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Artigo de Opinião: Vai De Roda – “Vai De Roda Agita Ondas Galaico-Portugueseas”

POP ROCK

23 de Outubro de 1996

Vai de Roda agita ondas galaico-portuguesas

Viagem dentro de um búzio

Nova música portuguesa com raízes no mito. “Polas Ondas”, terceiro capítulo discográfico do projecto Vai de Roda, desfaz o derradeiro equívoco. A música tradicional transformou-se num sonho. As ligações mantêm-se, mas as vozes são novas. Tentúgal fez girar uma vez mais a roda da sanfona. E a música portuguesa ganhou um mar novinho em folha para navegar.


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Levou tempo e alma a fazer. Entre “Terreiro das Bruxas” e o marulho das ondas, Tentúgal matutou durante cinco anos numa música que, definitivamente, rompesse com conceitos artesanais de composição e produção. “Polas Ondas”, pela perfeição formal e pela respiração dos sons e palavras de que dá mostras, estabelece novos parâmetros de aferição para a música portuguesa. Só a solidez da gramática autoriza a pluralidade de leituras da obra total. Cada um fará com estas ondas o que bem entender: natação, “surf”, pesca, mergulho, escafandrismo, até simples higiene mental.
Antes das águas Tentúgal não esteve quieto. “Fiz música para cinema de animação, nomeadamente para filmes do Abi Feijó e do Pedro Serrazina e em geral para a produção musical da Filmógrafo. Participei igualmente, ao vivo, no 10º aniversário dos Luar na Lubre, com quem toquei ao vivo.” A animação maior estava para vir.
Em “Polas Ondas” repara-se em primeiro lugar na capa, uma rede de pesca. Fotografada por Abi Feijó. A cor intriga. “Por incrível que pareça, é uma rede mesmo vermelha. Da cor do sangue.” Do som, percebe-se ter sido pensado como um todo. “Há uma maior conceptualidade, o que lhe dá uma maior coerência, apesar de haver algumas aparentes contradições, ou distanciações, em termos plásticos, em alguns temas.” O álbum tem o selo Alba. Editora nova. “Teve que ser criada, porque, depois de cinco propostas que tivemos para gravar, nenhuma foi para a frente. Lá fora toda a gente fica admirada, editores e produtores, com o facto deste grupo, com o currículo e a projecção que tem, não ter uma editora. Estávamos fartos de discutir tostões e resolvemos andar para a frente com uma editora nossa.” Os amigos ajudaram: “Amigos que acreditaram nos Vai de Roda. Houve quem emprestasse o estúdio, quem emprestasse o trabalho de prensagem da capa…”
Hoje, os Vai de Roda estão mais do que nunca próximos da Galiza, “não só por questões geográficas como também pelo ambiente sonoro”. Uma cumplicidade que existe “talvez por uma grande relação com a malta do Norte”. Lança um desabafo: “Há gente na música portuguesa com quem, de certa forma, até me identifico plasticamente, mas com quem, depois, em termos humanos, não existe qualquer relação. Para mim, que vivo a arte intensamente, isso é importante. Lá em cima sinto muito mais pureza. Há uma postura que, inclusivamente, é a mesma que vi nos irlandeses, onde os músicos gostam de ouvir a música dos outros, algo extremamente humilde e enriquecedor para quem a pratica. Na Galiza são assim.”
No passado não faltou quem acusasse o grupo de pretensioso. “Já chamavam isso aos Vai de Roda de 83, um grupo pretensioso, ou um grupo sofisticado de música tradicional. Neste momento está mais que provado que é difícil arrumar o grupo em qualquer gaveta.” Os anos ensinaram a Tentúgal uma outra maneira de dar a conhecer a sua música. “Uma coisa fui aprendendo. Enquanto no primeiro disco dos Vai de Roda queria que todos se apercebessem do que eu tinha feito e pensado, compreendi que a obra de arte, se tiver qualidade, é apreendida por cada um de maneira diferente. Existem várias leituras, um processo tão enriquecedor que, inclusive, permite outras leituras que a nós, que as concebemos, nem sequer nos passavam pela cabeça. Uma constante dialéctica entre emissor e receptor.”
Quanto a ser ou não ainda um grupo de música tradicional, Tentúgal é peremptório: “Não somos um grupo de música tradicional. Gosto de música tradicional, como de música contemporânea e adoro música medieval. Sofro todas estas influências. Está lá o contemporâneo, o ortodoxo, por ter estudado no Conservatório, o popular, por ter aprendido instrumentos tradicionais com os próprios tocadores. Sempre rejeitei catalogações. Quando produzo arte, irrita-me que isso aconteça.” Música tradicional? “Vai-se imitar o quê? A voz ou a maneira de tocar das velhotas e dos velhotes das aldeias? O que é correcto é assimilar a tradição e cantá-la com a minha voz. Aprender a tocar um instrumento mas tocá-lo com as minhas mãos e com o meu espírito. É assim que se transmite a tradição, o tal acrescento de um ponto.”
Em termos formais, “Polas Ondas” exibe a tal sofisticação que, para alguns, pode ser motivo de crítica. Isso resulta, em parte, do “nível de entrosamento dos músicos”. E Tentúgal não se furta a fazer alguns reparos. “Uma coisa que me faz aflição, noutros grupos desta área, é o tratamento das dinâmicas. Vai-se do princípio até ao fim com uma mesma dinâmica. As únicas mudanças aparecem por se retirar ou juntar um instrumento, sem se lidar com os ‘pianos’, ‘pianissimos’, ‘crescendos’, ‘decrescendos’. O Vai de Roda teve a preocupação de trabalhar esse aspecto. “É preciso deixarmo-nos de alguns primarismos”, conclui.
Por onde navegamos, no fim de contas, quando navegamos “Polas Ondas”? “É uma viagem sem fim, volta-se sempre ao mesmo sem se voltar ao mesmo, até ao cabo do mundo, uma finisterra que cada um construirá, simbolicamente. Uma viagem, iniciática, dentro de um búzio.” O círculo desenrola-se, afinal, numa espiral.



