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Monty Python – “And now, for something completely different…”

PÚBLICA

24 Novembro 1996

“And now, for something completely different…”

John Cleese era a figura com maior carisma dos Monty Python, o mais fantástico grupo de humoristas de todos os tempos. Monty Python’s Flying Circus, a série de televisão que os tornou célebres do mundo subatómico aos confins da galáxia, está a partir de agora disponível no mercado vídeo de venda directa. Será que o Governo português vai cometer o mesmo erro que o seu congénere britânico cometeu há 25 anos e “gastar menos dinheiro com o Ministério dos Passos Disparatados do que com a Defesa Nacional?” John Cleese “dixit”.


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Um homem de gabardina, John Cleese, entra numa loja de animais para protestar. Venderam-lhe um papagaio morto. O vendedor, Michael Palin, procura a todo o custo convencê-lo de que o animal está apenas a dormir. O homem bate com a ave várias vezes no tampo do balcão. “Está morto, faleceu, finou-se, bateu a bota, deu o berro, entregou a alma ao criador!” O outro insiste: “Não, não! Está a dormir!” magnífica metáfora sobre a condição humana. E um dos “sketches” emblemáticos dos Monty Python e do seu Flying Circus, série que a RTP exibiu recentemente e cujo primeiro pacote se encontra a partir de agora disponível no mercado vídeo de venda directa.
O “sketch” do papagaio, como é conhecido, tem, à semelhança de muitos outros, o seu “script” totalmente transcrito para uma das várias páginas da Internet dedicadas aos Monty Python, a maior “troupe” de humor de todos os tempos. Mestres absolutos do “nonsense”, o humor dos Monty Python marcou a sua época, entre 1969 e 1974, cinco anos que abalaram o tradicional conservadorismo britânico através da série televisiva Monty Python’s Flying Circus.
O impacte atingiu Portugal dois anos a seguir ao 25 de Abril, em 1976, criando-se desde logo um fenómeno de culto, reforçado na década seguinte, com uma primeira reposição, interrompida a meio. Este ano, os Monty Python regressaram pela terceira vez aos ecrãs nacionais, com a exibição diária da série, na RTP1, que, uma vez mais, não respeitou a sua ordem cronológica nem contemplou a totalidade dos episódios.
Pior ainda, talvez com receio de chocar ou ferir susceptibilidades (passado um quarto de século, a televisão do Estado ainda tem destes medos!), a castidade dos programadores levou-os a arrumar, é o termo, este monumento ao humor universal num horário obsceno, já de madrugada e com a agravante de o retalhar com odiosos intervalos. Decerto em nome dos bons costumes e com a pia intenção de poupar o grande público à iconoclastia e à influência nefasta que o grupo poderia exercer sobre as mentes da nossa juventude.
Os que eram fanáticos, claro, não perderam um episódio, mantendo-se firmes no seu posto, nem que tivessem de esperar até às quatro da manhã. Ou então ligando o gravador. É que tão bom como ver pela primeira vez um episódio dos Monty Python é revê-lo vezes infinitas. Mas os novos, os desconhecedores, todos os que não tiveram nem o privilégio nem a felicidade de ter conhecido a obra dos Monty Python ficaram a perder. Porque ainda estavam mortos? Não, porque estavam a dormir!…
A partir de agora, porém, toda a gente vai poder desfrutar em casa do humor dos Monty Python. Para os tais fanáticos – pois não se pode gostar dos Monty Python de outra maneira, que não os venera detesta-os – é a oportunidade de conservar para a posteridade, nas melhores condições técnicas, o objecto da sua devoção. Para levar para casa, existe, para já, um primeiro volume, contendo os primeiros quatro episódios da primeira série: 126 minutos de delírio, de génio, de pura religião com o seu templo e os seus sumo sacerdotes, contendo “sketches” clássicos como (só a menção dos títulos, provoca um júbilo irreprimível) “Artur ‘duas cabanas’ Jackson”, “A anedota mais engraçada do mundo”, “O homem com três nádegas”, “O problema do rato”, o antológico “sketch” “do Restaurante”, “Cotoveladas” ou “Autodefesa”. Todos sublimes. Todos capazes de enviar um cérebro inteligente para o hiperespaço do riso. Aliás, os tradutores encontraram bons títulos descritivos, como “Palestra francesa sobre carneiros aeronaves” ou “No tribunal (testemunha no caixão/cardeal Richelieu)”, opção deliberadamente esotérica, dirigida, em primeiro lugar, aos iniciados.
