Arquivo mensal: Novembro 2016

V Império – Entrevista – “Folhas Do Compêndio Da História De Portugal”

Pop Rock

30 Abril 1997

V Império começa em Maio

FOLHAS DO COMPÊNDIO DA HISTÓRIA DE PORTUGAL

V Império é um novo grupo que quer agitar as ondas da música portuguesa. No seu álbum de estreia, “Mar de Folhas”, com data de lançamento marcada para o próximo dia 5, combinam samplers, instrumentistas clássicos e “um pouco da alma portuguesa”. Uma fórmula que casa bem com o espírito da época.


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Íris, João Gata e Rui Ricardo. Aliança entre a voz feminina e a artilharia dos samplers, sintetizadores e teclados vários. Depois juntam-lhes músicos de orquestra e uma razoável carga de nostalgia que consideram bem portuguesa. Os três elementos do V Império revelaram ao PÚBLICO os preparativos da sua investida.
PÚBLICO – Como se processou a génese do V Império?
João Gata – Eu e o Rui já tínhamos trabalhado juntos há dez anos atrás, num grupo chamado Amenti que viria a extinguir-se. Há uns quatro anos, conseguimos reunir o equipamento novo necessário para iniciarmos um novo projecto…
Rui Ricardo – … Digamos que as novas possibilidades tecnológicas nos permitiram levar mais além uma ideia que já fermentara nos Amenti.
P. – Que ideia?
R. R. – Propomos a junção dessa tecnologia com instrumentos clássicos e um pouco da alma portuguesa.
P. – O que distingue o vosso projecto, por exemplo, do de Rodrigo Leão com os Vox Ensemble?
R. R. – Os arranjos são completamente diferentes. Optámos por fazer mais canções e menos temas minimalistas.
J. G. – … Tomando também em conta questões como a reacção do público, o factor de mercado, etc…
R. R. – Não quer dizer que tenhamos feito um estudo de mercado! Temos, para já, um “feedback” de amigos…
P. – Há um lado classicizante muito forte na vossa música…
R. R. – O facto de utilizarmos instrumentos clássicos pode induzir esse aspecto. O projecto contou logo, desde a base, com a presença de instrumentistas de orquestra.
P. – O livro de promoção desenrola uma lista impressionante de referências, Perotin, Tallis, Bach, Satie, Weill, Reich, Pärt, Eno, entre muitos outros. Estão à altura de tão ilustres padrinhos e antepassados?
R. R. – Não somos nós que escrevemos, mas pessoas que ouviram e chegaram a essa conclusão. Até porque os nossos gostos musicais divergem um pouco. No meu caso, gosto de Ryuichi Sakamoto mas também dos Ultravox, Joy Division, uma pop mais underground. E uma paixão por Bach enorme.
J. G. – Os meus vão do antigo pop, como os Japan, até ao Ryuichi Sakamoto, Michael Nyman, Wim Mertens. Também alguns trabalhos de Brian Eno. E os clássicos.
Íris – Música clássica. Ao nível da voz, escolho Tori Amos e Ella Fitzgerald.
P. – Como é que a Íris entrou para o grupo?
I. – Foi de repente. No próprio dia em que os conheci fomos para estúdio. Fiquei apaixonada pela base instrumental. Um amor à primeira vista.
P. – V Império. O nome que escolheram é algo pretensioso, não concordam?
J. G. – Depende da perspectiva. Escolhemo-lo apenas por corresponder a uma ideia bonita de um Portugal romântico.
P. – No entanto, a apresentação do disco vai decorrer na Casa Fernando Pessoa…
J. G. – Foi uma escolha da editora. Embora haja uma associação…
P. – Há um investimento forte na imagem do grupo?
