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Artigo de Opinião: Os Melhores de Sempre – Música Portuguesa – Raízes – “Diabo Do Belho!…!

Pop Rock

24 de Abril de 1996
Os melhores de sempre – música portuguesa

Raízes Diabo do Belho!…


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Como foi

Firmino Neiva entrou para os Raízes pouco tempo antes da gravação de “Diabo do Belho!…”, o melhor disco do grupo e um clássico da música portuguesa de raiz tradicional. Para traz tinham ficado dez anos vividos na Dinamarca, onde começou a interessar-se pela música tradicional e tocou “com alguns irlandeses”. Por cá os Raízes tinham já gravado um primeiro álbum, concluído um período fértil em espectáculos e efectuado um trabalho de recolhas, “essencialmente no Baixo Minho, nas zonas de Ponta da Barca, Portela, Barroselas e Vila Verde”, que seria aproveitado para “Diabo do Belho!…”. Neste disco, porém, o grupo teve alguns pruridos em usar o termo “recolha”, já que nessa actividade depararam com situações problemáticas. “Chegámos a fazer recolhas de um mesmo tema, com um intervalo de quinze dias, num mesmo local, com as mesmas pessoas, e as coisas serem totalmente diferentes”. A escolha entre diferentes interpretações, quando não tentavam “conciliar as duas”, acabava por ser ditada pelo “gosto particular” dos elementos do grupo e pelo que achavam que “devia ser divulgado”. “Quando se fazem recolhas ou se apanham coisas em estado muito bruto ou então já muito alteradas e deterioradas. Mas também é isso que mantém a música tradicional viva, ir-se transformando todos os dias”.
Firmino Neiva cita a este propósito “muitos cantares minhotos que vêm da prática das pessoas cantarem na igreja, os romeirinhos ou as sachadas. A igreja influenciou a maneira de cantá-los”. “De repente”, conta, “nas recolhas que ouvíamos havia harmonizações que tinham mais a ver com música de igreja do que propriamente com música popular. Aí tentávamos recuperar a maneira tradicional, comos e canta no campo, numa sachada ou numa desfolhada”. Há ainda o caso, recorda, de “umas pessoas velhotas que cantavam uma coisa muito gira mas que não batia muito certo com aquela zona”. Mais tarde descobriu-se que era a “música de uma opereta que tinha passado por Lisboa em mil novecentos e vinte e tal”.
“Diabo do Belho” foi gravado em Fevereiro de 1985. “Em termos de facilidades técnicas não há comparação possível entre este e o primeiro disco. O primeiro foi gravado em sete horas, as pessoas numa sala, toca a tocar, quase uma gravação ao vivo, enquanto neste tivemos já três ou quatro dias de estúdio. Com outro cuidado com o som e a execução técnica”. No bolso ia já uma maqueta previamente preparada e gravada num pequeno estúdio pertencente à banda. “Já levávamos o disco feito para estúdio. Foi só chegar lá e tocá-lo, não houve praticamente produção”. Durante o tempo de gravações tudo correu sobre rodas, excepto para o próprio Firmino Neiva, quem sucedeu, segundo diz, “um desastre”. “O disco foi gravado naquele que é hoje o estúdio Namouche. Estava a meter umas braguesas. Estava de botas e a bater o pé ao ritmo da música. O Moreno Pinto, técnico de som, disse-me ‘Ou tiras as botas ou deixas de bater com o pé!’. Tirei as botas e fiquei em meias. Acabei o ‘take’, vou por ali acima a correr, até à ‘régie’. Aquilo tem três ou quatro degraus encerados. Escorreguei, fiz uma luxação no ombro. As gravações acabaram para mim, nesse momento. Felizmente já só faltava um dia e meio. Até aí tinha sido esplêndido”.
Para além dessa “tragédia” pessoal, não faltaram momentos de boa disposição. Como aquele proporcionado por Rão Kyao que, na altura, se encontrava a gravar, com António Chainho, no mesmo estúdio. “Andavam a tentar descobrir um nome para o disco. Acontece que o estúdio fica mesmo em frente ao Jardim Zoológico, ao lado dos pássaros. Houve até títulos provisórios, como ‘Papagaios’. Até que um dia, já desesperados, olharam para a rua. Estava lá o nome do disco. Mesmo em frente, leram uma placa a dizer ‘Estrada da Luz’”.
“Diabo do Belho”, por seu lado, deve o título a uma canção do mesmo nome para a qual o grupo fez um arranjo de cordas, retirada de um cancioneiro. “Normalmente são as pessoas idosas, com quem trabalhámos nas recolhas, que ainda se lembram das coisas. Por isso, nada melhor do que falar delas num dos temas”. Existe ainda outro elo de ligação, bem mais picaresco. “Posteriormente *a gravação, um amigo nosso, o Nuno Pignatelli, autor do texto que aparece na capa, escreveu uma pequena peça de teatro, onde nós participávamos musicalmente, encenada pela Companhia de Teatro Cena, à volta do tema dos velhos. Havia um narrador que ia falando sobre os velhos enquanto no palco iam passando várias cenas. O espectáculo dos Raízes começava com uma deixa, quando um velho apalpava o cu a uma mulher e esta gritava ‘Ai o diabo do velho!’”
Em termos comerciais, “Diabo do Belho!…” obteve uma resposta significativa. Pelo que sabemos, por linhas travessas, o disco vendeu bem. Passados três ou quatro meses, à volta de cinco mil exemplares”. A partir daí “perderam o controlo da situação”, uma vez que a editora faliu. Em relação á posterior reedição em compacto, pela Movieplay, Firmino Neiva apenas lamenta que esta tenha destruído o “design” original da capa. “A capa também faz parte da obra. Quando alteram a capa estão a alterar a obra”.
Apesar de tantos contratempos, os Raízes continuam na estrada, se bem que a sua carreira tenha entrado nos últimos anos na penumbra. Actuam em romarias, nas universidades, em congressos de professores. Ou então vão para a Galiza ou a vários festivais na Europa. Firmino Neiva espera que a situação dê uma volta de 180 graus. O grupo evoluiu, refinou-se, enquanto espera nova oportunidade. “Sem vaidade, acho que o caminho dos Raízes seria, à nossa maneira, idêntico ao que acabaram por fazer os Gaiteiros de Lisboa”.

