Arquivo mensal: Julho 2010

Klezmatics – Possessed (conj.)

24.10.1997
World
Águas Em Fúria
Cabalismos klezmer possuídos pela ira contra os deuses, ritmos do Nilo, cantos e danças do Piemonte italiano e, da Suécia, ainda um projecto com o envolvimento de Ale Möller e Lena Willemark, entre a tradição e a improvisação. Quadrantes de um mesmo mundo que a cada instante se redescobre e reinventa através da música.
“Drummers of the Nile” é uma viagem musical através do rio Nilo, das suas tradições e dos seus mistérios. Navega-se por ele a bordo das percussões mas também das vozes, com as contribuições de um acordeão e de um trompete, quando a nau lança a âncora nas vielas e nos bares mal afamados do Cairo. Entre o mar e o deserto, os tambores do maestro Mahmoud Fadl transportam-nos ao longo das diversas tradições conotadas com este rio desde sempre envolvido numa aura de mistério e cujos fluxos e refluxos das águas permaneceram durante séculos por explicar. Música clássica do Egipto, ritmos dos beduínos, cantos e cadências das mulheres, imitações de camelos, danças tradicionais a acompanhar cerimónias de casamento, variantes específicas e diversos ritmos, nubianos ou do Sudão (como o “dishka”, dança de protesto das prostitutas contra a proibição da sua actividade, decretada no Sudão, que alguns consideram ser o “avô do reggae”) são alguns dos pontos por onde passam as percussões e as vozes destes “Drummers of the Nile”. “A night on Mohammed Ali street” retrata, por seu lado, as condições de pobreza e sofrimento que enfermam as ruas de um dos bairros mais miseráveis da cidade do Cairo. É isso: a complexidade de alguns dos temas, em contraste com a extrema simplicidade de outros, num registo de pura etnicidade, são o corpo musical de uma entidade viva e pujante, o Nilo, reflectindo as suas paisagens e o modo de sentir das suas gentes. (Piranha, distri. Megamúsica, 8).

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Não muito longe, um bando de judeus endemoninhados desafia o Criador e as tábuas da Lei. “Porque é que o Todo Poderoso passou os primeiros cinco livros da sua Bíblia a escrever sobrte questões confusas e de moralidade problemática?” é a pergunta colocada por Tony Kushner na longa apresentação que fez de “Possessed”, acrescentando logo de seguida que “é preciso lutar contra o Todo Poderoso”. Tony Kushner é o autor de uma adaptação para teatro, “A Dybbuk Between Two Worlds”, da obra clássica de S. An-ski, “The Dybbuk” que, a par de um enredo de amor e possessão, constitui um autêntico manual de folclore “yiddish”, para a qual os Klezmatics compuseram a banda sonora, compreendida nos temas 9 a 17 do disco. Quem já conhece esta banda pela audição do alucinante exercício sobre música klezmer contido em “Rhythms + Jews” encontrará aqui o mesmo espírito iconoclasta, embora envolto num esquema, dado o carácter específico deste disco, necessariamente mais rígido. O “jazz” e o teatro encontram-se com a folk, o “ska”, as “novas músicas” e baladas de recorte cristalino, como “Mizmor shir lehanef”, animados pelo mesmo espírito que ajudou a criar a identidade (e pluralidade, por vezes convulsiva) da nação judaica contemporânea, de Mahler a Schoenberg, passando por Marx e Freud. São estes fantasmas que os Klezmatics exorcizam com a fúria e convicção dos eleitos, desafiando, eles próprios, as regras da Torah (a Lei divina). (Piranha, distri. Megamúsica, 8)

