Arquivo da Categoria: Céltica

Renat Jurié – “Entre La Riviera E La Mar”

pop rock >> quarta-feira >> 19.01.1994


Renat Jurié
Entre La Riviera E La Mar
Silex, distri. Etnia



Música da Gasconha e da região de Béarn, por uma voz austera a recordar os tempos em que, muitos anos antes dos Perlinpinpin Folc, Verd e Blu e Lo Jai constarem do mapa, os arautos musicais da Occitânia davam pelo nome de Marti, Joan Pau Verdier e Peir Andreu Delbeau, só pra citar aqueles cujos discos conseguiram na altura furar o bloqueio e chegar a Portugal. “Entre la Riviera e la Mar” é solenidade religiosa, em cânticos que vêm da terra e do mar. Ora pujantes, ora ternos, com a dignidade de quem desde há muito sabe sentir e compreender a lição da natureza e dos homens. O compromisso com a modernidade passa pela presença e, suspeita-se (pois na capa não é fornecida qualquer informação nesse sentido), pelos arranjos de três elementos dos Lo Jai: Eric Montbel, em gaita-de-foles e clarinete; Guy Bertrand, voz, clarinete, flautim/tambor de cordas, oboé de Couserans; e Pierre Imbert, na sanfona. Um dos grandes discos deste início de ano, numa editora cuja diversidade de propostas não pára de surpreender. (9)

Bagad Kemperle – “Kejadenn”

pop rock >> quarta-feira >> 19.01.1994


Bagad Kemperle
Kejadenn
Silex, distri. Etnia

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As bagads podem ser consideradas o equivalente bretão das bandas militares escocesas. Constituídas por uma secção de gaitas-de-foles (“biniou-koz2) e outra de bombardas, que dialogam quase ininterruptamente entre si (só aos tocadores de bombarda, instrumento que exige uma enorme “endurance” da parte do músico, são concedidos momentos de descanso), apoiadas numa terceira secção, de tambores, as bagads impressionam sobretudo pela força do colectivo. Diz quem ouviu e viu que chega a ser quase aterrador assistir a um dos muitos concursos de bagads que regularmente se realizam na Bretanha, quando não um mas vários destes agrupamentos encetam autênticas batalhas de som, com centenas de gaitas-de-foles, bombardas e percussões tonitruantes a ribombarem um uníssono.
“Kejadenn” é um disco que se propõe mostrar novos caminhos para as bagads. Juntamente com a formação tradicional da Bagad Kemperle, com direcção musical de Patrick Tanguy, 13 gaiteiros (solista principal, Serge Dayou), 16 bombardeiros, chamemos-lhe assim (solista principal, em bombarda tenor, Jean-Pierre Moing) e 11 percussionistas, convidaram-se músicos solistas, com bateria, guitarra eléctrica, acordeão, saxofone, clarinete, uma voz feminina e, como principal interlocutor, Michel Godard, na tuba e serpentão.
Os temas, na sua maioria compostos por Patrick Tanguy, alternam entre o que é habitual esperar de uma bagad e a intromissão de elementos alienígenos: solos de sax e clarinete, o canto entre o operático e o declamatório de Linda Bsiri, os acentos rítmicos “jazzy” da bateria. Num dos vários temas absolutamente alheios à estética das bagads, “Doucement les basses”, os baixos da tuba divagam em liberdade. Da homenagem à Galiza, em “Galicienne”, à ironia de uma “Bomb-hard”, “Kejadenn” deixa-se deslumbrar, por vezes com alguma falta de controlo, pela revelação súbita de mundos que nenhuma bagad, até há pouco, julgaria poderem vir a pertencer aos seus domínios. Uma pedrada no charco numa área tida até agora como das mais conservadoras. (7)

Elena Ledda E Sonos – “Incanti”

pop rock >> quarta-feira >> 12.01.1994
world


Elena Ledda E Sonos
Incanti
Silex, distri. Etnia



Quinto álbum da cantora da Sardenha que já actuou entre nós, numa das edições dos Encontros Musicais da Tradição Europeia, após “AM=Mentos”, “Is Arrosas”, “Sonos” (com distribuição portuguesa) e “Iandimironnai”. Em relação a “Sonos”, mantém-se a colaboração com Mário Palmas. O que não se mantém é o estado de graça que atravessava a totalidade de “Sonos”. Comparado com este, os encantos de “Incanti” não têm a mesma intensidade nem o mesmo brilho, muito por culpa de um menor arrojo e algumas escolhas menos acertadas dos arranjos. “Filugnana”, o tema de abertura, e “Sa ellesa”, por exemplo, não ganham nada com a inclusão de uma bateria metida a martelo e a atirar para o chinelo. Foram-se as gaitas-de-foles e as ambiências electrónicas, substituídas pela imposição dos instrumentos de corda e um minimalismo mais do que discreto. Riccardo Tesi toca acordeão em dois temas. Se o que se pretendia era privilegiar a sobriedade, a troca não se saldou por grandes dividendos. “Sonos” era magnífico, “Incanti” fica-se pelo bonito.
Mauro não merece desta vez as palmas. Imune à sujidade continua a voz da bela Elena que, logo a seguir a “Muttos”, praticamente uma repetição de “S’abba de su nie” – um tema de “Sonos” -, faz esquecer os pontos menos bons do disco, em “Incanti” e “Anninnaire”, apoiada em duas excelentes prestações de Giorgio Baggiani no filiscórnio, finalizando a grande altura numa interpretação “a capella” de “Sa preghiera”. Uma semidesilusão. (7)