pop rock >> quarta-feira >> 23.11.1994
Os Pinguins Vestem Fraque
PINGUIN CAFÉ ORCHESTRA
Dia 26
Aula Magna, Lisboa

“O que existe de realmente belo na criatividade humana reside no inesperado, que nasce do coração sem modificar o nosso ego.” Julgamos que sim, que a frase, da autoria de Simon Jeffes, líder da Penguin Café Orchestra, que na próxima sexta-feira vem de novo em visita a Portugal, é verdadeira. Quando a pronunciou, Simon Jeffes pensava decerto no seu grupo. E aqui já temos algumas reservas, relativamente ao item “inesperado”. É que já há algum tempo que a música dos Penguin Café perdeu essa capacidade de surpreender, mantida intacta durante os três primeiros álbuns, “Music from the Penguin Café”, “Penguin Café Orchestra” e “Broadcasting from Home”.
A partir daí, o som e a atitude cristalizaram-se e os lugares-comuns instalaram-se insidiosamente. Cada novo disco passou a ostentar o rótulo “som Penguin Café”, fixação de um estilo que, sobretudo no primeiro álbum, radicava na surpresa e na absoluta impossibilidade de classificação. Não significa isto que a música do grupo não tenha continuado a manter uma qualidade bastante acima da média, e tão-pouco que o prazer da sua audição tivesse descido de forma drástica, mas apenas que desapareceu essa expectativa que antecipava a audição dos primeiros discos.
Sabe-se hoje com o que podemos contar: um conjunto de influências recolhidas de diversas músicas étnica do globo, principalmente africanas e sul-americanas, submetidas em doses iguais ao crivo minimalista e à dulcificação do classicismo romântico. O humor perdeu-se pelo caminho, como ficou demonstrado no último trabalho da banda, “Union Café”, substituído pela redescoberta do prazer da citação e da sua descontextualização.
Simon Jeffes deixou, como é óbvio, de ser o iconoclasta excêntrico do passado. Alguém que inventou o nome da banda a partir de um sonho, que se apaixonou por um órgão a pedais antigo e que escreveu arranjos para cordas para pessoas tão diferentes como Mort Schumann, Caravan, David Sylvian e os Sex Pistols (pois, a ele se devem os arranjos de “My way”, de Sid Vivious…), além de ter colaborado, entre outros, com Twyla Tharp, Malcolm McLaren e Ryuichi Sakamoto.
Tornado pessoa séria, Jeffes compôs a música para um bailado de David Bintley, “Still Life at the Penguin Café”, com posterior gravação em compacto. Ou seja, passou a ter uma reputação a defender. “Union Cafe” é um álbum sério, onde os pinguins vestem fraque e uma ou outra brincadeira não escondem a preocupação com o rigor da interpretação e a projecção de uma imagem de erudição por músicos perfeitamente integrados no sistema. Mas como a esperança é a última coisa a morrer, fica sempre a hipótese de um descuido ou de uma escorregadela em palco, de um súbito reencontro com a alegria juvenil e o tal inesperado que outrora fizeram do café Pinguim ponto de encontro dos sonhadores.





