Arquivo da Categoria: Entrevistas 1998

Kodo, Depois Do Concerto, Apresentam O Álbum “Ibuki” – Entrevista –

24.07.1998
Kodo, Depois Do Concerto, Apresentam O Álbum “Ibuki”
Zen, Tambores E Monty Python
A espiritualidade é um termo inventado pelos ocidentais para explicar as coisas simples. Tão simples que a razão as desconhece. É esta a filosofia dos Kodo, que actuaram no passado fim-de-semana na Expo. Quem faltou, ainda tem à sua disposição o novo álbum do grupo, “Ibuki”, produzido por Bill Laswell.

LINK

Como já acontecera há cinco anos, no Mosteiro dos Jerónimo, a combinação do poder das percussões com os efeitos cénicos dos Kodo voltou a causar a admiração geral. O álbum é menos espectacular. Falta-lhe o teatro, o lado visual que é parte essencial de qualquer apresentação ao vivo dos Kodo. Takashi Akamine, um dos elementos do grupo, explicou ao PÚBLICO como bate o coração de um tambor taiko.

FM – A que é mais importante na música dos Kodo, a disciplina, a precisão, o som, o teatro, a atenção?…

TAKASHI AKAMINE – É iso tudo junto. A nossa “perfomance” é muito visual, um aspecto tão importante como a música.

FM – A disciplina é dos factores mais impressionates nas vossas aprsentações. Como é que a treinam?

TAKASHI AKAMINE – Uma das vantagens de viver em comunidade é poder estabelecer uma intimidade. Como ser casado, conhecer em profundidade a mulher e os filhos com quem se vive.

FM – É difícil não especular sobre o que se passará nas vossas cabeças, sempre com o som dos tambores a ressoar lá dentro.

TAKASHI AKAMINE – Alguém fez uma vez a mesma pergunta a um dos músicos e ele respondeu que queria transformar-se no som do tambor. Quando se toca um instrumento como este tem que se lhe dar tudo, 100 ou 200 por cento de nós próprios. É uma luta connosco próprios. Não é possível representar, no sentido de fingir. De certa forma é essa a beleza da nossa música. Não representamos, oferecemo-nos à música.

FM – O modo como interpretam certas peças sugere uma relação com as artes marciais. Existe, de facto, essa ligação?

TAKASHI AKAMINE – É semelhante, mas nenhum de nós pratica artes marciais. Há uma quantidade de informação relativa ao que sepassa em palco nos nossos espectáculos mas nenhuma das interpretações esgota aquilo que na realidade somos. Há, é verdade, algo de espiritual na nossa música. Mas isso acontece com qualquer músico que acredite verdadeiramente naquilo que faz. Mas as pessoas colam-nos essa espiritualidade porque vimos do Oriente longínquo, com trajes e luzes diferentes. As pessoas acham tudo isto misterioso…

FM – E o zen?

TAKASHI AKAMINE – Isso é mais difícil de responder. Nenhum de nós pratica zen mas à medida que crescemos há determinadas influências que nos atravessam quase sem nos darmos conta. É como o Cristianismo que, consciente ou inconscientemente, está presente nos ocidentais. Mas é verdade que alguns dos músicos fazem meditação antes de entrar em palco, mas talvez de uma maneira diferente do zen. É mais uma abordagem mental.

FM – Como se processa a ligação entre a vossa música e a música tradicional japonesa?

TAKASHI AKAMINE – Há uma combinação de ambas. Os instrumentos são antigos, feitos por construtores tradicionais mas a maneira como nos expresamos é contemporânea. Em “Ibuki” existem temas tradicionais e composições originais. Mesmo alguns dos trajes tradicionais que usamos em cena foram uma ideia do estilista francês Pierre Cardin…

FM – Que significado tem o tambor taiko na cultura japonesa?

TAKASHI AKAMINE – O tambor taiko sempre esteve associado a aspectos rituais e religiosos ou ao teatro nô. Os mais pequenos costuma ser tocados em festas nas aldeias. Para nós é apenas um instrumento musical que adaptamos ao nosso próprio estilo.

