O vício é comprar, acumular discos. Vinilo ou compacto, consoante o gosto. O produto mais difícil de arranjar sempre foram as raridades estrangeiras.
Nos anos 60, pura e simplesmente era preciso ir a Inglaterra. Na década seguinte, já valia a pena entrar nas lojas nacionais, onde se encontravam muitos dos discos cujas críticas líamos sofregamente na “Rock & Folk”, “Best”, “New Musical Express” e “Melody Maker”. Não havia edições nacionais e o que chegava acompanhava de perto o panorama editorial do resto da Europa. Podia passar-nos pelas mãos e pelos ouvidos praticamente todo o catálogo Vertigo, da Espiral, discos a 180 escudos que hoje valem fortunas, nas respectivas edições originais: Bem, Dr. Z, Catapilla, may Blitz, Warhorse, Beggars Opera… Na Lanalgo, até se conseguia a edição original do mítico “It’ll all Work out in Boomland”, dos T. 2… Mas havia gente sempre insatisfeita, ávida de descobrir nomes ainda mais estranhos, impelida pela sedução das capas de abrir que alimentavam as páginas de publicidade dos jornais e revistas atrás mencionados. Esses arriscavam mandar vir directamente de fora, recorrendo aos serviços de firmas como a Tandy inglesa e a COB, do País de Gales. Era um sofrimento esperar pelo pacote que o carteiro tardava em deixar à nossa porta. E o êxtase quando, por fim, geralmente já desesperados, o pacote mágico chegava às nossas mãos. Quantas descobertas e quantas desilusões. Mas, sobretudo, quanto amor pela música.
Os anos 80 foram de recessão. Foi a década das edições nacionais, das más gravações e das capas para esquecer. Importações directas desapareceram. O que sobrou sumiu-se num ápice, catado pela ansiedade do coleccionador. Como compensação, surgiram as lojas de discos especializados – Bimotor, Contraverso, as pioneiras. Regressou o prazer da descoberta: Hector Zazou, Benjamin Lew, Wim Mertens, o catálogo Made to Measure, ainda nos “Lábios de Vinho”, ou industriais, SPK, Test Dept., e as obscuridades, Nurse With Wound, Negativland, os tesouros da Recommended, Art Bears, Jocelyn Robert, Steve Moore, Wondeur Brass… Sobreviveu-se.
Sem nos darmos conta – num dos intervalos em que se pára de arrumar discos na estante ou na delirante tarefa de reconversão do vinilo para compacto -, encontrámo-nos às portas do final do século com as músicas ao virar da esquina. Tamanha disponibilidade provocou, num curto período de tempo, nos mais viciados na música, a intoxicação. David Thomas, dos Pere Ubu, dizia – e com razão – que, nos anos 90, existe música a mais.
Para cúmulo, surgiu a Internet. Para os que não desistem de querer controlar, conhecer tudo, ouvir tudo, é o fim, a “overdose”. A angústia absoluta. As listas infinitas de todos os títulos que queremos possuir piscam-nos o olho no monitor demoníaco.
Sem querer alimentar o vício, aqui se fornecem os endereços da perdição. Há um sítio denominado CD World que dispara uma lista de 100 mil títulos disponíveis, divididos por 66 estilos musicais, a preços que rondam, em média, os 11 dólares (1650 escudos, mais portes). Tecle-se http://www.CDworld.com/ No velhinho “Yahoo” (http://www. yahoo.com/entertainment/music/genres), só no universo “Progressivo” (onde se inclui praticamente tudo o que escapa ao “mainstream” e com um cheirinho a diferença…), aparece uma lista imensa de casas exportadoras, na maioria norte-americanas, ou simplesmente de particulares com relações de discos afixadas com os respectivos preços, necessariamente mais elevados, uma vez que, na maior parte dos casos, se trata de exemplares para coleccionadores. Aqui vão os endereços de duas, para a loucura: Metro Music (http://www.idsonline.com/business/metro/) e Aeon Music (http://www. mediaonline.com/biozads/aeon/html). A lista geral encontra-se em http://www. cogsci.ed.ac.uk/~philkime/RMP/fag2.html. Em Portugal, até agora, apenas a Symbiose tem disponível o seu catálogo na WWW, como oportunamente noticiou na edição deste suplemento de 21 de Fevereiro.