Formavam os Monty Python cinco personalidades únicas: John Cleese, Eric Idle, Micahel Palin, Graham Chapman e Terry Jones. Um sexto elemento, Terry Gilliam, era o responsável pelas montagens animadas da série, embora também tivesse esporádicas participações como actor. Mais tarde viria a notabilizar-se na realização, através de filmes como “Brazil”, “O Rei Pescador” ou o recente “12 Monkeys”. Neil Innes, do grupo cómico musical Bonzo Dog Doo Dah Band, e Carol Cleveland foram dois dos convidados mais assíduos. Graham Chapman – o “Brian” da longa-metragem do grupo “A Vida de Brian” – já morreu.
Com o fim da série, que mantiveram intermitentemente durante cinco anos na BBC, iniciaram um novo período de actividade, durante o qual, ainda como Monty Python, fizeram quatro longas-metragens, qualquer delas histórica, “And now for Something Completely Different…”, de 1971, inédito em Portugal, “O Cálice Sagrado”, de 1975, “A Vida de Brian”, de 1979, e “O Sentido da Vida”, de 1983. A partir daí, cada um seguiu uma carreira em separado, com esporádicas associações em filmes ou documentários.
O conjunto total com o genérico Monty Python’s Flying Circus – atenção, tomem nota, para não deixar escapar nada – divide-se em quatro períodos temporais, correspondentes a outras tantas séries de programas. A primeira foi para o ar na BBC a 5 de Outubro de 1969, aí se mantendo até 11 de Janeiro de 1970. É constituída por 13 episódios. A segunda é formada pelos episódios 14 a 26 que estiveram em exibição entre 15 de Setembro e 22 de Dezembro de 1970. A terceira, com os episódios 27 a 39, durou de 19 de Outubro de 1972 a 18 de Janeiro de 1973. A quarta e última, episódios 40 a 45 (sem John Cleese), encerrou o ciclo, entre 31 de Outubro e 5 de Dezembro de 1974. Existem ainda mais dois episódios adicionais, gravados para a televisão alemã, de genérico “The German Episodes”. No total, uma obra com a dimensão e a importância de “Guerra e Paz”, “O Anel dos Nibelungos”, a Enciclopédia Britânica e sexo.
Sim, o SEXO. Os Monty Python reinventaram o sexo para o destruir e reinventar de novo e redestruir e… como reinventaram a religião para a destruir, para… e a política, e o desporto, e a arte, e os papagaios, e os juízes, que eram sempre “travestis”, e os polícias, e os ingleses, e os franceses, e os escoceses, sobretudo os escoceses, de Johann Gombolputty – dois minutos de apelidos – von Hautkopff of Ulm, e a Inquisição (“Nobody expects the Spanish Inquisition”, tchatcham!) e tudo o mais que existe á face da Terra, sem esquecer Ken Buddha e os seus joelhos insufláveis. E até, escândalo dos escândalos, a rainha. Sim, um dos episódios, dos mais ordinários e com o humor mais negro, mesmo próximo do mau-gosto, da série, é-lhe especialmente dedicado. O “sketch” que encerra este episódio é mais ou menos assim. Trata-se de um diálogo entre um cliente (John Cleese) e o empregado de uma agência funerária. Cliente – A minha morreu. Empregado – É para enterrar, cremar ou deitar fora? Cliente (hesitante) – Bem… Empregado – Trá-la consigo? (o cliente acena com a cabeça e atira com um cesto para cima do balcão). Já considerou a hipótese de a comer, temos um belo forno… Cliente (ainda hesitante) – De facto, tenho alguma fome, mas não sei se… E se me sentir mal? Empregado – Não há problema, pode vomitar que nós depois apanhamos e atiramos para a cova. Fim do “sketch”. Com dedicatória a sua majestade.
Mas o humor dos Monty Python é uma moeda com mais de duas faces. A sua essência está no talento para extrair humor de qualquer faceta da vida, por mais ínfima que seja. Os Monty Python inventavam a vida. Tudo, mas mesmo tudo, era usado como fonte de gargalhada ou sorrisos. De transgressão. Puro gozo interior. O êxtase supremo de quem está a fazer humor é ter ao mesmo tempo consciência dele próprio no próprio instante em que está a ser criado. Deste modo se explica o caos estrutural, por vezes no limite do aleatório, que anima e sustenta alguns episódios da série. Nestes, um “sketch” confunde-se, transforma-se ou alterna com outros, aniquilando toda e qualquer espécie de lógica narrativa ou de linearidade temporal. Ladrões do tempo. O intervalo tanto podia surgir no princípio como no fim. Episódios inteiros terminavam antes do tempo (!), com o restante preenchido com interlúdios que tanto podiam ser o ecrã completamente negro, como o logotipo da BBC ou John Cleese dentro de uma armadura, passeando numa praia deserta com um frango depenado na mão.