R. R. – É fundamental. Não só em música como em qualquer tipo de arte ou de produto. E estamos a preparar uma apresentação cénica especial. Para já, vamos ter em palco um quarteto em violoncelo, viola de arco, oboé e corne inglês. Que são os nossos solistas no disco. Podíamos fazer isto tudo em sintetizadores, mas não é isso que pretendemos. Usamos os samplers para fazer sons sintéticos.
P. – Há um conceito global em “Mar de Folhas”?
J. G. – Não há. São temas separados que têm em comum determinados ambientes.
P. – O título remete para o Outono, para a nostalgia.
R. R. – Portugal e os portugueses são um pouco assim. Fugirmos disso seria cair em ambiências anglo-saxónicas, forçar algo cuja raiz não seria a nossa. Se formos verdadeiros, a nossa música terá cada vez mais aceitação no estrangeiro.
P. – Apostam no mercado internacional?
J. G. – Completamente. Há uma estratégia nesse sentido definida pela editora desde o início. Estamos a apontar para o Oriente, que já é um clássico em termos de sucesso de aceitação de projectos portugueses.
P. – Têm em comum com outros grupos portugueses recentes uma preocupação enorme por Portugal, ao ponto de o mitificarem. Há uma razão especial para isso?
R. R. – Porque não se faz nada que seja português. À parte o fado, que nem sei até que ponto será muito português, já que é sobretudo lisboeta.
P. – Precisamente. Quando se quer falar de Portugal e da música portuguesa, fica quase toda a gente presa ao fado…
R. R. – Nós quisemos avançar para além disso. Daí a nossa sonoridade não ser fadista nem tradicional. Sem deixar, no entanto, de sermos justos com as nossas raízes.
J. G. Assumindo uma série de influências que nos permitem olhar para o mundo de outra forma. A “new age” está aí, a “world music” também. Toda uma série de novas atmosferas, universais, que também temos no disco. Para nós “new age” representa um espírito semiclassicista, de ligação à terra, ao sentimento e às atmosferas.
P. – Costumam teorizar e discutir entre ambos quando compõem?
R. R. – A partir de uma linha melódica, constrói-se o resto.
J. G. – Só uma nota já dá para muitas discussões!…
P. – Em que altura é que a Íris entra em cena?
I. – Sou o elemento “purificador”. Eles fazem os instrumentais, mas depois a palavra final é a minha. Faço as linhas de voz, embora com a ajuda deles, e algumas melodias. Concordo com um ou com outro até chegarmos a um consenso.
P. – Para terminar, gostaria que cada um de vocês destacasse um tema particular do álbum.
J. G. – Gosto muito de “Sagres (de madrugada)” [N. R. – Passe a publicidade, até porque João Gata afirma preferir a Superbock.] É um local que me é aprazível. Gosto muito de vento, do mar, de montanhas. Gosto de assistir à natureza na sua força maior. Sagres enche-me de nostalgia, de uma portugalidade… Olho para o mar, para o fim do mundo e lembro-me de há 500 anos atrás. [N. R. – João Gata é mais velho do que pensávamos.] É uma das minhas letras mais conseguidas. É um jogo comigo próprio.
R. R. – “Demónios de cristal”. É uma música que tem muito a ver com os meus próprios demónios, os quais, embora poderosos, estão sob o meu domínio. Também transmite uma certa raiva, embora não de uma forma doentia.
I. – “Efémera”. Foi a primeira música a ser feita a partir da minha voz. Cantei-a primeiro e só depois é que o instrumental foi acrescentado. Uma música que passou de uma simplicidade inicial para algo bastante rico, com uma carga sentimental muito romântica.