No caso do CD World, o pagamento faz-se através dos cartões Visa e Mastercard (por fax, não vá algum espião “on line” fazer das suas) ou, com total segurança, através de um novo processo informatizado, explicado em pormenor na secção FAQ (Frequently Asked Questions).
Sentem o suor a escorrer? Não digam que não avisámos…
Madrid assistiu no Sábado passado ao ritual gótico dos Dead Can Dance perante uma assistência alucinada que se vestiu a preceito de “zombies” e vampiros para os receber. Tambores, muitos tambores, envolveram a voz sobrenatural de uma princesa dos livros e os espectros dançaram em liberdade em noite de “Haloween”.
A tarde fora triste para “nuestros hermanos”. Tragédia nacional, com a selecção espanhola a sucumbir aos pés dos algozes ingleses. Só faltavam os Dead Can Dance para o sábado ser “sabbath” negro em Madrid. Dia de finados. Noite boa para a banda de Lisa Gerrard e Brendan Perry encher de sons lúgubres e gemidos góticos o Teatro Monumental da capital espanhola. E, já agora, de pessoas, uma vez que a sala estava à cunha.
Ambiente a condizer. O negro imperava nas vestes de uma falange jovem da assistência. Elas com “look” vampirela, rendas e luto, cabelos eriçados, maquilhagem fosforescente, bruxinhas sensuais a afiar a pose e as garras. Algumas pintadas de branco marmóreo para melhor se parecerem com cadáveres. Eles ao melhor estilo Robert Smith ou, na versão “hard”, Eduardo Mãos de Tesoura. Quem não soubesse, julgaria tratar-se da enésima sessão de “Rocky Horror Show”. Mas não, eram os Dead Can Dance, na sua actual personificação de fantasmas do mundo, também eles vampiros de sons e tradições.
Passavam poucos minutos das dez quando a banda subiu ao palco. Oito músicos. Todos vestidos sem nada de especial à excepção de Lisa Gerrard que apareceu envolta em vestes de princesa medieval, túnica de um branco imaculado até aos pés, um manto azul-turquesa a cobrir-lhe os ombros, o cabelo louro, comprido, entrançado à volta da cabeça em forma de tiara, emoldurando uma face de palidez sobrenatural arrancada a um romance de Radcliffe. Na sua frente, uma cítara (saltério), que tocou como uma feiticeira a dar vida a sinos e cristais.
Esperava-se que os Dead Can Dance fizessem rodar as canções do seu novo e magnífico álbum, “Spiritchaser”, onde põem em destaque a faceta mais ritual da sua música. Afinal, num alinhamento de 14 temas, fora os “encores”, apenas quatro saíram desse disco: “Nierika”, a abrir, “Song of the dispossessed”, “The snake and the moon” e “Indus”, no fecho. Talvez porque as subtilezas que caracterizam “Spiritchaser” não se compadeçam por enquanto com as limitações técnicas de uma actuação ao vivo.
As percussões dominaram. Batuques, tambores, derboukas, bendirs, “rattlesnakes”, pequenas campainhas… “Nierika” e “Rakim” ribombaram, causando sobressaltos nos estômagos, numa invocação aos espíritos da Natureza que deu razão às doutrinas animistas professadas pela banda. Ouviram-se cantar as forças elementares, rochas, feras e vento, mas também a erva, os calhaus, as flores e pequenos bichinhos com muitas patas e antenas.
“Song of the dispossessed” mostrou Brendan Perry numa “imitação” vocal de Sting e “Yulunga” soltou da tumba as memórias do canto gregoriano, das trevas e luzes da Idade Média, embora sem os sintomas de peste que infectam as flores bizantinas dos SPK, em “Zamia Lehmanni”. O gelo derreteu-se em seguida com o Brasil a torcer-se de samba no balanço de “The snake and the moon”, para na parte final Brendan Perry experimentar as suas aptidões como guitarrista.