Como é

Não fez a revolução. Mas trouxe algo de novo para a música de raiz. “Diabo do Belho” exala uma frescura que não se sente com a mesma intensidade, por exemplo, nos Almanaque ou no primeiro Vai de Roda, sem que tal significasse uma menos ligação com as… raízes. Depois, o grupo conseguiu um feito notável, que foi o de recriar a tradição do Minho sem resvalar para o estereótipo da chula. Exemplar é, neste particular, o trabalho levado a efeito sobre os ritmos, que empresta a “Diabo do Belho” uma variedade e riqueza que apenas encontramos, na primeira geração de grupos de música de raiz tradicional, na Ronda dos Quatro Caminhos. Repare-se em temas como “Ribeira (ribeira qu’és tamanha)”, “A caminho da romaria” ou “Ó Ana ó que linda Ana”, onde a batida, ritual, dispensa os habituais pontapés dos bombos nos rins da subtileza (os do “Malhão do Souto” final suportam-se bem, já que as vocalizações desviam convenientemente a atenção…). A consequência – e bênção para os ouvidos – repousa no acento posto nas polifonias vocais – tratadas em estúdio com toda a sofisticação possível – e na gaita-de-foles que, sempre que chamada a pronunciar-se, o faz com uma desenvoltura e clareza tímbrica de fazer inveja a muita gente. Duas canções entram na selecção das mais belas de sempre gravadas e tratadas por um grupo urbano: ““Diabo do Belho”, exemplo de que o mal não está nas violas e nas braguesas, mas na falta de criatividade com que na generalidade são utilizadas, e a espantosa versão de “Rosa tirana”, com lugar de destaque no “top ten” das “interpretações em estado de graça”. Três instrumentais, a fuga aos lugares-comuns e o único senão de ter apenas 29 minutos de duração (mas talvez resida nesta contenção o segredo das virtudes até aqui apontadas) contribuem para fazer de “Diabo do Belho” um oásis bastante mal tratado na posterior reconversão para compacto.