Além do mais, os cinco Monty Python eram extraordinários actores. Vale a pena visionar vezes sem conta cada episódio só pelo prazer de saborear as entoações, as expressões e os pequenos gestos das personagens, segundo uma espontaneidade encenada ao pormenor. Monty Python’s Flying Circus é o humor na sua expressão mais elevada. Cada vez que a série é reposta, cada cena vista e revista centenas de vezes, apresenta sempre algo de novo, numa pluralidade incontável de níveis de leitura. Mesmo antes, há já uma antecipação emocional, uma comoção estética que apenas os fãs dos Monty Python compreendem e sentem. Melhor do que ver um episódio dos Monty Python só discutir um episódio dos Monty Python. Quando dois fanáticos dos Monty Python se encontram para conversar sobre os seus heróis, sentem-se unidos por um elo iniciático. O riso transforma-se num acto sagrado. Os Monty Python pertencem ao domínio do sagrado. Os Monty Python pertencem ao domínio do sagrado. A mesma impressão de sagrado que sentiram os milhares de fiéis que nos dias 26, 27, 28 e 29 de Setembro de 1980 se reuniram no Hollywood Bowl, para assistir a uma memorável apresentação do grupo, ao vivo, num espectáculo cuja síntese também se encontra gravada em cassete vídeo no mercado português. “Albatross!”
Perdoem-me se me excedi.
Mas nos sabemos que entre os deuses vivia, e continua a viver, um deus maior. Silêncio. Chama-se John Cleese. A simples menção do nome provoca arrepios de prazer. John Cleese é o mago. O dominador absoluto da arte de fazer rir da forma mais inteligente. John Cleese está marcado pelo humor desde que nasceu, em 27 de Outubro de 1939, em Weston-Supermare (dava um belo título para um “sketch”), no Somerset. O pai chamava-se Reginald Francis Cheese (“queijo”), mudando o apelido para Cleese quando entrou para o exército. Cleese recebeu tratamento psiquiátrico, escreveu livros e continua a representar no cinema. Em televisão, depois de Monty Python’s Flying Circus, realizou com a sua mulher Connie Booth e interpretou a série Fawlty Towers, também já exibida na televisão portuguesa. Quem não se lembra de Manoel, o impagável empregado espanhol da pensão, ou do episódio dos nazis?
Participou como actor, entre outros filmes, em “Os Ladrões do Tempo”, “Clockwise”, “Silverado”, “Um Peixe Chamado Wanda”, “Erik the Viking: The Book of the Film of the Book” e, mais recentemente, tem uma aparição esporádica no “Frankenstein”, de Kenneth Brannagh. No teatro, ainda hoje representa Shakespeare. No registo mais sério que se possa imaginar. Realizou o vídeo “Como Irritar as Pessoas” (“o segredo é dar a entender que não se faz de propósito”…).
John Cleese sente-se particularmente à vontade no papel de psicopata ou em todas as personagens que envolvam histeria. Não resistimos a descrever duas cenas memoráveis, ilustrativas desta sua faceta. Uma é o “sketch” em que faz de instrutor numa aula de autodefesa contra peças de fruta. O seu grito de desafio para um dos alunos, “Hit me with a banana!”, faz parte da História. Outra é uma sequência inteira de “Cálice Sagrado”, quando invade, alucinado, um encantador casamento que se está a celebrar num pacato castelo medieval. Investido com as armas de Cavaleiro da Távola Redonda, vai chacinando sucessivamente todos os convidados. No auge da alucinação, volta atrás numa escadaria, só para decepar à espadeirada uma vela que se encontrava no seu caminho. Quando, no meio de um mar de sangue, em pleno átrio do castelo, se dá conta do equívoco, pede desculpa. Tinha sido um engano.
Num registo diferente, o domínio absoluto do corpo, há outra cena para rever até ao fim dos tempos. A dos passos disparatados. Se a versão original da série é um portento de hilaridade, a versão ao vivo no espectáculo do Hollywood Bowl ainda é melhor. Só visto e revisto. “No ano passado, o Governo gastou menos dinheiro com o Ministério dos Passos Disparatados do que com a Defesa Nacional!”, desabafa Cleese e acerta altura.
Para terminar, duas observações de John Cleese, na área das relações humanas: “Penso que o cimento é mais interessante do que as pessoas julgam” e “Por favor, desculpe a minha mulher. Ela pode não ser muito bonita, não ter muito dinheiro, não ter qualquer espécie de talento e ser chata e estúpida, mas por outro lado ela… perdão, não me consigo lembrar de mais nada!”
“And now…”



