Arquivo mensal: Julho 2010

Luar na Lubre – Hai um Paraíso

10.09.2004
Luar na Lubre
Hai um Paraíso
Warner Music Spain, distri. Warner
5/10

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Faz pena assistir à decadência dos Luar na Lubre. A queda processou-se pela via do costume, da simplificação rítmica através da utilização exaustiva dos sequenciadores e caixas-de-ritmo, o que transformou a banda galega numa espécie de emulação de Hevia. Não que as gaitas não estejam onde lhes compete e que as melodias não sejam, nalguns casos, de uma beleza estonteante. Mas por que raio é que uma pandeireta ou uma bateria não chegam os ritmos? A utilização da electrónica na folk céltica sempre foi polémica mas parece ser evidente que nos Luar na Lubre tem a ver com a internacionalização e as cedências que esta transição implica. O resultado é o empobrecimento da música e a desvalorização de temas como “Hai um paraíso”e “Uah lua”, transformados em exercícios de má música de dança. Pontos positivos são “Rivadavia”, com uma bela intervenção na gaita de Bieito Romero, “Corme”, que prima pela simplicidade, e “Achega-te a mim, maruxa”, boa versão do tema popularizado por José Afonso. Há duas Galizas distintas que se digladiam na música dos Luar na Lubre.

Vasen – Varldens Vasen (conj.)

10.10.1997
World – Suécia
Cinco Violinos
A editora Xxource/Resource continua a fazer o seu trabalho de repescagem de clássicos, a par da edição de novos nomes da música da Suécia, na área tradicional mas também do progressivo (bo Hansson, Sammla Mannas Mama) ou de autores contemporâneos, como Lars Hollmer e o desconhecido Dan Gisen Malmqvist. Acabou de chegar mais um pacote de lançamentos. Cinco, uma equipa à base de viloinos.

Faz sentido começar pelo grupo mais antigo,, e também mais clássico, do pacote, os J P Nystroms, um quinteto oriundo da zona mineira que rodeia a cidade de Gallivare, onde, desde há séculos, está estabelecida uma comunidade de lapões. “Stockholm 1313 km” é uma colectânea de temas dos três ábuns de originais do grupo, gravados em 1979, 1980 e 1987, e de uma cassete editada em 1986. Joan Olafsson, dos Nörrlatar, refere-se aos J P Nystroms de forma entusiástica, insistindo no seu pioneirismo e na frescura das interpretações. Com base numa combinação de quatro violinos – tradição fortemente implantada em toda a Escandinávia – o som dos J P Nystroms não tem o poder de ruptura de alguns dos grupos suecos mais recentes, sendo antes uma abordagem calorosa e séria do folclore de uma região específica, equivalente ao que os Dubliners, por exemplo, fazem na Irlanda. (Resource, 6).

No capítulo das bandas novas, surgem pela primeira vez no mercado português os Trio Patrekatt, com “Adam”. A sua proposta é original, embora não propriamente destinada a impressionar uma quantidade grande de ouvidos: juntar duas “nyckelharpas” (violino arcaico munido de teclas, cuja sonoridade faz a ponte entre a rabeca e a sanfona) com um violoncelo. O som daqui resultante, não primando pela variedade, aposta necessariamente na expresiividade, aspecto em que o trio revela todas as suas capacidades. O reportório de “Adam” é constituído, além de originais do grupo, por “polskas”, ora de sabor clássico, ora de colorido mais popular e rural, que, se outro mérito não tivessem, constituem material de dança de primeira água. Depois, como acontece com frequência nesta região da Europa, a Escandinávia, a música popular está intimamente ligada às tradições mais antigas, da Idade Média e do Renascimento, o que lhe confere um sabor e poder evocativo muito especiais. Escute-se a este propósito, um tema como “Prefektens Favoriter”. A não perder, sobretudo para os apreciadores da escola violinística escandinava, que sabem apreciar as delícias de um grupo de referência como os JPP. (Xxource, 7).