Chegados a “Tristan”, Lisa deixou ficar nos bastidores o manto de brancura, para se transformar na própria imagem de uma alma penada, errando por cânticos de súplica e apelos a divindades pagãs. Tristão e Isolda, ela e Brendan em diálogo de necromantes, sobre a liturgia de um órgão de filmes de terror. Neste, como em todos os temas que cantou ao longo da noite, Lisa demonstrou a imensa gama de potencialidades e registos de que a sua voz é capaz, qual Monserrat Figueras pop, borboleta esvoaçando entre as estrelas mas também vítima da sedução dos vermes e da putrefacção.
O “slow” e vocalização “à maneira antiga” de salão de baile, de Brendan, em “Dolphins”, foram uma parte gaga para esquecer, o mesmo não acontecendo quando Lisa solou pela primeira vez na cítara, em “Greek rembetiki”, de ressonâncias bizantinas. Mais guitarradas, em “American dreams”, antecederam o final, de novo em directo da campa, com seres saídos das profundezas a porem um sol negro pendurado sobre “Indus”.
Para trás tinham ficado quase duas horas de transe e nem uma única palavra dirigida a um público que não poderia ser mais fanático nem vibrante. Só já perto do final é que Lisa e Brendan se libertaram da tensão, consentindo em sorrisos que traíram o espírito de celebração “zombie” da noite. George Romero não teria encenado melhor esta procissão de figuras e sons em trânsito entre este mundo e o outro. Se é verdade, como já dissemos, que o velório gótico se sobrepôs aos rituais “etno” de “Spiritchaser”, não o é menos que os Dead Can Dance souberam teatralizar na perfeição o seu “grand guignol” de fantasmas diplomados nos vários folclores do globo.
Três encores, exigidos e recebidos pelo público madrileno com “olés”, fizeram esquecer em definitivo a desfeita que lhe fora feita de tarde, aos pontapés na bola, pelos bifes. Um “bolero” de mortos-vivos, uma batucada infernal no instrumental “Tanamakoa” e “Dreams made flesh”, com Lisa e Brendan fazendo par na cítara e nas vozes, puseram ponto final no “rondó”. Os sonhos fizeram-se carne e espantaram os espíritos. Dead Can Dance. Os mortos podem dançar.
John Cleese era a figura com maior carisma dos Monty Python, o mais fantástico grupo de humoristas de todos os tempos. Monty Python’s Flying Circus, a série de televisão que os tornou célebres do mundo subatómico aos confins da galáxia, está a partir de agora disponível no mercado vídeo de venda directa. Será que o Governo português vai cometer o mesmo erro que o seu congénere britânico cometeu há 25 anos e “gastar menos dinheiro com o Ministério dos Passos Disparatados do que com a Defesa Nacional?” John Cleese “dixit”.
Um homem de gabardina, John Cleese, entra numa loja de animais para protestar. Venderam-lhe um papagaio morto. O vendedor, Michael Palin, procura a todo o custo convencê-lo de que o animal está apenas a dormir. O homem bate com a ave várias vezes no tampo do balcão. “Está morto, faleceu, finou-se, bateu a bota, deu o berro, entregou a alma ao criador!” O outro insiste: “Não, não! Está a dormir!” magnífica metáfora sobre a condição humana. E um dos “sketches” emblemáticos dos Monty Python e do seu Flying Circus, série que a RTP exibiu recentemente e cujo primeiro pacote se encontra a partir de agora disponível no mercado vídeo de venda directa.
O “sketch” do papagaio, como é conhecido, tem, à semelhança de muitos outros, o seu “script” totalmente transcrito para uma das várias páginas da Internet dedicadas aos Monty Python, a maior “troupe” de humor de todos os tempos. Mestres absolutos do “nonsense”, o humor dos Monty Python marcou a sua época, entre 1969 e 1974, cinco anos que abalaram o tradicional conservadorismo britânico através da série televisiva Monty Python’s Flying Circus.