Artigo de Opinião: Os Melhores de Sempre – Música Portuguesa – Raízes – “Diabo Do Belho!…!

Pop Rock

24 de Abril de 1996
Os melhores de sempre – música portuguesa

Raízes Diabo do Belho!…


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Como foi

Firmino Neiva entrou para os Raízes pouco tempo antes da gravação de “Diabo do Belho!…”, o melhor disco do grupo e um clássico da música portuguesa de raiz tradicional. Para traz tinham ficado dez anos vividos na Dinamarca, onde começou a interessar-se pela música tradicional e tocou “com alguns irlandeses”. Por cá os Raízes tinham já gravado um primeiro álbum, concluído um período fértil em espectáculos e efectuado um trabalho de recolhas, “essencialmente no Baixo Minho, nas zonas de Ponta da Barca, Portela, Barroselas e Vila Verde”, que seria aproveitado para “Diabo do Belho!…”. Neste disco, porém, o grupo teve alguns pruridos em usar o termo “recolha”, já que nessa actividade depararam com situações problemáticas. “Chegámos a fazer recolhas de um mesmo tema, com um intervalo de quinze dias, num mesmo local, com as mesmas pessoas, e as coisas serem totalmente diferentes”. A escolha entre diferentes interpretações, quando não tentavam “conciliar as duas”, acabava por ser ditada pelo “gosto particular” dos elementos do grupo e pelo que achavam que “devia ser divulgado”. “Quando se fazem recolhas ou se apanham coisas em estado muito bruto ou então já muito alteradas e deterioradas. Mas também é isso que mantém a música tradicional viva, ir-se transformando todos os dias”.
Firmino Neiva cita a este propósito “muitos cantares minhotos que vêm da prática das pessoas cantarem na igreja, os romeirinhos ou as sachadas. A igreja influenciou a maneira de cantá-los”. “De repente”, conta, “nas recolhas que ouvíamos havia harmonizações que tinham mais a ver com música de igreja do que propriamente com música popular. Aí tentávamos recuperar a maneira tradicional, comos e canta no campo, numa sachada ou numa desfolhada”. Há ainda o caso, recorda, de “umas pessoas velhotas que cantavam uma coisa muito gira mas que não batia muito certo com aquela zona”. Mais tarde descobriu-se que era a “música de uma opereta que tinha passado por Lisboa em mil novecentos e vinte e tal”.
“Diabo do Belho” foi gravado em Fevereiro de 1985. “Em termos de facilidades técnicas não há comparação possível entre este e o primeiro disco. O primeiro foi gravado em sete horas, as pessoas numa sala, toca a tocar, quase uma gravação ao vivo, enquanto neste tivemos já três ou quatro dias de estúdio. Com outro cuidado com o som e a execução técnica”. No bolso ia já uma maqueta previamente preparada e gravada num pequeno estúdio pertencente à banda. “Já levávamos o disco feito para estúdio. Foi só chegar lá e tocá-lo, não houve praticamente produção”. Durante o tempo de gravações tudo correu sobre rodas, excepto para o próprio Firmino Neiva, quem sucedeu, segundo diz, “um desastre”. “O disco foi gravado naquele que é hoje o estúdio Namouche. Estava a meter umas braguesas. Estava de botas e a bater o pé ao ritmo da música. O Moreno Pinto, técnico de som, disse-me ‘Ou tiras as botas ou deixas de bater com o pé!’. Tirei as botas e fiquei em meias. Acabei o ‘take’, vou por ali acima a correr, até à ‘régie’. Aquilo tem três ou quatro degraus encerados. Escorreguei, fiz uma luxação no ombro. As gravações acabaram para mim, nesse momento. Felizmente já só faltava um dia e meio. Até aí tinha sido esplêndido”.
Para além dessa “tragédia” pessoal, não faltaram momentos de boa disposição. Como aquele proporcionado por Rão Kyao que, na altura, se encontrava a gravar, com António Chainho, no mesmo estúdio. “Andavam a tentar descobrir um nome para o disco. Acontece que o estúdio fica mesmo em frente ao Jardim Zoológico, ao lado dos pássaros. Houve até títulos provisórios, como ‘Papagaios’. Até que um dia, já desesperados, olharam para a rua. Estava lá o nome do disco. Mesmo em frente, leram uma placa a dizer ‘Estrada da Luz’”.
“Diabo do Belho”, por seu lado, deve o título a uma canção do mesmo nome para a qual o grupo fez um arranjo de cordas, retirada de um cancioneiro. “Normalmente são as pessoas idosas, com quem trabalhámos nas recolhas, que ainda se lembram das coisas. Por isso, nada melhor do que falar delas num dos temas”. Existe ainda outro elo de ligação, bem mais picaresco. “Posteriormente *a gravação, um amigo nosso, o Nuno Pignatelli, autor do texto que aparece na capa, escreveu uma pequena peça de teatro, onde nós participávamos musicalmente, encenada pela Companhia de Teatro Cena, à volta do tema dos velhos. Havia um narrador que ia falando sobre os velhos enquanto no palco iam passando várias cenas. O espectáculo dos Raízes começava com uma deixa, quando um velho apalpava o cu a uma mulher e esta gritava ‘Ai o diabo do velho!’”
Em termos comerciais, “Diabo do Belho!…” obteve uma resposta significativa. Pelo que sabemos, por linhas travessas, o disco vendeu bem. Passados três ou quatro meses, à volta de cinco mil exemplares”. A partir daí “perderam o controlo da situação”, uma vez que a editora faliu. Em relação á posterior reedição em compacto, pela Movieplay, Firmino Neiva apenas lamenta que esta tenha destruído o “design” original da capa. “A capa também faz parte da obra. Quando alteram a capa estão a alterar a obra”.
Apesar de tantos contratempos, os Raízes continuam na estrada, se bem que a sua carreira tenha entrado nos últimos anos na penumbra. Actuam em romarias, nas universidades, em congressos de professores. Ou então vão para a Galiza ou a vários festivais na Europa. Firmino Neiva espera que a situação dê uma volta de 180 graus. O grupo evoluiu, refinou-se, enquanto espera nova oportunidade. “Sem vaidade, acho que o caminho dos Raízes seria, à nossa maneira, idêntico ao que acabaram por fazer os Gaiteiros de Lisboa”.

