Arquivo mensal: Agosto 2015

Patrick Street – “All In Good Time” + Kevin Burke – “Open House”

Pop Rock

5 MAIO 1993
WORLD

A IRLANDA AO PÉ DA RUA

PATRICK STREET
All in Good Time (9)
CD Special Delivery, import. VGM


ps

KEVIN BURKE
Open House (8)
CD Green Linnet, distri. Megamúsica


kb

Irlanda e Portugal são dois países parecidos em mais do que um aspecto. Em matéria de música tradicional, contudo, é como se pertencessem a galáxias diferentes. Enquanto em Portugal se contam pelos dedos os músicos desta área activos e de boa craveira técnica, na Irlanda há-os às centenas, senão aos milhares, nestas condições. Porquê tal disparidade? Porque na Irlanda aprende-se desde pequenino a prezar o passado, a amar a música, a encorajar a sua prática, através do ensino e de muito trabalho. Em Portugal é o que se sabe – a música tradicional é considerada um género menor. Por isso, na Irlanda a tradição mantém-se viva de geração para geração, no campo e na cidade, em cada esquina e em cada rua. Por isso, em Portugal sai um disco decente de cinco em cinco anos, e na Irlanda dezenas em cada semana, passe o exagero. Em quase todas as cidades da Irlanda existe uma Patrick Street, em homenagem ao santo, St. Patrick, que converteu o país ao cristianismo. Patrick Street é igualmente o nome de um violinista que, conta a lenda, antes de morrer terá confessado o seu maior sonho: ouvir uma banda formada por Kevin Burke, Jackie Daly, Andy Irvine e Arty McGlynn. O seu sonho tornou-se realidade. Após dois álbuns de antologia com esta formação, “Patrick Steet” e “No. 2”, mais um epílogo em jeito de concessão e com tiques de supergrupo, “Irish Times”, os Patrick Street deram o assunto por encerrado. Até 1993, ano da ressurreição. Os resultados justificam a reunião deste quarteto de sonho, que conta no currículo dos seus elementos com o mestrado nas instituições Planxty (Andy, Arty), Bothy Band (Kevin) e De Dannan (Jackie, Arty). “All in Good Time” espanta pela frescura, como se a música da Irlanda acabasse de ser inventada. Depois, percebe-se a fluência imensa do discurso, uma sensação de facilidade que permite aos músicos conseguirem as maiores proezas técnicas com a agilidade de acrobatas. Ady Irvine continua mestre na arte das vocalizações “soft” que foram imagem de marca dos Planxty. “A prince among men”, “The pride of the springfield road”, “The girls along the road” e “Carrowclare” justificam por si sós a elevada qualidade de um álbum que, no capítulo instrumental, é simplesmente imaculado. Para a perfeição faltará talvez o pico de ousadia que eleva um pouco mais alto o compêndio “The Fire Aflame”. Kevin Burke, o violinista da banda, por seu lado, arriscou algumas saídas da ortodoxia neste seu terceiro álbum instrumental a solo, fora das habituais sequências de danças tradicionais. Uma das curiosidades de “Open House” é a base rítmica formada exclusivamente pelo “step dancing” de Sandy Silva. Três momentos rompem de forma maravilhosa com a continuidade da “Irish traditional music” que vem chegando às toneladas ao nosso país: “Frailach”, um diálogo feito de subtilezas e ecos mediterrânicos entre o cistre de Paul Kotapish e o clarinete de Mark Graham, uma série de “bourées” de aroma medieval apoiados no ritmo do sapateado e uma nostálgica despedida em cadência de valsa, “La partida”, de novo com o clarinete em destaque. Mark Graham, além do clarinete, instrumento solista pouco vulgar na música irlandesa, faz prodígios com a harmónica (escute-se com redobrada atenção “Crowley’s reel”), que toca com um fraseado equivalente ao do violino, nalguns temas, ou do acordeão, noutros. O violino de Kevin Burke, quase nem vale a pena dizê-lo, é um portento de sensibilidade e de técnica. A Irlanda não pára de nos espantar.