O impacte atingiu Portugal dois anos a seguir ao 25 de Abril, em 1976, criando-se desde logo um fenómeno de culto, reforçado na década seguinte, com uma primeira reposição, interrompida a meio. Este ano, os Monty Python regressaram pela terceira vez aos ecrãs nacionais, com a exibição diária da série, na RTP1, que, uma vez mais, não respeitou a sua ordem cronológica nem contemplou a totalidade dos episódios.
Pior ainda, talvez com receio de chocar ou ferir susceptibilidades (passado um quarto de século, a televisão do Estado ainda tem destes medos!), a castidade dos programadores levou-os a arrumar, é o termo, este monumento ao humor universal num horário obsceno, já de madrugada e com a agravante de o retalhar com odiosos intervalos. Decerto em nome dos bons costumes e com a pia intenção de poupar o grande público à iconoclastia e à influência nefasta que o grupo poderia exercer sobre as mentes da nossa juventude.
Os que eram fanáticos, claro, não perderam um episódio, mantendo-se firmes no seu posto, nem que tivessem de esperar até às quatro da manhã. Ou então ligando o gravador. É que tão bom como ver pela primeira vez um episódio dos Monty Python é revê-lo vezes infinitas. Mas os novos, os desconhecedores, todos os que não tiveram nem o privilégio nem a felicidade de ter conhecido a obra dos Monty Python ficaram a perder. Porque ainda estavam mortos? Não, porque estavam a dormir!…
A partir de agora, porém, toda a gente vai poder desfrutar em casa do humor dos Monty Python. Para os tais fanáticos – pois não se pode gostar dos Monty Python de outra maneira, que não os venera detesta-os – é a oportunidade de conservar para a posteridade, nas melhores condições técnicas, o objecto da sua devoção. Para levar para casa, existe, para já, um primeiro volume, contendo os primeiros quatro episódios da primeira série: 126 minutos de delírio, de génio, de pura religião com o seu templo e os seus sumo sacerdotes, contendo “sketches” clássicos como (só a menção dos títulos, provoca um júbilo irreprimível) “Artur ‘duas cabanas’ Jackson”, “A anedota mais engraçada do mundo”, “O homem com três nádegas”, “O problema do rato”, o antológico “sketch” “do Restaurante”, “Cotoveladas” ou “Autodefesa”. Todos sublimes. Todos capazes de enviar um cérebro inteligente para o hiperespaço do riso. Aliás, os tradutores encontraram bons títulos descritivos, como “Palestra francesa sobre carneiros aeronaves” ou “No tribunal (testemunha no caixão/cardeal Richelieu)”, opção deliberadamente esotérica, dirigida, em primeiro lugar, aos iniciados.
Formavam os Monty Python cinco personalidades únicas: John Cleese, Eric Idle, Micahel Palin, Graham Chapman e Terry Jones. Um sexto elemento, Terry Gilliam, era o responsável pelas montagens animadas da série, embora também tivesse esporádicas participações como actor. Mais tarde viria a notabilizar-se na realização, através de filmes como “Brazil”, “O Rei Pescador” ou o recente “12 Monkeys”. Neil Innes, do grupo cómico musical Bonzo Dog Doo Dah Band, e Carol Cleveland foram dois dos convidados mais assíduos. Graham Chapman – o “Brian” da longa-metragem do grupo “A Vida de Brian” – já morreu.
Com o fim da série, que mantiveram intermitentemente durante cinco anos na BBC, iniciaram um novo período de actividade, durante o qual, ainda como Monty Python, fizeram quatro longas-metragens, qualquer delas histórica, “And now for Something Completely Different…”, de 1971, inédito em Portugal, “O Cálice Sagrado”, de 1975, “A Vida de Brian”, de 1979, e “O Sentido da Vida”, de 1983. A partir daí, cada um seguiu uma carreira em separado, com esporádicas associações em filmes ou documentários.