Artigo de Opinião: Os melhores de sempre – música portuguesa – Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes do Manhouce – “Cantares da Beira”

Pop Rock

10 de Abril de 1996
Os melhores de sempre – música portuguesa

Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes do Manhouce
Cantares da Beira


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Como foi

O Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes do Manhouce formou-se pouco tempo antes da gravação do primeiro disco, “Cantares da Beira”. Na origem da sua formação, está, diz Isabel Silvestre, solista principal, “o gosto de cantar da gente do Manhouce”. “Uma função vital. Trabalhava-se e cantava-se na ceifa, nas malhas, em todos os trabalhos agrícolas o cantar era parte integrante.” Um canto que vai ainda buscar alento e alimento “a outra fonte, religiosa”, a “dois conventos perto, de Arouca e de São Cristovão de Lafões”. “As pessoas assistiam aos actos litúrgicos e transportavam-nos para os seus trabalhos, sobretudo agora na época da Semana Santa. Davam-lhes a volta, aquela volta que o povo costuma dar àquilo de que gosta.”
De 1982 para cá, o grupo sofreu algumas alterações. “Temos ainda muita gente do primeiro grupo, as pessoas essenciais continuam, e há gente nova.” Isabel Silvestre considera “interessante” a existência actual de “um espectáculo diferente do habitual”, com “três grupos, um de cantares, outro de danças, também de Manhouce, e um terceiro, de teatro, de São Pedro do Sul”. Idealizado por Jaime Galheiro, “um homem do teatro”.
Isabel Silvestre canta “desde miúda”. “Uma das coisas que Manhouce consegue é ter música desde o berço. Desde o berço até à cova. Do ‘Laru’, uma canção de ninar, para acalentar e adormecer os meninos, até ao ‘Senhor fora’, quando o padre vai visitar o doente que está muito mal.”
O reportório do grupo é constituído por canções “quase, quase só de Manhouce”. “Manhouce tem várias influências. Dos trabalhos que se iam fazer fora, ao Douro ou ao Alentejo, mas também a influência do mar. Passava por aqui a estrada romana que ligava Porto a Viseu. As pessoas pernoitavam e durante essa noite havia uma troca de saberes. Temos uma série de canções do mar como ‘Andorinha ligeira’, ‘Vai marinheiro, vai, vai’ ou ‘Olha a barca, olha a barca’.”
Todo este reportório não está sujeito a modificações. “As canções permanecem exactamente como nos foram transmitidas, simplesmente, temos a preocupação de arranjar um tom em que as três vozes se consigam harmonizar.”
“Cantares da Beira” surgiu da vontade forte, partilhada por todos os elementos de grupo, de conservar a sua música. “As pessoas da minha geração têm e tiveram a preocupação de gravar. Agora liga-se a televisão e há música. As pessoas desinteressaram-se das outras coisas. E há gravadores, gira-discos, carrega-se num botão e a música está feita. Nós tínhamos pena. Preocupava-nos deixar perder as cantigas.” A oportunidade para gravar surgiu durante uma actuação do grupo em Lisboa, na FIL. “Quando saímos do palco veio uma senhora ter connosco perguntar-me se não queríamos gravar. Tomáramos nós” A senhora era a Margarida, actualmente casada com David Ferreira. Assim aconteceu, fomos por aí abaixo e gravou-se o disco.”
Para Isabel Silvestre, a influência do produtor Mário Martins foi determinante para não se sentir a transição do espaço rural para o interior do estúdio. “Esteve em Manhouce, para escolhermos o reportório.” Relembra uma ocasião especial, “marcante não só para ele”, como para o próprio grupo. “Estávamos na escola primária, o local onde ensaiámos, um dos elementos fazia anos, era Inverno, estava frio. Fomos para casa desse elemento, fizemos uma fogueira, ele foi buscar um presunto. Olhe, a noite deixou de ser noite!”
“Cantares da Beira” foi gravado numa única sessão sem sobressaltos. “Apenas se pediu ao baixo que cantasse mais perto do microfone e fizesse com a voz aquilo que normalmente seria um bombo a fazer.” Dito desta maneira, não se adivinham as contingências que rodearam a presença do grupo nos estúdios de Paço de Arcos. “Chegámos de manhã e o disco estava gravado à tarde. As pessoas trabalhavam, saímos daqui á noite, chegámos a Lisboa às tantas da madrugada e às nove da manhã estávamos a gravar.” Aconteceu assim em todos os discos. Num deles, tinham mesmo marcado uma entrevista com o Presidente da República, então o general Ramalho Eanes. “Às quatro da tarde. Tínhamos estado no Brasil e trazíamos de lá uma mensagem para entregar. Cantámos na Sala dos Retratos e ainda bebemos um Porto.”
Depois de “Cantares da Beira” seguiram-se outras gravações. Com outros meios e uma produção mais forte, que no álbum de cantares religiosos tornou mediático o nome do Grupo Etnográfico de Cantares e Trajes do Manhouce e famosa a sua voz principal, Isabel Silvestre. Nesta transição há quem considere que alguma da genuinidade (e ingenuidade…) original se perdeu, substituída pelo profissionalismo e pelo gosto de agradar. Isabel Silvestre nega que tal tenha acontecido. “A maneira de o grupo cantar as canções está absolutamente a mesma. Não sabemos cantar diferente. Fui uma das pessoas que estiveram sempre contra fazer-se arranjos. Disse mesmo: ‘Olha, se vocês fizerem isso, saio, imediatamente, não estou aqui a fazer nada.’ Temos realmente que pegar naquilo que nos foi legado e dá-lo a conhecer tal e qual. Não temos o direito de andar a desfazer aquilo que foi guardado durante tanto tempo.”
Isabel Silvestre, actual presidente da Junta de Freguesia de Manhouce, reparte o seu tempo entre o grupo e o Gabinete de Expressão Musical e Dramática desta localidade, onde faz recolhas, de Manhouce e da zona de Lafões. “Estou metida dentro de uma camisa de sete varas. Quase não tenho tempo de ter tempo para mim.”
Tem também publicado o livro “Cancioneiro Popular de Manhouce”, estando prevista a saída, em Setembro, de “Memória de Um Povo”, uma obra “mais completa”, onde faz um levantamento de “lenga-lengas, contos, ladainhas, provérbios e gastronomia” de Manhouce. “Tudo aquilo que faz parte desta terra e desta gente.”
Na forja está a edição, em Setembro, na EMI-VC, do seu primeiro álbum a solo, do qual, por agora, não quer adiantar pormenores, e de uma colectânea, “uma coisa ainda no ar”, a sair, talvez, no próximo Verão, dos Cantares de Manhouce.

