Arquivo da Categoria: Críticas 2004

Vários – “Songs in the Key of Z. vol. 2”

09.01.2004

Vários
Songs in the Key of Z. vol. 2
Gammon, distri. Ananana
10/10

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Génios Da Twilight Zone

“Songs in the Key of Z., Vol. 2”, compilado e produzido pelo mesmo Irwin Cushid que revelou ao mundo “Innocence and Despair”, do Langley Schools Music Project, é o equivalente musical de uma colecção de filmes de série Z. Falamos, é claro, de loucos, lunáticos e habitantes de outros planetas (“Plan 9 from outer space”?) que num ou outro momento iluminado das suas vidas (neste disco, regra geral nos anos 80 e 90) resolveram gravar música.
“The Curious Universe of Outsider Music”, pois é este o subtítulo, reúne delírios inclassificáveis (tanto quanto as respectivas biografias e fotos dos artistas) que apenas uma mente igualmente desfasada da normalidade conseguirá arrumar e descrever com algum método. Arrumemo-los então.
Shooby Taylor começa por fazer um “scat” inerrável, estilo “Hans Eisler em looney tune”, sobre fundo de órgão Farfisa. Já Bingo Gazingo & My Robot Friend opta em “You’re out of the computer” por oferecer uma extraordinária mistela de uma melodia pop arrancada ao cérebro de R. Stevie Moore com demência Pere Ubu e sinais de ZX Spectrum. Segue-se B. J. Snowdown numa não menos inolvidável recriação de “America”, digna de figurar num “sketch” de “Mad TV” como o de Will Sasso e Alex Bornstein no dueto de “Love of my Life”… “You’re driving me mad”, de Alvin Dahn (já não faz música, mas tocava 50 instrumentos e estava “determinado a deixar uma marca indelével na indústria da música”, o que, a julgar pela amostra, manifestamente conseguiu). Guitarras eléctricas, “heavy metal” e, de novo, mestre R. Stevie Moore, num tema poprock que faz o termo “alternativo” soar a “mainstream”. A congressista liberiana Malinda Jackson Parker mima Nina Simone por cima de um piano que ameaça rebentar, num manifesto contra a peste, escolhendo para título “Cousin mosquito #2” (sim, existe uma primeira picadela incluída num “Songs in the Key of Z”, Vol. 1” editado pela Cherry Red em 2000). A pop espacial – os Air (ou antes deles os Hot Butter) encontram os White Noise na Era de Aquário – chega ao planeta Terra via The Space Lady, numa versão cósmica de “I had too much to dream (last night)”, dos Electric Prunes. Luie Luie, “master musician”, apresenta (com introdução filosófica prévia) um instrumental executado em 14 trompetes, chamado “Touch of Light”, extraído do álbum “Creator of Touchy” – imersão numa galáxia de vibrato estelar em ressaca de LSD. Há ainda o “dance hall jazz” de Eddie Murray, a “canção-poema”, com letra de Pablo Feliciano, “Five feet nine and a half inches tall”, de Dick Kent, ideal para animação de casamentos, e a “Hawaii country” com falta de voz de Gary Mullin, em “Recitation about Ray Acuff”.
Wayne Pereira canta, de forma tocante, uma melodia de bêbedo vagabundo semelhante à que Gavin Bryars usou em “Jesus blod never failed ne yet” e Bob Vido, “the one-man band”, gravou em 1975, “High-speed” – proeza circense em que não sabemos o que mais admirar, se a falta de proficiência com que Vido manuseia as cornetas, concertinas e tambores, se a vocalização (?), onde são perceptíveis os mínimos resquícios de sensibilidade ou aptidão musicais. Thoth, pelo contrário, apesar de se vestir como um troglodita, é um “virtuose” do violino que em “The herma, scene 5: Recitation/Na” canta como… um theremin… ou uma variante histérica de Meredith Monk… num “puirt-a-beul” de esquizofrénico. “Avant-garde”, pois claro.
E Tangela Tricoli, bebé a tentar cantar afinada? E Buddt Max (13 álbuns gravados por este entusiasta da polca)? E Mark Kennis, numa gravação caseira, onde canta e berra “a capella” a história da sua vida, repetindo incessantemente “I grew up in Iowa, in the heart of the heartland”?
Todos os intervenientes nestas “canções de série Z” são estrelas que o mundo não conhece e, muito menos, compreende. Super homens e mulheres afectados pela Kryptonite. Artistas para quem a música é um conceito radicalmente pessoal e relativo. Ou, como disse Charles Ives: “Don’t pay attention to the sounds. If you do, you may miss the music. You won’t get a heroic ride to Heaven on pretty little sounds.” E na contracapa: “Se tudo o que conseguir ouvir são imperfeições é porque você está a ouvir mal”. Nota máxima, como divertimento… diferente.

Trapist – “Ballroom” (conj.)