O conjunto total com o genérico Monty Python’s Flying Circus – atenção, tomem nota, para não deixar escapar nada – divide-se em quatro períodos temporais, correspondentes a outras tantas séries de programas. A primeira foi para o ar na BBC a 5 de Outubro de 1969, aí se mantendo até 11 de Janeiro de 1970. É constituída por 13 episódios. A segunda é formada pelos episódios 14 a 26 que estiveram em exibição entre 15 de Setembro e 22 de Dezembro de 1970. A terceira, com os episódios 27 a 39, durou de 19 de Outubro de 1972 a 18 de Janeiro de 1973. A quarta e última, episódios 40 a 45 (sem John Cleese), encerrou o ciclo, entre 31 de Outubro e 5 de Dezembro de 1974. Existem ainda mais dois episódios adicionais, gravados para a televisão alemã, de genérico “The German Episodes”. No total, uma obra com a dimensão e a importância de “Guerra e Paz”, “O Anel dos Nibelungos”, a Enciclopédia Britânica e sexo.
Sim, o SEXO. Os Monty Python reinventaram o sexo para o destruir e reinventar de novo e redestruir e… como reinventaram a religião para a destruir, para… e a política, e o desporto, e a arte, e os papagaios, e os juízes, que eram sempre “travestis”, e os polícias, e os ingleses, e os franceses, e os escoceses, sobretudo os escoceses, de Johann Gombolputty – dois minutos de apelidos – von Hautkopff of Ulm, e a Inquisição (“Nobody expects the Spanish Inquisition”, tchatcham!) e tudo o mais que existe á face da Terra, sem esquecer Ken Buddha e os seus joelhos insufláveis. E até, escândalo dos escândalos, a rainha. Sim, um dos episódios, dos mais ordinários e com o humor mais negro, mesmo próximo do mau-gosto, da série, é-lhe especialmente dedicado. O “sketch” que encerra este episódio é mais ou menos assim. Trata-se de um diálogo entre um cliente (John Cleese) e o empregado de uma agência funerária. Cliente – A minha morreu. Empregado – É para enterrar, cremar ou deitar fora? Cliente (hesitante) – Bem… Empregado – Trá-la consigo? (o cliente acena com a cabeça e atira com um cesto para cima do balcão). Já considerou a hipótese de a comer, temos um belo forno… Cliente (ainda hesitante) – De facto, tenho alguma fome, mas não sei se… E se me sentir mal? Empregado – Não há problema, pode vomitar que nós depois apanhamos e atiramos para a cova. Fim do “sketch”. Com dedicatória a sua majestade.
Mas o humor dos Monty Python é uma moeda com mais de duas faces. A sua essência está no talento para extrair humor de qualquer faceta da vida, por mais ínfima que seja. Os Monty Python inventavam a vida. Tudo, mas mesmo tudo, era usado como fonte de gargalhada ou sorrisos. De transgressão. Puro gozo interior. O êxtase supremo de quem está a fazer humor é ter ao mesmo tempo consciência dele próprio no próprio instante em que está a ser criado. Deste modo se explica o caos estrutural, por vezes no limite do aleatório, que anima e sustenta alguns episódios da série. Nestes, um “sketch” confunde-se, transforma-se ou alterna com outros, aniquilando toda e qualquer espécie de lógica narrativa ou de linearidade temporal. Ladrões do tempo. O intervalo tanto podia surgir no princípio como no fim. Episódios inteiros terminavam antes do tempo (!), com o restante preenchido com interlúdios que tanto podiam ser o ecrã completamente negro, como o logotipo da BBC ou John Cleese dentro de uma armadura, passeando numa praia deserta com um frango depenado na mão.
