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Brigada Victor Jara – “Eito Fora”: Os Melhores de Sempre – Música Portuguesa (dossier | livro)

pop rock >> quarta-feira >> 24.01.1996

os melhores de sempre
música portuguesa
Esta selecção dos melhores álbuns de sempre da música produzida em Portugal até aos anos 90, resulta de uma votação feita pela equipa do suplemento Pop/Rock. São privilegiados os trabalhos concebidos sob a forma de álbum, mas também serão aceites compilações e mini-álbuns quando estes forem os melhores ou únicas edições dos respectivos autores. A ordem de publicação é aleatória


Brigada Victor Jara – Eito Fora



ALINHAMENTO
Lado 1
1 – Cantiga da ceifa (Beira-Alta)
2 – Coro das maçadeiras (Minho)
3 – Ao romper da bela aurora (Alto Alentejo)
4 – O senhor da serra é meu (Ribatejo)
5 – Cantiga do bombo (Beira-Baixa)
6 – Manolo mio (Trás-os-Montes)
Lado 2
1 – Pezinho da vila (Açores)
2 – Senhora do Almurtão (Beira-Baixa)
3 – O anel que tu me deste (Douro Litoral)
4 – Marião (Trás-os-Montes)
5 – Baile mandado (Algarve)
MÚSICOS
Zé Maria (cordas, percussão, gaita-de-foles, harmónica), Jorge Seabra (flautas, cordas, percussão), Fernando Amílcar (cordas), Né Ladeiras (cordas, percussão), João Ferreira (acordeão, percussão), Joaquim Caixeiro (percussão)
MÚSICO CONVIDADO
Carlos Alberto Moniz (violino, em “Pezinho da vila”)
GRAVAÇÃO
Estúdios Arnaldo Trindade
TÉCNICO DE SOM
Moreno Pinto
Na reedição em CD, “mastering” digital por Carlos Jorge Vales, nos Estúdios Tcha, Tcha, Tcha.
PRODUÇÃO
Editorial Caminho, SARL – “Mundo Novo”
CAPA
Jorge Simões e Samy
FOTOGRAFIAS
Luís Severo
Fotos adicionais para o CD: Roda Dentada
EDIÇÃO
Editorial Caminho, SARL – “Mundo Novo”, 1977
Mais seis reedições, em vinilo, até 1983.
Reedição em compacto, em 1995, pela Farol Música, com distribuição BMG
VENDAS
2000 exemplares, na primeira semana, da primeira edição

como foi

no começo era o amadorismo, ou pouco mais. Jorge Seabra, elemento da formação inicial da Brigada Victor Jara, onde permaneceu até ao terceiro álbum da banda, “Quem Sai aos Seus”, de 1981, regressando mais tarde para uma participação fugaz em “Contraluz”, conta os primeiros passos. “Por volta de 1975, época da nossa constituição, éramos um grupo sem formação fixa. Um grupo de amigos que se juntavam de vez em quando para tocar, entre outras coisas, música latino-americana, nomeadamente chilena. Participávamos em espectáculos que não eram propriamente o centro da festa, como campanhas de animação cultural do MFA ou de trabalho voluntário, todas essas coisas que havia em 75.”
A música tradicional surgiu mais tarde. “Em Outubro de 76 participámos, na Beira Baixa, em três ou quatro espectáculos no âmbito de umas campanhas de alfabetização. Alguns de nós tinham começado a ler coisas sobre música tradicional, muito influenciados pelos trabalhos de pessoas como o José Afonso ou, em Coimbra, de certos grupos, no âmbito da academia. Na Beira Baixa deparámos com um campo de actuação nessa área completamente infindável. Surgiu a ideia de recompor o grupo com uma formação nova e com pessoas mais ligadas à música, já com uma orientação voltada para a música tradicional.” A partir desse momento, o terreno estava preparado para a gravação do primeiro disco. “Seleccionámos à volta de uma dúzia de canções de origem popular que foram trabalhadas. Dois ou três meses depois estavam prontas para ser gravadas.” No ano seguinte, 1977, a Brigada actuou na FIL, espectáculo “na sequência do qual surgiu o contacto com a editora Mundo Novo, ligada à editorial Caminho”. A gravação demorou dois dias, melhor dizendo, “duas noites”, um “tempo recorde”. “Gravámos em pistas separadas num gravador de 16 pistas. Mas aquilo estava de tal maneira mastigado, já preparado, que chegávamos lá a egravávamos à primeira ou segunda tentativa, sem qualquer dificuldade. Éramos um grupo muito coeso. Bastaram duas sessões de seis, oito horas.” Tão pouco tempo de estúdio não constituiu, de modo algum, uma pressão. “Como era a primeira vez que gravávamos, não tínhamos possibilidade de comparar com outras situações.” Uma inocência que, hoje, à distância de 19 anos, Jorge Seabra reconhece ter existido.
“Vejo agora que, provavelmente, terá sido por falta de disponibilidade financeira da etiqueta. Gravámos em horas mortas, em que o estúdio não era utilizado por outras pessoas. Aproveitávamos os buracos.” Mesmo assim, não custou nada. Até porque, reconhece, “a qualidade técnica da música deixa algo a desejar”. “A grande contribuição de ‘Eito Fora’ não está nesse tipo de qualidade.” A descontracção era, portanto, absoluta. “Em qualquer altura, era como pôr a máquina a funcionar.”
Em estúdio, Jorge Seabra relembra, em especial, a gravação da “Cantiga da ceifa”, única ocasião em que os “sete elementos gravaram em conjunto em frente a um único microfone. Foi a última canção a ser gravada e saiu à primeira!” Dali, prossegue, “fomos logo para o Mercado da Ribeira, beber um copo de leite, tínhamos saído do estúdio às cinco da manhã”. A colecção de arranjos de temas tradicionais, do Minho ao Algarve, que compõem o alinhamento de “Eito Fora” obedece a uma estética e a um projecto de intenções desde o início. “Não concordo com a questão da fidelidade por várias razões. Quando pomos a tocar os originais, os discos do Giacometti, por exemplo, e, em paralelo, pomos depois as nossas próprias versões, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Não há razão nenhuma para que um grupo, ou uma pessoa, hoje [como ontem, dizemos nós], procure macaquear as canções originais. Quando muito pode falar-se em fidelidade em termos instrumentais.
“Nos primeiros discos, procurámos efectivamente utilizar, em grande parte dos casos, os instrumentos originais, seja na ‘Cantiga do bombo’, com as flautas, os bombos e as caixas que eles próprios usam em Lavacolhos ou em Silvares, seja noutras como “Pezinho da vila”, com as violas da terá, ou ‘Manolo mio’, com a gaita-de-foles e o bombo com que as pessoas tocam ainda hoje. Ou o ‘Romper da bela aurora’, com o chincalho, instrumento alentejano, e o ‘O senhor da serra’, com o abano, as castanholas e a garrafa com garfo, instrumentos ribatejanos.” Mas, lá está, “Marião”, imortalizado pela vocalização de Né Ladeiras, transformou-se numa “canção urbana”, com “violas e baixos como se poderiam usar hoje num grupo rock”.