FM – Um dos momentos mais espectaculares do vosso concerto é o longo “combate” solitário travado por um dos músicos que percute até exaustão o tambor maior. Há nesta peça algum significado especial?

TAKASHI AKAMINE – Significado… Não é importante perceber o significado. Porque não apenas sentir? E divertirmo-nos? Que sentido faz analisar?

FM – Eis uma perfeita asserção zen…

TAKASHI AKAMINE – Provavelmente, sim. Não renego que faça parte do meu passado. As pessoas querem sempre consultar o programa antes dos concertos, para saber o que se irá passar. No Japão não se distribuem programas. Se alguém quiser saber alguma coisa, só depois dos concertos. Preferimos que as pessoas façam a sua própria interpretação. Que achem a nossa música triste ou alegre. Que criem a sua própria história, a sua própria imagem no cérebro. Alguém definiu um dos nossos temas como gotas de chuva. Maravilhoso!

FM – Há alguma abordagem colectiva na forma como os Kodo encaram o ritmo?

TAKASHI AKAMINE – Há músicos com antecedentes diferentes dentro do grupo. Vê do jazz, do rock, da música clássica. Cada um traz o seu próprio “aroma” para a música. Alguns introduzem um lado jazzístico nas percussões japonesas. Digamos que o compositor específico de cada peça assume um papel determinante. Mas todos os outros ajudam contribuind com as suas ideias.

FM – Quem teve a ideia de entregar a produção de “Ibuki” a Bill Laswell?

TAKASHI AKAMINE – Fomos nós. Pedimos à editora se podíamos trazer um produtor de fora. ele ouviu a nossa música e achou que o disco devia reforçar o lado mais grave e profundo dos tambores…

FM – É o disco mais variado dos Kodo…

TAKASHI AKAMINE – Sim, tem música africana, peças que soam a jazz… É o lado excitante de gravar CDs, poder fazer coisas que são impossíveis de pôr em prática nos espectáculos ao vivo.

FM – Existe uma essência na música dos Kodo?

TAKASHI AKAMINE – Há alguns anos Michael Palin, um dos actores dos Monty Phyton, de quem sou grande admirador [N.R.: Nesta altura da entrevista ficámos definitivamente rendidos à imensa sabedoria dos Kodo] assistiu a um dos nosos espectáculos e insistiu que o deixássemos tocar um dos tambores. Acedemos, mas para nossa surpresa, bateu muito suavemente, quase sem fazer som. Perguntámos-lhe por que razão não batia com mais força. Respondeu-nos que qualquer inglês que se preze, em qualquer circunstância, não deve, não pode fazer barulho. Nós somos o contrário. Temos orgulho em fazer o maior barulho possível. Transgredir as regras socialmente aceites, aquilo que se deve ou não fazer. Fazemos todo o barulho que queremos. Penso que esta é uma das razões por que as pessoas se sentem mais livres ao ouvir a nossa música.

Novo Disco De José Peixoto: Deitar Cedo E Cedo Erguer Para Ganhar O Dia – Entrevista –

17.07.1998
Novo Disco De José Peixoto
Deitar Cedo E Cedo Erguer Para Ganhar O Dia
“A Vida de Um Dia”, título do novo álbum a solo de José Peixoto, pode ser a eternidade. O guitarrista dos Madredeus encontrou o tempo certo no diálogo da sua guitarra clássica com o silêncio de uma igreja. Em cima e para dentro. “Para o infinito que pode ser o tempo.”

LINK (“Aceno”)

Depois de “A Voz dos Passos”, editado o ano passado, “A Vida de Um Dia” é o segundo capítulo de um encontro da guitarra clássica, acústica, com um espaço de interioridade que só o recolhimento de uma igreja permite. Com José Fortes na mesa de gravação, José Peixoto aprofundou na Igreja de Cartuxa as vias desse encontro, que, antes, adquiriu sobretudo os contornos de uma experiência, como o guitarrista explicou ao PÚBLICO.

