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Amancio Prada, a Propósito da Edição de “De Mar E Terra”

07.07.2000
Amancio Prada, a Propósito da Edição de “De Mar E Terra”
“Cantar É Uma Forma de Oferecer A Alma”

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LINK (Canciones de Amor y Celda)

Amancio Prada, trovador do milénio, voz mítica do canto na Galiza. “Canto os poemas que dizem o que eu sinto e o que penso”. O novo álbum, “De Mar e Terra” é a continuação, 23 anos depois, do imortal “Caravel de Caraveles”, um dos emblemas da alma galega.

“Uma noite no moinho, uma noite não é nada. Uma semana inteira, isso sim é moinhada.” O verso, aqui traduzido para português, do tema “Una noite no muino”, de “Caravel de Caraveles”, perdura na memória dos que verdadeiramente amam a música tradicional da Galiza. Fala de um tempo e de costumes antigos. Da tradição oral com a qual Amancio Prada nunca perdeu inteiramente o contacto, apesar da sua discografia posterior o confirmar como um compositor-intérprete para quem, acima de tudo, importa a foça e a beleza da palavra poética. “O meu trabalho consiste essencialmente em compor música sobre as palavras, não só de poetas galegos como castelhanos”, declarou o músico ao PÚBLICO por ocasião da sua última apresentação em Portugal, há pouco mais de uma semana, no castelo de S. Jorge, num espectáculo intitulado segundo um poema do trovador galaico-português João Zorro, “Em Lisboa sobre o Mar”, comparando o seu estatuto ao de outros cantores espanhóis como Paco Ibanez e Joaquín Diaz. Trovador, sim, mas “afastado das gelosias e dos castelos antigos”.
“Canto os poemas que dizem o que eu sinto, o que eu penso, e que não saiba como dizer”, explica, apontando um processo de “apropriação”, este cantor e compositor para quem “cantar é uma forma de oferecer a alma”. “No fundo, a poesia não é dos poetas, os poetas são instrumentos da poesia, como a voz ou uma guitarra são instrumentos da música”, diz Amancio Prada, ao mesmo tempo que confessa a sua admiração pelos poetas portugueses Antero de Quental e, sobretudo, Florbela Espanca, que o cantor ouviu pela primeira vez recitada por Eunice Munoz.
“De Mar e Terra” recupera de novo as “coplas de tradicíon oral”, desta feita recriadas e adaptadas por Amancio Prada na companhia de Luis Delgado. O álbum é dedicado a Teófilo Caamano, “viajero errante y perpetuo, gallego hasta la médula, marinero, idealista, rojo, rebelde y noble”. Um álbum belo e comovente, em que a voz e a sanfona (cuja técnica lhe foi ensinada por Alejandro Massó, um dos músicos presentes em “Caravel de Caraveles”) de novo se casam com as profundezas, a luz e a simplicidade da poesia popular.
A mesma poesia popular que Amancio Prada encontra em Rosalia de Castro: “Ela escrevia com base em versos tradicionais de cantares populares, uma poesia escrita num galego muito simples e sensível, coloquial, nada rebuscado, uma poesia impregnada da paisagem, também, de certa forma, mística, panteísta.”
Amancio Prada encontra em si próprio essa mesma faceta mística, embora a par de uma costela “picaresca”, como confessa com um sorriso, e de ter o “coração na esquerda”. “A ideologia é apenas um entre vários aspectos que abordo de forma não obsessiva, talvez o meu disco mais politizado seja o primeiro, ‘Vida e Morte’ (1974), que, inclusive, tinha uma canção que foi censurada em Espanha.
Faz suas as palavras de António Machado: “A pátria é a terra que se pisa, a terra que se trabalha.” E “cantar numa determinada língua”, diz, “pode ser mais patriótico do que muitas declarações de princípio e, com certeza, muito mais do que a força das pistolas.”
Rosalia de Castro, poetisa nacional da Galiza, que Amancio Prada cantou em “Rosas a Rosalia” (1998, com participações vocais de Maria Del Mar Bonnet e da portuguesa Amélia Muge), o autor medieval São João da Cruz (em “Cântico Espiritual”, “o mais formoso poema, sobre o amor divino ou humano, que se escreveu em espanhol”, nas palavras do cantor), Alvaro Cunqueiro (em “A Dama e o Cabaleiro”, de 1987), Augustin García Calvo (em “Canciones y Soliloquios”, 1982) e Manuel Vicent (em “Navegando la Noche”, 1988) são alguns dos poetas presentes na obra gravada deste cantor natural de Leão que a Galiza adoptou como seu filho.
E Antonio Machado, por quem Amancio Prada nutre especial admiração, apesar de ter cantado apenas dois poemas da sua autoria, um incluído em “Canciones de Amor y Celda” e “Sonei que tu me levavas”. “É como Fernando Pessoa, a sua poesia está impregnada de pensamento.”
“Canta-se aquilo que se perde, escreveu Antonio Machado. Amancio Prada cita-a a propósito da sua relação com a música tradicional. “Tanto ‘Caravel de Caraveles’ como ‘De Mar e Terra’ não são fruto de uma investigação, mas retratos da minha vida, da minha lama. Hoje em dia, canta-se cada vez menos, apear de estarmos rodeados de música por todos os lados. Para mim, o importante é o espaço, a luz e o silêncio, três coisas cada vez mais difíceis de encontrar, sobretudo o silêncio”.