Artigo de Opinião – Isabel Silvestre – “Cantar É Trabalhar Do Peito”

POP ROCK

23 de Outubro de 1996

Isabel Silvestre recria hino nacional na sua estreia a solo

“Cantar é trabalhar do peito”

Isabel Silvestre é “A Portuguesa”, título do seu primeiro álbum sem a companhia das vozes de Manhouce. Aí o hino da República transforma-se em tradição mais antiga e monárquica em que “as armas são outras”. Aí as canções de Rui Veloso, Variações, José Mário Branco e José Afonso, entre outros, ganham a elevação e a pureza de uma serra junto ao céu.


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“É um projecto já muito antigo, desde que gravámos o primeiro disco”, começa por dizer a Isabel Silvestre a propósito de “A Portuguesa”. “Simplesmente, na altura achei que não devia fazer isso, na medida em que o grupo estava a começar.” Havia que encontrar espaço fora do Grupo de Cantares de Manhouce, sem descurar certos cuidados. “A responsabilidade é uma coisa complicada. Sinto-me responsável pelo grupo da mesma maneira, só que, ao mesmo tempo, também mais liberta, tendo a certeza de que o grupo é capaz de não parar. Já anda com os seus próprios pés, mesmo sem mim.”
O processo que levou à gravação foi gradual, de maturação lenta. “O Mário Martins foi o primeiro que me abordou, ainda a meio do primeiro disco do grupo. Depois, por uma razão ou por outra, as coisas foram-se arrastando até que por fim acabámos por escolher as canções, eu, o João Gil, o dr. João Teixeira, o David Ferreira. Foi de todos esses encontros que o disco nasceu.” As diferenças entre cantar com o grupo de música tradicional e cantar a solo canções de outros, explica-as Isabel Silvestre como operações da sensibilidade. “Na popular, transmito a maneira de ser e de estar do povo. Neste disco, através do que canto traduzo aquilo que ela é capaz de me sensibilizar e dizer.” Exemplifica: “As músicas do Zeca Afonso identificam-se um pouco comigo, com a minha maneira de ser. Mas gosto de todos os outros, do Rui Veloso, que tem uma outra maneira de estar e de dizer. O tema que eu canto dele tem a ver, não só comigo própria, como com o meio em que vivo. O António Variações, acho-o uma maravilha, tinha letras e músicas lindíssimas. Era uma mensagem constante de carinho e de ternura, na cantiga onde ele fala com a mãe [“Deolinda de Jesus”]. Penso que encontramos lá a nossa própria mãe. Já tinha cantado outra canção dele, ‘Estou além’.”
Em estúdio, “foi voz por um lado e instrumentos por outro”. “Na brincadeira, quando se fez a ‘Pronúncia do Norte’, dizia ao Rui [Reininho] que estou habituada a cantar e a música a vir atrás de mim. Na música tradicional tem sido assim. O acompanhamento é muito simples, eu canto e os instrumentos acompanham-me. Tem sido assim desde menina. Ao passo que aqui é um pouco diferente. Gravou-se primeiro os instrumentos e depois a voz, à excepção de ‘A Portuguesa’, que foi ao vivo.”
Isabel Silvestre conta como surgiu a ideia de cantar o hino nacional. “Nas nossas andanças tem havido espectáculos que são páginas da nossa vida. Uma delas foi em Espanha, no dia 10 de Junho. Pediram-nos para cantar, a abrir, ‘A Portuguesa’, coisa que o grupo nunca tinha feito. No meu tempo de aluna, ainda pequenita, antes de começarmos o primeiro dia de aulas, a primeira coisa que se fazia era cantar o hino. Em Espanha, ficámos um bocado aflitas. Mas cantámos e tudo correu bem. Até aquela parte, ‘às armas, às armas’. Aí as armas foram outras, o sentimento bateu à porta de cada uma e, em vez de uma força exterior, essa força interiorizou-se, foi um bocado complicado…”
Cantar a tradição é, para Isabel Silvestre, tarefa sagrada, como cuidar de um filho ou pegar numa relíquia. “Alguém dizia que cantar é trabalhar do peito. Depois da letra, depois da música, há que dar sentimento a essas duas vertentes. Já andamos nisto há 20 anos. Já por uma vez ou outra quisemos, ou quiseram as pessoas que estavam encarregadas da parte musical e instrumental, dar uma volta às cantigas, no ‘Vozes da Terra’ e não só. Eu opus-me terminantemente, porque, se estamos na música tradicional, temos que dá-la com a sua autenticidade e verdade. Se estamos a cantaras cantigas de Manhouce, temos que ir às raízes e não sair delas, senão não estamos a fazer nada, estamos a desfazer. Para isso era melhor deixar estar tudo quietinho, não levantar o pó, ter cuidado de não riscar.”