Além do mais, os cinco Monty Python eram extraordinários actores. Vale a pena visionar vezes sem conta cada episódio só pelo prazer de saborear as entoações, as expressões e os pequenos gestos das personagens, segundo uma espontaneidade encenada ao pormenor. Monty Python’s Flying Circus é o humor na sua expressão mais elevada. Cada vez que a série é reposta, cada cena vista e revista centenas de vezes, apresenta sempre algo de novo, numa pluralidade incontável de níveis de leitura. Mesmo antes, há já uma antecipação emocional, uma comoção estética que apenas os fãs dos Monty Python compreendem e sentem. Melhor do que ver um episódio dos Monty Python só discutir um episódio dos Monty Python. Quando dois fanáticos dos Monty Python se encontram para conversar sobre os seus heróis, sentem-se unidos por um elo iniciático. O riso transforma-se num acto sagrado. Os Monty Python pertencem ao domínio do sagrado. Os Monty Python pertencem ao domínio do sagrado. A mesma impressão de sagrado que sentiram os milhares de fiéis que nos dias 26, 27, 28 e 29 de Setembro de 1980 se reuniram no Hollywood Bowl, para assistir a uma memorável apresentação do grupo, ao vivo, num espectáculo cuja síntese também se encontra gravada em cassete vídeo no mercado português. “Albatross!”
Perdoem-me se me excedi.
Mas nos sabemos que entre os deuses vivia, e continua a viver, um deus maior. Silêncio. Chama-se John Cleese. A simples menção do nome provoca arrepios de prazer. John Cleese é o mago. O dominador absoluto da arte de fazer rir da forma mais inteligente. John Cleese está marcado pelo humor desde que nasceu, em 27 de Outubro de 1939, em Weston-Supermare (dava um belo título para um “sketch”), no Somerset. O pai chamava-se Reginald Francis Cheese (“queijo”), mudando o apelido para Cleese quando entrou para o exército. Cleese recebeu tratamento psiquiátrico, escreveu livros e continua a representar no cinema. Em televisão, depois de Monty Python’s Flying Circus, realizou com a sua mulher Connie Booth e interpretou a série Fawlty Towers, também já exibida na televisão portuguesa. Quem não se lembra de Manoel, o impagável empregado espanhol da pensão, ou do episódio dos nazis?
Participou como actor, entre outros filmes, em “Os Ladrões do Tempo”, “Clockwise”, “Silverado”, “Um Peixe Chamado Wanda”, “Erik the Viking: The Book of the Film of the Book” e, mais recentemente, tem uma aparição esporádica no “Frankenstein”, de Kenneth Brannagh. No teatro, ainda hoje representa Shakespeare. No registo mais sério que se possa imaginar. Realizou o vídeo “Como Irritar as Pessoas” (“o segredo é dar a entender que não se faz de propósito”…).
John Cleese sente-se particularmente à vontade no papel de psicopata ou em todas as personagens que envolvam histeria. Não resistimos a descrever duas cenas memoráveis, ilustrativas desta sua faceta. Uma é o “sketch” em que faz de instrutor numa aula de autodefesa contra peças de fruta. O seu grito de desafio para um dos alunos, “Hit me with a banana!”, faz parte da História. Outra é uma sequência inteira de “Cálice Sagrado”, quando invade, alucinado, um encantador casamento que se está a celebrar num pacato castelo medieval. Investido com as armas de Cavaleiro da Távola Redonda, vai chacinando sucessivamente todos os convidados. No auge da alucinação, volta atrás numa escadaria, só para decepar à espadeirada uma vela que se encontrava no seu caminho. Quando, no meio de um mar de sangue, em pleno átrio do castelo, se dá conta do equívoco, pede desculpa. Tinha sido um engano.
Num registo diferente, o domínio absoluto do corpo, há outra cena para rever até ao fim dos tempos. A dos passos disparatados. Se a versão original da série é um portento de hilaridade, a versão ao vivo no espectáculo do Hollywood Bowl ainda é melhor. Só visto e revisto. “No ano passado, o Governo gastou menos dinheiro com o Ministério dos Passos Disparatados do que com a Defesa Nacional!”, desabafa Cleese e acerta altura.
Para terminar, duas observações de John Cleese, na área das relações humanas: “Penso que o cimento é mais interessante do que as pessoas julgam” e “Por favor, desculpe a minha mulher. Ela pode não ser muito bonita, não ter muito dinheiro, não ter qualquer espécie de talento e ser chata e estúpida, mas por outro lado ela… perdão, não me consigo lembrar de mais nada!”
“And now…”