Seguindo a direito pelo Mediterrâneo encontramos os nossos velhos amigos celtas do Piemonte, no Norte de Itália, em plena corte dos La Ciapa Rusa, reis incontestados da música desta região. Como acontece com “Drummers of the Nile”, em relação ao Nilo, cujo caudal sofre cheias periódicas, também o álbum “Omi e Paiz”, dos Tre Martelli, está marcado pela fúria das águas, neste caso pelas cheias que assolaram a zona de Alessandria em Novembro de 1994 e, inclusive, puseram em risco a própria existência do grupo. O reportório é constituído pelos “brandos”, “alessandrine” e “monferrine” da praxe, alternando com baladas vocalizadas de extrema sensualidade, características do estilo do Piemonte, onde brilham as vozes de Simone Boglia e Andrea Sibilio, num registo de menor sofisticação comparado aos “internacionais” Ciapa Rusa e Barabàn. (Robi Droli, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

De súbito, uma rajada gelada tolhe-nos os membros, fazendo-nos tremer. Por momentos o frio faz-nos perder o sentido de orientação. É meia-noite mas o sol brilha sobre o horizonte. É claro, saltámos muito para Norte e viemos cair na Suécia. Porém, a música que nos chega através de “Enteli”, consegue fazer-nos esquecer o frio. Reconhecemos, no colectivo designado por Enteli, a presença, uma vez mais, de Ale Möller e Lena Willemark, numa música que toma as baladas medievais ou as tradições xamânicas das danças “sufi” como inspiração para um exercício de liberdade que está mais próximo do “jazz” e do requinte de um Jan Garbarek que da música tradicional, recuperando todo o virtuosismo mas também as tendências heréticas da escola escandinava, marcadas tanto pelo furor instrumental como por um sentido apurado da poesia e de um ambientalismo “sui generis”, fruto da eterna promiscuidade entre o sol e a lua. (Phono Suecia, distri. MC – Mundo da Canção, 8).

Black Ox Orkestar – Ver Tanzt?

17.09.2004
Black Ox Orkestar
Ver Tanzt?
Constellation, distri. Sabotage
6/10

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Estranha combinação a dos Black Ox Orkestar. São canadianos mas tocam, dizem, “canções klezmer tradicionais através de uma sensibilidade moldada pelo ‘indie rock’ e o ‘free jazz’. “Ver Tanzt?” (“Quem está a dançar”, em “Yiddish”), o título tema, é uma violenta diatribe contra Israel mas a música dos Black Ox Orkestar acaba por não ser nem a recapitulação exaltada das sonoridades “klezmer” nem a fúria “punk” que a sua atitude interventiva poderia justificar, mas uma pesada arca cheia das habituais “drones” da editora canadiana, vozes moribundas e folk rock com a bússola apontada à tradição hebraica. O ambiente geral é de nostalgia e não de dança, como se os Black Ox Orkestar se deixassem afogar num mar de desesperança (“vivemos na nossa língua, como cegos caminhando à beira do abismo, uma linguagem carregada de catástrofes futuras”, lê-se numa citação do livrete). A instrumentação, exótica q.b. (contrabaixo, clarinete baixo, bandolim, cymbalon, violino, órgão de foles…) nem sempre é bem aproveitada (o cymbalon e o contrabaixo constituem a excepção, em “Skocne”) mas o resultado final, apesar da imensa tristeza, cria situações auditivas interessantes.

Katharco Consort – La Divina Comedia (conj.)