Como é

Entre a pureza, por vezes rude e impenetrável, do “étnico” e a sofisticação do “trad. arr.”, o Grupo de Cantares de Manhouce transpôs com a maior simplicidade a ponte que une o rigor do estudo ao prazer da escuta descrompometida. “Cantares da Beira”, colecção ainda não maculada pelas garras e mandíbulas do mercado, é uma claridade que dia após dia corre o risco de se apagar. Se o método e escolha de reportório estavam aqui ainda longe de quaisquer preocupações de agradar aos ouvidos acomodados da cidade, como viria a acontecer no posterior “Cânticos Populares Religiosos” – um álbum destinado a enfileirar nas prateleiras de “world music”, ao lado das vozes búlgaras que então se faziam ouvir com força a ocidente -, o que se deve procurar em “Cantares da Beira” é, antes, a intimidade com as raízes, a não adulteração dos gestos e ciclos primordiais, a pureza infantil de dizer na voz activa o que a alma canta quando o corpo trabalha.
O Grupo de Cantares de Manhouce faz o que deveria ser feito em cada localidade deste país de esquecimento. Preservar e dignificar uma tradição. Mantê-la viva e actual e acarinhá-la. Transmiti-la de geração em geração como um elo que garante a identidade e a linguagem. Acontece assim, bem perto de nós, na Galiza. Acontece assim na Irlanda. Acontece assim em todos os lados onde a ideia de “civilização” ultrapassa a mera lógica mercantilista e contabilística. Manhouce tem a sorte de ter o seu grupo, como Carvalhais a sua tuna, ou o Alentejo os seus corais. Mas depois, quando os mais velhos desaparecerem, o que ficará? Quais e quantos os náufragos que sobreviverão ao naufrágio causado pela incultura, pela estupidez e pelo desinteresse oficiais de um Estado com o cadáver engravatado numa forca de Bruxelas?
Isabel Silvestre e o Grupo de Cantares de Manhouce cumprem uma tarefa de que outros se aproveitarão para facturar, sempre em nome do povo, sempre em nome da Kultura. Mas o que importa é que o seu canto, o canto de “Don Solidon”, “Ó meu amor quando fores” ou “Lá vem o vento da noite” chegue ao destinatário certo. Ao que, em silêncio, no bulício do século, no gesto ritual que amanha a terra, no devaneio da noite que o fogo aquece contra a pedra, demanda saciar-se na água da fonte.