Marta Dias – Entrevista – “Suave Sobressalto”

Pop Rock

26 Março 1997

Marta Dias estreia-se a cantar sobre “ritmos lentos”

SUAVE SOBRESSALTO

“Y-U-É” constitui a estreia discográfica, a solo, e Marta Dias, uma voz talentosa que antes já colaborara com General D, Ithaka e Cool Hipnoise. Sobre ritmos trip hop ou em temas mais afadistados, é uma outra maneira de fazer dançar suavemente. Ou não fossem os seus heróis os nomes míticos da Tamla Motown.


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A serenidade prevalece nos sons e no discurso desta jovem cuja estreia discográfica aponta cruzamentos estimulantes da balada jazz e soul com a música de dança. Histórias vividas por interposta personagem, onde a nostalgia deixa um “travo de inquietação”.
PÚBLICO – Na folha promocional pode ler-se que “começou a cantar as músicas que ouvia”. Que músicas eram essas?
MARTA DIAS – Canto desde sempre. Tenho a sorte de pertencer a uma família onde éramos incentivados a cantar ou a representar. A primeira música que ouvi foi do José Barata Moura, era o meu ídolo quando tinha seis anos. Ouvi também muitas canções da resistência, os meus pais eram de esquerda, muito Zeca Afonso. Mais tarde, Amália, fruto de uma grande fixação que o meu padrasto tinha pelo fado. Também música clássica, Mozart. Depois comecei a ouvir as minhas coisas, música da Motown, que colidia com tudo o que ouvia em casa.
P. – O quê, da Tamla Motown?
R. – Temptations, Jackson Five, Diana Ross, Gladyz Knight and the Pips, Martha Reeves and the Vandellas. Sobretudo, houve canções que me marcaram, “Take me in your arms and love me”, da Gladys Knight, muitas coisas dos Temptations, inclusive fizemos uma versão de “Papa was a rolling stone”, ao vivo.
P. – Quando e onde cantou pela primeira vez em público?
R. – Aqui em Setúbal, com o Teatro de Animação da cidade. A solo, cantei uma vez no Dia da Mulher, também com dois guitarristas, um trabalho acústico co clássicos portugueses. Há cerca de dois, três anos.
P. – Antes tinha estado em Colónia. Essa estada foi-lhe útil, em termos de evolução artística?
R. – Teve muita influência, no sentido de poder desbravar a voz. Sempre tinha cantado a título de brincadeira, de gozo, de fruição. Conheci então uma cantora e professora de canto, Marta Laurito, brasileira. Conhecemo-nos no elevador, ouvi falar português, alguém a chamar Marta, que também é o meu nome. Meti-me com ela, soube que era cantora de ópera e disse-lhe que era uma coisa que eu adorava fazer. Sempre tivera vergonha de dar aqueles berros, quer dizer, eu dava os meus berros, mas não eram muito sintonizados!… Ela ofereceu-se para me dar aulas, aceitei, uma vez por semana. Foi óptimo. Depois tive aulas cá em Portugal, com a Filomena Amaro, no Conservatório de Setúbal.
P. – Essa aprendizagem serviu-lhe apenas do ponto de vista técnico ou influenciou também o seu estilo?
R. – Serviu para poder fazer imensas coisas que gostava de fazer com a minha voz e até essa altura não sabia como. E para me dar alguma disciplina. Mas em termos de estilo e orientação, não. Porque desisti muito cedo de qualquer vontade de seguir carreira na ópera.
P. – Porque é que desistiu?
R. – Gosto demasiadamente da minha vida e quero ter uma. Não quis tornar-me uma garganta e não fazer nada, foi isso que me assustou. Acredito, sobretudo, na expressão. Acho que uma voz transmite histórias, coisas vividas. A perspectiva de passar o tempo todo com um cachecol enrolado à volta da garganta e de não poder fazer nada, porque isso me poderia afectar, não me agradava. Por mim, mesmo rouca, cantava.