FM – Em termos formais, este disco não difere muito de “A Voz dos Passos”, pois não?

JOSÉ PEIXOTO – Este disco acaba por ser uma espécie de prolongamento do outro. O outro surgiu como uma experiência que eu nunca tinha feito, de compor para guitarra solo, enquanto este já parte de uma certeza, de um terreno que eu conheço.

FM – Ficou, então, alguma coisa por dizer, no álbum anterior?

JOSÉ PEIXOTO – O que ficou por dizer é que tinha, já nessa altura, mais música do que aquela que está no CD.

FM – Aproveitou alguma coisa dessa música para este novo disco?

JOSÉ PEIXOTO – Aproveitei alguma, coisas antigas que reformulei. Mas a ideia foi ir um pouco mais longe, aprofundar algumas das ideias.

FM – Aprofundar, como?

JOSÉ PEIXOTO – Ao nível da liberdade de composição. É um terreno um bocado subjectivo… Aprofundar no sentido de deixar de ser uma experiência, do tipo “deixa lá ver como é que funciono a compor para um instrumento solo” e já não haver dúvidas a esse respeito. Partir já com ideias mais sólidas.

FM – Fazer de seguida dois álbuns só de guitarra acústica não será, à partida, um projecto algo arriscado, e não só em termos comerciais?

JOSÉ PEIXOTO – A guitarra é o meu veículo de expressão. O instrumento que estudei e que tem sido o meu amigo nestes anos todos. Comercialmente falando, é um facto que é um luxo eu poder fazer esta música, sem ter preocupações de vendas.

FM – Esta sua carreira a solo, com gravações em igrejas, é um escpae à máquina dos Madredeus?

JOSÉ PEIXOTO – É um projecto paralelo que já vinha de trás e que tenho necessidade de alimentar.

FM – Por que razão voltou a escolher uma igreja, a da Cartuxa, em Caxias, como local de gravação?

JOSÉ PEIXOTO – Foi uma igreja como podia ser um outro espaço acústico. Houve a preocupação de encontrar um espaço favorável à emissão de som. A música não é mais do que ar em movimento. A vantagem de ter uma atmosfera activa, como a de uma igreja, é não ser necessário usar qualquer artificialismo. A primeira sensação que tive, das duas vezes em que entrei nesta igreja, foi o próprio som dos meus passos. É logo uma sensação de prazer que surge de forma automática. O prazer físico do som.

FM – Um prazer que tem necessariamente de ser solitário?
JOSÉ PEIXOTO – … Com o José Fortes, que foi uma parte essencial neste processo todo. Mas é, de facto, uma intimidade absoluta, um prazer solitário. Mas a minha natureza dá-se bem com esta situações. Estou, como se costuma dizer, a jogar em casa.

FM – Há alguma razão especial para a escolha do título?

JOSÉ PEIXOTO – “A Vida de Um Dia” pode ser um despertar de várias maneiras. É um espaço aberto para o interior. Para o infinito que pode ser o tempo. A medida do tempo é uma coisa muito relativa. A vida de um dia pode ser um todo. Onde cabe tudo.

FM – Sente-se nesse tempo a presença, muito subtil, quase subliminar, do flamenco.

JOSÉ PEIXOTO – Eu ouço muito flamenco. É uma expressão incrível e um tipo d emúsica onde a guitarra cumpre plenamente. Mas não se pode dizer que tenha uma sensibilidade de flamenco. Identifico-me apenas como ouvinte. Gosto de Paco de Lucia, Tomatito, Vicente Amigo…

FM – A sua música é uma música triste?

JOSÉ PEIXOTO – É melancólica. Solitária. Estes discos são uma espécie de auto-retratos. Acabam por ser um espelho do que eu sou.

FM – Como é que cocilia o ritmo de trabalho dos Madredeus com essa sua costela de solitário?

JOSÉ PEIXOTO – Defendo-me com a disciplina. Durante as viagens, por exemplo, para poder preservar o meu tempo e o meu espaço. Outro exemplo: a seguir aos concertos não vou jantar. Não gosto de comer nem de me deitar muito tarde. Acabo por fazer uma vida mais saudável, que me permite ter mais tempo para estudar ou para trabalhar.