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Alegrem-se os furiosos do ritmo, que esperam a “next big thing” depois dos Hedningarna, Den Fule, Hoven Droven e Garmarna. Os Vasen têm tudo para corresponder a estas expectativas. O seu novo álbum, “Varldens Vasen”, assenta numa poderosa secção rítmica propulsionada pelas percussões do novo elemento do grupo, André Ferrari (um autêntico Fórmula Um…), sobre as quais os restantes três músicos, Olav Johansson, na “nyckelharpa”, Roger Tallroth, na guitarra, e Mikael Marin, na viola de arco, elaboram uma complexa tapeçaria de compassos e arranjos que, uma vez mais, estão fortemente enraizados na tradição, mas insistem na sua modernização. Reforçam a componente rítmica e – lá teremos que utilizar novamente o termo… – progressiva (“Börjar du fatta”, “Nitti pomfriti”, “Tartulingen”…) de uma música que se desenvolve em constantes alterações de andamento e soluções tímbricas, o que é notável se nos lembrarmos de que o grupo apenas dispõe de três instrumentos solistas. Curiosa a fusão Suécia-Indía em “Shapons vindaloo”. Esqueçam os preconceitos e saboreiem esta música de infinitos matizes. Bolas, os Vasen, conseguem ser tanto ou mais complexos que os Gentle Giant!… (Xxource, 8)

Dan Gisen Malmqvist é um compositor e clarinetista que andou nos anos 70 a tocar “jazz” com Ale Möller (actualmente um dos mais reputados músicos suecos, presença indispensável nos discos de Lena Willemark), quando travou conhecimento com o grupo Arbete & Fritid (já reeditado num dos primeiros álbuns da xxource), através dos quais descobriu uma nova forma de improvisação, intrinsecamente ligada à música tradicional. “Nattljus”, gravado já este ano, é o seu segundo álbum, após “Vattenringar”, de 1990. Nele encontramos uma música, quase sempre calma, que junta o lado mais introspectivo de Lars Hollmer com uma admiração pelo “bal musette” e a canção do “vaudeville” (“Motvals”, vocalizada por Karin Parrot) franceses e os folclores da Grécia e dos Balcãs, alternando com marchas mais próximas da fluidez de um Bo Hansson (“Glasskapet”) doq ue das lúgrubes fanfarras dos Arbete & Fritid. Se me é permitido escolher um tema, optaria pelo encantamento solena de “Sorg”, onde Malmqvist toca uma taragota (clarinete grego) a pensar na música de Charlie Haden. (Xxource, 7)

Para finalizar, e só para chatear, mais violinos, incluindo o típico “hardingfela” sueco, mais viola de arco, lira, violoncelo e órgaõ de vozes, gravados noutra editora sueca, a Drone, pelos Höök!. Se os J P Nystroms representam o lado maispopular deste instrumento, os “Höök!” representam a sua vertente erudita. “Höök!”, o disco, subintitulado “Musik Ur Svenska Handskrifter Fran 1600 – Och 1700-Talen”, incide no reportório do século XVII, constituindo, sem sombra de dúvida, matéria de regozijo para um melómano e música clássica, mas deixando o adepto mais intransigente da “folk” de mãos a abanar. Para este, sobra a voz de Susanne Raosenberg, cujas escassas aparições fazem lembrar as liturgias de Agnes Buen Barnas. (Drone, 7; todos os discos distri. MC – Mundo da Canção).

Nova Huta – Here Comes My Seltsam Voice

10.09.2004
Nova Huta
Here Comes My Seltsam Voice
Variz, distri. Sabotage
6/10

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A voz de um bebé rompe um véu de electrónica, a seguir eleva-se do nevoeiro um coro étnico religioso. São os dois melhores minutos de “Here Comes My Seltsam Voice”. Mas o que vem a seguir é igual ao que se faz um pouco por todo o lado na pop electrónica. Recuamos aos anos 80, os robôs de “Bambu robot” querem chegar ao volante de “Baby you can drive my car” dos Beatles, e aquilo que antes eram “funny electronics” não passa agora de algo que os Telex já fizeram há muito. Música de variedades para o novo século, para se ouvir enquanto se limpa a cozinha ou se faz o jantar. Sorrisos sintéticos, gestos mecanizados, Ken e Barbie aos beijinhos. As melodias até são, nalguns casos, apetecíveis, com a sua veia adolescente, mas a colagem aos anos 80 é demasiado óbvia para não causar algum enjoo. Os sintetizadores e as caixas-de-ritmo nunca se levam a sério e é assim que “Here Comes My Seltsam Voice” deve ser escutado. A produção é portuguesa, o disco termina com um tema vocalizado por Nina de Faria, “Guarde suas lágrimas para outra pessoa”. E as gargalhadas também.