Artigo de Opinião: Os Melhores De Sempre – Música Portuguesa – Vai De Roda – “Vai De Roda”

Pop Rock

6 de Março de 1996
Os melhores de sempre – música portuguesa

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Como foi

Em 1983, Vai de Roda era uma Cooperativa étnico-cultural. “A única, nessa altura, em Portugal”, garante Tentúgal, desde sempre mentor deste projecto. “A ideia era também a edição de textos ou a construção de instrumentos, que construíamos rudimentarmente, sobretudo percussões, além de fazermos recolhas e investigação.” A cooperativa formou-se, “em termos legais, em 80, 81”. Na prática, porquanto o nome ainda se encontra registado, extinguiu-se em 1986. O grupo musical propriamente dito surgiu “em finais de 1978”. Demos o primeiro concerto, de uns 20 ou 25 minutos, para um público adulto e ainda com um reportório restrito, em Fevereiro de 1979.”
Em termos estéticos, o grupo encontrava-se, nesta altura, num estado embrionário. “Um Vai de Roda ainda um bocado rural”, diz Tentúgal, “embora apresentando já algumas propostas diferentes.” Uma proposta que valeu então ao grupo algumas críticas e incompreensões. Nela estavam contidos excertos de uma banda sonora composta anteriormente por Tentúgal “para um filme da antiga telescola. ‘Sortelha, Uma Aldeia da Beira’”. Doze minutos de música que “serviram de pista para o encadeamento do disco”, vindo mesmo, parte deles, a integrar os primeiro e último temas do álbum. “A ideia conceptual de agrupar uns temas” para um disco, “de lhes dar uma sequência lógica” deparou com algumas dificuldades, devidas ao formato em vinilo. “Por causa da obrigatoriedade da mudança de lado.”
A gravação estava prevista para acontecer cinco anos antes. Não aconteceu, “devido a problemas com as editoras”. “Só através de conhecimentos e de algumas cunhas, entre aspas, se conseguiu gravar o disco. E numas condições não digo deploráveis, mas extremamente limitativas.” Seja como for, a obra nasceu. E com mais três dias de estúdio a juntarem-se aos outros três previamente agendados. Mesmo assim, “era de manhã, à tarde e à noite”. “Saíamos à uma da manhã, íamos dormir e às nove já tínhamos que estar novamente no estúdio. Era extremamente cansativo.”
Treze pessoas, fazendo jus ao estatuto de cooperativa que os Vai de Roda então ostentavam, não constituíram na altura dificuldade. “Havia um mapa de gravações, os músicos não vinham todos de cada vez, podiam desopilar um pouco.” Era, contudo, gente a mais, o que levou o grupo “a perder”, mais tarde, “um bocado aquele espírito de cooperativa”. Problemas na gravação, não houve que afectassem de forma significativa a ordem de trabalhos. Tentúgal recorda, mesmo assim, um percalço acontecido com uma mistura, que obrigou o grupo, na última noite, a sair às cinco da manhã. “Problema de fitas ou de corrente eléctrica que foi abaixo” – a memória já apagou dos seus circuitos o incidente.
Ao contrário de “Terreiro das Bruxas” e do próximo “Polas Ondas”, onde algumas das decisões foram tomadas durante as gravações, “Vai de Roda” levava a lição bem estudada de casa, não dando ligar ao imprevisto. “Devido ao pouco tempo que tínhamos, já estava tudo definido.” Excepção feita ao último tema, “Oh que calma vai caindo”, “que permitiu um pouco mais de liberdade”, na sua condição de “quase uma resenha do pensar a música e os ambientes tradicionais, com rezas e a gaita-de-foles”. Houve ainda o caso de uma das cantoras, que um dia não quis cantar, por “não se sentir bem”. O próprio Tentúgal cantava aqui bastante menos do que no álbum posterior, talvez por nessa época estar ainda pouco confiante, neste particular, nas suas capacidades.
“Ainda hoje não confio”, diz, a rir, embora outros o convençam do contrário. “O Quico, por exemplo, antigo teclista dos Salada de Frutas e actual técnico de som do Intercéltico, está farto de me dizer para ter mais confiança, que a minha voz é porreira, que tenho é de começar a cantar mais.” O homem da sanfona, cuja voz confere a temas de “Terreiro das Bruxas” como “Rosinha vem-te comigo” ou “La Vitorina” um fascínio especial, sorri, preferindo conferir à sua música outros protagonismos.
A sanfona preparava, entretanto, terreno para o seu futuro reinado. “Um sonho já de alguns anos” que teve, finalmente, a sua oportunidade. Em “Vai de Roda” ainda prestava alguma vassalagem à “conceptualidade”, aspecto que então mais preocupava Tentúgal, “inclusive no palco”. Uma encenação musical que privilegiava a utilização de “instrumentos não tidos como musicais”, como o piassaba, as vassouras, o demónio da floresta ou as caixas de ovos. “Era o jogo das sonoridades que era importante. A criação de imagens e de ambientes, por vezes, nos concertos, criados no meio do público.”
“Vai de Roda”, sendo como é um marco da música popular portuguesa, terá vendido, nas suas duas e únicas edições em vinilo, cerca de 2500 exemplares. Tentúgal não acredita nesse número, divulgado pela editora. “Acho que vendeu mais.” Impossível, no entanto, verificar essa intuição. “Cheguei a apanhar, numa feira normalíssima, uma cassete pirata do álbum, que ainda guardo comigo.”
Tentúgal ainda hoje sente orgulho nesta estreia em disco dos Vai de Roda, desde sempre o seu projecto mais querido. “Muita gente se esquece deste disco. Só se começou a fazer justiça ao Vai de Roda com o ‘Terreiro das Bruxas’, o que é pena, até porque este primeiro álbum marcou um pouco a história de outros grupos. O próprio ‘Contraluz’, da Brigada, é já uma aproximação á nossa filosofia, de uma certa conceptualidade das coisas e dos temas encadeados uns nos outros. Como facto de irem buscar os pregões e musicá-los. Uma filosofia que já existia nos Vai de Roda, de ir buscar outras sonoridades que não, apenas, a própria canção em si.”