FM – A guitarra eléctrica não faz parte do seu vocabulário. Poquê?

JOSÉ PEIXOTO – Quando era mais novo tocava guitarra eléctrica. Mas a partir do momento em que comecei a estudar guitarra clássica abriu-se-me um mundo à frente que não sei se uma vida inteira chegará para o desbravar. É uma paixão. Mas também já toquei alaúde árabe…

FM – … Sob o pseudónimo de “El Fad”. Esse outro mundo, o da música árabe, ficou para trás?

JOSÉ PEIXOTO – Ficou para trás porque representava apenas uma determinada fase. Entretanto, vamos amadurecendo e a idade leva-nos para outros lados. Mas continuo a ouvir música da Tunísia e do Egipto, e músicos como o alaúdista Anouar Braheim.

FM – Podia perfeitamente editar os seus discos numa editora como a ECM. Gostava?

JOSÉ PEIXOTO – Acho que sim. Aliás, tenho feito contactos com ela sempre que gravo. Mas como não tem havido nenhum “feedback”… É preciso dar tempo ao tempo. E era preciso eu ter esse tempo para me dedicar a esse tipo de contactos. Embora isso, se calhar, seja mais simples do que se imagina. A oportunidade pode surgir de repente. A ECM não é uma editora inacessível.

FM – Existe alguma estrutura especial na forma de “A Vida de Um Dia”?

JOSÉ PEIXOTO – É como se desenhasse uma circunferência.

FM – Já se ouviu neste disco?

JOSÉ PEIXOTO – Já. Fiquei surpreendido porque achei que estava bastante melhor do que quando o acabei de fazer. Tenho a sensação de estar agradecido a mim mesmo por tê-lo feito. Agradecido porque se não fosse eu a fazer esta música, ninguém amais a fazia.

Kreidler Passeiam Pelo Lado Mais Afastado Do Parque – Entrevista –

03.07.1998
Kreidler Passeiam Pelo Lado Mais Afastado Do Parque
A Saudade Que Veio Do Frio
Frios mas sensíveis à saudade, os Kreidler voltam a povoar, com “Appearance and the Park”, os sonhos do pós-rock com uma actividade febril. Ou fabril. sonham em japonês, com as máquinas dos Kraftwerk e os mistérios de Düsseldorf. Como um “haiku” a sua música vai directa ao essencial. Manipulando “a um nível abstracto” as emoções de quem a ouve.

LINK

Quando da saída de “Weekend”, álbum de estreia dos germânicos Kreidler, falámos com Stefan Schneider, também membro dos To Rococo Rot. Desta feita a conversa foi com o teclista e sintetista Andreas Reihse, um admirador de Kurt Dalhke (Pyrolator), Kraftwerk e das bandas que fazem história em Düsseldorf. Mas durante as gravações de “Appearance and the Park” os Kreidler seguiram o “método Can”.

FM – “Appearance and the Park” é um título estranho. O parque é o mesmo que aparece na capa do álbum anterior, “Weekend”?

ANDREAS REIHSE – Sim, “The Park” faz o elo de ligação com “Weekend”. “Appearance” assinala o novo e o inesperado, também a distância relativa ao álbum anterior e algo mais de que não tovemos consciência no momento da gravação. O “e” liga o antigo ao novo, jogando com a ausência de lógica. O título procura também captar um certo mistério que paira no ar, como os “Ficheiros Secretos”.

FM – A melodia de “Tuesday” é puro Pyrolator (do ambiente de feira de “Wunderland” não dos experimentalismos de “Inland”). E nas notas de capa agradece ao próprio Pyrolator, ou eja, Kurt Dalhke, cada vez mais citado pela snovas bandas alemãs de música electrónica, dos FX Randomiz aos Schlammpeitziger. Será que ele é o elo, nos anos 80, que faltava entre o “krautrock” dos anos 70 e as actuais vagas do pós-rock e da “Electronica”?