Se “Eito Fora”, quando comparado com produções mais recentes do grupo, como “Contraluz”, “Monte Formoso” ou o último “Danças e Folias”, soa a uma ingenuidade e economia de meios que não rompe, de forma radical, com os meios artesanais dos temas de raiz, não é por aí que se deve procurar o que, nesse disco de estreia da banda coimbrã, contribuiu para o definitivo avanço da música portuguesa de raiz tradicional, na transição da década de setenta para a seguinte. “A contribuição grande da Brigada para a música popular foi, de facto, evitar que ela fosse excessivamente conotada com o fascismo e o regime que tinha acabado em Abril de 74. O que aconteceu, por exemplo, com o fado de Coimbra, e foi catastrófico. Teria acontecido o mesmo com a música tradicional portuguesa se não fosse a actividade da Brigada. “Para trás, perdida na contracapa de “Eito Fora”, fica o mote no qual as gerações seguintes deveriam atentar: “Eito fora é fadiga, canseira de seguir sempre seara fora, a eito, eito fora é certeza de quem ajuda, à espera de poder subir o degrau que falta.” À Brigada Victor Jara se deve muito do esforço que custou subir o primeiro degrau.

como é

Em 1977, em Portugal, a política ainda deixava pouco espaço à estética. No país da música tradicional, a Brigada Victor Jara, juntamente com o G.A.C., foi dos primeiro grupos a unir as duas, como deveria ser sempre. “Eito Fora”, subintitulado “Cantares Regionais”, esforça-se, mais do que por revolucionar um som, por revolucionar um conceito. Um conceito realista, mas que então só era possível concretizar dentro de uma perspectiva idealista. Numa situação viciada à partida – de desprezo e estrangulamento da música tradicional portuguesa, entregue às mãos (as menos culpadas) dos ranchos folclóricos, aliciados na sua inocência por um poder que apregoava as virtudes turísticas do “Portugalzinho” -, a Brigada Victor Jara foi capaz de juntar o ideal e a lucidez. A lucidez, porque reconheceu desde logo a inutilidade e a impossibilidade de imitar as fórmulas der uma música que já nessa época, nas próprias comunidades rurais, se aviltara e afastara da pureza dos espécimes recolhidos na década de 60 por Giacometti e Lopes Graça, entre outros. O ideal, porque, sem imitar, se esforçou, com humildade e sabedoria, por ver por dentro e desenvolver determinadas estruturas musicais próprias da música rural e, em particular, das várias regiões do nosso território. É sob esta dupla luz que se compreende as razões que levaram o grupo a referir-se, à data da gravação do disco, a uma dignificação da nossa música tradicional, subtraindo-a ao anátema da “música ligeira camuflada de música folclórica” e à “sobranceria vesga com que a ideologia dominante, ao longo de 50 anos, a presenteou”, para a devolver, se não intacta na forma, pelo menos imaculada no espírito. Já não como “crónica viva e expressiva da vida rústica do povo português”, mas sim, como crónica viva e expressiva de amor pela vida rústica, na diversidade das suas modalidades musicais, do povo português. Uma diferença que, em vez de separar, é um anel de aliança.