P. – Antes da gravação do disco, colaborou com General D, Cool Hipnoise e Ithaka. Conte como foi.
R. – Com o General D, ele estava à procura de uma pessoa para cantar um tema com uma referência aos blues. O meu irmão, que também é “rapper”, apresentou-mo no concerto dos Urban Species. Fui ensaiar com eles, começámos logo com o tema, que se chamava “Amigo prekavido”. Fiz uma intervenção com uma frase de blues, salvo erro, do John Lee Hooker. Com os Cool Hipnoise foi uma participação muito breve, muito subtil, ao nível de coro, no tema “Bairro da lata”. Como os Ithaka, o Darin Pappas e o Pedro Passos estavam também à procura de uma pessoa… É engraçado, nesses três projectos acabei por ter a mesma função.
P. – Darin Pappas que participa no seu disco…
R. – … Como eu participo no próximo disco dele. Foi ele que escreveu uma letra para o meu CD, “Look to the blue”.
P. – E o seu encontro com o produtor Jonathan Miller?
R. – Conheci-o antes das gravações com o General D. Ouviu a minha voz num ensaio, gravámos, depois estive imenso tempo sem ouvir falar dele. Um dia telefonou-me a dizer que gostara imenso da minha voz e que podíamos trabalhar juntos. Fiquei um bocadinho espantada. Na altura estava no Hot Club a ter aulas e estava mais interessada na formação dentro de uma área mais jazzística. Não me passava pela cabeça gravar um disco. Ele mandou-me uma “maquette” com alguns temas, mais tarde encontrámo-nos para compor. Funcionou bem.
P. – As decisões, ao nível da produção e da composição, foram da inteira responsabilidade dele ou a Marta também teve alguma palavra a dizer?
R. – Ele compunha uma base instrumental, eu escrevia a letra, e a partir daí trabalhávamos a dicção, possíveis opções, eu punha alguns instrumentos, seleccionávamos o que funcionava melhor. Na produção, os créditos são só dele. Mas se havia qualquer coisa que eu achava absolutamente repelente, ele não insistia…
P. – Em certos temas, Amália pode ser apontada como referência?
R. – Amália influenciou-me muito, mas isso não quer dizer que se ouça Amália no que eu canto. Ela inspira-me, na medida em que as coisas dela estão sempre presentes na minha cabeça.
P. – Aliás, os registos de voz que utiliza no álbum são múltiplos…
R. – Tenho uma costela africana, outra indiana, há uma fusão muito grande em mim.
P. – O hip hop e o trip hop estão inevitavelmente presentes na base rítmica de alguns temas. É sobre elas que se sente mais à vontade a cantar?
R. – O disco tem uma certa coerência em termos de ritmo. Há quem lhe chame “ritmo lento”. Sinto-me confortável a cantar nessa onda. Os temas são todos mais ou menos intimistas, mais ou menos nostálgicos.
P. – O jazz também está presente. Se lhe pedisse que citasse cantoras, que nome escolheria?
R. – Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan. Sou uma clássica e absolutamente conservadora nesses domínios.
P. – O álbum revela uma enorme serenidade da sua parte. É assim mesmo na vida real?
R. – Há uma tranquilidade na música, mas não nas letras. Gosto de contar histórias que sejam aparentemente normais mas que deixem um travo a inquietação. Que de repente, quem as ouve, tenha um certo sobressalto.
P. – Como é que constrói essas histórias? Saem apenas da imaginação ou de vivências concretas?
R. – Há muitas pessoas que cruzaram a minha vida e muitas experiências. E situações que não compreendo totalmente mas em que imagino alguém, que não sou eu, eu está lá sentada, a vivê-las. Sentada, porque está a observar, sem nunca participar totalmente. É essa pessoa intermédia que me vai contando o que os outros estão a viver.