29.10.2004

Radian
Juxtaposition

Trapist
Ballroom

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Thrill Jockey, distri. Ananana

7/10

Trata-se da música das máquinas. Começou com a cena industrial dos 80’s, apadrinhada pelos krautrockers Cluster, Conrad Schnitzler ou Seesselberg, mais de uma década antes. E os Kraftwerk, claro, mas esses optaram por colocar uma alma de surfista nos circuitos. Com o pós-rock, alguma daquela desumanidade regressou e os austríacos Radian, com o patrocínio dos This Heat, podem ser considerados descendentes do industrialismo na sua faceta mais esquálida. “Juxtaposition” retoma os “grooves” descarnados, as drones ferrugentas e as pulsações secas desenhadas a papel milimétrico sobre paisagens desoladas. O prazer do som sustentado por um “pacemaker” que alimenta um corpo de metal. Na mesma editora, os Trapist são trabalhadores da mesma fábrica. Usam tinta envenenada e brocas de laser nas suas esculturas de electricidade e contraplacado. O longo tema de abertura poderia ser um “test signal” dos This Heat, até as guitarras trazerem vida aos materiais inanimados. Mas a palpabilidade dada aos timbres é manifesto, aspecto em que “Ballroom” é pródigo, na abundância de texturas suculentas dos sintetizadores analógicos. Radian e Trapist escavam um nicho entre a electro-acústica e a electrónica.

Brian Eno – ” Taking Tiger Mountain (By Strategy)” (self conj.)

18.06.2004

Brian Eno

Here Comes The Warm Jets
8/10

Taking Tiger Mountain (By Strategy)
10/10

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Another Green World
10/10

Before And After Science
10/10
Virgin, distri. EMI-VC

Brian Eno – Abrir a Boca de Espanto

Brian Peter George St. Baptiste de La Salle Eno. Brian Eno para os amigos. Derrubou, remodelou e fugiu a sete pés da pop, criando com a sua “música discreta” as fundações de um edifício novo, com a etiqueta de “ambiental”, para a electrónica dos nossos dias.
Mas no princípio era o artifício e a experimentação com as cores e formas da pop, lidas, relidas e regurgitadas como algo desfasado das normas ou, para usar o léxico do próprio, desenhadas de acordo com as “estratégias oblíquas2. Eno acabara de abandonar os Roxy Music, onde a força da sua imagem fazia espumar de ciúmes o “dandy” Bryan Ferry. Plumas e lantejoulas e um sintetizador de trazer por casa transitaram para “Here Come the Warm Jets”, álbum de fazer torcer o pescoço no esforço de encontrar referências apaziguadoras. Não havia. Aqui a pop desta Ruth Marlene aristocrata de cabelo ralo e pintura borrada era convulsão, as melodias pareciam existir desde sempre para se acoitarem em arranjos de um “não músico” que integrava o erro e o acaso no seu modo de agir. Alguns temas são demolidores. Directos, lancinantes e, apesar disso, correndo ao pé-coxinho, como “Blank Frank” e o hino que arde, “Baby’s on Fire”. As guitarras de Robert Fripp e Phil Manzanera serviam de rastilho. Pelo meio, experimentação e falsas baladas, orgulhosamente pimba como “Some of them are old”. Bowie aprendeu a lição.
“Taking Tiger Montain (by Strategy”” é a primeira obra-prima. Inspirado nas “estratégias oblíquas” e na pintura de Peter Schmidt, refina a pop do disco de estreia. Impossível classificar estas canções que soam familiares e alienígenas, simples e incrivelmente complexas. Eno, o não-músico, descobria em cada nota, em cada reviravolta nas manipulações de estúdio, o prazer da criança que brinca com o desconhecido. “The true wheel” utiliza uma máquina de escrever para fazer o ritmo e a hipnose final, “Taking tiger mountain”, é uma lenta ascensão em espiral, “trompe l’oeil” auditivo cujos círculos sugerem um movimento que é pura ilusão.
Com “Here Come the Warm Jets” (uma das bíblias do pós-rock) Eno inicia o seu processo de afastamento da pop para se aproximar de uma música feita de fragmentos. A voz apaga-se para deixar brilhar a electrónica e os efeitos especiais, as melodias ocultam-se e revelam-se em jogos de cabra-cega mas tudo se ilumina numa saudade de ouro em “Golden Hours”, pura evocação não se sabe bem de que passado glorioso. Fripp, Phil Collins e John Cale são alguns dos participantes deste álbum feito de coincidências e confidências sussurradas demasiadamente baixo para lhe furtarmos um sentido único.
“Before and After Science” deve ser arrumado na estante dos discos fundamentais dos anos 70. É o retorno às canções construídas como colagens, mas agora envoltas na névoa minimalista resultante do contacto entre Eno e a dupla germânica Cluster, num tema como “By this river”, influência decisiva nos dois sentidos, já que também Moebius e Roedelius se deixaram enredar nas malhas do inglês nos seus “Cluster & Eno” e “After the Heat”. “Before and After the Science” anuncia ainda a new wave, no esplendor da sua energia concentracionária. “King´s lead hat” é uma homenagem com título em anagrama, aos Talking Heads e “No one receiving” e “Kurt’s rejoinder” fazem boa companhia ao lado da trilogia de Bowie de Berlim, para quem este disco viria a constituir leitura obrigatória.
Eno inventou a sua própria ciência e passaria os anos seguintes a teorizar sobre ela. Viria a seguir a fase dos murmúrios, das metamorfoses do céu sobre Manhattan e da música sonhada num leito de hospital com a qual reinventaria, como John Cage, o silêncio. Antes, porém, vale a pena agarrar estes quatro álbuns que fazem a pop abrir a boca de espanto.