José Peixoto fala do seu terceiro álbum a solo

07.04.2000
José Peixoto fala do seu terceiro álbum a solo
À Luz da Manhã
Manhã cedo. Nas horas claras do dia em que o próprio silêncio ainda não acordou. O tempo certo para José Peixoto tocar os reflexos desta luz nas cordas da sua guitarra. É o que ele nos diz, e o que o espelho lhe diz no novo álbum. “O Que me Diz o Espelho de Água”. Um “puzzle” de cristais gravado numa igreja.

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Choveu durante todo o tempo em que conversámos com José Peixoto, de tarde, no bar do Centro Cultural de Belém, a propósito do lançamento do seu novo álbum, “O Que me Diz o Espelho de Água”. Pareceu adequado, atendendo ao elemento líquido citado no título. Uma tarde mais escura do que a música do guitarrista dos Madredeus que não impediu as palavras de, como as notas do disco, correrem na direcção certa.
“O Que me Diz o Espelho de Água” é o terceiro álbum a solo de José Peixoto, guitarrista dos Madredeus, depois de “As Vozes dos Passos” e “A Vida de um Dia”. E o que diz o espelho de água a José Peixoto? “Diz muito com o seu silêncio. Fala-me da quietude, da ilusão do tempo fixo, da solidez líquida, do espaço infinito contido no seu reflexo e também da fragilidade e da constante procura do repouso que existe no mistério da sua alma. Também me seduz pela certeza da sua vida escondida”, responde o músico.
De facto, também nós olhámos e vimos mais ou menos a mesma coisa. Por isso, nada mais natural que conversar com José Peixoto, confrontando-o com os reflexos do seu próprio trabalho.
Ao ver-se ao espelho da alma, José Peixoto compõe unicamente com base na intuição. “Sem esboço nenhum nem qualquer ideia pré-determinada.” “É como se estivesse a montar um “puzzle”, diz. “Há uma altura em que se tem uma ideia global da forma, embora ainda não se tenham as peças todas, é preciso encaixá-las, encontrar as notas certas.” O “puzzle” de “O Que me Diz o Espelho de Água” tem dez peças, algumas das quais com a participação do contrabaixista Mário Franco e do percussionista Rui Júnior.