Artigo de Opinião – More República Masónica – “Ácido No Equalizador”

POP ROCK

9 de Outubro de 1996

More República Masónica lançam “Equalizer”

ÁCIDO NO EQUALIZADOR


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Entre “Blow your Mind (with Supersonic Meditation)”, o álbum anterior, e o novo, “Equalizer”, os More República Masónica (MRM) movimentaram-se na procura de um novo som. Para tal, conseguiram os serviços do produtor Marsten Bailey e a colaboração dos convidados Mário Resende, dos Duplex Longa, no violino, Ana Santos e Darin Pappas, dos Ithaka, nas vozes, e Paulo Vitorino, ex-Clandestinos, na guitarra, que entretanto passou a ser elemento permanente da banda. Para Paulo Coelho, guitarra e voz do MRM, “a escolha de um produtor envolveu um trabalho maior, quer em termos de ensaios, quer em termos de resultado final, no estúdio”, resultando num som “mais trabalhado”. “Equalizer” inclui onze temas, compostos e escritos pelo grupo, à excepção de “Roads”, versão autorizada da canção dos Portishead.
Com tanta ou mais força que “Blow your Mind”, “Equalizer” destila um psicadelismo às avessas, presente na ironia como os sons e as guitarras são trabalhadas. O som de Detroit, de bandas como os Stooges e MC5, é reciclado num híbrido que prolonga os seus tentáculos pelo “hard rock” dos anos 70. Nos MRM, o “ácido”, mais do que lisérgico, é sulfúrico, tal a corrosão dos sons e o sabor a óleo e a ferrugem das palavras. A abertura, com o título “21st century flower power” é, para Paulo Coelho, a desmistificação feroz de uma maneira de estar na sociedade contemporânea. “A primeira flor do século XXI, em que as pessoas têm a tendência para ser mais materialistas”.
A assimilação de influências exteriores nunca constituiu, aliás, um problema para os MRM. “Temos uma atitude demasiado sincera, aquilo que ouvimos no dia-a-dia reflecte-se na música que fazemos. Era impensável, quando começámos a tocar, fazer uma versão dos Portishead, nem sequer conhecíamos essa música, que não tem muito a ver com o rock. Encontrámos nessa banda, ao nível das letras, qualquer coisa de misterioso.”
Acreditam que o rock não pode nem deve ser quadrado, mas sim evoluir para formas de sofisticação crescente. Termos como “rock sinfónico” e “música progressiva” não os assustam. “O rock, numa determinada altura, esgotou os seus recursos. O facto de as pessoas irem buscar influências aos anos 70 deriva desse esgotamento. Ao nível social, os anos 70 e 90 equiparam-se um bocado.” E se o psicadelismo, na sua forma original, não dispensava o uso de drogas alucinogéneas, a verdade é que os More vão por outro lado, interiorizando a mitologia sem lhes colher os (perniciosos) efeitos. “A nossa música tem a ver com todas as drogas, apesar de não as utilizarmos. Se calhar, talvez nos fizesse bem. É uma questão de estado de espírito.”
Na sequência do lançamento de “Equalizer”, os More poderão ser vistos num “videoclip” com o tema “Electric mastermind” – “sobre pessoas eternamente em busca de mitos, sem saberem onde os irão encontrar” -, estando a apresentação ao vivo do álbum marcada para amanhã à noite, no Garage, em Lisboa, num espectáculo que contará igualmente com a participação da banda convidada, Gasoline.