Como é

Se outra razão não existisse para incluir este primeiro trabalho do grupo do Porto na lista dos melhores de sempre da música portuguesa de raiz tradicional, uma só bastaria para o individualizar e marcar uma posição de diferença perante todos os outros: a recuperação de um instrumento caído em desuso e na decadência, a sanfona. Em “Vai de Roda”, Tentúgal faz entrar pela primeira vez, em disco, a sanfona no instrumentário tradicional português. Uma utilização ainda tímida, apoiada sobretudo nos bordões, mas que trouxe para esta área musical uma sonoridade nova que viria a ser explorada em pleno no segundo álbum do grupo, “Terreiro das Bruxas”. Não se tratou, de forma alguma, de uma opção gratuita, de uma tentativa isolada para tornar mais exótica uma música que sempre procurou conforto na facilidade das braguesas e dos cavaquinhos, mas antes o resultado de um estudo aprofundado das suas origens e potencialidades de transmutação. Tentúgal sempre fugiu ao óbvio e esta fuga levou-o a procurar nas catacumbas da música antiga – idade Média e Renascimento – um veio esquecido ou menosprezado pela maioria dos discípulos e aprendizes da MPP, onde tanto a sensibilidade contemporânea como a sua irmã tradicional se pudessem reconhecer. É precisamente nos temas onde a sanfona faz a sua aparição, seja no de abertura “Minha roda st’á parada”, cujos adereços sonoros antecipavam já a estética de encenação sonora presente em “Terreiro das Bruxas”, seja na versão de “Mineta” (mais interiorizada que o arquétipo inscrito no primeiro álbum da Ronda dos Quatro Caminhos) ou ainda no ambientalismo étnico do instrumental que fecha o disco, “Oh que calma vai caindo”, que a música se aprofunda e ganha maior poder de sugestão. Uma visão da tradição fixada ainda na fidelidade possível às formas originais e cativa do respeito pelo dogma das recolhas, mas onde era já nítida a subjectividade de leitura e a vontade de conceptualização. Afinal o germe de uma obra cujas ambições apontavam já para um equivalente sonoro da fotografia “etnopsicadélica” da capa, mas que apenas se concretizariam em pleno montadas na vassoura de uma bruxa.