ANDREAS REIHSE – Houve quem se lembrasse de “Could it be I’m Falling in Love”, dos Spinners… Infelizmente “Wunderland” é o único álbum dos Pyrolator que nunca ouvi. De qualquer forma gosto do modo como ele usa melodias “naive” e um “kitsch” que é muito apelativo, como fazem os Kraftwerk. Mas há mais música importante de Dçsseldorf, dos anos 80, como os primeiros Die Krupps e os Der Plan. E Holger Hiller Dorau gravou também nesta cidade. Sob a designação Deux Baleines Blanches nós próprios gravámos várias vezes nos estúdios Ata Tak. No ano passado gravámos o 12” “Fechterin”, que foi produzido por Kurt. Foi também Kurt que nos enviou um gravador DAT durante as gravações de “Appearance”, depois de três dos gravadores do estúdio em St. Martin terem rebentado!…
A editora Atatak é, de facto, um elo que liga um determinado tipo de “krautrock” ao som de Düsseldorf personificado pelos Kraftwerk e pelos Neu! mas também através de Michael Rother, Cluster e Harmonia, bem como dos grupos de “electronica” actuais. Também é possível perceber reminiscências de Pyrolator na cena tecno de Colónia, de bandas como os Modernist, bionaut, Ike Ink ou Sweet Reinhard.

FM – Kurt remisturou uma faixa dos Kreidler, em “Resport”. Ficou satisfeito com o resultado total desse projecto?

ANDREAS REIHSE – A princípio não. Porque me sinto mais ligado à música de dança, ao tecno ou à “house”. Teria ficado mais feliz com uma mistura desse tipo. Mas não fui eu que escolhi os autores das remisturas, à excepção de Kurt. Claro que é a minha remistura preferida. Mas acabei por reconhecer qu eo som está bastante consistente. Talvez não resultasse numa linha mais ortodoxa de música de dança.

FM – O som é mais importante do que a estrutura na música dos Kreidler?

ANDREAS REIHSE – Detlef Weinrich e eu somos os que estamos mais conscientes do som enquanto matéria-prima. Não gostamos muito de samples porque são barulhentos, sujos e demasiado cheios de informação e de História. É muito mais fácil criar um determinado ambiente manipulando o auditor a um nível mais abstracto, jogando com memórias sonoras que se conservam no cérebro. Por isso preferimos sons puros e frios. De maneira a manter uma distância que permita uma possibilidade de acesso ao suditor completamente diferente. Não como um diário, não de uma forma egocêntrica, mas como senso-comum, pop, um modelo.

Método Can

FM – E “She Woke up and the world had changed” parece que os Cluster encontraram os New Order. É um dos aspectos mais interessantes da vossa música, a forma como combinam elementos e influências diferentes num todo que soa completamente original. Compõem em cas? No estúdio? De que modo manipulam os sons e as ideias?

ANDREAS REIHSE – “Au-pair” e “Coldness”, por exemplo, foram trabalhadas em casa no meu Apple. Outras canções foram tocadas primeiro em concertos, durante um ano, numa espécie de remistura de teste, ao vivo, às reacções do público. Antes desaa fase cada um de nós leva para a sala de ensaios um “loop”, uma melodia, alguns acordes, um ritmo, uma ideia para uma linha de baixo. Depois juntamos as partes mas nunca sob a forma de improvisação. Numa última fase separamos as melhores, segundo aquilo a que chamo o “método Can”. Fazemos variações sempre tendo em mente que o resultado final deverá rondar os 4 minutos de duração.