Como é

Não fez a revolução. Mas trouxe algo de novo para a música de raiz. “Diabo do Belho” exala uma frescura que não se sente com a mesma intensidade, por exemplo, nos Almanaque ou no primeiro Vai de Roda, sem que tal significasse uma menos ligação com as… raízes. Depois, o grupo conseguiu um feito notável, que foi o de recriar a tradição do Minho sem resvalar para o estereótipo da chula. Exemplar é, neste particular, o trabalho levado a efeito sobre os ritmos, que empresta a “Diabo do Belho” uma variedade e riqueza que apenas encontramos, na primeira geração de grupos de música de raiz tradicional, na Ronda dos Quatro Caminhos. Repare-se em temas como “Ribeira (ribeira qu’és tamanha)”, “A caminho da romaria” ou “Ó Ana ó que linda Ana”, onde a batida, ritual, dispensa os habituais pontapés dos bombos nos rins da subtileza (os do “Malhão do Souto” final suportam-se bem, já que as vocalizações desviam convenientemente a atenção…). A consequência – e bênção para os ouvidos – repousa no acento posto nas polifonias vocais – tratadas em estúdio com toda a sofisticação possível – e na gaita-de-foles que, sempre que chamada a pronunciar-se, o faz com uma desenvoltura e clareza tímbrica de fazer inveja a muita gente. Duas canções entram na selecção das mais belas de sempre gravadas e tratadas por um grupo urbano: ““Diabo do Belho”, exemplo de que o mal não está nas violas e nas braguesas, mas na falta de criatividade com que na generalidade são utilizadas, e a espantosa versão de “Rosa tirana”, com lugar de destaque no “top ten” das “interpretações em estado de graça”. Três instrumentais, a fuga aos lugares-comuns e o único senão de ter apenas 29 minutos de duração (mas talvez resida nesta contenção o segredo das virtudes até aqui apontadas) contribuem para fazer de “Diabo do Belho” um oásis bastante mal tratado na posterior reconversão para compacto.



Artigo de Opinião: Os melhores de sempre – música portuguesa – Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes do Manhouce – “Cantares da Beira”

Pop Rock

10 de Abril de 1996
Os melhores de sempre – música portuguesa

Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes do Manhouce
Cantares da Beira