Uma Excursão Na Igreja
“O Que me Diz o Espelho de Água” foi gravado nos dias 10 e 11 de Novembro do ano passado na Igreja da Cartuxa em Caxias, “durante o dia”, com muito bom tempo. “Um local que me proporciona um certo conforto acústico e uma atmosfera de recolhimento”, diz o músico, que, mesmo assim, se viu forçado a enfrentar algumas contrariedades durante as sessões de gravação, “Houve interrupções motivadas por barulhos exteriores.” Seria terrível, presumimos, se tala acontecesse precisamente num take mais inspirado em que tudo correu bem. Pois foi mesmo isso que aconteceu durante a captação do tema “A memória contempla o reflexo”. “A igreja fica ao pé de um colégio e numa tarde saiu de lá uma excursão com miúdos. Esteve uma camioneta parada com o motor a trabalhar, mesmo em frente à igreja, com os miúdos a fazer toda aquela algazarra normal nestas circunstâncias. Ficámos sujeitos a uma assobiadela, a um grito. O pior é que o take estava bom até esse ponto. Foi preciso fazer um novo take em que me concentrei sobretudo ma parte que faltava, para a seguir fazer o ‘editing’.”
José Peixoto faz questão de explicar que todas as gravações tiveram lugar durante o dia: “O meu ritmo é diurno. Gosto de trabalhar de manhã, é a parte do dia de que gosto mais, mas também porque sou obrigado… como levo todos os dias os meus filhos para a escola… Levanto-me Às sete, sete e meia, um horário um bocado inconcebível para quem está de fora. Ninguém associa a música e os músicos a estas horas. Mas é um facto que à noite o meu rendimento é muito inferior, já estou cansado, cheio de sono…”
Não sabemos o que pensarão sobre isto os restantes Madredeus, perante a perspectiva de um José Peixoto a ressonar em pleno concerto. É que o guitarrista “preferia tocar de manhã”. Têm a palavra os promotores.
Pelo menos Marco Franco, principal parceiro do guitarrista neste seu mais recente projecto, acedeu em satisfazer este desejo, nas gravações de “O Que Me Diz o Espelho de Água”. Com ele, diz Peixoto, “algumas peças ficaram enriquecidas com a cor do contrabaixo”. Houve também uma necessidade de partilha” mais forte do que em anteriores ocasiões.
Além da música, destacam-se em “O Que Me Diz o Espelho de Água” o extremo cuidado posto na apresentação do digipak, com as belíssimas fotos de Alexander Koch – “a obra começa na composição da música, passa pelo processo de gravação e da qualidade da captação de som e termina no grafismo da capa” – e o poder evocativo dos títulos, na tradição de outros dois músicos apaixonados pelo silêncio, como Benjamin Lew e Harold Budd: “O que não se vê”, “Que sente uma nuvem sozinha no céu?”, “Outra luz diferente”.

O Que Se Vê No Ténis
Outra luz diferente da que antes iluminava os passos do guitarrista? “Sinto que estou mais próximo de qualquer coisa que também não sei definir muito bem o que é, que a minha linguagem está mais amadurecida e controlada, no sentido de mais bem dirigida, e que estou a manusear melhor as minhas ideias. Anda não vi a meta, não sei onde está a meta, se é que existe.”
Palavras sábias, repletas de serenidade, admiráveis por serem proferidas por alguém cujos compromissos com os Madredeus obrigam ao rodopio das viagens, dos hotéis e dos concertos, ainda por cima à noite. Parece faltar o tempo mas José Peixoto inventa-o: “Há mais horas disponíveis do que se pensa, durante as viagens, por exemplo. Nos hotéis, nos camarins, quando se está à espera de fazer o ensaio de som, como tenho esta disciplina diurna, aproveito sempre as manhãs ou bocados da tarde para compor.” O tema de abertura do álbum por exemplo, “O que não se vê”, “foi composto na altura do torneio de ténis de Roland Garros, o torneio feminino. Entretinha-me com a televisão sem som a ver as tenistas, aquela tensão bola cá, bola lá, as falhas, o serviço…, embora o tema não seja propriamente a banda sonora de um jogo de ténis” (risos).
No final deste ano, José Peixoto e Marco Franco pensam partir para a estrada para “fazer uma coisa com pés e cabeça” com música ao vivo de “O Que Me Diz o Espelho de Água”. De preferência de manhã.

Compêndio de Química

02.06.2000
Compêndio de Química

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O amor é uma reacção química. O mundo é um lugar de falsidade onde nada é aquilo que parece. São duas das ideias presentes em “Chemical Love Songs”, o novo álbum dos More República Masónica produzido por Jack Endino, o mesmo dos Nirvana. Um álbum de militância rock com a porta aberta para o psicadelismo e para “a essência das coisas”.