Né Ladeiras – Entrevista – “Invocação Dos Mestres”

Pop Rock

2 Abril 1997

Né Ladeiras canta Fausto com dedicatória ao lobo

INVOCAÇÃO DOS MESTRES

Fausto. Né Ladeiras. Dois representantes de uma espécie em vias de extinção, a dos criadores solitários que invocam os génios à luz da lua. Em “Todo Este Céu”, a cantora de “Traz-os-Montes” escolheu preencher a totalidade da voz com as canções do navegante de “Por Este Rio Acima”, a quem chama “mestre”. Sob a égide do lobo, “um animal com códigos muito especiais” – “ponte entre a terra e o céu”.


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Né Ladeiras cresceu e aprendeu a ouvir a música de Fausto. Os anos passaram. Os astros actuaram. Ultrapassada a cordilheira da música tradicional de Trás-os-Montes, a cantora pôs, finalmente, em prática, um projecto há muito acalentado: um álbum de canções de Fausto. Dívida – ou dádiva – interior, da discípula ao mestre. Segue-se a crónica de uma relação ardente. Entre lobos.
PÚBLICO – O lobo é o tema central de “Todo Este Céu”. Por que razão o escolheu?
Né Ladeiras – O lobo é a ponte entre a terra e o céu, entre o microcosmos e o macrocosmos, pela forma como invoca, através do uvio…
P. – Além dessa conotação mística, há também uma componente ecológica?
R. – Sim. Quis igualmente chamar a atenção para a existência do grupo “Lobo” e para o Centro de Recuperação do Lobo Ibérico. Quem pertencer ao primeiro pode, se quiser, adoptar lobos. Não se trata de levar lobos para casa, claro, mas de dar uma contribuição para a manutenção deles naquele centro que é o único em Portugal e luta para que a espécie não se extinga de vez. Presentemente, pensa-se que existam apenas cerca de 200 lobos no nosso território.
P. – À primeira vista, não se percebe muito bem qual a ligação entre o lobo e a obra de Fausto…
R. – O lobo é um animal com códigos muito especiais, códigos de honra, uma forma de vida em alcateia, faz as coisas sozinho. Penso que o trabalho do Fausto tem sido um trabalho bem solitário.
P. – Quando é que decidiu fazer este álbum?
R. – Há muito tempo que andava na minha cabeça. Mas achava que não tinha crescido o suficiente para interiorizar as músicas do Fausto. Ouvi-o pela primeira vez em 1969, na rádio, num tema chamado “Oh pastor porque choras”. A letra falava de um pastor com cerejas nas orelhas, uma linguagem que, para uma criança, representava a abertura de todo um imaginário. E a música acompanhava esse imaginário. Comprei logo o “single”, pedi à minha mãe dinheiro. Mais tarde conheci Fausto, pessoalmente, na altura do filme “As Guerras do Mirandum”, do Fernando Matos Silva, e em que eu fazia parte dos Trovante. Gravámos dois temas juntos, “Os mandamentos do vinho” e “Eu casei com a bonita”. A partir daí fui acompanhando sempre os concertos dele.
P. – Em “Todo Este Céu” pediu conselhos ao compositor? Ele fez-lhe sugestões?
R. – Opiniões e conselhos. Nós, os discípulos, pedimos sempre conselhos aos mestres. Durante dois anos encontrámo-nos muitas vezes, sempre que eu vinha a Lisboa, para falar única e exclusivamente deste trabalho. A primeira vez aconteceu no estúdio, quando ele gravou comigo “A linda pastorica”. Nessa altura disse-lhe que estava cheia de vontade de fazer este trabalho. Ele olhou para mim, sem dizer nada. Passados uns tempos, voltei ao assunto e ele, aí, percebeu que eu estava a falar a sério. A obra do Fausto é imensa e eu achava que podia fazer um CD duplo. Tinha trinta e tal temas. Não queria deixar nada de fora. O Fausto fez-me ver que tinha que ser mais realista e que este meu entusiasmo pela obra dele teria que ser bem planeado. Acabei por fazer uma selecção, explicando-lhe as razões da escolha de cada tema. Descobri e revelei-lhe que a incidência recaiu nos temas em que ele era mais místico.
P. – Como definiria esse lado místico de Fausto?
R. – Está presente em temas como “Diluídos numa luz” ou “O despertar dos alquimistas”, que por acaso não aparece neste álbum, mas que passará a fazer parte do espectáculo. É uma espiritualidade que entendo à minha maneira. Não sei como é que ele compõe, que fontes de inspiração é que tem… Agora, aquilo que ele transmite aos outros, aquilo que ele me deu a mim, durante este anos todos, foi um encontro com o transcendente, com o que está “para além das cordilheiras”, o que está “Por Este Rio Acima”. Apercebi-me de que não falava só da matéria. Comparando com outros grandes compositores, como o Zeca Afonso, o José Mário Branco ou o Sérgio Godinho, o Fausto foi o único a falar de coisas das quais mais ninguém falava. Coisas menos óbvias.