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Como foi

O Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes do Manhouce formou-se pouco tempo antes da gravação do primeiro disco, “Cantares da Beira”. Na origem da sua formação, está, diz Isabel Silvestre, solista principal, “o gosto de cantar da gente do Manhouce”. “Uma função vital. Trabalhava-se e cantava-se na ceifa, nas malhas, em todos os trabalhos agrícolas o cantar era parte integrante.” Um canto que vai ainda buscar alento e alimento “a outra fonte, religiosa”, a “dois conventos perto, de Arouca e de São Cristovão de Lafões”. “As pessoas assistiam aos actos litúrgicos e transportavam-nos para os seus trabalhos, sobretudo agora na época da Semana Santa. Davam-lhes a volta, aquela volta que o povo costuma dar àquilo de que gosta.”
De 1982 para cá, o grupo sofreu algumas alterações. “Temos ainda muita gente do primeiro grupo, as pessoas essenciais continuam, e há gente nova.” Isabel Silvestre considera “interessante” a existência actual de “um espectáculo diferente do habitual”, com “três grupos, um de cantares, outro de danças, também de Manhouce, e um terceiro, de teatro, de São Pedro do Sul”. Idealizado por Jaime Galheiro, “um homem do teatro”.
Isabel Silvestre canta “desde miúda”. “Uma das coisas que Manhouce consegue é ter música desde o berço. Desde o berço até à cova. Do ‘Laru’, uma canção de ninar, para acalentar e adormecer os meninos, até ao ‘Senhor fora’, quando o padre vai visitar o doente que está muito mal.”
O reportório do grupo é constituído por canções “quase, quase só de Manhouce”. “Manhouce tem várias influências. Dos trabalhos que se iam fazer fora, ao Douro ou ao Alentejo, mas também a influência do mar. Passava por aqui a estrada romana que ligava Porto a Viseu. As pessoas pernoitavam e durante essa noite havia uma troca de saberes. Temos uma série de canções do mar como ‘Andorinha ligeira’, ‘Vai marinheiro, vai, vai’ ou ‘Olha a barca, olha a barca’.”
Todo este reportório não está sujeito a modificações. “As canções permanecem exactamente como nos foram transmitidas, simplesmente, temos a preocupação de arranjar um tom em que as três vozes se consigam harmonizar.”
“Cantares da Beira” surgiu da vontade forte, partilhada por todos os elementos de grupo, de conservar a sua música. “As pessoas da minha geração têm e tiveram a preocupação de gravar. Agora liga-se a televisão e há música. As pessoas desinteressaram-se das outras coisas. E há gravadores, gira-discos, carrega-se num botão e a música está feita. Nós tínhamos pena. Preocupava-nos deixar perder as cantigas.” A oportunidade para gravar surgiu durante uma actuação do grupo em Lisboa, na FIL. “Quando saímos do palco veio uma senhora ter connosco perguntar-me se não queríamos gravar. Tomáramos nós” A senhora era a Margarida, actualmente casada com David Ferreira. Assim aconteceu, fomos por aí abaixo e gravou-se o disco.”