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“Chemical Love Songs”, subintitulado “Soundtrack inspired by achievements and failures of everyday life” começa e acaba com um sample de “sitar”, lançando de imediato a suspeita de que os More República Masónica andaram em viagem. Eles confirmam. Viajaram pelo interior deles próprios, mas apenas através de um trabalho de introspecção que dispensou qualquer tipo de aditivos químicos, garantem.
Com um som mais “electrónico” e cheio que o das bandas anteriormente produzidas por Endino (Nirvana, Soundgarden, Mudhoney…), “Chemical Love Songs” é, na óptica dos MRM, ainda e sempre um álbum de “rock”, que não tem medo de usar as máquinas nem de experimentar novas ideias. Endino soube “captar a essência da banda”, esclarece Jorge Dias, baixista, ocasional teclista e autor de algumas das letras da banda. O resultado é um “álbum com bom som, bem gravado”.
Um “bom som” que capta a energia das referências musicais dos More, dos velhos Led Zeppelin e dos anarcas de Detroit aos grupos de psicadélicos, mas que sabe reconvertê-los numa perspectiva pessoal. “Fizemos coisas que nunca tínhamos feito, como gravar canções a partir de ‘loops’”. Essa perspectiva pessoal levou, inclusive, os MRM a tomar como ponto de partida para a gravação, as suas experiências pessoais, ilustradas na tal banda sonora interior que o subtítulo refere. “Não vivemos em nenhum filme estranho, em nenhuma realidade paralela. Vivemos aqui e aquilo que fazemos reflecte aquilo que somos. As canções falam da nossa vida e dos nossos pensamentos. Explorámos as catacumbas que temos cá dentro. E descemos tanto que acabámos por chegar aos elementos químicos, à essência das coisas”, explica Jorge Dias, para quem “as letras não se fecham sobre si, para que toda a gente se possa identificar um bocado com elas”. O álbum era para ter em todos os títulos das canções o nome de elementos químicos. Acabaram por ficar “Oxygen” e “Mercury”, na tabela onde se escreve, também, a essência do rock.
Temas como “A prayer for the year 2K”, “Megastore” ou “Answer Machine” alertam para uma realidade feita de aparências onde o próprio amor, “em última análise, é o produto de reacções químicas”. “UST”, outro dos temas de “Chemical Love Songs” significa “Unresolved Sexual Tension”, uma “figura de estilo utilizada no cinema onde duas ou mais personagens têm uma ligação de tensão sexual entre elas que nunca se resolve, como no ‘x-files’, onde o par protagonista passa o tempo a flirtar uma com a outra mas aquilo nunca se resolve…”.
“Chemical Love Songs” descreve, no fundo, diz Jorge Dias, “uma época em que as pessoas se ligam mais através de factores externos do que propriamente por motivos pessoais. Pelos estilos de música ou pelas drogas que consomem em conjunto”. No caso dos MRM a química entre os quatro elementos da banda – Jorge Dias, Paulo Coelho, Paulo Vitorino e Nuno Castedo – funcionou em pleno. Para os More não é a música electrónica ou de dança, que consideram uma “moda passageira” e um “universo hedonista”, que faz mexer as multidões mas o rock, a única música que “consegue encher estádios”. Sente-se isso, ao escutar uma faixa como “Celebrating the Sun”, uma corrente de energia que liga “um rock mais pesado, Às vezes quase metal, e o psicadelismo, a um lado mais atmosférico”. Os More República Masónica fazem, afinal de contas, a defesa da canção. “É a molécula fundamental do nosso trabalho”, reconhece Jorge Dias: “É esta tradição que queremos perpetuar à nossa maneira”.
Na caixa de “Chemical Love Songs”, sob o suporte do CD, pode ver-se o desenho de um labirinto. As volutas do cérebro? “Isso é que tem piada, cada pessoa lê o disco à sua maneira”, diz Jorge Dias, para quem “o labirinto tem a ver com o facto de o amor ser uma coisa tortuosa. Para se chegar a algum lugar, podia andar-se a direito, mas não, tem que se andar de um lado para o outro, para trás e para a frente, até se conseguir encontrar esse caminho”.