P. – É difícil dissociar, em Fausto, a composição da interpretação. Procurou imprimir um cunho pessoal às canções ou, pelo contrário, seguir certas regras codificadas pelo compositor?
R. – O que me preocupou mesmo foi interiorizar cada palavra. Claro que é a minha forma de cantar, mas talvez se note mais neste trabalho a minha proximidade de Fausto, sempre são 20 anos a ouvi-lo, é óbvio que se apanha sempre coisas das pessoas de quem gostamos muito. Às vezes até se diz que as pessoas que se amam ficam parecidas. É natural que tenha alguns requebros e acentuações semelhantes aos dele.
P. – De toda a discografia de Fausto, há algum disco com particular significado para si?
R. – Amo-os a todos. Toda a gente fala do “Por Este Rio Acima” como a sua obra máxima, mas depois, e antes, há outros discos magistrais. A “Madrugada dos Trapeiros”, “História de Viajeiros”, mesmo o próprio “Beco com Saída” e o primeiro, simplesmente “Fausto”, de 1969. E “Para Além das Cordilheiras”, outro trabalho magistral, e “A Preto e Branco”, que foi recebido e tratado de forma um bocado injusta, onde ele apresenta duas coisas importantes, a forma de compor quando tinha 18 anos e os grandes poetas africanos. Daí eu ter escolhido “Flagelados do vento Leste”, de Ovídio Martins, para o meu disco. Estou ligada misticamente a África, pela minha própria corrente de canbomblé. Mas a maior percentagem vem das “Crónicas da Terra Ardente”. Vi-me lá dentro, dentro daquela viagem. Senti-me como a ama que tinha o menino nos braços e via o barco a afundar-se. Entrei dentro daquele filme.
P. – No seu caso, como no de Fausto, a espiritualidade co-habita com uma postura de esquerda, a qual, por essência, é materialista…
R. – É uma pergunta que tenho feito a mim mesma nos últimos 20 anos! Sou, de facto, uma pessoa de esquerda… As pessoas torcem o nariz e atiram-me com aquilo a que chamam “as minhas crendices”… A espiritualidade está intimamente ligada a uma visão de esquerda do mundo, porque tem a ver com a justiça feita aqui. Para além de tudo o que possa acontecer do lado de lá, as coisas têm que acontecer aqui. Esta desigualdade social, esta violência, estas injustiças cometidas pelos homens, ainda estou para ver uma atitude da direita em relação a estes problemas. No plano espiritual, trabalhamos para isso. Preocupamo-nos em termos ecológicos, com as pessoas, com as desigualdades, não temos é, de facto, um discurso materialista. Apelamos àqueles que reagem, que nos ajudam de vários pontos do Cosmos.
P. – Um partido político fundado por si, seria fantástico!
R. – Não sei se teria jeito para isso. Só tenho jeito mesmo é para colaborar nos meus rituais, que são os Nação Nagô, o candomblé originário do Congo e de Angola. É aí que apelo aos meus orixás, que nos ajudem. O mundo está a escurecer.
P. – No meio dessa escuridão crescente, ainda é possível ver “Todo Este Céu”?
R. – Tem que haver olhos para atingir esses céus e esses céus só podem existir, só têm razão de existir, se os olhos estiverem abertos. Os olhos e o coração. “Todo Este Céu” é o título de um tema das “Crónicas da Terra Ardente”, do Fausto, e o meu firmamento. Foi como se ele me tivesse aberto uma janela e eu, pela primeira vez, tivesse visto um céu.
P. – Este disco é também um acto de gratidão?
R. – Era uma coisa que tinha de acontecer neste tempo. Não podia adiar mais nem poderia ser antecipado. O meu próximo passo é um disco sobre o paganismo e a religiosidade – onde existe um existe a outra – de três regiões portuguesas: Beira Baixa, Beira Alta e Trás-os-Montes. Vou andar pelo menos um ano e meio no campo, a percorrer esses lugares. É preciso viver, para se transportar e transmitir o que são a religiosidade e o paganismo, ir ao congresso de Vilar de Perdizes, às procissões, falar com a mulher das ervas que faz as mezinhas, ouvir cantar…
P. – Essa deambulação remete-nos de novo para o tema do início da conversa. A Né é uma loba solitária?
R. – Sou. Estou sempre a magicar. Sou uma pessoa de projectos. Gosto muito de trabalhar com outras pessoas, com outros músicos, de ter gente à minha volta, mas talvez seja o meu feitio, ter ideias que num grupo eram capazes de chocar ou de não ser bem entendidas.