Para Isabel Silvestre, a influência do produtor Mário Martins foi determinante para não se sentir a transição do espaço rural para o interior do estúdio. “Esteve em Manhouce, para escolhermos o reportório.” Relembra uma ocasião especial, “marcante não só para ele”, como para o próprio grupo. “Estávamos na escola primária, o local onde ensaiámos, um dos elementos fazia anos, era Inverno, estava frio. Fomos para casa desse elemento, fizemos uma fogueira, ele foi buscar um presunto. Olhe, a noite deixou de ser noite!”
“Cantares da Beira” foi gravado numa única sessão sem sobressaltos. “Apenas se pediu ao baixo que cantasse mais perto do microfone e fizesse com a voz aquilo que normalmente seria um bombo a fazer.” Dito desta maneira, não se adivinham as contingências que rodearam a presença do grupo nos estúdios de Paço de Arcos. “Chegámos de manhã e o disco estava gravado à tarde. As pessoas trabalhavam, saímos daqui á noite, chegámos a Lisboa às tantas da madrugada e às nove da manhã estávamos a gravar.” Aconteceu assim em todos os discos. Num deles, tinham mesmo marcado uma entrevista com o Presidente da República, então o general Ramalho Eanes. “Às quatro da tarde. Tínhamos estado no Brasil e trazíamos de lá uma mensagem para entregar. Cantámos na Sala dos Retratos e ainda bebemos um Porto.”
Depois de “Cantares da Beira” seguiram-se outras gravações. Com outros meios e uma produção mais forte, que no álbum de cantares religiosos tornou mediático o nome do Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes do Manhouce e famosa a sua voz principal, Isabel Silvestre. Nesta transição há quem considere que alguma da genuinidade (e ingenuidade…) original se perdeu, substituída pelo profissionalismo e pelo gosto de agradar. Isabel Silvestre nega que tal tenha acontecido. “A maneira de o grupo cantar as canções está absolutamente a mesma. Não sabemos cantar diferente. Fui uma das pessoas que estiveram sempre contra fazer-se arranjos. Disse mesmo: ‘Olha, se vocês fizerem isso, saio, imediatamente, não estou aqui a fazer nada.’ Temos realmente que pegar naquilo que nos foi legado e dá-lo a conhecer tal e qual. Não temos o direito de andar a desfazer aquilo que foi guardado durante tanto tempo.”
Isabel Silvestre, actual presidente da Junta de Freguesia de Manhouce, reparte o seu tempo entre o grupo e o Gabinete de Expressão Musical e Dramática desta localidade, onde faz recolhas, de Manhouce e da zona de Lafões. “Estou metida dentro de uma camisa de sete varas. Quase não tenho tempo de ter tempo para mim.”
Tem também publicado o livro “Cancioneiro Popular de Manhouce”, estando prevista a saída, em Setembro, de “Memória de Um Povo”, uma obra “mais completa”, onde faz um levantamento de “lenga-lengas, contos, ladainhas, provérbios e gastronomia” de Manhouce. “Tudo aquilo que faz parte desta terra e desta gente.”
Na forja está a edição, em Setembro, na EMI-VC, do seu primeiro álbum a solo, do qual, por agora, não quer adiantar pormenores, e de uma colectânea, “uma coisa ainda no ar”, a sair, talvez, no próximo Verão, dos Cantares de Manhouce.