FM – A programação rítmica de “Necessity Now” é muito semelhante à de “Trans Europe Express”, dos Kraftwerk. E há sons sintéticos que lembram a fase inicial do grupo de Ralf e Florian. Quando os Mouse on Mars elogiam o álbum “Organisation”, assiste-se a uma revalorização desta fase inicial dos Kraftwerk, em detrimento da fase posterior, iniciada em “Trans Europe Express” que todos elegiam antes como percursora do electro-funk…

ANDREAS REIHSE – O meu álbum favorito dos Kraftwerk é “Menschmaschine” (“The Man Machine”) porque dá uma ideia bastante clara do que haveria de acontecer nos anos 80. É frio e cheio de desespero e entropia. Por vezes sinto-me deprimido quando o ouço. Não penso que os Kraftwerk sejam muito “funky”. São muito rigorosos e rígidos, tipicamente alemães, quando os comparamos com Sly & The Family Stone ou Parliament. aprecio a sua evolução, desde o iníco até “Electric Cafe”. De certa forma, cada novo álbum é uma actualização do anterior. Não sei se o material mais antigo está agora mais em voga. Há quatro anos atrás, Triple-R., um dj, incluiu no seu “set” de tecno um tema de “Ralf & Florian”.
A propósito, Thomas e eu tocámos recentemente com Klaus Dinger, (Neu!, La Düsseldorf, primeiros Kraftwerk) no Japão, bem como em vários álbuns dos La!Neu?

FM – Concorda que “Appearance and the Park” é bastante mais melódico do que o seu antecessor? Por vezes soa quase aos OMD. Um passo na direcção de uma nova vaga de electropop, talvez?

ANDREAS REIHSE – Bem, preferia que tivesse pensado nos The Normal, nos Human League ou nos New Order… Ou num grupo funk de Nova-Iorque, como os Liquid Liquid. De qualquer forma estamos nos anos 90 e não é nosso propósito sermos uma banda retro.

Haiku de Banana

FM – Quem é Banana (!?) Yoshimoto cuja poesia é referida no álbum?

ANDREAS REIHSE – É uma jovem escritora japonesa com um estilo muito fácil de leitura (ok, só conhecço as traduções…) mas que é capaz de traduzir sentimentos muito profundos com um mínimo de palavras, um pouco como os haikus. Da mesma forma nos Kreidler procuramos usar sons e melodias o mais puro e simples possíveis para exprimir sentimentos como a saudade e proporcionar algum conforto, aceitando as coisas de uma forma activa e não passiva, tentando transformar as más em algo positivo para o auditor. algo que também se encontra em “Crash”, de David Cronenberg.

FM – Detlef Weinrich também fala dessa “forma de aceitação das coisas”. Há aí alguma conotação com o zen?

ANDREAS REIHSE – É sem dúvida algo japonês, mas não somos nenhuns budistas!

FM – Curiosamente parece existir uma ligação entre os músicos electrónicos alemães e o Japão. Estou a lembrar-me de Holger Hiller, que tem um álbum inteiro, “Little Present”, feito a partir de sons gravados em Tóquio. Além de que vocês agradecem a uma quantidade enorme de japoneses neste disco…

ANDREAS REIHSE – Conhece “Little Present”! Brilhante! Adoro esse disco. Quando estive com Klaus Dinger em Tóquio recebi-o como presente. Fiquei muito impressionado com a cidade, com os seus sons, as cores, as pessoas, tudo. Não me lembro de alguma vez me ter sentido tão bem (soa um bocado patético, na?). A cidade tem uma vibração ultra positiva (ainda mais patético!…) que não se encontra em nenhum lugar da Europa. Fiquei com uma quantidade de amigos em Tóquio. Mas é uma cidade que transmite igualmente imagens de um desespero muito belo e puro.

FM – E a Itália? O disco tem canções chamdas “Il Sogno di una Cosa” e “Venetian blind”…

ANDREAS REIHSE – “Il Sogno…” é uma frase original de Karl Marx. Pier Paolo Pasolini usou-a como título para um dos seus livros. Por outro aldo sinto que existe uma ligação qualquer entre o Japão e a Itália que não consigo explicar.

FM – Insistem em conotar os Kreidler com o conceito de “frieza”. Os novos homens-máquina?

ANDREAS REIHSE – Homens-máquina, nunca! Talvez só por brincadeira é que joguemos com esse género de atitude. Sentimos mais atracção pelo escuro e pelo frio, mas também tem que existir um antagonismo. E, evidentemente, sempre uma espécie der saudade.