Patrick Street
Kevin Burke – torrent



Grupo Didactico-Musical Do Obradoiro – “Instrumentos Musicais Populares Galegos”

Pop Rock

23 JUNHO 1993
WORLD

A QUIMERA DO OURO

GRUPO DIDACTICO-MUSICAL DO OBRADOIRO
Instrumentos Musicais Populares Galegos

2xCD Sonofolk, distri. Etnia


obradoiro-300x300

Aleluia! Hossana! Avé! Eia, eia! be-bop a-lula!… e todas as exclamações de saudação e júbilo que houver. Não é caso para menos. A obra em questão, um documento fascinante sobre a música e instrumentação tradicionais da Galiza, sob a forma de uma caixa com três discos, livro e colecção de “slides”, que há cerca de dois anos nos fez perder a cabeça (a mim e, por opostas razões, a muita gente que não lhe conseguiu pôr os olhos, muito menos as mãos, em cima) está agora disponível no formato compacto. Não poderia vir mais a propósito, já que está a decorrer em Caminha, até ao próximo dia 4 de Julho, uma exposição de instrumentos tradicionais galegos, organizada precisamente por estes Obradoiro.
Mas nem tudo são boas notícias. Como tem acontecido noutros casos, a primeira remessa a chegar ao nosso país foi escassa e o mais certo é que na altura em que estiverem a ler este artigo já a caixa deve ter desaparecido na voracidade dos que, mais sortudos, o conseguiram apanhar nas bancas, aos primeiros segundos de exposição. Que ninguém desespere, porém. Não se trata de uma quimera, porque desta vez sabe-se de onde vem a pepita e só é preciso ter alguma paciência e esperar a vez.
“Instrumentos Populares Galegos”, para quem ainda não sabe, ensina e mostra tudo o que interessa saber sobre a música tradicional da Galiza. Os mestres são os músicos e artesãos da Escola de Gaitas e Zanfonas da Universidade Popular do Concello de Vigo, especialistas na construção de gaitas-de-foles e sanfonas. O livro explica, com textos e ilustrações completíssimas. O disco exemplifica, primeiro com a demonstração de várias afinações e escalas das “gaitas”, sanfonas e “pitos” (flautas de bisel pastoris), depois com música, das típicas “alboradas” e “muiñeiras” até à música barroca de Vivaldi. Nas interpretações dos próprios Obradoiro (onde então figurava o menino-prodígio da “gaita”, o nosso conhecido Carlos Nuñez) e de convidados como a banda de “gaitas” Xarabal, uma ramificação da escola-mãe, com direcção de Antón Curral, da qual fazia parte o lendário e recentemente falecido Ricardo Portela. Em relação à edição original, há apenas a lamentar o desaparecimento da colecção de “slides”, devido às limitações de embalagem do novo formato.
Há dois anos, como hoje, fica a sugestão para os conselhos directivos das nossas escolas adquirirem um exemplar. Porque ena escola e através da audição da música, a par do contacto com as formas e técnicas da sua feitura, que se aprende a gostar e a amar o passado cultural e anímico que nos deu origem. Mas não há meio de aprendermos… (10)



Lamine Konté – “La Kora du Sénégal”

Pop Rock

10 FEVEREIRO 1994
REEDIÇÕES

Lamine Konté
La Kora du Sénégal
CD Arion, distri. Megamúsica


lk

Considerado o instrumento musical mais rico do continente africano, o kora exige aos seus praticantes capacidades técnicas à altura. Lamine Konté, descendente dos “griots” (a propósito, há algum músico da África Ocidental que o não seja?…) estudou kora anos a fio até conseguir um estilo pessoal. “É Lamine Konté que está a tocar”, quer que digam dele. Neste caso, o kora apresenta-se a solo ou em diálogos com o balafon (marimba). Rítmicas intrincadas alternam com o batimento visceral dos tambores, cânticos mandingue e vocalizações femininas tornadas de súbito familiares numa balada cantada em crioulo português, “Gna terra” ou na rumba afro-portuguesa “Telephonista”. (7)

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