Maria Kalaniemi
Maria Kalaniemi
GREEN LINNET, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO
Já vai sendo tempo de acabar com os preconceitos relativos ao acordeão. Nas mãos certas faz maravilhas como outro instrumento qualquer. John Kirkpatrick, Riccardo Tesi, Mairtin O’ Connor ou Rod Strading são não só notáveis tecnicistas como gravaram álbuns de grande qualidade. Acrescente-se a estes nomes o de Maria Kalaniemi, acordeonista sueca que faz parte dos Niekku, grupo que já abordámos nesta rubrica, a propósito do álbum “Niekku 3”, que vale a pena redescobrir. Kalaniemi é uma especialista do acordeão “5-row” (por ter cinco filas de botões) e na exploração de melodias de acompanhamento baixo. Grande improvisadora, estudou o estilo francês do baile “musette”, bem como o tango argentino, cujas técnicas de improvisação utilizou no tema “Olin sairas kun luokseni saavuit”. A maior parte do reportório, porém, é constituída por “polskas” suecas e finlandesas, nalguns casos recolhidas de um manuscrito do século XVII, de Samuel Rintaa-Nikkola. “Yxi kaunis papillinen polska” cruza-se com o imaginário africano, numa bizarra combinação do acordeão com uma “mbira” (ou “kalimba”, ou “thumb-piano”) da Tanzânia. A instrumentação, para alívio dos que receiam o confronto demasiado exclusivo com o acordeão, inclui ainda o piano, órgão de pedais, guitarra, rabeca, “nyckelharpa”, baixo eléctrico e o tamborim, pelo percussionista dos Hedningarna Björn Tollin. Um álbum não muito generalista, aconselhável aos incondicionais da música escandinava (atenção, quem está a pensar em ritmos rock deverá procurar noutras paragens…) e que poderá suscitar a curiosidade de auditores sintonizados noutras ondas. (7)
Quem são? De onde vêm? A ficha técnica indica um sexteto composto por dois cantores e um tocador de alaúde árabes com quatro instrumentistas italianos, em flauta, saxofones, violino, bateria, bouzouki e teclados. As composições são na maioria assinadas por Anan Al Shalabi, o alaúdista, Kakeem Jaleela, um dos cantores, e David Petrusino, o teclista, ao lado de um tema tradicional e uma versão de “Come together”, dos Beatles, reintitulada “Il amir”. Bem ouvidas as coisas, é um projecto interessante de fusão de música árabe, quase sempre acelerada, com uma batida rock assegurada por Fabrizio Fratepietro. O objectivo é fazer mexer o ventre com ritmos um pouco mais simples e directos do que os habituais, mas mantendo uma compostura de objecto sério que nunca desce abaixo dos níveis aceitáveis de respeito pela música que pretende retratar. Espécie de parente pobre de “Assouf”, o tratado recente, numa área próxima, de Baly Othmani com Steve Shehan, “Raia” deixa-se prender com facilidade pelos sentidos, ainda que, lá para o fim do disco, se possa instalar um certo tédio em virtude de os ritmos terem a tendência para se arrumarem em esquemas demasiado previsíveis. Mas como se trata essencialmente de música para dançar e só em segunda instância para se ouvir com atenção, acaba por ser um pequeno defeito num trabalho que até se dá ao luxo de arranjar fórmulas inovadoras, como acontece no estonteante tema de abertura, “Scaptillak”, onde uma sanfona se junta na perfeição à folia do Sul. (7)
HARIPRASAD CHAURASIA
Meditative Romance (8)
New Earth, distri. Alma Nave
Para a maioria dos ouvidos ocidentais, a música indiana começou por ser um excelente campo de manobras alucinatórias para os jovens cérebros que o LSD, o “hash” e a erva puseram a planar na época de todas as descobertas e transgressões que foi a segunda metade dos anos 60. Uma das imagens emblemáticas desta atitude – que, na altura, era difícil de desligar de um certo folclore, no sentido pejorativo do termo – encontra-se na obra-prima do desenho animado psicadélico “Yellow Submarine”, quando, logo no início, na cena das portas que se abrem e fecham, uma delas deixa ver George Harrison em meditação no alto de uma montanha, envolvido por um arco-íris de cores em mutação e uma típica “drone” de “Tampura” indiana. Ravi Shankar era então um dos “gurus” preferidos de toda a gente, incluindo os Beatles. A sua “sitar” ajudou muita gente a sonhar acordada nos míticos festivais de Wright e Woodstock. Depois, a música indiana passou um pouco de moda, até porque o estalo provocado pelo “flash” de substâncias como a heroína e a coca não é muito compatível com a intemporalidade e os padrões estéticos da música e do espírito da Índia ancestral. Assim, a “raga” (forma tradicional da música indiana) recolheu de novo aos territórios mais bem comportados, comos e aceita que sejam, das músicas clássica e etnográfica.
O ressurgimento, de há alguns anos a esta parte, da agora denominada “world music”, alterou de novo este estado de coisas. Como consequência, a música indiana voltou a fazer ouvir as suas “drones” infinitas, como se, entretanto, nada se tivesse passado e ela tivesse permanecido sempre ali, extática, ressoando pela eternidade. Hariprasad Chaurasia é um nome lendário, sendo considerado o melhor intérprete de flauta (“bansuri”) indiano da actualidade. A sua técnica é indissociável das técnicas de controlo da respiração (“prãnãyãma”) do ioga, o que lhe garante uma fluidez e uma força espiritual, apenas possíveis de obter se enquadradas num método de desenvolvimento interior.
“Meditative Romance” inclui três “ragas” gravadas ao vivo num festival de música realizado, em 1991, em Berlim. “Kerwani” é a mais meditativa das três, com a flauta a abrir uma vasta tapeçaria de sensações psico-sensoriais sobre a omnipresente “drone” das “tampuras” de Deva Waduda e Aseema. “In raag des” é mais jovial, desenvolvendo-se sobre os vários andaimes rítmicos elaborados pelas “tablas” de Pandit Mandan Mishra. “Indian folklore”, ao contrário das outras duas, toma por base a música tradicional indiana, mantendo, contudo, o mesmo ambiente de romantismo – um termo que, aqui, convém não associar despreocupadamente ao conceito tradicional que lhe está inerente no racionalismo ocidental… – que caracteriza a totalidade de “Meditative Romance”. Claro que esta música exige do auditor uma quietude e disponibilidade interiores talvez difíceis de estabelecer a partir dos parâmetros de vida da sociedade europeia moderna. Mas vale a pena o esforço. Ou será melhor dizer o abandono?…
Que sons e harmonias são estes, afinal, que, por uma subtil deslocação da atenção, se destacam do fundo desta imensa tapeçaria cósmica? Estão lá de facto ou é a nossa mente que, subitamente liberta, assume a sua condição de criadora? Eis, no fundo, uma técnica da meditação através da música. Como diz o japonês Osho: “A meditação é a arte de ouvir o som que não tem som, a arte de ouvir a música do silêncio – aquilo que os adeptos Zen chamam ‘o som de palmas de uma só mão’.”
De Hariprasad Chaurasia encontra-se igualmente disponível “Now”, em duo com o teclista Amareesh Leib, um trabalho mais acessível orientado para o mercado “new age”, além de uma obra mítica de música indiana dos anos 60, “Call of the Valley”, agora remasterizada e editada com o selo “Hemisphere”, de qual se falará em breve nesta rubrica.