Como é

Entre a pureza, por vezes rude e impenetrável, do “étnico” e a sofisticação do “trad. arr.”, o Grupo de Cantares de Manhouce transpôs com a maior simplicidade a ponte que une o rigor do estudo ao prazer da escuta descrompometida. “Cantares da Beira”, colecção ainda não maculada pelas garras e mandíbulas do mercado, é uma claridade que dia após dia corre o risco de se apagar. Se o método e escolha de reportório estavam aqui ainda longe de quaisquer preocupações de agradar aos ouvidos acomodados da cidade, como viria a acontecer no posterior “Cânticos Populares Religiosos” – um álbum destinado a enfileirar nas prateleiras de “world music”, ao lado das vozes búlgaras que então se faziam ouvir com força a ocidente -, o que se deve procurar em “Cantares da Beira” é, antes, a intimidade com as raízes, a não adulteração dos gestos e ciclos primordiais, a pureza infantil de dizer na voz activa o que a alma canta quando o corpo trabalha.
O Grupo de Cantares de Manhouce faz o que deveria ser feito em cada localidade deste país de esquecimento. Preservar e dignificar uma tradição. Mantê-la viva e actual e acarinhá-la. Transmiti-la de geração em geração como um elo que garante a identidade e a linguagem. Acontece assim, bem perto de nós, na Galiza. Acontece assim na Irlanda. Acontece assim em todos os lados onde a ideia de “civilização” ultrapassa a mera lógica mercantilista e contabilística. Manhouce tem a sorte de ter o seu grupo, como Carvalhais a sua tuna, ou o Alentejo os seus corais. Mas depois, quando os mais velhos desaparecerem, o que ficará? Quais e quantos os náufragos que sobreviverão ao naufrágio causado pela incultura, pela estupidez e pelo desinteresse oficiais de um Estado com o cadáver engravatado numa forca de Bruxelas?
Isabel Silvestre e o Grupo de Cantares de Manhouce cumprem uma tarefa de que outros se aproveitarão para facturar, sempre em nome do povo, sempre em nome da Kultura. Mas o que importa é que o seu canto, o canto de “Don Solidon”, “Ó meu amor quando fores” ou “Lá vem o vento da noite” chegue ao destinatário certo. Ao que, em silêncio, no bulício do século, no gesto ritual que amanha a terra, no devaneio da noite que o fogo aquece contra a pedra, demanda saciar-se na água da fonte.