Arquivo da Categoria: Críticas 2004

Flat Earth Society – Isms

17.12.2004
Flat Earth Society
Isms
Ipecac, distri. Sabotage
9/10

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Mike Patton tinha que abocanhar os FES para a sua editora. “Isms” tem clamor e fragor, fogo e mudanças repentinas de registo, como o Sr. Bungle gosta. Os FES são uma “big band” belga liderada pelo clarinetista Peter Vermeersch e “Isms” uma antologia de composições de álbuns anteriores como “Minoes”, banda sonora de um filme para crianças, e “The Armstrong Mutations”, recriação de temas de Louis Armstrong. A música reflecte uma quantidade de “nuances” que vão de apontamentos suspensos nas lâminas de um vibrafone, a explosões onde os 20 elementos da banda se digladiam para estilhaçar as fronteiras do rock e do jazz. As “merrie melodies” de Carl Stalling colidem com o filme negro de Barry Adamson, o “free” cósmico de Sun Ra aplaca-se nos rendilhados de Daniel Schell. Depois de batalhas onde os solos de saxofone arrasam eis que um coro vocal se eleva ou uma caixinha de música levanta a tampa e solta os seus espíritos. Num momento é a loucura de um Captain Beefheart sob o efeito de anfetaminas, no outro a Hollywood infernal de Foetus, música chinesa clonada em pechisbeque industrial, batuque e ruído, desenfreada gritaria, Bartok e Stravinsky amassados. Mike Patton descobriu um dos discos do ano.

Stephan Micus – Life

17.12.2004
Stephan Micus
Life
ECM, distri. Dargil
8/10

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Stephan Micus continua a aumentar a sua colecção de instrumentos do mundo e a utilizá-los para criar um dos compêndios mais completos de “World Music” imaginária. Em “Life” os novos artefactos são a “bagana”, lira da Etiópia, o “maung”, 40 gongos afinados de Burma, o “dondon”, tambor do Ghana e o “Kyeezee”, sinos de Burma usados em cerimónias budistas. Mais “tin whistle”, “sho”, saltério, “dilruba”, “nay” e vozes, todos gravados em pistas múltiplas. “Life” é uma meditação aprofundada, 30 anos depois, do enigma proposto em “Koan”, álbum antigo de Micus. O monge discípulo volta ao mestre convencido que descobriu a essência da vida. “Quando não há nuvens sobre a montanha, a luz do luar atravessa as ondulações do lago”. O mestre, irritado com a resposta, acusa o monge de não ter aprendido nada. O monge, lavado em lágrimas, implora: “Mestre, diga-me então qual é a essência da vida”. Responde o mestre: “Quando não há nuvens sobre a montanha, a luz do luar atravessa as ondulações do lago”. Na música de Micus não há paradoxos mas penetra-a o espírito zen. Cânticos de elevação, orações de flauta, estremecimentos do ar e batimentos de peles e minerais. Uma música que toca e modela as emoções mais profundas e que, álbum após álbum, vem alargando a geografia interior deste alemão apaixonado pelas culturas ancestrais do globo.

Danko Jones – The Magical World Of Rock

17.12.2004
Danko Jones
The Magical World Of Rock
Bad Taste, distri. Musicactiva
8/10

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Como este homem fala. “The Magical World of Rock” contém 70 minutos de “spoken word” do canadiano Danko Jones, guitarrista e vocalista de “hardblues”. Ele abre logo o jogo: “Fiquei viciado em estar no palco.” E como em Agosto deste ano tinha uma semana sem tocar com a sua banda, marcou sete actuações em clubes da Noruega e Suécia. Não é “stand up comedy”, não é um comício, não é um sermão – é uma mistura de tudo isto. Tecnicamente, não se pode apontar nada a Danko: voz forte e bem colocada, controlo dos tempos, equilíbrio nas entoações, facilidade de encadeamento de temas. Falando das (muitas) coisas que o fascinam, consegue manter controladas audiências culturalmente longínquas. Temos então histórias de um fanático de música. “Se me virem a falar com alguém com ar de a conversa se encaminhar para um tema sério, como a guerra no Iraque, esqueçam. O que eu estou mesmo a pensar é como seriam os Metallica se Cliff Burton não tivesse morrido.” Um CD que é uma espécie de “High Fidelity”, com “sketches” de personagens cuja função na vida é fazer listagens de discos ou comprar bonecos dos Kiss, ou que pensam que Nina Persson dos Cardigans escreveu “Erase and Rewind” para eles. A roçar o viciante.