17.10.1997
O Céu A Seu Dono

Joe Jackson & Friends
Heaven & Hell (7)
Sony Classical, distri. Sony Música

Katharco Consort
La Divina Comedia (7)
Lyricon, distri. MC – Mundo da Canção

O céu e o inferno. Deus e o demónio. O tema da eterna luta entre o bem e o mal, da salvação ou condenação do homem, têm sido tratados ao longo dos séculos em todas as formas de arte, ocupando um lugar de destaque no imaginário do final deste século. No universo da Pop os anjos e mafarricos também têm tido o seu tempo de antena, com mais ou menos cheiro a incenso ou a enxofre. Joe Jackson, nascido em berço “new wave” mas cada vez mais assumido como autor erudito, abordou o tema de uma forma curiosa. “Heaven & Hell” não é tanto um álbum que pegue no tema na sua generalidade mas uma sequência de sete canções, mais um prelúdio, correspondentes aos sete pecados mortais. Cada uma destas canções possui dosi títulos, um luminoso, visível, e outro negativo, como o seu contrário, ou duplo, que é o do próprio pecado. É no prelúdio e nas duas fugas que abrem e fecham a série dos sete pecados mortais que se fazem sentir com mais intensidade as influências clássicas de Joe Jackson, como já se manifestavam no álbum anterior, “Night Music”. Uma escrita que, segundo o seu autor, se prende com o excesso (ainda, segundo ele, um excesso de notas) inerente à noção de pecado. Mas onde “Heaven & Hell se mostra verdadeiramente interessante é nos casos em que a vertente mais formalista se combina de forma admirável com o formato de canção pop, servido por uma não menos notável intuição melódica, como acontece em “Passacaglia / A bud and a slice” (correspondente ao pecado da preguiça). “Right” (sobre o pecado da ira), por outro lado, alterna a agressividade de ruídos de tráfego e o combate de gladiadores entre dois bateristas, com a fragilidade de uma melodia quase suplicante. “Tuzla” desloca o tema da avareza para o palco da guerra na Bósnia, apontando o dedo aos que da tragédia procuram tirar lucros. As aparições de Suzanne Vega, no papel de anjo caído, em “Angel”, e de Jane Siberry, em “The Bridge” (sobre a inveja) não são determinantes, passando quase despercebidas ao lado das qualidades solísticas da violinista Nadja Salerno-Sonnenberg. “Heaven & Hell” oferece ainda um apêndice em CD-ROM com comentários de Joe Jackson a cada um dos temas e, para os mais literatos, a capa inclui citações de Robert Browning e da teosófica Helena Petrovna Blavatsky, sobre as relações entre Deus e o diabo.
A mesma temática do céu e do inferno é retomada pelos Katharco Consort, ou Katharco Early Music Consort, para a editora espanhola Lyricon, vocacionada para o lançamento de produtos híbridos entre a “new age” e a música antiga. Os Katharco Consort, liderados por Marco Ambrosini (viola d’amore, violino de bolso e voz) inserem-se na mesma linha de grupos como os Vox, cuja paixão pela música antiga não dispensa uma utilização, por vezes extensiva, da electrónica. Nesta “La Divina Comedia” inspirada directamente no clássico de Dante Alighieri, Ambrosini optou por uma leitura que situa o tema, para além dos seus aspectos obviamente espirituais, nos termos de uma “viagem iniciática pelo interior do corpo humano”. A peça divide-se em cinco andamentos, um prólogo e um epílogo, ambos curtos, e três motivos centrais de 15 minutos cada subordinados ao “Inferno”, “Purgatório” e “Paraíso”. O “Inferno”, como é hábito, diz-se aqui através das percussões, mas também de uma gaita-de-foles (durante muito tempo proibida pela igreja católica que via nela um “instrumento do diabo”) da Macedónia e sopros vários, ora em colisão dissonante ora swingando sobre as chamas do “jazz”. “purgatorio”, com uma estrutura harmónica mais clara, simboliza a espera e a incerteza, o sofrimento antes da luz. O andamento é um “andante” sinuoso, uma voz conduz primeiro as almas sobre as ondas do mar, depois um clarinete cede progressivamente a vez à harpa até que um naipe de cordas chega, fazendo já ouvir as promessas do paraíso. Já no lugar de eleição uma flauta de bisel desenha melodias celestiais sobre o dedilhar sereno da harpa, com as cordas cumprindo o seu papel de “coro eterno” numa demonstração da beleza do que se poderá chamar, seguindo a lógica do paradoxo, “nova música antiga”, mas que também não anda longe do “Heaven & Hell” da autoria do grego Vangelis. Num final apoteótico um órgão de igreja MIDI descansa por fim sobre as batidas de um tambor xamânico, simbolizando não só a fusão das almas no Uno como também a conciliação do Passado com a tecnologia. É bonita, embora previsível, a música que se faz ouvir no paraíso dos Katharco Consort.