaremos de facto a viver o fim dos tempos, o Apocalipse?
Cristo disse no Evangelho que esse dia ninguém sabe quando acontecerá. Nem mesmo Ele, o Filho do homem. Mas Ele sabe. Já S. Paulo dizia que nós, os que cá estivermos no fim dos tempos, não morreremos, mas seremos levados imediatamente quando Cristo vier. Pode ser que estejamos no princípio do fim dos tempos. Não quer dizer que seja já amanhã ou daqui a um ano. Pode ser daqui a 20 anos. Há uma coisa muito importante que é preciso não esquecer. Nossa Senhora disse”Por fim o Imaculado Coração triunfará”. Ora nós vemos que o Coração Imaculado de Maria está a triunfar em toda a linha. Quando foi a consagração do Papa, em Roma, em que à irmã Lúcia pediu a conversão da Rússia, logo imediatamente a seguir deram todos aqueles acontecimentos no Leste, a queda do Muro de Berlim, tudo isso aconteceu naquela altura. A irmã Lúcia, numa entrevista, respondeu que realmente a consagração tinha sido ouvida. Temos de acreditar que o Imaculado Coração de Maria está a triunfar. E Ela disse “por fim”. Portanto, podemos acreditar que será o início do fim dos tempos.
Quer deixar aqui alguma mensagem de Natal?
A minha mensagem é a mesma de sempre, desejar a paz para todas as pessoas.
* monge e cantor. Autor de “O Nazareno” e de uma “Missa Portuguesa” acabada de editar. Criador da fundação Apóstolos de Maria, de dupla vocação, contemplativa e de apostolado pela música.